Um livro com o alfabeto em 3D...

Nessas andanças pela Internet acabei descobrindo um livro com o alfabeto em 3D...

Vale a pena conferir o vídeo abaixo...










Slides sobre Eça de Queiroz

Abaixo, slides sobre Eça de Queiroz...

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Google anuncia o fim do Orkut e do Wave

“Google anuncia fim do Wave e do Orkut”, “Brasil vence disputa e será sede do Fim do Mundo 2012”, “Baloeiros pedem redução da quantidade de morros no RJ”... Essas e outras manchetes têm arrancado muitas risadas dos leitores do “Diário de Barrelas”, um portal de notícias fictícias que vem, a cada dia, conquistando mais leitores na internet.

O site ganhou projeção nacional ao divulgar que o grupo NXZero abriria o show do Metallica. Várias pessoas postaram essa manchete em seus blogues, twittaram, retwittaram e, em pouquíssimo tempo, a notícia se espalhou, causando um verdadeiro reboliço pela rede. O mais recente “furo” divulgado foi que o badalado cantor Fiuk interpretaria Raul Seixas no cinema, após disputar o papel com outros nomes do cenário musical jovem como Di Ferrero, do NXZero e Chorão, do Charlie Brown Jr.

Inspirados no site estadunidense The Onion, os autores escrevem matérias fictícias de uma maneira super séria, o que confunde ainda mais os leitores. Mas é óbvio, tudo não passa de grandes e inteligentes brincadeiras que eles fazem com a nossa realidade.

Vale a pena entrar e conferir. E o melhor de tudo, é que você pode clicar aqui e fazer isso agora mesmo. Boa leitura.


“Dicionário do Palavrão” coloca Jorge Amado no topo da literatura “boca-suja”

dicionario     Entre os escritores mais lidos da literatura brasileira, o romancista baiano Jorge Amado (1912-2001) é um dos que mais usa o palavrão em sua vasta obra literária.
     A informação, obtida pelo folclorista pernambucano Mário Souto Maior (1920-2001) durante sua pesquisa para elaborar o “Dicionário do Palavrão e Termos Afins” (Editora Leitura), consta no glossário.
     Souto Maior percorreu várias regiões do país para ajudar o brasileiro a entender a origem dos vocábulos impróprios. Distribuiu 8.000 formulários para penetrar em todos os cantos do país e consultou pessoas de diferentes níveis intelectuais, das mais variadas idades e condições econômicas.
     Cinco anos de pesquisa renderam mais de 3.000 verbetes, tidos como chulos. O pernambucano entrevistou várias fontes e leu mais de 200 romances para finalizar o exemplar.
     Falando em romances, Amado não é o único intelectual que tem lugar garantido em cada letra do alfabeto. José Lins do Rego (1901-1957), Gilberto Freyre (1900-1987) e Oswald de Andrade (1890-1954), por exemplo, também figuram entre os “bocas-sujas” letrados.
     Publicado originalmente em 1974, com prefácio assinado por Freyre, o dicionário sofreu censura dos militares. O compêndio foi lançado na década de 1980, durante o governo de João Figueiredo (1918-1999). A primeira edição esgotou rapidamente. O poeta Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) chegou a defender o glossário publicamente na edição de 20 de março de 1980 do “Jornal do Brasil”.
     À época, a pesquisa revelou que muitos brasileiros acreditavam que o escritor baiano usava o palavrão no momento certo, sem abusar. “Merda”, o palavrão mais utilizado pelos franceses, também era o mais utilizado pela população do país.
     A Livraria da Folha selecionou cinco palavrões colhidos por Souto Maior na obra literária de Amado. Reproduzimos conforme o “Dicionário do Palavrão e Termos Afins”.
- Dar a maricotinha: O mesmo que dar o cu, ato de pederastia passiva (Bahia). “O demais que tinha praticado Severina exatamente para impedir que ele lhe tirasse os tampos: onde o reverendo Frei ouvira dizer que tomar no cu era o mesmo que dar a maricotinha?” [AMADO, Jorge. Tocaia Grande. Rio de Janeiro, Record, 1984, p. 457].
- Fechar a cancela: Aposentar-se sexualmente (Nordeste). “Já fechou a cancela, Boa Vida” [AMADO, Jorge. Capitães de Areia, (3ª ed.). São Paulo, Martins, 1945, p. 93.]
- Levanta cacete: Mulher bonita, benfeita de corpo, sexy (Nordeste). “Até onde a memória alcança, as mulheres da família eram de encher o olho e de levantar cacete de morto” [AMADO, Jorge. Tereza Batista Cansada de Guerra. São Paulo, Martins, 1972, p. 43].
- Papar: Comer, ter relações sexuais (Nordeste, Sul). “Os aposentados e retirados dos negócios a viam e desejavam: – E o senhor, comandante, papou?” [AMADO, Jorge. Os Velhos Marinheiros (9ª ed.). São Paulo, Martins, 1961, p. 109].
- Zebedeu: Órgão sexual masculino (Bahia). “As raparigas, à la vontè, umas seminuas, outras em pelo, esfregavam trapos, banhavam-se, esquecidas em vadio converse. Atarantado, o adolescente não soube o que fazer nem como impedir o zebedeu de crescer sozinho na braguilha” [AMADO, Jorge. Tocaia Grande. Rio de Janeiro, Record, 1981, p. 241].
Sinopse
     Não se trata de um livro de palavrões, mas de uma das mais completas pesquisas dentro da sociolinguística e a mais completa acerca do uso de palavrões e termos afins da Língua Portuguesa. Este aspecto do dicionário é bastante ressaltado na apresentação do livro produzida pelo jurista Eliézer Rosa. Que diz tratar-se de “um levantamento da gíria, da linguagem especial, ou, talvez, de uma língua especial de minorias; de palavras, expressões e modismos que fazem parte da linguagem do povo”.
     O volume apresenta os palavrões característicos de todas as regiões do país. Ou seja, ele nacionaliza a cultura popular, levando o palavrão típico do Amazonas ao conhecimento da população do Rio Grande do Sul. E quem nunca ouviu dizer que o uso do palavrão é necessário para evitar o enfarte do miocárdio e descarregar o homem de tensões emocionais?


“Quando o jogo está a mil, minha naftalina sobe”

Olá moçada… Nesses tempos de Copa do Mundo, todo planeta volta seus olhos para o futebol. E com a proposta de apresentar periodicamente aqui no les!, neste período, postagens que envolvam temas relativos ao mundial, lembrei-me de um email que circula pela web, com frases atribuídas a pessoas ligadas ao esporte.

É óbvio que não chequei a autenticidade das pérolas. Não é necessário, pois num blogue sobre Literatura, “verdade” não é antônimo de “mentira” e sim de “ficção”. Portanto, mesmo que seja mentira, vamos dar boas risadas durante a leitura.

Preparados? Vamos a elas:


“Que interessante, aqui no Japão só tem carro importado”. (Jardel, ex-atacante do Grêmio)

“A partir de agora, o meu coração só tem uma cor: vermelho e preto”. (Jogador Fabão, assim que chegou ao Flamengo)

“Eu, o Paulo Nunes e o Dinho vamos fazer uma dupla sertaneja”. (Jardel, ex-atacante do Grêmio)

“Tenho o maior orgulho de jogar na terra onde nasceu Jesus Cristo”. (Claudiomiro, ex-meia do Internacional, ao chegar a Belém do Pará para disputar uma partida contra o Paysandu, pelo Brasileirão de 72)

“Nem que tivesse dois pulmões, eu alcançava essa bola”. (Bradock, reclamando de um passe longo)

“A bola ia indo, indo, indo... e iu”! (Nunes, jogador do Flamengo, da década de 80)

“No México que é bom. Lá, a gente recebe semanalmente de 15 em 15 dias”. (Ferreira, ex-ponta esquerda do Santos)

“Quando o jogo está a mil, minha naftalina sobe”. (Jardel, ex-atacante do Vasco, Grêmio e da Seleção)

“O meu clube estava à beira do precipício, mas tomou a decisão correta: deu um passo à frente”. (João Pinto, jogador do Benfica de Portugal)

“Na Bahia, é todo mundo muito simpático. É um povo muito hospitalar”. (Zanata, baiano, ex-lateral do Fluminense, ao comentar sobre a hospitalidade do povo baiano)

“Chegarei de surpresa dia 15, às duas da tarde, voo 619 da Varig”. (Mengálvio, ex-meia do Santos, em telegrama à família, quando em excursão à Europa).

