FLORES NO JARDIM


Hoje bateu uma brisa leve aqui dentro e acalmou as coisas. Senti o frescor dessa brisa e o calor do sol. Passou o frio. Passou o inverno. E como sempre, depois do inverno, as flores começaram a desabrochar. Ainda não sei se é mesmo a primavera. Só sei que o jardim se encheu de cores. Só sei que hoje, não preciso escrever.


DESORDEM DEMAIS PRA POUCO RISO


É uma merda essa coisa a que chamamos de vida. Quando tudo parece já estar no lugar, prontamente classificado, rotulado e guardado nas prateleirinhas, vem alguém com alma de saci e bagunça tudo de novo. Talha nosso leite. Queima o nosso arroz. Desorganiza tudo.

E comigo não é diferente. Os meus livros estão todos no chão. As roupas de casa, do trabalho, de festa, de frio, de calor, claras e escuras estão ali, amontoadas, todas juntas. Amarrotadas e sujas. Os sapatos, que amorosamente suportam o meu peso e me levam pelos caminhos, estão todos espalhados, misturados, em meio às meias também imundas que tento esconder dentro deles. Uma poeira enorme, densa, pesada vai encobrindo tudo, sujando tudo... Eu tento escrever meu nome nessa poeira que se assenta pela superfície da minha vida e maculo os meus dedos cansados.

É bagunça demais. É desordem demais pra pouco riso. É a baderna exaustiva. É o caos. São as palavras, todas, fora dos dicionários. São as cores, todas, fora dos quadros. É personagem sem enredo, enredo se espaço, espaço sem tempo. É muita gente sem tempo pra viver. É a organicidade desorganizada do mundo moderno. É meu organismo inorgânico que teima em estar vivo, mas já nasceu morto, talvez.

Leva tempo arrumar tudo de novo. Consome forças. Melhor seria deixar tudo como está. Porque como todo desorganizado, eu me oriento na minha bagunça. Mas como é bom ver tudo limpinho. Ver chão brilhando, espelhando a minha imagem torta. Por isso eu tenho que arrumar. Por isso temos. Deixar tudo brilhando pra que a lama que jogam sobre nós possa sujar-nos. Pra que a lama que jogam sobre nós possa ser lama.


HOJE EU QUERIA PARAR


Hoje eu queria parar. Parar e ver o tempo correr um pouquinho. Parar debaixo de uma árvore da minha vida e contemplar quem eu sou. Ou quem creio ser. Na verdade, contemplar quem estou. Os vários rostos que tive. Aqueles que eu mostrei e que escondi. Aqueles que eu amei e aqueles dos quais tive asco. Como seria bom parar. Parar com tudo... Desligar o botão do gostar, por exemplo. Olhar profundamente nos olhos disso que venho chamando de amor e contemplar toda a sua insignificância e pequenez.

Hoje eu queria parar. Queria me ver pelo lado de fora, com olhos alheios. Rir de mim. Ver como sou ridículo. Rir das minhas roupas, do meu jeito de andar, rir da minha voz que é tão estranha quando a ouço por fora. Queria ver meu sorriso triste e permanecer indiferente. Queria me ver chorando e achar graça, pois sou homem feito, e segundo o caderninho dos preceitos, um homem não chora.

Hoje eu queria parar. Pedir que o vento seguisse sozinho. Que soprasse a face de outro idiota. Pedir que meus sonhos seguissem sozinhos, procurando outra mente insana para habitarem. Pedir ao rio que corresse sozinho, e contemplá-lo. Ele nunca seria o mesmo, mas eu seria.

Hoje eu queria parar, mas eu não posso. Porque existe a merda do tempo, e ele não dá trégua. E a melhor parte do tempo é aquela que se foi.


REDESCOBRIR



Antes de ler, carregue e assista ao vídeo...


