HOJE EU QUERIA PARAR


Hoje eu queria parar. Parar e ver o tempo correr um pouquinho. Parar debaixo de uma árvore da minha vida e contemplar quem eu sou. Ou quem creio ser. Na verdade, contemplar quem estou. Os vários rostos que tive. Aqueles que eu mostrei e que escondi. Aqueles que eu amei e aqueles dos quais tive asco. Como seria bom parar. Parar com tudo... Desligar o botão do gostar, por exemplo. Olhar profundamente nos olhos disso que venho chamando de amor e contemplar toda a sua insignificância e pequenez.

Hoje eu queria parar. Queria me ver pelo lado de fora, com olhos alheios. Rir de mim. Ver como sou ridículo. Rir das minhas roupas, do meu jeito de andar, rir da minha voz que é tão estranha quando a ouço por fora. Queria ver meu sorriso triste e permanecer indiferente. Queria me ver chorando e achar graça, pois sou homem feito, e segundo o caderninho dos preceitos, um homem não chora.

Hoje eu queria parar. Pedir que o vento seguisse sozinho. Que soprasse a face de outro idiota. Pedir que meus sonhos seguissem sozinhos, procurando outra mente insana para habitarem. Pedir ao rio que corresse sozinho, e contemplá-lo. Ele nunca seria o mesmo, mas eu seria.

Hoje eu queria parar, mas eu não posso. Porque existe a merda do tempo, e ele não dá trégua. E a melhor parte do tempo é aquela que se foi.


 
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