“Tanto na minha vida futebolística quanto na minha vida ser humana”. (Nunes, ex-atacante do Flamengo, em uma entrevista antes do jogo de despedida do Zico)

“Eu peguei a bola no meio de campo e fui fondo, fui fondo, fui fondo e chutei pro gol”. (Jardel, ao relatar ao repórter o gol que tinha feito)

“Jogador tem que ser completo como o pato, que é um bicho aquático e gramático”. (Vicente Matheus, eterno presidente do Corinthians)

“O difícil, como vocês sabem, não é fácil”. (Vicente Matheus)

“Haja o que hajar, o Corinthians vai ser campeão”. (Vicente Matheus)

“O Sócrates é invendável, inegociável e imprestável”. (Vicente Matheus, ao recusar uma oferta dos franceses).




Verissimo e o mistério do futebol

MISTÉRIO DO FUTEBOL - Luis Fernando Verissimo

Começa quando a gente é criança. Quando qualquer coisa - até o corredor da casa - é um campo de futebol e qualquer coisa vagamente esférica é a bola. Se é genético, não se sabe. Um brasileiro criado na selva por chimpanzés, quando se pusesse de pé, começaria a fazer embaixadas com frutas, mesmo sem saber o que estava fazendo? Não se sabe.

Nenhum prazer que teremos na vida depois, incluindo a primeira transa, se iguala ao prazer da primeira bola de verdade. Autobiografia: sou do tempo da bola de couro com cor de couro. A oficial, número 5. Ganhei a minha primeira com cinco ou seis anos. Ainda me lembro do cheiro. Depois de ganhá-la, você ficava num dilema: levá-la para a calçada e começar a chutá-la, ou preservar o seu couro reluzente? Uma bola futebol de verdade era uma coisa tão preciosa que se hesitava em estragá-la com o futebol.

Futebol de calçada. O tamanho dos times variava. De um para cada lado a 14 ou 15 para cada lado. Duração das partidas: até escurecer ou a vizinhança reclamar, o que acontecesse primeiro.

Nada interrompia as partidas. Ninguém saía. Joelho ralado, a mãe via depois. Gente passando na calçada que se cuidasse. Só se respeitava velhinha, deficiente físico e, vá lá, grávida. Os outros não estavam livres de ser atropelados. Quem mandara invadir nosso campo?

Comparado com calçada, terreno baldio era estádio. E terreno baldio com goleiras, então, era Maracanã. As goleiras podiam ser feitas com sarrafos ou galhos de árvore. Não importava, eram goleiras. Um luxo antes inimaginável.

O prazer de acertar um chute no ângulo da goleira. Qualquer goleira. O que pode se comparar, na experiência humana? Ou na experiência humana de um brasileiro?

Todos estes prazeres passam - com o tempo e as obrigações, com a vida séria, com a barriga - mas o amor pelo nosso time continua. Confiamos ao nosso time a tarefa de continuar nossa infância por nós. Passamos-lhe a guarda dos nossos prazeres com a bola. A relação com o nosso time é a única das nossas relações infantis que perdura, tão intensa e irracional quanto antes. Ou mais.

De onde vem isso? Que tipo de amor é esse? Um mistério. Dizem que no fundo é uma necessidade de guerra. De ter uma bandeira, ser uma nação e arrasar outras nações, nem que seja metaforicamente. Psicologia fácil. Não explica por que a pequena torcida do Atlético Cafundó, que nunca arrasará ninguém, continua torcendo pelo seu time. Talvez o que a gente ame no futebol seja o nosso amor pelo futebol. Isso que nos faz diferentes dos outros, que amam o futebol mas não tanto, não tão brasileiramente.

Ou talvez o que a gente ame seja justamente o mistério.


Texto publicado no Jornal MARCA DA CAL, abril de 2007.


Uma entrevista exclusiva com a escritora Drica Bitarello, autora da saga Radegund


O blog Literatura éshow! apresenta hoje uma entrevista com a escritora Drica Bitarello. Natural da cidade de Juiz de Fora-MG, Drica é autora da saga Radegund, uma série de livros épicos medievais. São 6 títulos: o primeiro, O reino dos céus, já foi publicado através do Clube dos Autores e conta com excelentes resenhas no Skoob. O próximo já está a caminho, é Fogo vermelho, a ser lançado em julho de 2010. A saga conta ainda com os títulos A Cruz e o Crescente, O Despertar do Dragão, Corações Sombrios e Senhora dos Dragões que em breve povoarão as livrarias do país e de lá, para as nossas estantes, para nossa vida de leitor. Leia e se delicie:



lés!: Em primeiro lugar, Drica, fale um pouco de você. Quem é Drica Bitarello hoje?
Drica Bitarello: A Drica hoje é a criatura que trabalha em média 14 a 16 horas por dia, entre o “trabalho de gente normal” e o trabalho com a literatura, que envolve não só meus livros, como também artigos para blogs, sites e resenhas de livros de outros escritores. Tem também a parte mãe-pai-mecânico-encanador-eletricista-e-etc, rsss. (na verdade, o “etc” é que acaba comigo...). No fim das contas, a Drica é feliz.

lés!: E quanto à Drica Bitarello leitora? Quando ela surgiu dentro de você?
Drica Bitarello: Acho que a leitora nasceu comigo, dentro de mim. Ler sempre foi muito natural, e minha curiosidade sempre alimentou esse hábito, que acabou virando um vício saudável. Talvez seja algo “genético”, porque minha mãe sempre leu muito; havia sempre um livro na cabeceira dela. E lá em casa os livros estavam sempre à disposição, na estante. Então, num momento livre qualquer, era só pegar um, sentar num canto e me deixar levar.

lés!: A Drica escritora nasce a partir de quando?
Drica Bitarello: A escrita veio devagar, a medida que os livros que eu lia não comportavam mais minha própria imaginação. Mas posso estabelecer como marco um trabalho de Literatura que uma professora - o nome dela era Beth, nunca esqueço - passou para minha turma - 5ª ou 6ª série, não me lembro bem. Cada um de nós deveria escrever um livro, sobre o assunto que mais lhe interessasse. No fim do semestre esse livro seria apresentado numa feira, na escola. Eu levei aquilo super a sério e criei uma história de ficção científica mirabolante (como toda criança dos anos 80 eu era VI-DRA-DA em sci-fi!). No fim das contas meu livro ficou enorme, tinha capa, ilustrações e o diabo a quatro. E eu o tenho até hoje aqui comigo.

Bom, depois dessa aventura, fui desenvolvendo a escrita aos poucos. Enchia cadernos e mais cadernos com contos, enredos e até poesias. E com a chegada da Internet e dos fóruns, acabei expondo o que eu escrevia. Com a exposição, comecei a levar mais a sério a literatura e a perceber que eu realmente tinha jeito pra coisa.

lés!: Para você, Drica, escrever é uma opção ou uma necessidade?
Drica Bitarello: Hoje é uma necessidade, uma paixão, um vício. Tenho a impressão de que, se eu parar de escrever, eu vou murchar como uma planta seca. É a minha vocação.

lés!: E o ato de escrever te faz melhor como ser humano?
Drica Bitarello: Sem dúvida. Escrever amplia os horizontes, principalmente quando você lida com a História. Desenvolve seu entendimento de uma forma mais ampla, abrangente, e te faz mais tolerante com as mazelas do ser humano.

lés!: Quais foram os grandes nomes da Literatura que influenciam a sua obra?
Drica Bitarello: William Shakespeare é meu pai e minha mãe. Bebo sem pudor nenhum na fonte do velho Bill. Ninguém soube expor e explorar como ele as nuances do ser humano, suas misérias, suas mesquinharias, bem como suas qualidades e seus talentos.

