A LEVEZA DA VIDA


A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve, mas tem vida breve
Precisa que haja vento sem parar...
(Vinícius de Moraes)



A leveza da vida não está apenas nos momentos calmos, em que tudo parece um comercial de margarina, com pessoas sorridentes que se regozijam numa mesa de café da manhã. A leveza da vida também está, paradoxalmente, nos momentos em que tudo parece perdido.

Muito custei para fazer essa descoberta. Os vendavais do meu de dentro — às vezes furacões, tsunamis, terremotos arrasadores com infinitos graus na Escala Richter — fizeram-me compreender que a vida pode ser leve, mesmo num instante esquecível, em que eu mergulho e me afogo no sal das minhas lágrimas. Existe música neles. Músicas dos mais variados gêneros, para os mais variados gostos. O problema é que umas tocam mais alto que as outras. Lá por trás do heavy metal, gritado, xingado, explodido, está o suave Noturno de Chopin. É só termos ouvidos para ouvir.

Mas nem sempre isso nos interessa. O bom, pra nós, é chorar, gritar e espernear como a criança que não ganhou o chocolate que queria, na hora em que queria. É fazer birrinha... É xingar “desgraça” — nome feio, Papai do Céu chora! O que nos interessa, portanto, é ferir os ouvidos do outro com as nossas feridas. É a agressão de nos verem chorando e se apiedarem de nós, coitadinhos!

Não digo, com isso, que não devemos chorar. Nem que não devemos chorar na frente do outro. Não digo que devemos nos esconder nos nossos quartinhos secretos e somente ali, protegidos pela solidão, vistos apenas pelos olhos do espelho, deixar vir a baixo o nosso edifício. Pelo contrário. A emoção é sempre conveniente, a qualquer hora, em qualquer lugar.

O que não devemos é chorar como se aquele momento fosse pra sempre. Não é. Ele é presente! Só presente. E deve ser um presente caro. Caro, mesmo sendo triste. Caro, mesmo sendo de graça. Porque ele é graça. Se acredito em Deus, ele é graça divina. Se acredito na vida, ele é graça vivida. E se não acredito em nada, ele é graça engraçada, porque no fundo, no fundo, todo momento triste tem piada.

E assim penso. Sei que posso estar enganado. Mas tenho treinado meus ouvidos pra ouvir mais a flauta canora e doce que a guitarra elétrica e distorcida (sem preconceitos, pois também tenho cacos de rockeiro aqui no meu de dentro). Tenho tentado buscar a leveza, a placidez, a calmaria. E mais que isso, tentado fazer o óbvio: colocar cada tempo em seu devido lugar. Atrás de mim, o vivido. Do meu lado, o instante. E à minha frente, o porvir, com todas as suas incertezas, mas com a leveza de uma pluma que se de deixa levar pela mais suave brisa.


 
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