Dez longos anos sem João Cabral


Escritor pernambucano deixou um vazio profundo na poesia. Na semana que marca uma década de falecimento, as homenagens são isoladas


Na última sexta-feira fez 10 anos da morte de João Cabral de Melo Neto. Na época, a má notícia tomou de assalto o meio literário. Quem poderia subsituí-lo no posto de maior poeta do país? Foram apontados nomes como Ferreira Gullar, os irmãos Haroldo e Augusto Campos e Décio Pignatari.

Todos concordaram que, a figurar ao lado de Manuel Bandeira e Carlos Drummond, só haveria João Cabral.

A maior inspiração da obra de João Cabral era a terra natal Pernambuco, onde viveu a infância e parte da juventude. Nasceu nas margens do Capibaribe, rio presente em toda sua obra, como o famoso poema Morte e vida Severina. Os livros Quaderna e Educação pela pedra são considerados o auge de sua produção.

Palalelamente, fez carreira na diplomacia em países como Inglaterra, Senegal, Suíça e Honduras, onde sua filha, Isabel Cabral, é uma das funcionárias. Mas para João Cabral, a paixão pela literatura falava mais. "No Senegal ele tinha uma série de encontros privados com o romancista Leopold Senghor, presidente do Senegal, para falar sobre literatura", diz o jornalista e crítico de literatura José Castello. Na Espanha, país decisivo para seu processo de formação, conheceu artistas surrealistas. A experiência o levou a escrever o ensaio Joan Miró e poemas como Cão sem plumas. Em outro, revela o desejo de "Sevilhizar o mundo".

A morte veio suave, aos 79 anos. O coração do poeta parou enquanto rezava, de mãos dadas com a segunda esposa, Marly de Oliveira. Os últimos anos foram difíceis, marcados pela depressão e a cegueira. "Ele se lamentava da solidão, que a vida era chata, a velhice era insuportável", diz Castello, autor do livro João Cabral de Melo Neto: o homem sem alma (Bertrand Brasil), fruto de mais de 20 entrevistas entre 1991-92, quando especulava-se que João Cabral ganharia o Prêmio Nobel de Literatura.

Nas artes, é comum que a obra subjugue o autor; no caso de João Cabral, que sua personalidade se confunda com o teor gélido, metódico e racional dos escritos. Ao contrário: o poeta adorava falar de si e seu trabalho. "Ele mesmo se dizia seco e antilírico. Mas as conversas deixaram claro que era organizado porque tinha uma convulsão interior. Ele me disse que a poesia era sua tentativa de se reprimir. Dentro desse homem sem alma havia um sujeito emocionado, cheio de temores e muito sucetível", diz Castello.

O caráter depressivo era outra característica atribuída a João Cabral, que fez mais de um poema sobre as aspirinas que tomava para aplacar as dores de cabeça. A Castello, o escritor contou que, quando pequeno, chegou a ficar internado em hospital psiquiátrico. "Os médicos diziam que ele sofria de forte depressão. Ele dizia que tinha melancolia, a mesma dos poetas do século 19. Ficava revoltado de tomar remédio. Gostava de viver, de escrever. Dizia que melancolia é como uma dor no peito. E que escrevia poesia para conter esse desamparo".

Homenagens - No Brasil, a efeméride dos dez anos sem João Cabral passou praticamente batida, sem homenagens ou novidades no mercado - a última grandereedição de sua obra foi da editora Objetiva, em 2007. Da mesma forma, eventos locais se movimentam timidamente. Na última sexta, a Bienal do Livro de Pernambuco promoveu mesa com Selma Vasconcelos e Janilto Andrade, autores dos Retrato falado do poeta e O erotismo em João Cabral. A Fliporto elegeu o escritor como principal homenageado. No mês que vem, a programação trará conferências com os especialistas Antônio Carlos Secchin e Lawrence Flores Pereira.

Na próxima terça-feira, sua obra e vida na Espanha será objeto de seminário da Fundação Cultural Hispano Brasileira, com sede em Madri, e desdobramentos em Salamanca, Barcelona e Sevilha. No evento haverá representantes do Instituto Joan Miró, da Universidade Federal do Paraná e do Instituto Cervantes de Curitiba. Em virtude do evento, uma versão em espanhol do primeiro volume dos Cadernos de Literatura, dedicado ao escritor, foi rodado pelo Instituto Moreira Salles.

Fonte: Diário de Pernambuco (http://www.diariodepernambuco.com.br/2009/10/11/viver1_0.asp) (Acessado em 11/10/2009 às 05:50)


 
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