SETE SONETOS: A

(atendendo a pedidos, asaushuasa)

A nívea tez amada envolvia
O céu tão desmedido e nu ainda
Sem sol, mas revelando a triste e linda
Manhã, princípio azul de mais um dia

Se surge o grande astro, a sua vinda
Não supre a presença que já havia
Tornando-se a estrela parca e fria
E o brilho desse sol cala e se finda

Não há maior encanto que suplante
Aquela que os dias meus aquece
Com seu calor canoro e ofegante

Com a tua voz que cala e me ensurdece
Aquela que no oitavo céu de Dante
Habita, mas não ouve a minha prece.

A LEVEZA DA VIDA


A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve, mas tem vida breve
Precisa que haja vento sem parar...
(Vinícius de Moraes)



A leveza da vida não está apenas nos momentos calmos, em que tudo parece um comercial de margarina, com pessoas sorridentes que se regozijam numa mesa de café da manhã. A leveza da vida também está, paradoxalmente, nos momentos em que tudo parece perdido.

Muito custei para fazer essa descoberta. Os vendavais do meu de dentro — às vezes furacões, tsunamis, terremotos arrasadores com infinitos graus na Escala Richter — fizeram-me compreender que a vida pode ser leve, mesmo num instante esquecível, em que eu mergulho e me afogo no sal das minhas lágrimas. Existe música neles. Músicas dos mais variados gêneros, para os mais variados gostos. O problema é que umas tocam mais alto que as outras. Lá por trás do heavy metal, gritado, xingado, explodido, está o suave Noturno de Chopin. É só termos ouvidos para ouvir.

Mas nem sempre isso nos interessa. O bom, pra nós, é chorar, gritar e espernear como a criança que não ganhou o chocolate que queria, na hora em que queria. É fazer birrinha... É xingar “desgraça” — nome feio, Papai do Céu chora! O que nos interessa, portanto, é ferir os ouvidos do outro com as nossas feridas. É a agressão de nos verem chorando e se apiedarem de nós, coitadinhos!

Não digo, com isso, que não devemos chorar. Nem que não devemos chorar na frente do outro. Não digo que devemos nos esconder nos nossos quartinhos secretos e somente ali, protegidos pela solidão, vistos apenas pelos olhos do espelho, deixar vir a baixo o nosso edifício. Pelo contrário. A emoção é sempre conveniente, a qualquer hora, em qualquer lugar.

O que não devemos é chorar como se aquele momento fosse pra sempre. Não é. Ele é presente! Só presente. E deve ser um presente caro. Caro, mesmo sendo triste. Caro, mesmo sendo de graça. Porque ele é graça. Se acredito em Deus, ele é graça divina. Se acredito na vida, ele é graça vivida. E se não acredito em nada, ele é graça engraçada, porque no fundo, no fundo, todo momento triste tem piada.

E assim penso. Sei que posso estar enganado. Mas tenho treinado meus ouvidos pra ouvir mais a flauta canora e doce que a guitarra elétrica e distorcida (sem preconceitos, pois também tenho cacos de rockeiro aqui no meu de dentro). Tenho tentado buscar a leveza, a placidez, a calmaria. E mais que isso, tentado fazer o óbvio: colocar cada tempo em seu devido lugar. Atrás de mim, o vivido. Do meu lado, o instante. E à minha frente, o porvir, com todas as suas incertezas, mas com a leveza de uma pluma que se de deixa levar pela mais suave brisa.


TRECHO DE EFESTO (1999)

Na cela, de minha janela,
Eu olhava o Amor passeando sozinho.
Assim tão longe, e eu consciente, eu
Via o quanto ele é feio e franzino
Miúdo, parco,
Horrível, disforme e
Manco de uma perna.
O Amor é feio...
Quando nasceu, de tão feio que era,
Foi lançado do Olimpo pela própria mãe
E ele vingou-se aprisionando-a numa cadeira de ouro.
O Amor, visto de longe,
Tem um martelo e tenazes nas mãos
É velho, estranho e barbudo
Controla todos os fogos do mundo
Não controla somente
O fogo do próprio Amor.
Não tem beleza quando o vemos de longe
E se vem puro, disfarçado, não o sentimos.
O Amor, só, em essência, é coxo.

DEUS ATEU (25/03/2009)

Pra Princesa Mari

Acredito em Deus.
Ele é que não anda
Acreditando muito em mim...

DIÁLOGO (08/04/1999)

Praquela que não quer ser meu Sol, mas que mesmo assim, me aquece e me ilumina...


— Vem sol, nos ilumina com teu lume!
— O seu é bem maior que o da chama.
— Você, apaixonado, é quem proclama...
— Você, envergonhada, não assume.

— É minha a luz que vence o negrume?
Não vês que é a do sol que ao céu se inflama?
— Pois digo-te, és o Sol, ó minha ama!
— Espero desta feita estar impune...

— Mas qual a pena hão de aplicar-te?
Se brilhas muito mais do que o sol?
Não há tal pena, és a minha Arte.

