De quando Peter Pan descobriu o novo da Literatura





Esse artigo é de minha autoria... Foi escrito como avaliação final da disciplina Literatura Brasileira 4, ministrada no segundo semestre de 2000, pelo Prof. Pós-Dr. Eduardo José Tollendal. Como foi pensado "para ser uma prova", não existem referências bibliográficas, pois as mesmas se perderam com o tempo. Coloco aqui, porque acho a discussão interessante, já que nos dias de hoje, inúmeras pessoas não se permitem crescer enquanto leitores.






De quando Peter Pan descobriu o novo da Literatura
José Ricardo Lima



É inegável o fato de que o conhecimento humano evoluiu de maneira assombrosa nos últimos tempos, a ponto de alguns espíritos com pendor à estagnação serem surpreendidos por esse desenvolvimento e chegarem a temer modernidades obsoletas como o fax, o microondas, o computador, entre outros, simplesmente por se negarem a conhecê-las com mais profundidade. Esse medo inexplicável do novo, conhecido desde Platão e sua “Alegoria da Caverna”, aplica-se também à Literatura, já que ela é parte importante desse conhecimento.

Diante disso, o presente texto tem como objetivo apontar momentos distintos da evolução, não somente da Literatura, mas principalmente de quem dela se alimenta: o leitor; tendo como exemplo de literatura “evoluída”, contos de alguns autores da segunda metade do século XX como João Guimarães Rosa, Dalton Trevisan e Rubem Fonseca e como exemplo de escritores que “estancaram” no tempo, um momento da literatura folhetinesca moderna, de Ely Arruda, publicado na revista feminina Capricho, na década de 1970. Assim, se questionará o porquê de alguns leitores preferirem um lado em detrimento do outro, partindo da hipótese de que a Literatura “evoluiu” de uma maneira tal, que parte do público não quis ou não pôde acompanhar essa evolução.

Para tornar factível tal proposta, pensar-se-á na “idade” da Literatura comparada à idade do ser humano. Ela nasce com as tradições orais e vai evoluindo ao longo do tempo, firmando-se como registro dessas tradições e continuando seu percurso até atingir a “maioridade” com o Renascimento, os “30 anos” com o Romantismo, os “50 anos” com o Realismo e evolui mais ainda, sempre fazendo uso de uma língua. Quando a Literatura supera a língua materna do escritor e este, para continuar seu trabalho tem que recriar tal idioma ou se apropriar de estruturas de uma língua estrangeira, a Literatura atinge sua velhice. Uma velhice lúcida e consciente. De acordo com tal conceito, Ely Arruda se classifica como um escritor de “30 anos”, pois seu texto é semelhante aos folhetins do Romantismo do século XIX. Rubem Fonseca e Dalton Trevisan estão próximos dos “75” e Guimarães Rosa perto dos “90”, quem sabe “100”.

No que se refere ao leitor, podemos dizer que ele “nasce” de uma forma passiva, quando ouve de outrem os famosos contos maravilhosos, presentes na infância de quase todas as pessoas. Com a alfabetização, começa a trilhar sozinho o caminho da leitura. Se ele for “destemido” certamente crescerá a cada dia e chegará à sua velhice como leitor, superando as barreiras trazidas pelo novo da Literatura. Mas ele pode se “negar a crescer”, dando origem ao que chamo de “leitor Peter Pan”, que por temer o desconhecido continuará a habitar sua “Never Land” literária.

Mas o que é o novo? Ora, o novo pode ser simplesmente a quebra de linearidade do enredo, o não existir de um happy ending, a opção pelo tempo psicológico, uma maior profundidade na estruturação das personagens et coetera.