Depois dele tem vários outros que me inspiram e atraem. Eça de Queiroz, Alexandre Dumas, Robert E Howard, Edgar Allan Pöe. Dos mais recentes, tem Marion Zimmer Bradley, Tariq Ali, Kate Mosse e Jan Guillou.

Na verdade, acho que tudo que eu li ao longo da vida acaba, de um jeito ou de outro, servindo como ingrediente do que eu escrevo. Como sou muito curiosa, já li de tudo um pouco, desde Sócrates, passando por Camões e acabando em Tolkien. O difícil é me segurar num gênero só!

lés!: Como é o seu processo de escrita? Quanto tempo do seu dia você se dedica a essa atividade?
Drica Bitarello: Meu processo começa sempre com a idéia, o insight inicial. Ele me dá o foco e o objetivo que eu quero atingir. A partir dele começo a desenvolver o enredo. Na maioria das vezes faço isso por tópicos, e nem sempre obedecendo a uma cronologia dentro da história que estou escrevendo. Já houve ocasiões em que eu sabia o final da história sem nem mesmo ter escrito seu começo. Quanto ao tempo dedicado, ele é variável. A média é de umas duas horas por dia. Mas quando estou de férias, ou no meio de um “surto criativo”, posso virar a madrugada escrevendo. Também acontece o contrário, de passar dias sem conseguir escrever nada, num marasmo total. Geralmente isso ocorre quando estou mentalmente cansada. Daí, até para ler fica difícil, porque a concentração vai abaixo de zero.

lés!: É fácil para você decidir o momento exato em que o texto está pronto para se publicado?
Drica Bitarello: Não. É difícil demais, porque pro autor o texto NUNCA está pronto. Eu comparo a publicação de um livro com a primeira vez em que você deixa teu filho ir pra escola sozinho. Você sabe que precisa deixá-lo ir, mas quer ir andando atrás, pra saber se vai pelo caminho certo. No fundo, quando o autor publica um texto, ele abre mão daquilo que tinha até então sobre sua obra: o controle total. É praticamente abrir mão de um reino.

lés!: Queria que você apresentasse aos leitores do lés! a “saga Radegund” e, de maneira especial, o primeiro livro, O Reino dos Céus.
Drica Bitarello: A saga Radegund é uma série de livros épicos medievais, onde quem conduz a história é Radegund. No primeiro livro ela aparece, durante boa parte do tempo, sob o disfarce de um soldado franco, que combate junto às forças cristãs na Palestina. A vida dela começa a mudar quando abre mão da solidão em que sempre viveu e estende a mão a duas pessoas em perigo. Uma jovem sarracena e um cavaleiro mestiço que serve aos cristãos. Essa jovem, Leila, é quem primeiro descobre quem é Radegund. O Reino dos Céus é ambientado entre 1187 e 1188, começando às vésperas da retomada de Jerusalém pelos muçulmanos, liderados pelo lendário sultão Saladino. Nele, além de Radegund, apresento Leila, a jovem e voluntariosa moça muçulmana, criada numa redoma pelo pai e obrigada a enfrentar a dura realidade quando a cidade cai sob o cerco do sultão; Ragnar, o mercenário norueguês, que fugiu de sua terra por guardar um perigoso segredo e Mark al-Bakkar, o cavaleiro mestiço de passado obscuro e homem de confiança do defensor de Jerusalém, Balian de Ibelin. Além das tramas paralelas, que envolvem intrigas, aventura, uma pitada de fantasia e muito romance, existe a aliança que surge entre Mark e Radegund. Uma amizade que vai se tornando cada vez mais profunda e que se entrelaça, ao longo dos seis livros da saga, a todos os outros acontecimentos.

lés!: Você ambienta suas histórias na Idade Média, uma época bem distante da nossa. Você defende a utilização da Literatura como uma forma de fuga, evasão?
Drica Bitarello: Não necessariamente. Posso ler algo sobre a Idade Média, mas que tenha um estreito relacionamento com fatos que ocorrem hoje em dia, como é o caso do próprio período das Cruzadas. Sua influência perdura até hoje e nele - e ainda mais além - estão as raízes dos conflitos atuais do Oriente Médio. Para que se tenha uma idéia, Saladino - que morreu em março de 1193 - é, ainda hoje, um herói nacional entre os muçulmanos.

Existem, claro, momentos em que você vai ler só pra se distrair, para curtir. Eu pego um romance chick-lit, por exemplo, bem basicão, e leio bem relaxada, sem maiores sobressaltos, só pra dar uma desopilada. Mas nem sempre o tipo de literatura que você consome vai definir esse objetivo, essa fuga. Creio que passa mais por você, por como você processa e entende a informação, do quanto você vai estar a fim, naquele momento, de “levar a sério” ou não.

lés!: J.K. Rowling, Stephenie Meyer, Meg Cabot… O que falta para Drica Bitarello entrar para turma das grandes escritoras que fazem sucesso com o público jovem?
Drica Bitarello: Nossa, sei lá. De repente, se eu descubro, consigo entrar nesse nicho também! kkkkk

lés!: Essa preferência dos jovens pela Literatura estrangeira te causa alguma preocupação?
Drica Bitarello: Não creio que seja uma preferência, mas sim, uma saturação. O autor estrangeiro está mais presente porque já foi “testado e aprovado” lá fora. Ele vende, então, a editora investe. Lógico que, com isso, o grande público perde ótimos autores nacionais que estão aí, com seus livros na prateleira e dando um banho de talento. Nós estamos tentando mudar essa visão, e o advento da Internet e do self-publishing veio exatamente dar uma sacudida nesse marasmo. Os autores estão subindo a tona, abrindo o caminho na porrada e dizendo; “Ei, estamos aqui e apesar de vocês editores fazerem de conta que não existimos, nós vendemos sim! E muito!”.

lés!: E qual a sua relação com a Literatura nacional?
Drica Bitarello: A Literatura Nacional está presente demais na minha vida. Sou da geração que curtiu a famosa coleção Vaga-Lume, que leu Lygia Fagundes Telles, Lucília Junqueira de Almeida Pardo, Marcos Rey, entre outros. Cresci com as histórias desses autores, curti as coleções de bolso que a Ediouro lançava na década de 80. Carlos Drummond de Andrade ainda era vivo e produtivo, e não apenas uma estátua na beira da praia e referência pro vestibular. Li de tudo. Ariano Suassuna, Chico Buarque, Marcelo Rubens Paiva... Cara, é tanta coisa! Tem muito autor bom aqui no Brasil, é só fuçar nas estantes das livrarias que você encontra. E uma sugestão que eu faço é visitar o blog de nosso projeto de incentivo e divulgação dos autores nacionais, o Desafio Nacional: http://desafio-nacional.blogspot.com/.

