POSTAGEM 95: As cavernas de Platão e as nossas

A caverna de Platão e as nossas, por Mauro Sérgio Santos da Silva*

Uma das maiores contribuições da filosofia de Platão é apresentada do texto intitulado Alegoria da caverna. Segundo o filósofo, a maior parte da humanidade se encontra como prisioneira de uma caverna, permanecendo de costas para a abertura luminosa e de frente para a parede escura do fundo. Devido a uma luz que entra na caverna, os prisioneiros contemplam na parede do fundo as sombras dos seres que compõem a realidade. O problema maior é que, acostumadas a ver apenas essas projeções, as pessoas tomam essa ilusão como se fosse a realidade.

Platão chega a levantar a hipótese de que algum habitante da referida caverna saia e depois de se acostumar com a luz, consiga enxergar os seres, as coisas, o mundo e não mais suas sombras. Essa figura, segundo o mito, teria dificuldades em conseguir convencer os moradores da caverna de que aquilo que tomavam como realidade era tão somente sua sombra uma ilusão. Para Platão, essa tentativa de voltar à caverna para resgatar das sombras os antigos conterrâneos é o árduo ofício do educador ou, mais precisamente, do filósofo (amigo da sabedoria).

Fonte: Revista Mundo Jovem, março/2010.
Vídeo da série “Ser ou não ser”, apresentado pela filósofa Viviane Mosé no programa Fantástico, da TV Globo.


História em quadrinhos de Maurício de Sousa, apresentando e atualizando o mito de Platão:


Nossas cavernas, por Mauro Sérgio Santos da Silva*

Mais de 23 séculos nos separam do pensador grego e sua metáfora continua nos interpelando e convidando-nos à reflexão. Aprisionamo-nos em um número cada vez maior de cavernas criadas por nós mesmos.

O escritor português José Saramago, por exemplo, nos livros O ensaio sobre a cegueira e A caverna com sua impressionante lucidez, aponta para o fato de que todos estamos enclausurados nas cavernas da indiferença, da insensibilidade e da incapacidade de ver interiormente. Para o ganhador do Prêmio Nobel de literatura, a libertação dos grilhões de tais cavernas realizar-se-ia por meio de uma espécie de “revolução da bondade”.

O processo de informatização produziu nas últimas décadas o fenômeno da virtualização da vida cotidiana. A produção cultural, o sistema político, a economia, a ética, as relações entre as pessoas e as emoções se tornam cada vez mais virtuais e menos reais.

A chamada globalização e outra caverna aparentemente sem fronteiras. Trata-se, na verdade, conforme Frei Beto (teólogo brasileiro) de uma globocolonização, isto é, a imposição arbitrária e unilateral de um modelo político, econômico e cultural que se apresenta como necessário e único.
Parte significativa dos programas e noticiários de TV constitui uma caverna que aprisiona e ofusca a visão da maioria da população. Eles apresentam amiúde um espetáculo de sombras e ilusões que sob a máscara da pretensa imparcialidade da imprensa, afiguram-se como realidade.

E é também imprescindível citar a pseudodemocracia brasileira, cada vez mais parecida com o sombrio modelo norte-americano. Os discursos e as propagandas dos partidos de situação e de oposição manipulam o real segundo seus interesses e necessidades, levando-nos a crer que estamos em uma enorme caverna sem saídas. Fato que conduz ao conformismo, ao pessimismo e à apatia.

Quase sempre de maneira inconsciente, habitamos um número cada vez maior de cavernas por nós edificadas. No entanto, lideres religiosos e políticos, profetas e poetas, cientistas e filósofos frequentemente apontam o caminho para a saída de tais cavernas. Tentam nos fazes ver o essencial, transcender a escuridão. Mas nós os caricaturamos como utópicos loucos, visionários e radicais! Talvez o interior da caverna seja mais cômodo. confortável e seguro.

Para ler o diálogo em que Platão apresenta a Alegoria da caverna a seu discípulo Glauco, clique aqui.

Mauro Sergio Santos da Silva é professor de Filosofia, membro da Academia de Letras e Artes de Araguari-MG. Endereço eletrônico: mauro.filos@hotmail.com


3 comments

17 de agosto de 2010 14:28

Olá, Professor!

Um aluno me falou de seu blog!
Parabéns!
Ótimas ideias!

Estamos juntos nesse exercício infinito de tentar caminhar para fora das "cavernas"!
“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Últimas palavras de SARAMAGO publicadas em sue blog!

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17 de agosto de 2010 14:29

“Acho que na sociedade actual nos falta filosofia. Filosofia como espaço, lugar, método de reflexão, que pode não ter um objectivo determinado, como a ciência, que avança para satisfazer objectivos. Falta-nos reflexão, pensar, precisamos do trabalho de pensar, e parece-me que, sem ideias, não vamos a parte nenhuma”.

Mauro Sérgio Santos - Professor de Filosofia
ARAGUARI - MG

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23 de agosto de 2010 10:08

e eu gostaria de fazer uma pergunta e queria saber a resposta...
"que caminhos temos para siar das nossas cavernas para a realidade verdadeira?"

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