DESORDEM DEMAIS PRA POUCO RISO


É uma merda essa coisa a que chamamos de vida. Quando tudo parece já estar no lugar, prontamente classificado, rotulado e guardado nas prateleirinhas, vem alguém com alma de saci e bagunça tudo de novo. Talha nosso leite. Queima o nosso arroz. Desorganiza tudo.

E comigo não é diferente. Os meus livros estão todos no chão. As roupas de casa, do trabalho, de festa, de frio, de calor, claras e escuras estão ali, amontoadas, todas juntas. Amarrotadas e sujas. Os sapatos, que amorosamente suportam o meu peso e me levam pelos caminhos, estão todos espalhados, misturados, em meio às meias também imundas que tento esconder dentro deles. Uma poeira enorme, densa, pesada vai encobrindo tudo, sujando tudo... Eu tento escrever meu nome nessa poeira que se assenta pela superfície da minha vida e maculo os meus dedos cansados.

É bagunça demais. É desordem demais pra pouco riso. É a baderna exaustiva. É o caos. São as palavras, todas, fora dos dicionários. São as cores, todas, fora dos quadros. É personagem sem enredo, enredo se espaço, espaço sem tempo. É muita gente sem tempo pra viver. É a organicidade desorganizada do mundo moderno. É meu organismo inorgânico que teima em estar vivo, mas já nasceu morto, talvez.

Leva tempo arrumar tudo de novo. Consome forças. Melhor seria deixar tudo como está. Porque como todo desorganizado, eu me oriento na minha bagunça. Mas como é bom ver tudo limpinho. Ver chão brilhando, espelhando a minha imagem torta. Por isso eu tenho que arrumar. Por isso temos. Deixar tudo brilhando pra que a lama que jogam sobre nós possa sujar-nos. Pra que a lama que jogam sobre nós possa ser lama.


 
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