lés!: Você disse que lia bastante na sua juventude. O que os jovens leitores de hoje têm e que os de ontem não tinham?
Drica Bitarello: A saga Crepúsculo, kkkkk! Mas, falando sério, hoje se tem mais acesso aos livros, e maior variedade a disposição. A modernização das editoras barateou os custos das publicações. Além disso, a Internet é uma via fantástica de divulgação de novos autores e pressão sobre as editoras. Quer um exemplo? J.R. Ward e a Irmandade da Adaga Negra. Os livros dela eram ilustres desconhecidos aqui no Brasil. Até que as leitoras de fóruns especializados começaram a traduzir os e-books do inglês para o português. E a coisa foi tomando vulto, foi sendo difundida, ficando famosa, até que uma editora se interessou e comprou os direitos. Os dois primeiros livros foram lançados esse ano e, provavelmente, o terceiro da saga vai sair ainda em 2010. Então, ao meu ver, os jovens leitores de hoje tem muito mais voz e influência sobre o que se publica do que os de 10, 20 anos atrás.

lés!: Queria que você me apontasse o contrário, agora. O que a Literatura de ontem trazia de bom que a de hoje não traz.
Drica Bitarello: A literatura hoje tem um fundo profundamente erótico, sensual. Os livros que eu lia na época da adolescência não tinham esse toque, eram de uma ingenuidade gritante, inocentes mesmo. Hoje, quando a sexualidade deixou de ser tabu para a maioria das pessoas, fica muito mais fácil colocar uma cena mais picante num livro do nicho jovem-adulto, que a gente chama de YA-Book. Isso, na década de 80, seria impensável.

lés!: Você consegue listar os 10 livros mais importantes na sua vida? Quais são eles?
Drica Bitarello: Uau. Acho que consigo dizer os mais marcantes.

1 - Macbeth - W. Shakespeare
2 - O Príncipe - Niccoló Macchiaveli
3 - Terra dos Homens - Antóine de Saint Exupéry
4 - Os Miseráveis - Victor Hugo
5 - O Conde de Monte Cristo - Alexandre Dumas
6 - As Brumas de Avalon - Marion Zimmer Bradley
7 - O Primo Basílio - Eça de Queiroz
8 - Agosto - Rubem Fonseca
9 - Sombras da Romãzeira - Tariq Ali
10 - Rei Lear - W. Shakespeare

lés!: Como você avalia, hoje, o ensino de Literatura nas escolas?
Drica Bitarello: Estou um pouco distante do que é usado hoje em sala de aula. Se for me basear pela escola do meu filho, que tem 10 anos, eu diria que é razoável. A escola dele tem clubes de leitura, em que as crianças trocam livros entre si e montam um blog com as impressões sobre os livros que leram. Mas não tenho uma visão ampla o suficiente para formar uma opinião. A única coisa que eu percebo é que o (mau)ensino da Língua tem comprometido a qualidade da leitura e da escrita. Isso é gritante.

lés!: Em média, quantos livros você lê por mês?
Drica Bitarello: 5 ou 6 quando estou trabalhando. Durante as férias devoro uns 15 fácil.

lés!: Existe alguma pergunta importante sobre Drica Bitarello que ainda não foi feita nesta entrevista? E se houver, obviamente, qual a resposta?
Drica Bitarello: Como foi que a Drica veio parar no blog do Zé Ricardo?
Ele errou meu nome no Skoob! kkkkkkkkk

lés!: Pra terminar, Drica, só mais uma perguntinha: Por que Literatura é show?
Drica Bitarello: Porque o livro te dá uma liberdade que nenhum outro veículo ou meio de comunicação é capaz de fornecer. E liberdade de pensamento e expressão é mais do que show, é MARA!


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Para ler o primeiro capítulo de O reino dos céus, clique aqui:
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UFU 2011: Raduan Nassar, o genial escritor que foi criar galinhas

Conheça um pouco sobre RADUAN NASSAR e sua obra Menina a caminho, selecionada pela UFU para os processos seletivos e 2011 e para a 3ª etapa do PAAES:

Para ter acesso à lista completa, clique aqui.


Ao acompanhar os passos da “Menina a caminho” pelas ruas de uma cidade do interior, o leitor ficará seduzido com ela pela sucessão de situações corriqueiras. Como a menina da narrativa, estará caminhando rumo a um desfecho que recupera dramaticamente o que se encontrava disperso ao longo daquele trajeto.

Primeiro trabalho de Raduan Nassar, escrito no início dos anos 60, só em 1997 “Menina a caminho” saiu em edição comercial, ao lado de textos escritos nos anos 60 e 70.
“Mãozinhas de seda”, que integra a coletânea, foi escrito especialmente para o segundo número dos Cadernos de Literatura Brasileira (IMS), quando Raduan Nassar foi tema da revista. O texto não foi publicado pelos Cadernos a pedido do autor.

Para saber mais sobre Raduan Nassar, clique na foto acima.


Uma entrevista com Luís de Camões

Olá alunos e leitores do Literatura éshow! Encontrei este texto na Internet e gostaria de compartilhá-lo com vocês. Trata-se de um trabalho escolar realizado em Portugal numa série correspondente ao nosso Ensino Médio. Os alunos tinham que apresentar a lírica camoniana através de uma entrevista fictícia com o próprio Luís de Camões. E como o trabalho foi publicado antes do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa, mantivemos a ortografia dos nossos colonizadores. Aproveitem bastante a leitura:

Jornalista (J) – Luis de Camões, desde já, gostaríamos de agradecer a sua simpatia e disponibilidade e por ter aceite o nosso convite para responder a algumas perguntas que julgamos essenciais para uma melhor compreensão da sua Poesia. Interessa-nos particularmente, a Lírica Camoniana. Assim, começaríamos por lhe perguntar quais as razões que o levaram a apresentar o ideal da Mulher em verso.
Luís de Camões (LC) – Eu é que vos agradeço! Não imaginam o prazer que é falar convosco! Ultimamente, melhor, nos últimos séculos, não me tem sido possível falar muito, como compreendem! Bem, agora vamos às vossas perguntas, ou melhor às respostas que esperais de mim. Escolhi o verso, como forma de expressão, porque não há nada tão simples como os versos. Além disso, queria que as minhas ideias sobre este tema tivessem um estilo grandioso e nada melhor do que poesia para conseguir aquilo a que me havia proposto.

J – Em que é que se baseou e quem o influenciou na descrição e idealização da Mulher perfeita?
LC – Ah, a Mulher, esse eterno alvo das minhas paixões e das minhas tristezas! Na verdade, poderei dizer que a minha poesia faz aquilo a que chamais a síntese do antigo e do novo, já que sofri algumas influências da lírica tradicional portuguesa,do grande Sá de Miranda, e da lírica clássica. Posso afirmar que Petrarca, um grande poeta italiano da época do Renascimento, me influenciou bastante! Este poeta teve a capacidade, a Visão de criar um modelo de mulher perfeita com várias características, cujas raízes têm origem nos trovadores provençais. Foi nesse mesmo modelo que me baseei para criar os meus poemas.

J – Que características são essas de que fala?
LC – A idealização da Mulher concretiza-se, sobretudo, em retratos em que a mulher é ausente e surge divinizada e inacessível, dona de uma beleza estereotipada, de onde sobressaem os cabelos de ouro; o olhar indefinido, mas doce; o gesto suave; o sorriso honesto, doce e vago. É uma mulher que se pauta pela perfeição e pureza, cuja beleza se reflecte na natureza. Esta visão da mulher traduz, também, a concepção Platónica de um amor ideal e inacessível. Algumas das composições poéticas que patenteiam as temáticas acabo de enunciar são “Ondados fios de ouro reluzente” e “Um mover d’ olhos, brando e piedoso”.

