Notícias da Literatura Angolana

Luandino Vieira compara arte da literatura a jardinagem e pastoreio

O escritor angolano José Luandino Vieira comparou há dias, em Lisboa, a literatura, uma arte que pratica por lhe ser "vital", enquanto expressão da criatividade humana, com a jardinagem e o pastoreio, "outras artes" que também pratica.

"O modo como encaro a literatura é vital para a minha pessoa, por ser uma expressão da criatividade humana. Só por esse motivo a vou praticando, como pratico outras artes: a da jardinagem, a do pastoreio com animais, por exemplo", afirmou o escritor, na sessão de lançamento dos seus dois últimos livros.

Após décadas de silêncio, o vencedor do Prémio Camões 2006 - distinção que recusou "por razões pessoais e íntimas" - publicou agora "De Rios Velhos e Guerrilheiros - O Livro dos Rios", o primeiro volume de uma trilogia, que classificou como "um livro exclusivamente literário", e "A Guerra dos Fazedores de Chuva com os Caçadores de Nuvens - Guerra para Crianças", ambos com a chancela da editorial Caminho.

Depois de afirmar que tem "falado demasiado" nos últimos dias, Luandino Vieira agradeceu aos amigos presentes e salientou que "mais importante que a literatura é a questão da cidadania, como hoje se diz", referida pelo seu editor, Zeferino Coelho, na apresentação do romance, narrado por um guerrilheiro que percorre o rio angolano Kwanza.

"Algo que é, para mim, mais importante que a literatura (...) é a questão da minha participação no movimento de libertação da nossa terra, de Angola", frisou.

"Queria dizer que não fiz nada de especial e que apenas participei, como era dever de todos os que tivessem um pouco de consciência. Não precisavam de ter formação política ou formação de qualquer outra natureza, [foi] por uma simples questão de consciência", insistiu.

Luandino Vieira, de 71 anos, considera que se limitou a seguir "exactamente" o caminho da juventude do seu tempo que, "de uma maneira ou de outra, até pelo silêncio e pela omissão, colaborou nesse grande movimento de libertação que acabou por dar o resultado desejado, a independência política do território".

"Fiz apenas o que devia ter feito quando tive a felicidade de estar vivo num momento histórico em que o podia fazer, mais nada. Orgulho-me muito disso mas não faço disto mais do que a tranqüilidade de ter cumprido o meu dever", rematou.

Nascido em Portugal, na Lagoa do Furadouro, a 4 de Maio de 1935, José Luandino Vieira é cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição para o nascimento da República Popular de Angola. Durante a infância e a juventude, viveu em Luanda, onde frequentou e concluiu o ensino secundário.

Teve diversas profissões até ser preso, em 1959, no âmbito do "Processo dos 50", foi depois libertado e em seguida, em 1961, novamente preso e condenado a 14 anos de prisão, como medida de segurança. Em 1954, transferiram-no para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou oito anos, e foi libertado em 1972, tendo sido colocado em regime de residência vigiada, em Lisboa. Começou nessa altura a publicar a sua obra, quase toda escrita nas várias prisões por onde passou.

Depois da independência de Angola, foi nomeado para chefiar a Televisão Popular de Angola, que organizou e dirigiu entre 1975 e 1978, para o Departamento de Orientação Revolucionária (DOR) do MPLA, que dirigiu até 1979 e para o Instituto Angolano de Cinema (IAC) que chefiou entre 1979 e 1984.

Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, exerceu a função de secretário-geral deste organismo, desde a sua fundação, ocorrido à 10 de Dezembro de 1975, até Dezembro de 1980.

Foi secretário-geral adjunto da Associação dos Escritores Afro-Asiáticos, entre 1979 e 1984, e novamente secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, entre 1985 e 1992.

Após o fracasso das primeiras eleições angolanas, em 1992, e o recrudescimento da guerra civil, Luandino Vieira abandonou a vida pública, passando a dedicar-se exclusivamente à literatura.
Fonte: Jornal de Angola
Acessado em 27/12/06, pela manhã


Mais Manoel de Barros...



Poeta onipresente, por Graziela Nunes
Sexta-feira - 22/12/2006 - 09h14



Araçatuba - O poeta que prefaciou o estilo pantaneiro com verbos deformados e modernas conjugações chega aos 90 anos ainda em fase de descoberta nas prateleiras.

Nesta semana, aniversariou Manoel de Barros, um dos mais importantes poetas vivos do Brasil.

