Quem sou eu? Quem fomos nós?

Quem sou eu? Essa é uma excelente pergunta. Pena que a resposta seja tão difícil de se achar. Mas nesses últimos dias, em minhas orações, eu pedi ao meu anjo que me mostrasse pra mim mesmo, e me fizesse ver em mim um novo ser. Não um ser ambíguo e medroso, mas alguém que ame e não tenha medo desse amor. Não só o amor cantado por Camões, de um homem por uma mulher (aqueeele amor!), mas o que aparece na primeira carta de Paulo aos coríntios. Ou quem sabe os “dois”, que estão em Monte Castelo... Pois se amar me faz tão bem, pra que viver usando máscaras, identidades secretas? É tão bom a gente poder dizer tudo aquilo que está sentindo, da forma como isso nos vem na cabeça, passando pelo coração...

Sentir e pensar! Refletir até duas horas da madrugada se for preciso. E no dia seguinte, se reinventar, como um cego que se acostuma ao escuro. Redescobrir que a gente pode renascer com as manhãs, pois em cada raio de sol existe um pouquinho de vida. Dizem que o coração tem razões que a própria razão desconhece. Nunca o senso comum nunca esteve tão certo. Mas quem disse que ele tem que ser racional, cartesiano, quadradinho?... O coração é insano, para todo o sempre, e fica para todo o sempre esperando um toque ou um gesto de ternura pra pulsar mais acelerado, só pra depois sentir o quentinho de bater calmo, como um vento que se cala em brisa, como um calo que enfim também se cala, ou como a gota d’água que se une à doce lágrima e juntas formam um rio caudaloso, grande como um “Zeus Capitolino, hercúleo e belo”, nos dizeres de Bilac.

E como é bom descobrir os detalhes escondidos nas fotos, nas fotos guardadas nas gavetas, nas gavetas ocultas do coração ou no “escaninho da alma”, como diria o Fernando Pessoa. Mas também é excelente descartá-las, já que quem vive de passado é museu. Entre guardar detalhes ou esvaziar a alma, nunca saberemos qual é a melhor opção. Talvez sejam as duas, ao mesmo tempo e a todo instante.E assim eu penso e sinto que essa magia de se dar sem ter que pedir nada em troca — e de se escrever a vida letrinha por letrinha, de não ficar sempre no quase, de se encantar pelo próprio reflexo contido no olhar do outro, e de se apaixonar pelo outro!!! —, pode parecer menos magia se tudo não acontecer naturalmente, porque não convém ir contra as leis do caderninho de preceitos.

Mas aí a gente pára e pensa, porque também não convém deixar os sonhos pra amanhã e se arrepender daquilo que não se fez. Somos, com certeza, a contradição. Indubitavelmente, a contradição elevada à zilhésima potência. Isso até o amor inventar um número maior que o zilhão. Seria tão astuto de nossa parte só andar de óculos escuros. Só que o mundo seria mais triste, não pra nós, mas pros outros. Porque o olhar nos derruba. O olhar nos desmaia. E é dele que ficamos eternamente súditos e devotos. E sem os olhares que nos guiam na escuridão como um farol, como havemos de encontrar um porto seguro? Mas também não precisamos dos olhos pra enxergar o que realmente vale a pena: e essência de nossa pequena alma de artista.

Não é desfilando pela vida e dando tchauzinho para o mundo que vamos ser melhores do que fomos ontem. E sim, nos misturando em meio à massa, tornando-nos massa também. Porque é muito fácil levar comida pros mendigos que moram debaixo da ponte. Difícil e nos assentarmos lá com eles e fazermos ali as nossas refeições. Ou levá-los pra dentro de nossas casas, de nossas vidas. Tantas palavras aqui foram ditas e inúmeras outras ficaram de fora. Não por serem desimportantes, mas porque não caberia tudo em tão pouco espaço.

Mas esse é o lugar do “quem sou eu” e não do “quem somos nós”. E perguntando-me de novo: “Quem sou eu?”, concluo que não sei. Mas sei que é sendo eu mesmo, que serei melhor que eu. É sendo comandante do meu destino e não um grãozinho de areia perdido na imensidão do universo. É sendo surpreendente, cativante, em sintonia perfeita com o outro, que hei de descobrir o que de melhor existe em mim. Ou quem sabe dar falta do melhor que já perdi. E recuperá-lo, só pra perder de novo. Porque a graça da vida, está em se dar.
Texto escrito há muito tempo, no perfil do Orkut...


 
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