J – A sua lírica, a chamada Lírica Camoniana, oferece uma riqueza considerável de temas para além da idealização da Mulher. Quer falar-nos desses temas?
LC – Fá-lo-ei com enorme gosto! É sempre muito gratificante poder falar com jovens como vós, tão interessados na minha poesia. Vejamos então!
Os temas presentes na minha lírica são o galanteio ou o encarecimento amoroso, mais ou menos circunstancial; os temas psicológicos, geralmente em torno da paixão amorosa e os temas filosóficos, tais como o desajustamento entre o Merecimento e a Fortuna, entre o direito à felicidade e o gozo dela, entre a justiça aparente e a justiça transcendente ( o desconcerto ).
Estes temas não são originais, porque fazem parte das inquietações de outros. Eu apenas acrescento o meu toque pessoal, resultado das minhas vivências, num tom intenso, emocionado e vivido! Como sabem, a minha vida foi toda ela um imenso “mar de experiências”! É sabido que tive uma uma vida intensa de experiências, muitas paixões que, inclusivé, me permitiram exprimir a beleza carnal e, mais sugestivamente, a emoção erótica! Sim, é verdade, há erotismo nos meus poemas. Na verdade, todas estas experiências fizeram com que a minha poesia, ao contrário da de Petrarca, não pareça isolada do mundo.Pelo contrário, os meus poemas são agitados por impulsos, impaciências, desesperos, causados não pelas contradições íntimas do sentimento amoroso mas pela interferência de factores externos a mim como por exemplo o ciúme, o remorso, a desigualdade social, a ausência e a inexorável marcha do tempo que impossibilita o regresso aos momentos felizes.

J - Como descreve o Amor na sua poesia?
LC - Ah, quanto vos agradeço darem-me a oportunidade de poder falar do Amor, esse sentimento que entusiasma o homem, tornando-o capaz de atingir o Bem, a Beleza e a Verdade. É também um sentimento de significado contrário à própria natureza. Por um lado, o Amor é manifestação do espírito, por outro é manifestação física. Para mim, definitivamente, o Amor deve ser experimentado, deve ser sentido e não apenas mental, um sentimento de pensamento.

J - Pensa, então, que o Amor é algo complexo.
LC - Sem dúvida! Na minha poesia lírica, tento transmitir a ideia de que o Amor só vale a pena quando é complexo, e contraditório. No fundo, como diz um colega meu, não sei se conhecem, Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a Alma não é pequena”. Tal como no Amor!
No entanto, há uma diferença entre os meus poemas mais antigos, Medida Velha,nos quais me aproximo mais da poesia popular medieval. Na Medida Nova, nota-se uma aproximação aos grandes vultos da literatura clássica.

J - Fale-nos um pouco mais da Medida Velha e da Medida Nova, por favor.
LC - Bem, dir-vos-ei que na lírica camoniana coexistem a poética tradicional, herdada da poesia trovadoresca e do Cancioneiro Geral, e o estilo renascentista, introduzido em Portugal por Sá de Miranda, esse vulto maior da cultura portuguesa.
Relativamente à poesia da medida velha, também conhecida como corrente tradicional, poder-se-á referir que as formas predominantes são as redondilhas e as composições poéticas o vilancete e a cantiga. Ao nível do conteúdo, irão encontrar os temas tradicionais e populares:a menina que vai à fonte; o verde dos campos e dos olhos; o amor simples e natural, a saudade e o sofrimento; a dor e a mágoa; a exaltação da beleza de uma mulher de condição servil, de olhos pretos e tez morena; o amor platónico. Algumas das composições poéticas que sustentam as afirmações enunciadas são “Descalça vai para a fonte”, “Se Helena apartar”, “Aquela cativa”, entre outras.
No que diz respeito à poesia da medida nova ou corrente renascentista, poder-se-á aludir ao facto de a forma predominante ser o verso decassilábico e a composição poética, o soneto. Ao nível do conteúdo, encontram-se variados temas ligados não só ao amor e à mulher, como também à mudança e ao desconcerto do mundo, caminhando para pior,sempre para pior, com os valores morais a inverterem-se e a perderem-se: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, lembram-se?
Em suma, meus amigos, a minha poesia tenta ser uma poesia humanista, preocupada com os grandes problemas do ser humano que, como vêem, já existiam e me inquietavam há 500 anos.
Agora meus amigos, já estou um pouco cansado. Se não se importam e se me permitem, retiro-me! Faz-se tarde e tenho de voltar aos Jerónimos. Sabem que vivo nos claustros dos Jerónimos? Um pouco frio no Inverno mas muito agradável no Verão! Venham visitar-me, apareçam!

J - Caro Luís de Camões, foi uma honra e um privilégio ter-nos dado a oportunidade de estar à conversa com aquele que consideramos o poeta de todos os protugueses.
LC - Eu é que agradeço! Ah, é verdade, digam aos vossos governantes que ficarei muito triste se um dia deixarem de dizer os meus poemas nas vossas escolas!
J - Não se preocupe, daremos o seu recado e conte connosco para a divulgação da sua Imensa Obra!


Siga @millorfernandes e veja a literatura sendo criada em tempo real, ainda suja de placenta

Hoje quero dar uma sugestão de leitura diferente. Uma sugestão que não está no gibi, nem no livro, nem em revistas ou jornais, e sim aqui na internet. Mais propriamente, no Twitter. A Revista Época desta semana traz uma longa matéria (com direito a capa!) sobre as redes sociais no Brasil, analisando se realmente vale a pena fazer parte delas. Quero, modestamente, dar minha contribuição sobre o assunto.

Na minha opinião, sim, vale a pena. É claro que (como tudo nesta vida) com moderação. E o que mais chama a atenção do grande público, especificamente no Twitter, é a possibilidade de seguir seus ídolos e ver o lado “real” dessas grandes celebridades. Eu, particularmente, já deixei de gostar de algumas pessoas depois de conhecê-las mais de perto. Mas encontrei também muita gente boa, e me encantei mais e mais com alguns que eu já conhecia. E entre estas últimas, está Millôr Fernandes.

Eu já conhecia o Millôr do Pasquim, o das “Fábulas fabulosas”, o Millôr da Revista Veja, o dos jornais, o das charges incríveis ("Jovem, cumpra seu dever! A corrupção precisa de você!”) e muitos outros “Millôres” dos quais não consigo me lembrar. E agora, ando encantadíssimo com o Millôr Fernandes do Twitter. Sugestão do Faustão (quem disse que não existe algo de útil na TV de domingo à tarde?).

Sempre que aparece em minha página um tweet do @millorfernades vou logo correndo pra ler. E me sinto próximo de uma Literatura que acabou de nascer. Que ainda está suja de placenta poética. São reflexões, aforismos, grandes sacadas que futuramente poderão ser compiladas numa espécie de “Antologia Tweetica de Millôr Fernandes”. E mesmo que em alguns momentos as sacadas não sejam tão geniais (o que evidentemente pode acontecer) creio que já vale a pena acompanhá-las. Até porque (pensando nessa “antologia”) quem de nós não tem curiosidade em ler o que os autores NÃO publicam?

Fica aqui a sugestão. Que meus alunos e leitores possam, como eu, aprender um pouco mais sobre a vida com esse grande nome das nossas artes. Se você tem um perfil no Twitter, dê um “follow” em @millorfernades. Se não tem, faça! E comece seguindo esse grande cara. Vale a pena!

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Para visualizar o perfil de Millôr Fernandes do Twitter, clique aqui.

Para visitar o site oficial de Millôr, clique aqui.

Para ler a biografia de Millôr Fernandes do site Releituras, clique aqui.

Para acessar a versão eletrônica da coluna “O Pif-Paf” na revista “O cruzeiro”, clique aqui.

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Tirando os sapatos da alma e voando nas asas delicadas da Poesia

Hoje quero sugerir algo diferente aos meus leitores: um programa de rádio. Não se assuntem! Isso NÃO é coisa do passado. Até porque, ele pode ser ouvido através da Internet. Trata-se do programa Poesia nas asas do tempo que vai ao ar às quintas-feiras, 20h, pela FM Universitária de Uberlândia (107.5), com apresentação do jornalista Márcio Alvarenga e do Jogral Qualquerlua.