O título vem de crianças que conseguem entender sobre a arte de infantilizar insetos (Formiga é um ser tão pequeno que não agüenta nem neblina. Bernardo me ensinou: para infantilizar formigas é só pingar um pouquinho de água no coração delas. Achei fácil); é aceito por jovens ainda digerindo a puberdade, mas que sabem do que se trata quando a reconhecem no instinto sexual de todos os animais (A lesma ficava pregada na parede, nua de gosto. Ela possuíra a pedra. Ou seria possuída? Eu era pervertido naquele espetáculo); confirmado por adultos vivendo na terceira infância, como classificou Manoel sobre a fase atual: "Eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas", e recorrido por críticos: hoje, o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil.

Tal originalidade foi observada por Guimarães Rosa. Segundo ele, os textos de Manoel de Barros eram como um "doce de coco".

Foi também comparado a São Francisco de Assis pelo filólogo Antonio Houaiss, "na humildade diante das coisas".

Manoel de Barros é onipresente, resgata a importância das formigas, fala sobre a fé, acredita no amor e transpõe tudo o que sente em palavras quase sem sentido. Apesar de recorrer a temas universais, faz o tipo regional, escancarando pormenores da terra em que escolheu passar os dias.

O poeta tematiza o Pantanal, retira coisas banais do cotidiano, reinventa a natureza, transfigurando o mundo que o cerca. "O nome de um passarinho que vive no cisco é joãoninguém. Ele parece com Bernardo" ou então "Lagartixas têm odor verde".

Ele justifica seu anonimato: "Foi por minha culpa mesmo. Sou muito orgulhoso, nunca procurei ninguém, nem freqüentei rodas, nem mandei um bilhete. Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje".

Quem conhece vários trechos da obra consegue entender a marca que o poeta leva. Para aqueles que apenas sapecaram nuances, a compreensão é a mesma.

Cada verso de um poema avulso vale por toda a continuação da obra. Talvez por esse motivo, o poeta se reconheça como um fazedor de frases. "Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável".


Poeta Manoel é pioneiro no trato da linguagem

Abstracionismo, combinações nonsenses, versos não linkados com o que vem antes e depois, permitindo uma linha de raciocínio ilógica que se encaixa redondamente no que o leitor quer que a obra signifique.

Para o poeta Manoel de Barros, tudo é motivo para poesia, qualquer coisa pode ser traduzida em versos e poucas rimas: "Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem pra poesia".

Manoel atualmente vive em Campo Grande, é advogado, fazendeiro e poeta.

Desde o primeiro ano de vida foi para a fazenda, onde teve acesso aos temas recorrentes em suas composições: formigas, lagatixas, caramujos , coisas "desimportantes".

Manoel não estima o compromisso com a ordem das coisas, principalmente das gramaticais. Prioriza a estética, a beleza dos versos.

Se as palavras tivessem cor (para o poeta elas têm), poderíamos vê-las elencadas feito um arco-íris degradê, algo em tom sobre tom. Se elas exprimissem em som o que as palavras querem dizer, caberia a Manoel posicioná-las para perfeita audição, o poeta pantaneiro fica com o belo, opta por ele.

Manoel escreve como se tivesse dialogando com crianças. "É um dialeto infantil. Acho que passei a vida inteira brincando, porque todo mundo ri da minha poesia. Riem quando compreendem. Comecei a ler meus versos, são todos assim; quanto à razão, inclusive se você for raciocinar em cima do verso pra procurar o sentido, não acha a idéia, porque a linguagem apaga a idéia, a metáfora destrói qualquer idéia. As idéias depois, se quiserem, inventam".

Para ser mais real quanto ao cenário dos pequeninos, os livros vêm acompanhados de iluminuras, como na capa do "Livro das Ignorãças" (1993) ou abrindo cada poema, como em "Memórias Inventadas - A Infância" (2003), ilustrada pela filha do escritor, Martha Barros.

Manoel pertence à Literatura Moderna de 1945 (cronologicamente é a fase de atuação em que foi descoberto), mas consegue ser pioneiro no trato da linguagem, ficando além dos seus contemporâneos.

Mas ele diz não pertencer a nenhuma geração, diz ter se influenciado pelas composições de Rimbaud ("Foi o poeta mais importante para mim. Aprendi com ele uma certa promiscuidade dos sentidos na natureza. Ele tinha uma linguagem própria, toda sua"), Padre Antônio Vieira, Gustave Flaubert e Guimarães Rosa, com quem chegou a ser comparado.

