É o instante




É o instante. É o instante que nos insta a continuar tentando. Mesmo quando já estão esgotadas as possibilidades, os homens teimosos se esquecem das tristezas que viveram e das alegrias que almejaram acontecer. Passado e futuro não são importantes. O importante é o hoje.

É o instante. É o instante que nos coloca novamente numa luta da qual já somos perdedores, pelo simples fato de continuarmos inutilmente tentando. Pelo gosto do sofrimento que abraçamos como se fosse bom. Pela ausência de auto-piedade que nos leva a dar murros em pontas de facas e ferir nossas mãos idiotas. Idiotas como nós. Porque mãos idiotas que dão murros em pontas de facas são metonimicamente a parte de um todo otário.

Aí, até o carpe diem é vilão. Porque para aproveitarmos o presente, esquecemo-nos das conseqüências de nossas atuais alegrias. E como em não raras vezes o prazer momentâneo do hoje pode ser o vício degradante do amanhã, criamos arapucas pra nós mesmos e entramos nelas. Colocamos o queijo nas ratoeiras e à noite vamos lá, ratos famintos, provarmos do nosso próprio veneno.

Os sonhos são muito bons. O chato é quando acordamos. Cair de um precipício seria, inegavelmente, uma experiência encantadora. Difícil é o parar de cair, que esborracha nosso corpo e levanta a poeira da vida. Do pó vieste e a ele voltarás... Mesmo assim, é preciso acordar.

Os sonhos são muito bons. O chato é quando acordamos. E mais chato ainda seria quando deixamos de acordar na hora certa. Porque existe hora pra acordar. E mesmo quando o despertador grita lá fora, dentro de nós mesmos pedimos mais cinco minutos de sonho, apertando a teclinha da soneca. Mas é preciso acordar na hora certa.

Porque a vida é uma estrada de ferro e se não descermos do trem numa determinada estação, podemos deixar ali, dentro de uma mala, eternamente nos esperando, pedaços daquilo que romanticamente chamamos de felicidade. Fica lá, no guarda-volumes, com o nosso nomezinho na etiqueta. E vamos procurar essas peças do quebra-cabeças mais adiante. E não encontramos. E vamos vivendo com a felicidade faltando pedaços. Por isso é preciso acordar na hora certa. E prestar atenção.

Porque a vida é uma caça ao tesouro com pistas falsas misturadas àquelas que nos levam enfim ao pote. E o pior é que em cima de muitas delas está escrito em letras vermelhas e garrafais: ESTA PISTA É FALSA. Mas essas geralmente nos levam a lugares lindos e encantadores. E vamos lá, como bobos, e perguntamos, “cadê o meu tesouro que tava aqui?” Por isso é preciso prestar atenção.

É preciso sonhar com o futuro, sim, mas com responsabilidade. Tomarmos cuidado com o que pedimos a Deus, pois Ele pode no conceder. É preciso aproveitar o presente, sim, mas com responsabilidade. Tomarmos cuidado pra não transformarmos um bem de hoje num mal de sempre. É preciso esquecer o passado, sim, mas com responsabilidade. Tomarmos cuidado pra não esquecermos que língua na tomada dá choque, que praga de mãe, quase sempre pega, e que voar, voar não é pros humanos...

Os sonhos são muito bons. Difíceis são os pesadelos que teimamos em chamar de sonhos. E que não cansamos de chamar de nossos. E se sonhar é muito bom, melhor ainda seria acordarmos de nossos pesadelos de estimação... E ver que existe vida fora das nossas cavernas. E ver que existem sonhos fora de nossos sonhos. E começarmos tudo de novo. E de novo sermos vítimas do instante.


 
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