Durante uma hora, o “Jogral Qualquerlua - por amor à poesia” nos apresenta textos dos mais variados autores e períodos da Literatura universal, através de declamações muito bem produzidas, com uma excelente trilha sonora. É um momento para tirar os sapatos da alma, relaxar, esquecer dos problemas e realmente deixar-se levar pelas asas do tempo, pelas asas delicadas da poesia. Não tem como não se encantar...

O Jogral existe há dez anos e é composto por pessoas das mais variadas profissões e que têm em comum um amor incondicional à arte da palavra. Eles também fazem apresentações públicas em eventos pela região, alimentando a alma de inúmeras pessoas que talvez estejam tendo o seu primeiro contato com a poesia. A essência do trabalho realizado pelo Qualquerlua está na página inicial de seu site:

A poesia não reclama espaço nem tempo para comparecer, ao lado de outras manifestações culturais, no concerto existencial de qualquer época. A poesia sempre existiu e sempre atuou como forma de manifestação do belo, sua função mais esperada, mas também de forma opinativa, sem jamais abdicar da linguagem que lhe é própria. Pode parecer que a poesia está ausente do cotidiano. Mas não. A poesia está simplesmente situada em espaços próprios, onde pode se mostrar de diferentes maneiras aos seus apreciadores. O “Jogral Qualquerlua” vem proporcionar um desses espaços.

Ouça o programa, visite o site, conheça esse pessoal. Valorize aqueles que valorizam a poesia.

E aproveitando a oportunidade, fica aqui mais um conselho: não espere chegar quinta-feira para ouvir a Rádio Universitária PHD (Programação Híper Dinâmica). Clique aqui ou ouça através do site.

Para acessar o site do Jogral Qualquerlua, clique aqui.


 
ANOTE AÍ:
Quinta - 20h
A poesia nas asas do tempo
FM Universitária de Uberlândia - 107.5
Para ouvir, clique aqui.


Artistas celebram Salvador através de xilogravura e literatura de cordel

O dia-a-dia do povo baiano é contado por artistas por meio da xilogravura. Saiba mais sobre o trabalho de Franklin Machado, cuja poesia é entalhada na madeira, e do alemão Hansen Bahia.




Para saber mais sobre a arte da Xilogravura, clique aqui.


Um vídeo do programa Via Brasil, da Globo News.


Ferreira Gullar é agraciado com o maior prêmio da Língua Portuguesa

O poeta e dramaturgo brasileiro Ferreira Gullar (1930) é o vencedor do Prémio Camões 2010. Este é o prêmio de maior prestígio de língua portuguesa.

Ferreira Gullar é o escritor premiado que se segue ao cabo-verdiano Arménio Vieira e, nos anos anteriores, ao brasileiro João Ubaldo Ribeiro (2008) e ao português António Lobo Antunes (2007). Ferreira Gullar é o nono brasileiro a ganhar o Prémio Camões, depois de João Cabral de Mello Neto, Rachel de Queiroz, Jorge Amado, António Cândido, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e João Ubaldo Ribeiro. Pseudónimo de José Ribamar Ferreira, Ferreira Gullar é poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, argumentista de teatro e de televisão e ensaísta. Em 1949, publicou o seu primeiro livro, "Um pouco acima do chão". Integrou vários movimentos literários e artísticos, tendo sido nomeado, em 1961, Director da Fundação Cultural de Brasília, onde elaborou o projecto do Museu de Arte Popular. Esteve no exílio (Moscovo, Santiago do Chile, Lima e Buenos Aires), de 1971 a 1977. Ferreira Gullar já foi agraciado com vários prémios, entre os quais o Prémio Jabuti (em 1999 e em 2007), o Prémio Alphonsus de Guimarães, bem como o prémio Multicultural 2000, do jornal "O Estado de São Paulo". Em 2002, por indicação de nove académicos dos EUA, de Portugal e do Brasil, foi indicado para o Prémio Nobel de Literatura. Em Portugal, a sua obra está publicada pelas Quasi Edições.

O júri, presidido por Helena Buescu, professora da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi composto por José Carlos Seabra Pereira, professor associado da Universidade de Coimbra, Inocência Mata, professora santomense de Literaturas Africanas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, e professora convidada em várias universidades brasileiras e norte-americanas, Luís Carlos Patraquim, escritor e jornalista moçambicano, António Carlos Secchin, escritor e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e ainda a escritora brasileira Edla van Steen.

Fonte: Instituto Camões

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Abaixo, uma entrevista de Ferreira Gullar ao programa "Jogo de Ideias", da Fundação Itaú Cultural

Abaixo, uma filmagem amadora com um depoimento de Ferreira Gullar na FLIP 2006. A filmagem não é boa, mas o conteúdo... É emocionante!

Para conhecer mais sobre Ferreira Gullar, acesse seu site oficial clicando aqui.

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Manoel de Barros, o maior poeta vivo da Literatura brasileira

Muitos de meus alunos me perguntam sobre a Literatura dos dias de hoje. Querem saber quem são os grandes nomes das letras atuais, quais as grandes temáticas e, inclusive, até as discutíveis “características”. E em todas as vezes em que isso acontece, me vem à mente alguns nomes e, entre eles, sempre está o do mato-grossense Manoel de Barros.

Eu, particularmente, acho uma grande injustiça que sua poesia ainda seja tão desconhecida. Porque ela é grandiosa. Ela é imensa. Vários poetas, incluindo Carlos Drummond de Andrade, não se cansaram de incensar o vate pantaneiro. Neste país onde as grandes personalidades não têm reconhecimento enquanto estão vivas, Manoel, infelizmente, engrossa as estatísticas.

É claro que seu nome já aparece em alguns livros didáticos, sua poética vem sendo amplamente divulgada e estudada nas academias, mas a meu ver, ainda é pouco. Ele tem que ser lido, cada vez mais, pra que cada vez mais possamos nos sentir mais brasileiros.

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Abaixo, a Biografia de Manoel de Barros, retirada do site Jornal de Poesia:

Manoel Wenceslau Leite de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, filho de João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Atualmente mora em Campo Grande (MS). É advogado, fazendeiro e poeta.

Tinha um ano de idade quando o pai decidiu fundar fazenda com a família no Pantanal: construir rancho, cercar terras, amansar gado selvagem. Nequinho, como era chamado carinhosamente pelos familiares, cresceu brincando no terreiro em frente à casa, pé no chão, entre os currais e as coisas "desimportantes" que marcariam sua obra para sempre. "Ali o que eu tinha era ver os movimentos, a atrapalhação das formigas, caramujos, lagartixas. Era o apogeu do chão e do pequeno."

Com oito anos foi para o colégio interno em Campo Grande, e depois no Rio de Janeiro. Não gostava de estudar até descobrir os livros do padre Antônio Vieira: "A frase para ele era mais importante que a verdade, mais importante que a sua própria fé. O que importava era a estética, o alcance plástico. Foi quando percebi que o poeta não tem compromisso com a verdade, mas com a verossimilhança." Um bom exemplo disso está num verso de Manoel que afirma que "a quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso." E quem pode garantir que não é? "Descobri que servia era pra aquilo: Ter orgasmo com as palavras." Dez anos de internato lhe ensinaram a disciplina e os clássicos a rebeldia da escrita.

Mas o sentido total de liberdade veio com "Une Saison en Enfer" de Arthur Rimbaud (1854-1871), logo que deixou o colégio. Foi quando soube que o poeta podia misturar todos os sentidos. Conheceu pessoas engajadas na política, leu Marx e entrou para a Juventude Comunista. Seu primeiro livro, aos 18 anos, não foi publicado, mas salvou-o da prisão. Havia pichado "Viva o comunismo" numa estátua, e a polícia foi buscá-lo na pensão onde morava. A dona da pensão pediu para não levar o menino, que havia até escrito um livro. O policial pediu para ver, e viu o título: "Nossa Senhora de Minha Escuridão". Deixou o menino e levou a brochura, único exemplar que o poeta perdeu para ganhar a liberdade.