No caso de Rubem Fonseca, este novo se constituirá na narrativa em primeira pessoa, utilizando a linguagem do narrador, como no conto “Desempenho”, onde são empregados termos chulos como: “Tento ver as pessoas na arquibancada, filhos das putas, cornos, viados, marafonas, cagões, covardes, chupadores – me dá vontade de tirar o pau pra fora e sacudir na cara deles”. Esses termos causam estranhamento em quem lê, mas se justificam por fazerem parte do vocabulário do narrador, um lutador de luta livre. Tem-se algo semelhante em “Lúcia McCartney”, onde o vocabulário de uma garota de programa se faz presente: "Eu também tiro a roupa e nos deitamos, ele dizendo que não me quer, mas me papando assim mesmo.” O novo será também a proximidade com o texto jornalístico, como vemos em “Relato de uma ocorrência em que qualquer semelhança não é mera coincidência”, onde são retratadas a fome e a miséria humanas, superando o sentimento de solidariedade para com as vítimas de um acidente de automóvel. Será também a proximidade com a estrutura de um poema e a zoomorfização de um corpo de mulher expelido pelo mar, que é tratado como um simples objeto como em “Os inocentes”. Será ainda em “Lúcia McCartney”, a presença de cenas subjetivas, diálogos inventados, falas dentro de chaves, que ampliam as possibilidades de entendimento. Tudo isso contribuirá para que o “leitor Peter Pan” feche seu livro e não queira sair de sua inércia.

Em relação a Dalton Trevisan, o novo se dará com a perversão da sexualidade humana retratada em “Idílio campestre”, onde nos é narrado um estupro seguido, provavelmente, da morte da personagem ou a crítica à instituição do casamento através da carnavalização do mesmo, como acontece em “Paixão de corneteiro” e em “Ismênia, moça donzela”. O novo será a abertura de enredo, uma indefinição no desfecho da narrativa, presente tanto em “Idílio...” como em “Eis a primavera” e nesse segundo conto, a exposição da mesquinhez humana representada por uma mulher que não oferece uma morte digna ao marido. É novo também a narrativa fragmentada, epistolar presente em “Ismênia...”, onde fazendo uso de vários bilhetes, a protagonista mendiga pelo “amor” de seu suposto amante. Como esse “amor” não é correspondido, são revelados os verdadeiros objetivos dos curtos bilhetes: “Te peço por esmola, já que você não quer o meu amor, que me mande qualquer importância para eu dar por uma prestação (...) não quero que você me dê nada de roupa nem comida, só o aluguel da casa, eu já fico satisfeita.” Além disso, a própria temática de Trevisan como o último dia na vida de um doente com câncer, um estupro, as relações amorosas e financeiras de um casal, já constituem, para muitos, um novo. Tecendo-se uma análise onomástica nos contos de Trevisan, pode-se afirmar que nomes como João, Maria e Antonio, servem para acentuar o anonimato e nunca a individualidade de suas personagens, que são apenas tipos, representações de classes específicas. Neste caso, mesmo que vença o “leitor Peter Pan” todas as barreira impostas pelo texto, ao se identificar com tais personagens, ele foge, se esconde, volta para sua “Never Land”, pois em sua opinião, um indivíduo como ele não pode ser retratado pela Literatura. Apenas os grandes heróis é que merecem tal “homenagem”.

Mas este novo está presente com mais intensidade em Guimarães Rosa, que representa a velhice da Literatura, o momento em que a língua tornou-se pequena demais para expressá-la. O novo se dá com o travessão colocado no início do conto “Meu tio o Iauaretê” e do romance “Grande Sertão: Veredas”, que serve para “indicar o monólogo isolado do diálogo que o narrador sustenta com alguém”, nas palavras da professora Walnice Galvão. Está, como também em Rubem Fonseca, na narrativa em primeira pessoa que ressalta a linguagem de quem narra. Está na apropriação da sintaxe de línguas estrangeiras presente em seus textos, na criação de substantivos através da aglutinação de vocábulos pertencentes a vários idiomas, na recriação de termos do Português, na mudança de classe gramatical de certas palavras, num amálgama entre regionalismo e universalismo, na união de línguas para retornar, segundo o próprio Rosa, a uma língua pré-babélica. O novo está na temática, voltada para a “desumanização”, o repúdio à vida social, que pode ser vislumbrado em “A terceira margem do rio” e “Meu tio, o Iauaretê”. O novo em Rosa, está na densidade psicológica de um enredo aparentemente simples como em “Famigerado”, na quantidade exagerada de reticências, que poderiam ser substituídas pela fala de Mecê em “Meu tio...” ou ainda no final surpreendente de “Os irmãos Dagobé”, onde há presença de um anticlímax, que frustra o leitor viciado à narrativa de moldes românticos.