O poeta já recebeu o Prêmio Orlando Dantas concedido pela Academia Brasileira de Letras; o Grande Prêmio da Crítica/Literatura, concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte; Prêmio Jabuti de Poesia, Prêmio Nestlé de Literatura / Poesia / Autor Consagrado, entre outros.

Fonte: http://www.folhadaregiao.com.br/link.php?codigo=60317



Um pouquinho de Gregório de Matos

Poema preferido de alguns alunos completamente pervertidos que encontram nesse professor apenas bondade e inocência.


A MESMA MARIA VIEGAS SACODE AGORA O POETA ESTRAVAGANTEMENTE,
PORQUE SE ESPEYDORRAVA MUYTO.


Dizem, que o vosso cu, Cota,
assopra sem zombaria,
que parece artilharia,
quando vem chegando a frota:
parece, que está de aposta
este cu a peidos dar,
porque jamais sem parar
este grão-cu de enche-mão
sem pederneira, ou murrão
está sempre a disparar.


De Cota o seu arcabuz
apontado sempre está,
que entre noite, e dia dá
mais de quinhentos truz-truz::
não achareis muitos cus
tão prontos em peidos dar,
porque jamais sem parar
faz tão grande bateria,
que de noite, nem de dia
pode tal cu descansar.


Cota, esse vosso arcabuz
parece ser encantado,
pois sempre está carregado
disparando tantos truz:
arrenego de tais cus,
porque este foi o primeiro
cu de Moça fulieiro,
que tivesse tal saída
para tocar toda a vida
por fole de algum ferreiro.

"O Pianista do Silencioso" conquista prêmio de Literatura

"O Pianista do Silencioso", do jornalista Carlos Nealdo dos Santos, conquistou a edição 2006 do prêmio Alagoas em Cena, na categoria Literatura - Romance. O resultado foi divulgado na última sexta-feira, 15, em solenidade ocorrida em Maceió. Promovido pela Secretaria Executiva de Cultura e Instituto Alagoano do Terceiro Setor (IATS), o Alagoas em Cena (Programa Estadual de Fomento e Incentivo à Cultura) tem por objetivo premiar obras inéditas em diversas categorias, entre elas Música, Literatura e Artes Plásticas.

"O Pianista do Silencioso" conta a história do Cinema Mudo vista pelos moradores de um povoado no Sertão nordestino, no início do século XIX. O autor lança mãos de fatos reais - como a Primeira Guerra Mundial, Gripe Espanhola, Cangaço e Revolução de 30 - para traçar a biografia fictícia do pianista do cinema mudo que dá título ao livro. Na tela do pequeno cinema da vila sertaneja, mitos da era silenciosa embalam os sonhos da população.

A obra tem início em Nova York, em 1917, com o ator americano Al Jolson, protagonista de "O Cantor de Jazz", o primeiro filme falado do cinema. Devido à Grande Guerra, Jolson - que iria se apresentar na Europa – acaba vindo parar no Brasil, na mesma época em que o Cinema Rio Branco - localizado na vila do mesmo nome (hoje Arcoverde - PE), está sendo inaugurado. O ator desembarca no porto do Recife, no momento em que "Pelo Telefone" (o primeiro samba gravado da história) é tocado num café próximo.

A partir daí, a obra abre passagem para um desfile de mitos do cinema mudo, entre eles Theda Bara, Rodolfo Valentino, Chaplin, Francesca Bertini e tantos outros.

O livro, que conta com apresentação do cineasta Cacá Diegues, deverá ser lançado no início de 2007, ano em que "O Cantor de Jazz", o primeiro filme falado do cinema, completa 80 anos. "O amor do autor pelo cinema, e pelo seu significado simbólico na cultura humana e moderna, é tão grande quanto a sua paixão pelas manifestações culturais daquela região, daquela população de costumes tão diversos das outras e do resto do mundo", ressalta Cacá Diegues na apresentação. "E é desta dialética fantástica entre o universal e o regional que Nealdo constrói a teia admirável de seu livro, um livro antes de tudo apaixonado. Igualmente apaixonado por stars e cangaceiros, jazz e baião, história e fantasia", completa.


Um pouquinho de Zé da Luz

Adoro esse poema. É de uma singeleza ímpar. Poesia popular, que cheira gente...

AI SE SESSE
Zé da Luz

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tolice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Da vês que nois dois ficasse
Da vês que nois dois caisse
E o céu furado arriasse e as virgi toda fugisse

Um pouquinho da poesia de Manoel de Barros

Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada
de "O Guardador de Águas"


I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural -Que os poetas aprenderiam
- desde que voltassem às crianças que foram
As rãs que foram
As pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.

 
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