Um certo dia, como se fora brincadeira de roda, como se brincássemos crianças em nossas verdadeiras vidas, somos levados a redescobrir-nos. Encontrar dentro de nós mesmos a parte que de agora em diante chamaremos “eu”. Como numa corrida de revezamento, esse “eu” pega o bastão e domina nossa mente.

De início, o antigo “eu” canta a maior parte da música. E o novato apenas completa, na segunda voz, com uma única palavra que se encaixa perfeitamente naquilo que é cantado. Às vezes ele desafina, canta alto, canta baixo, canta estranho. Nos assusta. Às vezes nem canta, ficando escondido num canto. Ficando seu canto escondido.

E aí esses “eus” vão, aos poucos, aparecendo, todos eles. Uns aqui, outros acolá, uns tão claros, outros tão ocultos, e já não sabemos qual deles veio primeiro, ou qual deles chegou por fim. E assim, o doce no lamber das línguas macias e o suor da vida no calor de irmãos vai tomando conta de nossa existência e as lágrimas erram pelos caminhos tortuosos e escorregadios do nosso rosto. É preciso redescobrir também cada um desses “eus” que numa constância mutante são novos a cada segundo.

O ritmo da música que ouvimos no nosso de dentro vai aumentando aos poucos e vai-nos fazendo dançar. Mais rápido, e mais rápido que antes, as vozes desses “eus” ainda são ouvidas separadamente, ainda têm alma, ainda têm calma, placidez. Ainda são brisa indelével e indolor.

Mas um grito de dor chega e muda tudo. O ritmo acelera mais ainda... E na dor, o eu de agora dá as mãos pros outros “eus” e eles brincam de roda, nessa ciranda da vida... Agora já cantam em uníssono. Já são uma única voz falando mais alto.

As luzes do palco se acendem e iluminam a ciranda da dor... E a alegria, paradoxalmente, emana dos corações entristecidos de todos aqueles que cantam. Tudo parece um circo. E nesse espetáculo, somos mágicos, palhaços e feras. Domadores, bailarinas e equilibristas. Os balões caem da lona, como a chuva que cai do céu, e estouram ao toque dos nossos pés agressivos. Outros funcionam como bolas de futebol, marcando gols nesse enredo artilheiro.

E aí descobrimos, ou redescobrimos, que existiam ainda vários outros “eus” que tocavam ao longe a melodia que ouvíamos. E eles descem de seus lugares e se juntam à fraternal sociedade que existe dentro de nós. E sem os instrumentos musicais, precisamos ainda mais afinar a nossa voz cansada e rouca, calada e louca...

E aí descobrimos, ou redescobrimos, que existiam ainda vários outros “eus” que observavam apenas e que agora se juntam com palmas e marcam o ritmo cada vez mais célere, cada vez mais célebre... E assim renascemos da própria força, própria luz e fé... Somos um menino novo, um menino povo. Somos povo, somos multidão. Somos muitos, somos legião...

E como se fora brincadeira de roda, continuam os “eus” rodando doce e triste na ciranda. As palmas se misturam aos estouros dos nossos anseios, a roda aumenta, aumenta o ritmo, e mesmo aqueles que estão de fora parecem comungar perfeitamente dessa união.

Um grito de dor lembrou-nos que somos muitos. E nessa auteridade tão bem vinda, somos crianças, somos pedaço de gente. E assim, tão fascinados, cantamos e sonhamos os sonhos mais lindos, e erguemos nossos castelos. E erguemos um sonho que é só e que é junto. Que é meu e de todos os meus “eus”... E as mil quimeras se fundem no sorriso da estrela que brilha, e brilha alto, toda azul, lá de cima. Aqui embaixo, continuamos a olhar pra ela, admirando-a, idolatrando-a, fanáticos pelo seu canto.

E quando tudo parecia terminar, a estrela desce. E vemos que era ela o primeiro eu, o que primeiro cantava. E vemos que essa constelação de “eus” sempre esteve em nós, que somos a semente, ato, mente e voz...


Bom... Agora que você já leu, assissta de novo, né... Vale a pena...


 
l