— Vá bem, meu doce encanto, eu me entrego...
Eu brilho mais que a estrela em arrebol
Às vezes, ser o sol faz bem ao ego!

BREU (03/11/03)

Dia escuro, breu
Noite desenluarada
Longe de ti, eu

ONDA (03/11/2003)

Crespa e alta a onda
De cabelos azulados
Lá do mar me sonda

CEM ANOS DE SOLIDÃO (30/10/2003)

— Você tem Cem anos de solidão?
— Não. Só os vinte e seis da minha vida.

A MÃE DO MENINO QUE FEDE (15/01/2004)

(esse é pra Rhay)

A Mãe tem um filho que fede
Ela conta isso e ela chora.
O menino também é só pranto
Mas o pranto da dor física
Tem câncer no seu de dentro
No de dentro quase todo.
A Mãe tem um câncer na alma
Que a mata um pouco por dia
Talvez morra até antes do filho
Ordem não natural dos fatos.
O filho é deitado na cama
A Mãe pede o que temos sobrando
Tudo serve!
Não tem quase nada.
Comida pronta ou crua
Roupa nova ou usada
Remédio inteiro, pela metade, vencido.
Tudo é melhor que o nada.
Serve afeto, atenção ou piedade
Serve amor, só um pouquinho.
O que temos sobrando,
O que temos um pouco
E até o que não temos, queremos dar,
Pois existe uma Mãe que chora no portão
E um filho fedendo lá em casa.
Saem pedaços de seus órgãos com as fezes
As fezes que são poucas, porque ele não come
Não bebe
Não ri
E não vive
Ele apenas fede
Fede em vida
É matéria
Como eu sou matéria
Fede como eu
Fede como você
Fede como o humano
Como todos os seres fétidos que somos.


OBS.: Hoje, passados 5 anos, com ceteza, esse filho não fede mais.

BICHOS III (MORGADO)

Morre! Morre Morgado
Morre que chegas aos céus
Entrega-te às presas do Lobo
Cordeiro és que preso num canto
Morre em lugar de Isaac,
Que a terra lhe será leve
És só “dezassete dinheiros” —
Não trinta — de um vil almocreve

CONSCIÊNCIA DO NUNCA

Cabisbaixo, ele ousa e sonha
Catando seus castelos de areia
Desde os mais simples, como pizza
Até os mais complexos, como netos

Ele ousa, sonha e chora
E divaga com os castelos mar afora
Noite adentro.

Mas ousadia finda e o choro fica
E tudo acaba
Simples gesto
Fecha seus olhos e diante dele está
Um corvo de Poe, de vento rarefeito
Que lambe os seus sonhos, seus castelos
E grasna a terna e ácida palavra:
— Nunca! Nunca! Nunca mais!

E nesse instante o corvo lhe bica
A ousadia finda, mas o choro fica

VELHA (02/01/2004)

Sentada num canto da vida
Estava ela
Sentindo o frio do mundo.

Era assim que ela se vendia,
Velha, olhando o chão,
Olhando a terra que no ali havia.
Ouvindo as poucas moedas, goteiras do prato.

Não tendo o que vender
Nem tendo alguém para ser seu
Não tendo forças para o trabalho,
Só restava a ela vender sua miséria
A decrepitude do corpo.

Não tinha arte na alma
Não podia encantar a todos com seu canto
Nem com dança.
Essa não saía de seu corpo fétido.

Podia era triste olhar a terra
Como se estivesse já a ela regressa
Num ponto final da vida

A terra, o pó esquecido dos sonhos
O pó dos inúmeros filhos que não teve.
Já que até o ventre era seco e miserável
Não tinha ninguém que saído de si
Herdasse sua toda miséria
Nem menos a aliviasse.

Ninguém.

Se teve amores, não mais os tinha
Nem mesmo o sujo cachorro
– as pulgas e os carrapatos —
Nem mesmo uma ferida aberta no corpo
Que lhe facilitasse a vida
Ferida que pudesse também vender.

Apenas as chagas do tempo na alma
As quatro moedas pousadas no prato
E o prato. Mais nada.

Seu sonho - o grande sonho -
Era ter um saco
Um saco onde pudesse guardar o tudo que não tinha.

Como era bom quando o prato estalava:
Uma moeda pipocava ali
Não só pelo dinheiro, mas também pelo barulho
O barulho lembrava a ela que ainda era viva
Não era ainda inanimada por completo
Pois oculta, num fundo da alma
Estava a pessoa
O humano.

Lembrava-se ser humano três vezes naquele dia
Só três
Mas sorria,
Pois alguém lhe jogara duas moedas de uma só vez.

Contradição da vida,
Era que as notas rendiam mais
Mas não faziam barulho no prato
Preferia ora notas, ora moedas.

Como era fácil passar por ela e não notá-la
Ali de cócoras
Estátua
Como um móvel que não se movia
Abandonada
Não só pela vida,
Mas também pela morte
Nem a morte comprava sua velhice.

Talvez nem mesmo um nome ela tivesse
Ou se o tivesse, o esquecera já
Talvez maria ou coisa aparecida
Era ninguém.

