POSTAGEM 89: Giulia Gam interpreta um conto de Luiz Vilela

A Cabeça
Luiz Vilela


A cabeça — pois era realmente uma cabeça, uma cabeça de gente, uma cabeça de mulher — estava ali, no chão, em rua, sob o sol, naquela radiosa manhã de domingo. De quem era? Quem a pusera ali? Por quê? Ninguém sabia... - "
"Já chamaram a polícia?", perguntou um homem de terno e gravata que vinha passando e parara junto à rodinha de curiosos [...].
"Chamou", respondeu o da bicicleta; "alguém chamou." Mas um baixote, que morava ali no bairro
— um dos mais distantes do centro — e que sabia bem como são essas coisas, observou:
"Se quando é um corpo inteiro eles já demoram pra aparecer, que dirá quando é só uma cabeça..."
"Eles aparecem", disse o da bicicleta, "até a noite eles aparecem..."
"É", o baixote concordou, no mesmo tom: "até a noite eles aparecem..."
"E se não aparecer ninguém?", entrou um que também morava no bairro, a poucas casas dali, naquela mesma rua. "O que a gente faz com essa cabeça?"
"Leva pra você", sugeriu um gordo.
"Se fosse da sua mãe, eu levava", ele respondeu.
"Minha mãe? Coitada... A cabeça da minha mãe há muito tempo que está debaixo da terra...", disse o gordo. "A cabeça e o resto também...", acrescentou.
"O que a gente faz?", insistiu o outro, preocupado. "Porque deixar essa cabeça aí a gente não pode: de repente vem um caminhão e..."
"Ela já está morta mesmo...", ponderou o da bicicleta, acendendo um cigarro.
"É, mas", continuou o preocupado, "vem um caminhão e... Vem um caminhão, e aí vai ser aquela porcariada aí, na rua; já imaginaram?..."
Ninguém respondeu; talvez porque estivessem imaginando a porcariada ali, na rua: miolos, ossos,
olhos, dentes, cabelos...
"Ou então um cachorro", lembrou o preocupado: "de repente passa um cachorro aí e sai carregando a cabeça; e, às vezes, ainda vai comer ela..."
"Bom", disse o baixote, e deu uma cuspida de lado: "uma coisa eu garanto: botar a mão nesse troço aí, eu não boto; por nada desse mundo. Se depender de mim, essa cabeça vai ficar aí pro resto da vida."
"A sorte é que ela não está fedendo", notou o preocupado.
"Por falar nisso", disse o gordo, "vocês já repararam que gente morta fede mais que bicho morto?..."
"Deve ser porque gente é pior do que bicho", explicou um de óculos [...]
Uma folhinha seca, soltando-se do galho da árvore ali perto, veio cair sobre a cabeça: como se — poderia ter pensado um dos presentes — como se fosse uma homenagem da natureza ao morto desconhecido. Desconhecido?
"É a Zuleide!", gritou uma moça, acabando de chegar e fazendo o maior espalhafato.
"Zuleide?", estranhou a companheira, umajruiva com o cabelo encaracolado. "Que Zuleide?..."
"A Zuleide lá do salão!"
"Que isso, menina? Você está é doida!"
"É sim, é a Zuleide! Olha ali se não é", e a moça curvou-se para ver melhor: "olha aquele rachadinho que a Zuleide tem no beiço!"
"Lábio leporino", disse o homem de terno e gravata.
"Boba", disse a ruiva, "aquilo é da faca, a faca que o cara usou pra cortar ela."
"Cara...", disse um rapaz, ajeitando a aba do boné, virada para trás. "Como que você sabe que é um
cara?..."
"Mulher ia fazer uma coisa dessas?", perguntou a ruiva.
"Mulher faz coisa muito pior", respondeu o rapaz.
"Então prova", disse a ruiva.
"Provo", disse o rapaz: "lá perto do sítio onde eu trabalho, a mulher matou o marido com uma machadinha e picou ele numa porção de pedaços; e depois ainda jogou pros porcos."
"Decerto é porque ele não prestava", comentou a moça.
"Tem homem que só serve mesmo pra comida de porco", ajuntou a ruiva.
"E mulher?...", revidou o rapaz. "Tem mulher que nem pra comida de porco serve."
"Só se for a sua", disse a ruiva.