Mas onde está o novo em Ely Arruda? Praticamente não existe. Seu texto é a mímese de uma literatura romanesca, apresentada em jornais, no século XIX e em revistas teens neste limiar de milênio. O enredo “água com açúcar” poderia ser aceito na época do Romantismo, que ao contrário do que afirmaram os precursores do movimento modernista de 1922, teve seu valor, pois contribuiu para que nossa Literatura pudesse crescer enquanto arte. Mas quando é encontrado esse enredo em textos que datam do último quartel do século XX, pode-se afirmar que, quem o escreveu recusou-se a crescer enquanto escritor, assumindo também a personalidade “Peter Pan”.

Quando se encontram o escritor e o leitor que assumiram para si essa identidade, ocorre uma perfeita união e ambos trilham, de mãos dadas, o que a professora Libia Beider chamou, numa análise ao romance que se aplica também a qualquer texto narrativo, de “a narrativa da aventura”, ou seja, um texto que tem como objetivo “fascinar o leitor pelas paixões, idéias, acontecimentos, ações, peripécias da própria vida ou uma vida fantástica que comove e emociona, enquanto que o texto, em sua transparência, tende a desaparecer.” Diante disso, surgem o enredo previsível, as coincidências absurdas, a falta de necessidade de se explicar os acontecimentos, atribuindo-os simplesmente à Providência Divina, em suma, uma inverossimilhança que pode ser constatada no conto “Alô ? Quem fala?”.

Quando o “leitor Peter Pan” se encontra com tal literatura e dela vai se alimentando, passa a não querer um algo mais, satisfazendo-se com aquele texto. E quanto mais isso acontecer, mais dificultoso será para ele um crescimento como leitor, pois “o processo de compreensão de um texto se dá mediante o conhecimento lingüístico, o textual, o conhecimento de mundo. Assim, o leitor consegue construir o sentido do texto”, como coloca a lingüista Ângela Kleimam. E em complemento a ela, Eli Paucinelli Orlandi, da UNICAMP , nos lembra que “leituras já feitas configuram , dirigem (...) a compreensão do leitor, tanto a sedimentação de sentidos como a intertextualidade, como fatores constitutivos de sua produção.” Com isso, é perceptível que para alguém desabituado à leitura, compreender um texto como os contos aqui comentados, ele tem que tomar para si o exercício da leitura, (o que constitui um círculo vicioso, já que ele não lê) para que conheça com mais profundidade os percursos da arte literária.

Entretanto, é justamente aqui que o leitor se atrapalha. Pois o exercício da leitura implica em ação, em tomada de consciência e o homem moderno, cada vez mais mecanizado, robotizado, não tem em sua “programação” o hábito de “pensar”. E mais que isso: ele não quer sair de seu estado inerte.

Enquanto o leitor não se desvencilhar desse estado, vai continuar sem conhecer o mundo que a Literatura nos traz. De nada adianta as pessoas tentarem convencê-lo. Como no “Mito da Caverna”, ele não vai acreditar na existência de um mundo diferente de seu mundo de sombras. E vai continuar ali, preso, acorrentado pelo medo do novo. Um novo que é infinito, enquanto é infinita a Literatura. A única (?) coisa que podemos fazer, é libertá-lo, oferecendo a ele textos que quebrem essas correntes. Mas a palavra final não cabe a nós. É ele quem deve usar seu livre arbítrio para quebrar as correntes que o impedem de conhecer o desconhecido.


 
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