OVELHA (14/01/2004)

Erguida no ali
Distante dos outros
Era ela, ovelha,
Estando um ser tão vazio.

No rosto de todos, a morte estampada...
E infelizes sentiam.

O choro,
Os óculos escuros,
Trajes também,
Escuras almas.

Ela, em negro vestida,
Pousava serena,
Longínqua
Num lado,
Num canto.

Seus olhos, ocultos olhos,
Como podiam ser tão sem lágrimas?
Sem água
Sertão?

A ovelha olhava negra a cova
Sentindo por ela ora repúdio, ora fascínio.
Querendo não estar ali
Talvez
Querendo que ninguém estivesse
Ou que estivesse sozinha
Ou ainda que ela mesma fosse a morta
Não era?

Com graça ela era fria
Ovelha dispersa, avulsa, em extravio
Não rebanho.

Como queriam, aqueles, que ela o fosse!
Mas não.

Tirou escuros óculos
Mostrou escuros olhos, esses realmente secos,
Com a revolta esculpida no entorno
Murchos, não ternos, fleumáticos.

A mãe pediu que ela entrasse novamente no rebanho
Se congregasse
E ela não.

Por seu avô, minha filha!
E ela não.

Queria estar ali, tão pedra,
Tão cinamomo,
Tão ovelha negra e desgarrada
Ovelha que não bale a vida, vive,
Rejeitando o doce báculo, a reprimenda.
Ovelha seca
Nua de tristezas
Lauta do impassível
Graciosamente no estio.

 
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