Quando seu líder Luiz Carlos Prestes foi solto, depois de dez anos de prisão, Manoel esperava que ele tomasse uma atitude contra o que os jornais comunistas chamavam de "o governo assassino de Getúlio Vargas." Foi, ansioso, ouvi-lo no Largo do Machado, no Rio. E nunca mais se esqueceu: "Quando escutei o discurso apoiando Getúlio — o mesmo Getúlio que havia entregue sua mulher, Olga Benário, aos nazistas — não agüentei. Sentei na calçada e chorei. Saí andando sem rumo, desconsolado. Rompi definitivamente com o Partido e fui para o Pantanal".

Mas a idéia de lá se fixar e se tornar fazendeiro ainda não havia se consolidado no poeta. Seu pai quis lhe arranjar um cartório, mas ele preferiu passar uns tempos na Bolívia e no Peru, "tomando pinga de milho". De lá foi direto para Nova York, onde morou um ano. Fez curso sobre cinema e sobre pintura no Museu de Arte Moderna. Pintores como Picasso, Chagall, Miró, Van Gogh, Braque reforçavam seu sentido de liberdade. Entendeu então que a arte moderna veio resgatar a diferença, permitindo que "uma árvore não seja mais apenas um retrato fiel da natureza: pode ser fustigada por vendavais ou exuberante como um sorriso de noiva" e percebeu que "os delírios são reais em Guernica, de Picasso". Sua poesia já se alimentava de imagens, de quadros e de filmes. Chaplin o encanta por sua despreocupação com a linearidade. Para Manoel, os poetas da imagem são Federico Fellini, Akira Kurosawa, Luis Buñuel ("no qual as evidências não interessam") e, entre os mais novos, o americano Jim Jarmusch. Até hoje se confessa um "...'vedor' de cinema. Mas numa tela grande, sala escura e gente quieta do meu lado"

Voltando ao Brasil, o advogado Manoel de Barros conheceu a mineira Stella no Rio de Janeiro e se casaram em três meses. No começo do namoro a família dela — mineira — se preocupou com aquele rapaz cabeludo que vivia com um casaco enorme trazido de Nova York e que sempre se esquecia de trazer dinheiro no bolso. Mas, naquela época, Stella já entendia a falta de senso prático do noivo poeta. Por isso, até hoje Manoel a chama de "guia de cego". Stella o desmente: "Ele sempre administrou muito bem o que recebeu." E continuam apaixonados, morando em Campo Grande (MS). Têm três filhos, Pedro, João e Marta (que fez a ilustração da capa da 2a. edição do "Livro das pré-coisas") e sete netos.

Escreveu seu primeiro poema aos 19 anos, mas sua revelação poética ocorreu aos 13 anos de idade quando ainda estudava no Colégio São José dos Irmãos Maristas, no Rio de Janeiro, cidade onde residiu até terminar seu curso de Direito, em 1949. Como já foi dito, mais tarde tornou-se fazendeiro e assumiu de vez o Pantanal.

Seu primeiro livro foi publicado no Rio de Janeiro, há mais de sessenta anos, e se chamou "Poemas concebidos sem pecado". Foi feito artesanalmente por 20 amigos, numa tiragem de 20 exemplares e mais um, que ficou com ele.

Nos anos 80, Millôr Fernandes começou a mostrar ao público, em suas colunas nas revistas Veja e Isto é e no Jornal do Brasil, a poesia de Manoel de Barros. Outros fizeram o mesmo: Fausto Wolff, Antônio Houaiss, entre eles. Os intelectuais iniciaram, através de tanta recomendação, o conhecimento dos poemas que a Editora Civilização Brasileira publicou, em quase a sua totalidade, sob o título de "Gramática expositiva do chão".

Hoje o poeta é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. Guimarães Rosa, que fez a maior revolução na prosa brasileira, comparou os textos de Manoel a um "doce de coco". Foi também comparado a São Francisco de Assis pelo filólogo Antonio Houaiss, "na humildade diante das coisas. (...) Sob a aparência surrealista, a poesia de Manoel de Barros é de uma enorme racionalidade. Suas visões, oníricas num primeiro instante, logo se revelam muito reais, sem fugir a um substrato ético muito profundo. Tenho por sua obra a mais alta admiração e muito amor." Segundo o escritor João Antônio, a poesia de Manoel vai além: "Tem a força de um estampido em surdina. Carrega a alegria do choro." Millôr Fernandes afirmou que a obra do poeta é "'única, inaugural, apogeu do chão." E Geraldo Carneiro afirma: "Viva Manoel violer d'amores violador da última flor do Laço inculta e bela. Desde Guimarães Rosa a nossa língua não se submete a tamanha instabilidade semântica". Manoel, o tímido Nequinho, se diz encabulado com os elogios que "agradam seu coração".

O poeta foi agraciado com o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro “Compêndio para uso dos pássaros”. Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pela obra “Gramática expositiva do chão” e, em 1997, o "Livro sobre nada” recebeu o Prêmio Nestlé, de âmbito nacional. Em 1998, recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura.

Numa entrevista concedida a José Castello, do jornal "O Estado de São Paulo", em agosto de 1996, ao ser perguntado sobre qual sua rotina de poeta, respondeu:

"Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo 'lugar de ser inútil'. Exploro há 60 anos esses mistérios. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro séculos para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler "Vozes da Origem". Gosto de coisas que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem". Está no livro "Vozes da Origem", da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento."

Diz que o anonimato foi "por minha culpa mesmo. Sou muito orgulhoso, nunca procurei ninguém, nem freqüentei rodas, nem mandei um bilhete. Uma vez pedi emprego a Carlos Drummond de Andrade no Ministério da Educação e ele anotou o meu nome. Estou esperando até hoje", conta. Costuma passar dois meses por ano no Rio de Janeiro, ocasião em que vai ao cinema, revê amigos, lê e escreve livros.

Não perdeu o orgulho, mas a timidez parece cada vez mais diluída. Ri de si mesmo e das glórias que não teve. "Aliás, não tenho mais nada, dei tudo para os filhos. Não sei guiar carro, vivo de mesada, sou um dependente", fala. Os rios começam a dormir pela orla, vaga-lumes driblam a treva. Meu olho ganhou dejetos, vou nascendo do meu vazio, só narro meus nascimentos."

O diretor Pedro Cezar filma "Só dez por cento é mentira", um documentário sobre a vida do poeta que deverá ser exibido em abril de 2007. O título do filme refere-se a uma frase de Manoel de Barros: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira".


Abaixo, uma pequena mostra da poesia de Manoel de Barros:

Retrato Quase Apagado em que se Pode Ver Perfeitamente Nada
de "O Guardador de Águas"


I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II
Todos os caminhos - nenhum caminho
Muitos caminhos - nenhum caminho
Nenhum caminho - a maldição dos poetas.

III
Chove torto no vão das árvores.
Chove nos pássaros e nas pedras.
O rio ficou de pé e me olha pelos vidros.
Alcanço com as mãos o cheiro dos telhados.
Crianças fugindo das águas
Se esconderam na casa.

Baratas passeiam nas formas de bolo...

A casa tem um dono em letras.

Agora ele está pensando -

no silêncio Iíquido
com que as águas escurecem as pedras...

Um tordo avisou que é março.

IV
Alfama é uma palavra escura e de olhos baixos.
Ela pode ser o germe de uma apagada existência.
Só trolhas e andarilhos poderão achá-la.
Palavras têm espessuras várias: vou-lhes ao nu, ao
fóssil, ao ouro que trazem da boca do chão.
Andei nas pedras negras de Alfama.
Errante e preso por uma fonte recôndita.
Sob aqueles sobrados sujos vi os arcanos com flor!