"Ê...", disse o rapaz. "Cuidado, hem? Cuidado; senão daqui a pouco em vez de uma cabeça aí, vai ter é duas..."
"Já chamaram a televisão?", perguntou o homem de terno.
"Pra mim", disse o gordo, coçando a barriga, que aparecia quase toda pela camisa desabotoada,
"pra mim isso aí foi chifre..."
"E o carrinho de pipoca?", perguntou o de terno.
"Sou capaz de apostar um milhão", disse o gordo. "A mulher estava chifrando o cara, e aí ele: sssp!...", e o gordo fez o gesto de cortar o pescoço.
"Você não pode falar isso", defendeu a ruiva; "como você pode falar uma coisa dessas sem saber de nada?"
"Mas é claro", disse o gordo, com um sorriso de deboche. "Eu aposto um milhão com quem quiser..."
"Você não pode falar; às vezes a mulher era uma inocente."
"Inocente? Mulher inocente?...", e o gordo olhou para os outros da turma, quase todos homens.
"Vocês já viram alguma mulher inocente ?..."
"Mulher", disse o da bicicleta, acendendo mais um cigarro, o quarto ou quinto desde que ali chegara, "pra ser sincero, a única mulher por que eu ponho a mão no fogo é minha mãe... O resto... Nem mesmo a minha irmã eu..."
"A única mulher sem pecado é a Virgem Maria", disse o baixote.
"Rogai por nós", disse a velhinha ao lado, fazendo o sinal da cruz; meio surda, ela acompanhava tudo em silêncio, sem entender nada do que acontecera e do que estava acontecendo. Mas alguém entendia?
"Claro", continuou o gordo: "eu não vou dizer que por causa disso a gente deve cortar o pescoço delas. Não é isso. Se fosse assim, não ia nem ter jeito da gente andar na rua: a gente ia tropeçar em cabeça..."
Os outros fizeram cara de riso, uma porção de dentes aparecendo alegres nas bocas.
A raiva da ruiva... Ela olhava furiosa para o gordo, procurando alguma coisa para dizer; mas sua raiva era tanta que...
"Umas boas cacetadas resolvem", prosseguiu o gordo; "às vezes até mesmo uns tapas."
"Depende", disse o da bicicleta.
"Depende do quê?", perguntou o gordo.
"Tem mulher que gosta de apanhar..."
"A sua gosta?", interveio a moça.
"A minha? Icha! A minha adora!"
"Vamos embora", disse de repente a ruiva, olhando o relógio e vendo que estavam atrasadas para a missa; pegou no braço da outra e foi saindo, mas ainda parou e se virou: "É por isso que há tanta violência!"
"Hum...", o gordo coçou a barriga.
"Eu vou dizer uma coisa", a ruiva apontou o dedo. "Escutem o que eu vou dizer!"
"Hum", o gordo.
"Vocês é que mataram essa mulher!"
"Nós?...", o gordo fez cara de espanto.
"Vocês!", disse a ruiva, brandindo o dedo, e o cabelo encaracolado brandindo também, acompanhando o gesto: "vocês é que mataram essa mulher!"
"Te manca, dona!", disse o rapaz.
As duas foram andando num passo apressado descendo a rua.
"Segura a cabeça, hem?", o rapaz gritou. "Senão, ó!", e passou o dedo em riste pelo pescoço.
Os outros riram [...]
A cabeça, ali; a cabeça. Para quem vinha subindo a rua e olhava, a primeira impressão era a de uma pessoa que estivesse enterrada no chão, só com a cabeça de fora; ou então...
"Dá vontade de correr e encher o pé", um menino disse, falando baixo, para o amigo, os dois na frente, vestidos com a camisa de seu time, que disputaria à tarde a final do campeonato.
"Dá vontade de dar um balão", disse o outro.
"É..."
"Aí eu corro lá, na frente, e mato no peito."
"Aí você passa pra mim."
"E você devolve, e eu entro na área, dibra um, dibra dois..."
"Gooooool!"
"Um golaço!..."
A cabeça, os curiosos, o mistério; a rua, o bairro, o sol quente e a manhã de domingo passando.
"É", disse o homem de terno e gravata: "a prosa está boa, mas...”

Abaixo, uma adaptação do conto de Luiz Vilela produzida pela TV Cultura para o programa Contos da meia-noite.




 
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