Mais Manoel de Barros...



Poeta onipresente, por Graziela Nunes
Sexta-feira - 22/12/2006 - 09h14



Araçatuba - O poeta que prefaciou o estilo pantaneiro com verbos deformados e modernas conjugações chega aos 90 anos ainda em fase de descoberta nas prateleiras.

Nesta semana, aniversariou Manoel de Barros, um dos mais importantes poetas vivos do Brasil.

O título vem de crianças que conseguem entender sobre a arte de infantilizar insetos (Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil); é aceito por jovens ainda digerindo a puberdade, mas que sabem do que se trata quando a reconhecem no instinto sexual de todos os animais (A lesma ficava pregada na parede, nua de gosto. Ela possuíra a pedra. Ou seria possuída? Eu era pervertido naquele espetáculo); confirmado por adultos vivendo na terceira infância, como classificou Manoel sobre a fase atual: "Eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas", e recorrido por críticos: hoje, o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil.

Tal originalidade foi observada por Guimarães Rosa. Segundo ele, os textos de Manoel de Barros eram como um "doce de coco".

Foi também comparado a São Francisco de Assis pelo filólogo Antonio Houaiss, "na humildade diante das coisas".

Manoel de Barros é onipresente, resgata a importância das formigas, fala sobre a fé, acredita no amor e transpõe tudo o que sente em palavras quase sem sentido. Apesar de recorrer a temas universais, faz o tipo regional, escancarando pormenores da terra em que escolheu passar os dias.

O poeta tematiza o Pantanal, retira coisas banais do cotidiano, reinventa a natureza, transfigurando o mundo que o cerca. "O nome de um passarinho que vive no cisco é joãoninguém. Ele parece com Bernardo" ou então "Lagartixas têm odor verde".

Ele justifica seu anonimato: "Foi por minha culpa mesmo. Sou muito orgulhoso, nunca procurei ninguém, nem freqüentei rodas, nem mandei um bilhete. Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje".

Quem conhece vários trechos da obra consegue entender a marca que o poeta leva. Para aqueles que apenas sapecaram nuances, a compreensão é a mesma.

Cada verso de um poema avulso vale por toda a continuação da obra. Talvez por esse motivo, o poeta se reconheça como um fazedor de frases. "Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável".


Poeta Manoel é pioneiro no trato da linguagem

Abstracionismo, combinações nonsenses, versos não linkados com o que vem antes e depois, permitindo uma linha de raciocínio ilógica que se encaixa redondamente no que o leitor quer que a obra signifique.

Para o poeta Manoel de Barros, tudo é motivo para poesia, qualquer coisa pode ser traduzida em versos e poucas rimas: "Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem pra poesia".

Manoel atualmente vive em Campo Grande, é advogado, fazendeiro e poeta.

Desde o primeiro ano de vida foi para a fazenda, onde teve acesso aos temas recorrentes em suas composições: formigas, lagatixas, caramujos , coisas "desimportantes".

Manoel não estima o compromisso com a ordem das coisas, principalmente das gramaticais. Prioriza a estética, a beleza dos versos.

Se as palavras tivessem cor (para o poeta elas têm), poderíamos vê-las elencadas feito um arco-íris degradê, algo em tom sobre tom. Se elas exprimissem em som o que as palavras querem dizer, caberia a Manoel posicioná-las para perfeita audição, o poeta pantaneiro fica com o belo, opta por ele.

Manoel escreve como se tivesse dialogando com crianças. "É um dialeto infantil. Acho que passei a vida inteira brincando, porque todo mundo ri da minha poesia. Riem quando compreendem. Comecei a ler meus versos, são todos assim; quanto à razão, inclusive se você for raciocinar em cima do verso pra procurar o sentido, não acha a idéia, porque a linguagem apaga a idéia, a metáfora destrói qualquer idéia. As idéias depois, se quiserem, inventam".

Para ser mais real quanto ao cenário dos pequeninos, os livros vêm acompanhados de iluminuras, como na capa do "Livro das Ignorãças" (1993) ou abrindo cada poema, como em "Memórias Inventadas - A Infância" (2003), ilustrada pela filha do escritor, Martha Barros.

Manoel pertence à Literatura Moderna de 1945 (cronologicamente é a fase de atuação em que foi descoberto), mas consegue ser pioneiro no trato da linguagem, ficando além dos seus contemporâneos.

Mas ele diz não pertencer a nenhuma geração, diz ter se influenciado pelas composições de Rimbaud ("Foi o poeta mais importante para mim. Aprendi com ele uma certa promiscuidade dos sentidos na natureza. Ele tinha uma linguagem própria, toda sua"), Padre Antônio Vieira, Gustave Flaubert e Guimarães Rosa, com quem chegou a ser comparado.

O poeta já recebeu o Prêmio Orlando Dantas concedido pela Academia Brasileira de Letras; o Grande Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte; Prêmio Jabuti de Poesia, Prêmio Nestlé de Literatura / Poesia / Autor Consagrado, entre outros.

Fonte: http://www.folhadaregiao.com.br/link.php?codigo=60317



 
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