REDESCOBRIR



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Um certo dia, como se fora brincadeira de roda, como se brincássemos crianças em nossas verdadeiras vidas, somos levados a redescobrir-nos. Encontrar dentro de nós mesmos a parte que de agora em diante chamaremos “eu”. Como numa corrida de revezamento, esse “eu” pega o bastão e domina nossa mente.

De início, o antigo “eu” canta a maior parte da música. E o novato apenas completa, na segunda voz, com uma única palavra que se encaixa perfeitamente naquilo que é cantado. Às vezes ele desafina, canta alto, canta baixo, canta estranho. Nos assusta. Às vezes nem canta, ficando escondido num canto. Ficando seu canto escondido.

E aí esses “eus” vão, aos poucos, aparecendo, todos eles. Uns aqui, outros acolá, uns tão claros, outros tão ocultos, e já não sabemos qual deles veio primeiro, ou qual deles chegou por fim. E assim, o doce no lamber das línguas macias e o suor da vida no calor de irmãos vai tomando conta de nossa existência e as lágrimas erram pelos caminhos tortuosos e escorregadios do nosso rosto. É preciso redescobrir também cada um desses “eus” que numa constância mutante são novos a cada segundo.

O ritmo da música que ouvimos no nosso de dentro vai aumentando aos poucos e vai-nos fazendo dançar. Mais rápido, e mais rápido que antes, as vozes desses “eus” ainda são ouvidas separadamente, ainda têm alma, ainda têm calma, placidez. Ainda são brisa indelével e indolor.

Mas um grito de dor chega e muda tudo. O ritmo acelera mais ainda... E na dor, o eu de agora dá as mãos pros outros “eus” e eles brincam de roda, nessa ciranda da vida... Agora já cantam em uníssono. Já são uma única voz falando mais alto.

As luzes do palco se acendem e iluminam a ciranda da dor... E a alegria, paradoxalmente, emana dos corações entristecidos de todos aqueles que cantam. Tudo parece um circo. E nesse espetáculo, somos mágicos, palhaços e feras. Domadores, bailarinas e equilibristas. Os balões caem da lona, como a chuva que cai do céu, e estouram ao toque dos nossos pés agressivos. Outros funcionam como bolas de futebol, marcando gols nesse enredo artilheiro.

E aí descobrimos, ou redescobrimos, que existiam ainda vários outros “eus” que tocavam ao longe a melodia que ouvíamos. E eles descem de seus lugares e se juntam à fraternal sociedade que existe dentro de nós. E sem os instrumentos musicais, precisamos ainda mais afinar a nossa voz cansada e rouca, calada e louca...

E aí descobrimos, ou redescobrimos, que existiam ainda vários outros “eus” que observavam apenas e que agora se juntam com palmas e marcam o ritmo cada vez mais célere, cada vez mais célebre... E assim renascemos da própria força, própria luz e fé... Somos um menino novo, um menino povo. Somos povo, somos multidão. Somos muitos, somos legião...

E como se fora brincadeira de roda, continuam os “eus” rodando doce e triste na ciranda. As palmas se misturam aos estouros dos nossos anseios, a roda aumenta, aumenta o ritmo, e mesmo aqueles que estão de fora parecem comungar perfeitamente dessa união.

Um grito de dor lembrou-nos que somos muitos. E nessa auteridade tão bem vinda, somos crianças, somos pedaço de gente. E assim, tão fascinados, cantamos e sonhamos os sonhos mais lindos, e erguemos nossos castelos. E erguemos um sonho que é só e que é junto. Que é meu e de todos os meus “eus”... E as mil quimeras se fundem no sorriso da estrela que brilha, e brilha alto, toda azul, lá de cima. Aqui embaixo, continuamos a olhar pra ela, admirando-a, idolatrando-a, fanáticos pelo seu canto.

E quando tudo parecia terminar, a estrela desce. E vemos que era ela o primeiro eu, o que primeiro cantava. E vemos que essa constelação de “eus” sempre esteve em nós, que somos a semente, ato, mente e voz...


Bom... Agora que você já leu, assissta de novo, né... Vale a pena...


 
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