POSTAGEM 98: O Carteio e o Poeta

Este é um dos filmes mais belos que o cinema já produziu. Abaixo, você tem um texto da psicóloga Élide Camargo Signorelli, da UNICAMP, em que ela tece comentários muito interessantes sobre "O carteiro e o poeta". Vale a pena ler, se encantar e, em seguida, assistir ao filme. Comece pelo trecho, no final dessa postagem.

O carteiro e o poeta
Por Élide Camargo Signorelli



O CARTEIRO E O POETA é um filme de 1985. Ele conta a estória de uma época em que o poeta chileno Pablo Neruda, exilado de seu país, passa a morar, por algum tempo, numa pequena ilha na Itália.

Mario Ruoppolo, um pescador da ilha, resolveu ser carteiro e foi incumbido de levar a correspondência endereçada ao poeta. Mario era filho de um pescador, um homem rude, de poucas palavras e coração endurecido pela vida difícil que levava. Por isso e por ser um homem desiludido, o pai de Mario não possuía a menor condição de transmitir ao filho uma visão da vida que não fosse concreta, descolorida e sem graça. Restava a Mario experimentar um grande tédio, a desesperança e a insatisfação.
A chegada do poeta e a relação que se iniciava entre os dois foram a chance que Mario precisava para conhecer a vida sob um outro prisma. A primeira coisa que o poeta lhe ensinou dizia respeito às metáforas, muito usadas por ele, em suas poesias. Segue o diálogo entre os dois:

Poeta - “Metáfora é quando fala uma coisa, mas compara com outra. Por exemplo, o céu chora, o que quer dizer que está chovendo”.
Carteiro – “E por que tem um nome tão complicado?”.
Poeta – “O homem não tem direito sobre a simplicidade e a complexidade das coisas”.
Quando o carteiro pediu para que ele explicasse melhor, o poeta acrescenta:
“Quando tentamos explicar, a poesia se torna banal. Melhor do que qualquer explicação é a experiência das emoções que a poesia revela para uma alma disposta a compreendê-la”.
Mais tarde, o carteiro pergunta: “Como me torno um poeta?”.
O poeta – “Vá caminhando ao longo da baía e observe tudo”.
Carteiro – “E vou aprender a criar metáforas?”.
Poeta – “Certamente”.


Dessa amizade surge no carteiro um outro homem, capaz de pensar, de criar, de criticar e de gostar da vida. Com o pai pescador, não havia possibilidade para isso, pois a vida era vivida no concreto. Eram homens que apenas sobreviviam, não numa ilha, mas num árido e estéril deserto, sem oásis e tampouco miragens. Com a atenção recebida, o afeto crescente e as metáforas, a ilha apareceu com seus sons, seus movimentos, cores e beleza, diante dos olhos extasiados do carteiro.

Há uma cena linda, no filme, em que o carteiro, decidido a enviar uma mensagem ao poeta – já de volta ao seu país -, gravou, com toda a simplicidade e ingenuidade, o barulho das ondas do mar, o vento nos rochedos, nos arbustos, as redes tristes do pai pescador, a noite estrelada na ilha.

Ele havia aprendido a olhar, a observar, a sentir e reconhecer a beleza das coisas. Essa é a experiência das emoções, revelada pelas metáforas, mas principalmente pela presença viva do poeta. Dessa relação surge a condição só cabível ao homem, ao ser que se humanizou.

Essa é a função do pai, então, de apresentar o mundo ao filho, de despertá-lo para a curiosidade, criatividade e movimento em direção ao mundo. Sugiro que assistam ou re-assistam ao filme, uma boa oportunidade para se entrar em contato com as delicadezas e sutilezas da vida.

Élide Camargo Signorelli, psicóloga com formação psicanalítica pelo C.P.CAMP, Centro de Psicanálise de Campinas, e especialização em adolescência pelo Departamento de Psiquiatria da FCM da UNICAMP.

Fonte: http://www.ciadaescola.com.br/artigos/imprimir.asp?categoria=43&codigo=120





 
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