V
Escrever nem uma coisa Nem outra -
A fim de dizer todas
Ou, pelo menos, nenhumas.
Assim,
Ao poeta faz bem
Desexplicar -
Tanto quanto escurecer acende os vaga-lumes.

VI
No que o homem se torne coisal,
corrompem-se nele os veios comuns do entendimento.
Um subtexto se aloja.
Instala-se uma agramaticalidade quase insana,
que empoema o sentido das palavras.
Aflora uma linguagem de defloramentos, um inauguramento de falas
Coisa tão velha como andar a pé
Esses vareios do dizer.

VII
O sentido normal das palavras não faz bem ao poema.
Há que se dar um gosto incasto aos termos.
Haver com eles um relacionamento voluptuoso.
Talvez corrompê-los até a quimera.
Escurecer as relações entre os termos em vez de aclará-los.
Não existir mais rei nem regências.
Uma certa luxúria com a liberdade convém.

VII
Nas Metamorfoses, em 240 fábulas,
Ovídio mostra seres humanos transformados
em pedras vegetais bichos coisas
Um novo estágio seria que os entes já transformados
falassem um dialeto coisal, larval,
pedral, etc.
Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edênica, inaugural

- Que os poetas aprenderiam -
desde que voltassem às crianças que foram
às rãs que foram
às pedras que foram.
Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar
a língua.
Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos?
Seria uma demência peregrina.

IX
Eu sou o medo da lucidez
Choveu na palavra onde eu estava.
Eu via a natureza como quem a veste.
Eu me fechava com espumas.
Formigas vesúvias dormiam por baixo de trampas.
Peguei umas idéias com as mãos - como a peixes.
Nem era muito que eu me arrumasse por versos.
Aquele arame do horizonte
Que separava o morro do céu estava rubro.
Um rengo estacionou entre duas frases.
Uma descor
Quase uma ilação do branco.
Tinha um palor atormentado a hora.
O pato dejetava liquidamente ali.

Abaixo, assista a alguns vídeos sobre o poeta:

Entrevista, Parte 1







Entrevista, Parte 2





Entrevista, Parte 3





Entrevista, Parte 4





Entrevista com a atriz Cássia Kiss sobe a poesia de Manoel de Barros


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A inspiradora paixão de William Shakespeare

Shakespeare Apaixonado, por João Luís de Almeida Machado

Que o bardo inglês foi o maior escritor de todos os tempos ninguém duvida. Se o filme "Shakespeare Apaixonado" fez jus ao seu personagem central, existem muitas dúvidas a respeito. Nem mesmo o prêmio de melhor filme concedido pela Academia de Hollywood (o Oscar) parece ter feito do filme uma unanimidade entre os críticos, pelo contrário, muitas foram as pessoas que questionaram a entrega de tão conceituado prêmio a um filme considerado apenas mediano ou razoável.

Premiações à parte, "Shakespeare Apaixonado" tem muitos méritos e, para os educadores pode se tornar um bom referencial para trabalho em sala de aula. Joseph Fiennes (como William Shakespeare), Gwyneth Paltrow (no papel de Lady Viola, a amada de Will Shakespeare) e o elenco de apoio formam um base sólida para as interpretações. A reprodução de época foi realizada de forma admirável, com os locais por onde circulavam atores, diretores e escritores tendo sido refeitos de acordo com os modelos de época. O figurino é outro rico ornamento utilizado no filme para nos fazer viajar no tempo e sentir os ares da Inglaterra do século XVI.

A história do filme aborda uma paixão fulminante que teria atingido o grande escritor no momento em que passa por uma crise que não permite a ele escrever. Will precisa desesperadamente produzir uma nova peça teatral para conseguir pagar suas dívidas (pelas quais, inclusive, corre risco de vida), no entanto, esse vazio criativo que o atinge impede que ele termine uma peça entitulada, à princípio, como "Ethel e o pirata". Uma outra preocupação que o aflige refere-se ao fato de que ele parece instado a competir com um outro grande autor daquela época, que desfruta de muito mais prestígio que ele nos meios teatrais londrinos.

Sua paixão, o grande mote do filme, também lhe causará problemas. Sua amada Lady Viola, pertence a outro nível social (a nobreza) e, está sendo prometida a um importante figurão da região onde mora. O status social, no entanto, não parece ser impedimento para a realização de um amor que desde o primeiro momento contou com uma resposta positiva por parte da bela dama. Através de subterfúgios dignos de Romeu, Will Shakespeare consegue se aproximar de sua Julieta e, concretizar uma bela história romântica.

Paralelamente a trama central do filme, Shakespeare descobre as peças que lhe permitem, aos poucos, a composição de uma de suas maiores obras, justamente "Romeu e Julieta". A história do filme nos faz crer que, motivado por um romance particular, Shakespeare teria encontrado motivação para realizar um de seus clássicos. Nesse momento o professor que estiver trabalhando com o filme deve esclarecer que a história apresentada no filme é uma peça ficcional. Dessa forma, evita que essas informações sejam encaradas pelos alunos como fidedignas e verdadeiras.

Se a história do filme utiliza-se de um personagem histórico que realmente existiu e cria situações não verificadas a respeito do mesmo, numa obra de ficção, então qual é o valor educational desse material filmado?

Poder circular pela Inglaterra desse importante período, verificando as condições gerais em que foram criadas algumas das mais importantes obras do Renascimento Cultural, despertando os alunos para o fato de que essa época traduziu-se em produções imortais de alguns dos maiores pensadores, literatos, cientistas e artistas de todos os tempos.

Aprofundar o conhecimento sobre Shakespeare, incentivando dessa forma a leitura de textos como "Hamlet", "Otelo", "Sonhos de uma noite de verão", "O Mercador de Veneza" ou mesmo de "Romeu e Julieta", entre tantas outras obras fantásticas produzidas pelo grande escritor inglês. Fazer uma ponte que permita ao aluno entrar em contato com outros grandes literatos do período como Camões ou Cervantes.

Ampliar a noção de Renascimento Cultural, extrapolando os limites da literatura e permitindo aos alunos associar esse grande momento da história da humanidade a produções na área da ciência (com destaque para os trabalhos de Copérnico, Galileu, Kepler,…), das artes (como podemos deixar de enaltecer as produções de Michelângelo, Rafael, Leonardo Da Vinci,…) ou da filosofia (com as decisivas contribuições de Maquiavel, Hobbes, Descartes,…).

Além disso tudo, discutir em filosofia ou literatura o maior de todos os sentimentos, o amor. O mais interessante é notar que o brilhantismo da obra de Shakespeare decorre justamente da intensidade e riqueza com que aborda a natureza humana, seus temores e fraquezas, suas virtudes e qualidades, seus rancores e sentimentos (entre os quais, com grande brilho, dedicam-se páginas e páginas ao amor, justamente o tema central do filme).

Apesar das resistências de algumas pessoas, assista o filme e tire suas próprias conclusões. Eu recomendo!
João Luís de Almeida Machado Doutor em Educação pela PUC-SP; Mestre em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (SP); Professor Universitário e Pesquisador; Autor do livro "Na Sala de Aula com a Sétima Arte – Aprendendo com o Cinema" (Editora Intersubjetiva).

Ficha Técnica:
Shakespeare Apaixonado
Shakespeare in Love
País\Ano de Produção: EUA, 1998
Duração\Gênero: 122 min, Comédia
Direção: John Madden
Roteiro: Marc Norman e Tom Stoppard
Elenco: Gwyneth Paltrow, Joseph Fiennes, Geoffrey Rush, Ben Affleck,
Tom Wilkinson, Judi Dench.

Essa resenha foi publicada originalmente no site Planeta Educação.


Assista a uma cena do filme:



 
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