INTERESSANTE: O CONCEITO DE LITERATURA (Gustavo Bernardo)

Sempe utilizo esse texto nas minhas aulas de introdução à Literatura. Acho que Gustavo Bernardo foi extremamente feliz ao escrevê-lo... No final, você terá um link para o texto completo. Boa leitura!!!

O CONCEITO DE LITERATURA (Gustavo Bernardo) (TRECHO)

… podemos começar a nos apresentar a literatura pelo que ela é (ou parece ser), recorrendo às duas primeiras estrofes de um dos poemas mais famosos de toda a literatura mundial.

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que ele escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve
Mas só a que eles não têm.

O poema, de Fernando Pessoa, se chama "Autopsicografia". Não define a literatura, exatamente, mas o literato — ou, mais propriamente, o poeta (portanto, a si mesmo). Naquele caminho do dragão, o faz de maneira circular, sem, entretanto, retornar ao mesmo ponto. Afirma, primeiro, que o poeta é um fingidor, portanto, parente muito próximo do mentiroso. Afirma, a seguir, que o seu fingimento é completo, vale dizer, radical, chegando a fingir que é dor uma dor verdadeira. A dor, verdadeira, pode até ser a motivação inicial do poeta: uma dor-de-cotovelo, por exemplo. Ao representá-la, porém, pela radicalidade da poesia, ela se transforma em outra coisa: a dor (sensação e emoção indizíveis) vira "palavra" e, portanto, se torna dizível. A emoção primeira se transforma em uma emoção nova, superando aquela emoção que dera partida aos versos.

Nesta primeira estrofe do poema de Pessoa (que, como sabemos, transformou-se ele mesmo em várias "pessoas"…), temos sintetizado um dos mais difíceis e controvertidos conceitos da teoria da literatura: o conceito de mímese. Assim como o mimetismo do camaleão o faz confundir-se com a casca da árvore em que se encontra, sem, no entanto, ser a árvore, de maneira equivalente a dor representada alude à dor original, sem, no entanto, ser esta dor. Todavia, a segunda dor, digamos, artificial, propriamente, ficcional, ajuda o poeta a lidar com as suas dores primeiras. É como se desta forma o poeta pudesse controlar o incontrolável e interferir no acaso, tomando, pela imaginação, o seu destino na mão.

Por isto, a segunda estrofe prossegue no caminho em espiral, trazendo junto, agora, os leitores — que, ao lerem o que o poeta escreve, sentem, na dor lida, não exatamente a dor que eles originalmente teriam, mas ainda uma outra, diferente, de certo modo, talvez, até mesmo mais intensa. Corresponde, para lembrarmos experiência comum, àquela sensação que temos quando assistimos a um filme lacrimejante e, então, choramos copiosamente. Ao sairmos do cinema, entretanto, não nos encontramos tristes, ao contrário: sentimo-nos algo aliviados. A segunda estrofe sintetiza, portanto, outro conceito capital da teoria da literatura: o conceito de catarse. A catarse, que Aristóteles compreendia como uma espécie de "purgação" (porque realiza um efeito purgante sobre as emoções reprimidas dos espectadores), permite nos identificarmos com o sofrimento dos personagens, ou dos poetas, sentindo temor e piedade. Ao sairmos do teatro (ou do cinema, ou das páginas do livro), retomamos a nossa própria identidade — mas enriquecida pela experiência ficcional, que nos ajuda a conviver com as nossas dores e com os nossos dramas.

Esta difícil convivência, porém (de nós conosco mesmos), não se dá num plano exclusivamente racional. Não basta, de modo algum, a compreensão da causa dos nossos dramas para nos sentirmos tranqüilos. Como também se sabe, em termos de alma e de existência, saber não implica, necessariamente, poder. Às vezes, sucede mesmo o contrário: saber a razão do sofrimento somente intensifica o sofrimento. Há, portanto, um outro saber, que a literatura e a poesia admitem, mobilizando razão e emoção nas voltas daquela espiral. É um saber dinâmico, cujas respostas são móveis, metamorfas, de certo modo, brincalhonas, irônicas (ou, para usar termo mais acadêmico, lúdicas), como conclui a terceira e última estrofe do poema de Fernando Pessoa:

E assim, nas calhas de roda,
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Assim, nas calhas de roda (como em um moinho que transforma o trigo em pão), o coração, miticamente o centro da alma, gira, entretendo e enganando a razão, para moer a dor transformando-a em verso — para fazer com que a dor faça sentido.
Quando percebemos a enorme facilidade com que as crianças são iludidas (comendo espinafre com prazer, só porque é comida do Popeye ou do monstro), não dizemos: "me engana que eu gosto"? Mas, quando lemos um romance policial típico, não percebemos que o narrador está nos enganando, plantando pistas falsas no enredo, retardando a solução do mistério, e não gostamos exatamente disto? A criança também poderia brincar conosco, dizendo: me engana que eu gosto, hein? Na verdade, crianças, leitores, jogadores, amantes, políticos, eleitores, enfim, todo mundo necessita de ilusão. Esta ilusão ora tem a forma da mentira que não pode se assumir como mentira, como, por exemplo, no discurso de um político em ano eleitoral, ora tem a forma da mentira que avisa que é mentira. A este segundo tipo de "mentira", mentira honesta, na verdade, chamamos, com mais propriedade, de ficção.

BERNARDO, Gustavo. IN: JOBIM, José Luís (org). Introdução aos termos literários. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1999.

O TEXTO COMPLETO PODE SER ENCONTRADO EM:


 
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