A MÃE DO MENINO QUE FEDE (15/01/2004)

(esse é pra Rhay)

A Mãe tem um filho que fede
Ela conta isso e ela chora.
O menino também é só pranto
Mas o pranto da dor física
Tem câncer no seu de dentro
No de dentro quase todo.
A Mãe tem um câncer na alma
Que a mata um pouco por dia
Talvez morra até antes do filho
Ordem não natural dos fatos.
O filho é deitado na cama
A Mãe pede o que temos sobrando
Tudo serve!
Não tem quase nada.
Comida pronta ou crua
Roupa nova ou usada
Remédio inteiro, pela metade, vencido.
Tudo é melhor que o nada.
Serve afeto, atenção ou piedade
Serve amor, só um pouquinho.
O que temos sobrando,
O que temos um pouco
E até o que não temos, queremos dar,
Pois existe uma Mãe que chora no portão
E um filho fedendo lá em casa.
Saem pedaços de seus órgãos com as fezes
As fezes que são poucas, porque ele não come
Não bebe
Não ri
E não vive
Ele apenas fede
Fede em vida
É matéria
Como eu sou matéria
Fede como eu
Fede como você
Fede como o humano
Como todos os seres fétidos que somos.


OBS.: Hoje, passados 5 anos, com ceteza, esse filho não fede mais.

 
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