Era apenas a velha do prato
Do prato dos quatro dinheiros
Com o rosto vincado, o tempo
Com unhas grandes e sujas
Que mesmo porcas, imundas
Não tinham espécie de vida, micróbios.

Parecia não ter fome
Até mesmo essa a abandonara
Expulsa pelo costume do não comer.

Sorriso
Se em algum dia ela o tivesse tido
Era hoje oculto pelas rugas.

Assim era a velha
Sozinha na vida
Docemente triste e senil.

Era ela
O prato esmaltado
Os quatro dinheiros
As rugas também.
E o sonho de possuir um saco

SONETO DA ALMA MORTA (15/11/2003)

Quando Ela bater em minha porta
Foice na mão, num dominó vestida
Restar-me-á somente a despedida
Da esquerda vida, da existência torta

Que chegue até agora, não me importa
Saber se ainda resta a pouca lida
Não tenho nada mais que ver com a vida
Pois em mim vive é uma alma morta

Morreu, na areia fria de um agosto
Se foi, ficando lua dentro em mim
De um mim que morre e que no peito é posto

Chorei, tendo saudades da lacuna —
Que aponta sempre para um triste fim —
Que existe dura, aguda, e assim me puna.

CALO

Como um calo arruinado
Quero gritar sussurros aos teus ouvidos despertos
Pois um calo que dói nunca se cala.

GESSO (08/12/2003)

O que em mim pensa ‘stá sentindo
Saudades de quem desconheço
Mas amo — e errante eu vou indo —
Um corpo moldado de gesso

O corpo lá está, ele existe
O rosto, ainda não feito,
Sorri, seu sorriso que é triste
Esconde-o, sem sonho, sem jeito

E se esse rosto, aos poucos
Se molda e se vai revelando
Os pingos lhe caem como loucos
E a chuva o destrói nesse quando

Destrói também o corpo todo
Que eu triste remoldo contente
Contente do auto-engodo
De amar o meu gesso de gente

PASSADO

Em todos os nossos ontens
você era metáfora
O dia raiou
e você
não
.


ÚLTIMO SONETO OU SONETO LIBERTO (31/12/2003)

Findando o ano esse sonetinho
Faz-se presente, sai dessa caneta
Sentir por ele o muito carinho
Não é difícil, vejo-o além da greta

Ele está lá, no limbo, tão sozinho
Grita meu nome para que eu o meta
Neste papel e lhe dê o caminho
Que o traz pro mundo, mesmo que cambeta

Ele precisa então estar nascido
Antes que o ano, esse sim, se finde
Pois teme não poder ter merecido

Aqui crescer, e ele então se cinde
Torna-se dois, o lido e o não-lido
E eu o liberto, sonetinho, vinde!

BICHOS I (VICENTE)

Voa, voa Vicente
Voa, corvo de Deus
Assenta-te ao cimo dos montes
Como assentaste na Palas
E grasna ao teu Criador
Sobre as águas de um mundo que jaz
Faz dessa arca Lenora
E voa! Para o Nunca mais!

MONGE

monge
O homem o
monge a
imagem viva na minha frente um
presente futuro
futuro lembrança
passado que não houve a
vida passando na
cela monástica a
célula o hábito o
monge de hábitos simples a
prima a
terça a
sexta a
noa a
véspera e as completas as
horas da liturgia que não passam e
ora e canta o de Gregório
enclausurado e
Gloria Patri et
Filio et Spiritui Sancto,
Sicut erat in principio et
nunc semper et
in soecula soeculorum,
amem
monge monge
olha ao longe
suas campinas
voa longe
monge monge
volta ao longe o
teu olhar que esconde

OVELHA (14/01/2004)

Erguida no ali
Distante dos outros
Era ela, ovelha,
Estando um ser tão vazio.

No rosto de todos, a morte estampada...
E infelizes sentiam.

O choro,
Os óculos escuros,
Trajes também,
Escuras almas.

Ela, em negro vestida,
Pousava serena,
Longínqua
Num lado,
Num canto.

Seus olhos, ocultos olhos,
Como podiam ser tão sem lágrimas?
Sem água
Sertão?

A ovelha olhava negra a cova
Sentindo por ela ora repúdio, ora fascínio.
Querendo não estar ali
Talvez
Querendo que ninguém estivesse
Ou que estivesse sozinha
Ou ainda que ela mesma fosse a morta
Não era?

Com graça ela era fria
Ovelha dispersa, avulsa, em extravio
Não rebanho.

Como queriam, aqueles, que ela o fosse!
Mas não.

Tirou escuros óculos
Mostrou escuros olhos, esses realmente secos,
Com a revolta esculpida no entorno
Murchos, não ternos, fleumáticos.

A mãe pediu que ela entrasse novamente no rebanho
Se congregasse
E ela não.

Por seu avô, minha filha!
E ela não.

Queria estar ali, tão pedra,
Tão cinamomo,
Tão ovelha negra e desgarrada
Ovelha que não bale a vida, vive,
Rejeitando o doce báculo, a reprimenda.
Ovelha seca
Nua de tristezas
Lauta do impassível
Graciosamente no estio.

 
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