VELHA (02/01/2004)

Sentada num canto da vida
Estava ela
Sentindo o frio do mundo.

Era assim que ela se vendia,
Velha, olhando o chão,
Olhando a terra que no ali havia.
Ouvindo as poucas moedas, goteiras do prato.

Não tendo o que vender
Nem tendo alguém para ser seu
Não tendo forças para o trabalho,
Só restava a ela vender sua miséria
A decrepitude do corpo.

Não tinha arte na alma
Não podia encantar a todos com seu canto
Nem com dança.
Essa não saía de seu corpo fétido.

Podia era triste olhar a terra
Como se estivesse já a ela regressa
Num ponto final da vida

A terra, o pó esquecido dos sonhos
O pó dos inúmeros filhos que não teve.
Já que até o ventre era seco e miserável
Não tinha ninguém que saído de si
Herdasse sua toda miséria
Nem menos a aliviasse.

Ninguém.

Se teve amores, não mais os tinha
Nem mesmo o sujo cachorro
– as pulgas e os carrapatos —
Nem mesmo uma ferida aberta no corpo
Que lhe facilitasse a vida
Ferida que pudesse também vender.

Apenas as chagas do tempo na alma
As quatro moedas pousadas no prato
E o prato. Mais nada.

Seu sonho - o grande sonho -
Era ter um saco
Um saco onde pudesse guardar o tudo que não tinha.

Como era bom quando o prato estalava:
Uma moeda pipocava ali
Não só pelo dinheiro, mas também pelo barulho
O barulho lembrava a ela que ainda era viva
Não era ainda inanimada por completo
Pois oculta, num fundo da alma
Estava a pessoa
O humano.

Lembrava-se ser humano três vezes naquele dia
Só três
Mas sorria,
Pois alguém lhe jogara duas moedas de uma só vez.

Contradição da vida,
Era que as notas rendiam mais
Mas não faziam barulho no prato
Preferia ora notas, ora moedas.

Como era fácil passar por ela e não notá-la
Ali de cócoras
Estátua
Como um móvel que não se movia
Abandonada
Não só pela vida,
Mas também pela morte
Nem a morte comprava sua velhice.

Talvez nem mesmo um nome ela tivesse
Ou se o tivesse, o esquecera já
Talvez maria ou coisa aparecida
Era ninguém.

Era apenas a velha do prato
Do prato dos quatro dinheiros
Com o rosto vincado, o tempo
Com unhas grandes e sujas
Que mesmo porcas, imundas
Não tinham espécie de vida, micróbios.

Parecia não ter fome
Até mesmo essa a abandonara
Expulsa pelo costume do não comer.

Sorriso
Se em algum dia ela o tivesse tido
Era hoje oculto pelas rugas.

Assim era a velha
Sozinha na vida
Docemente triste e senil.

Era ela
O prato esmaltado
Os quatro dinheiros
As rugas também.
E o sonho de possuir um saco

 
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