POSTAGEM 100: Literatura erótica, Literatura pornográfica, Malhação, Kama Sutra

Para terminar o Projeto "ENEM 100 problemas", escolhi reeditar aquela que é a postagem mais popular deste blog. Com ela, encerramos essa caminhada de quase 100 dias em preparação para o ENEM. Uma excelente prova a todos.


ATENÇÃO: ESTE ARTIGO NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE 18 ANOS. SE VOCÊ TIVER 18 OU MAIS, LEIA! SE TIVER MENOS, DESOBEDEÇA!

Já faz um tempinho que a professora Lise de Malhação ID (interpretada pela atriz Regina Remencius) passou por maus momentos na novelinha global, ao permitir que seus textos eróticos fossem lidos pelos alunos do Colégio Primeira Opção. Os pais descobriram, se manifestaram, acionaram a imprensa, fizeram alarde, a professora se demitiu, os alunos protestaram e ela voltou. Sim, as cenas foram ao ar em março deste ano, mas meus alunos não se cansam de me perguntar sobre o assunto. Por isso, quero contribuir, mesmo que tardiamente, com este debate.
Em primeiro lugar, gosto sempre de separar Literatura erótica (erot- = ‘amor’; ‘ato sexual’) de Literatura pornográfica (porno- =‘prostituta’; ‘prostituição’; ‘obscenidade’). E uso um critério muito particular para isso: retiro as palavras “indecorosas”, as cenas picantes, todo o teor licencioso, tudo o que poderia deixar minha tia Maria indignada (Que coisa feia! Isso é o fim do mundão! — diria ela), e vejo se aquilo continua sendo um bom texto. Caso tudo seja realmente necessário à fabulação, chamo de “Literatura erótica”, e rotulo como “arte”. Se o sexo aparecer de forma gratuita, numa jogada de marketing para vender livros, chamo de “Literatura pornográfica” e rotulo como… ARTE também.

Eu estaria sendo extremamente infiel à minha consciência se dissesse que pornografia não pode ser considerada arte. A ideia que faço sobre o referido termo é muito ampla, e como o vocábulo "ideia" é altamente subjetivo, nem vou usá-la (a ideia) como argumento. Também não posso reprovar a Literatura feita para se adequar ao mercado, pois estaria condenando à fogueira quase todos os escritores pós-românticos, uma vez que, como é sabido, no Romantismo do século XIX já não tínhamos mais a figura do mecenas e o artista tinha que “dar seus pulos” para se manter.

Mas fechemos esse parêntese e voltemos ao tópico principal. No Ocidente, a Literatura erótica sempre causou muita polêmica, desde obras clássicas como o Satíricon de Petrônio (século I d.C.) e o Decameron de Giovanni Bocaccio, da época do Renascimento. No lado oriental, o papo é bem mais antigo. O afamado Kama Sutra, do indiano Vatsyayana, é o primeiro título que geralmente nos vem à mente, e está em todas as listas de livros eróticos (inclusive numa que vou citar mais abaixo), embora se tenha defendido, ao longo do tempo, o seu caráter sagrado ou religioso. Não temos a data exata de sua publicação, mas possivelmente foi entre o século IV e VI a.C., e especificamente em relação ao Kama Sutra, o complicado, para algumas mentes mais pudicas, são as ilustrações que trazem as tais “posições sexuais” (como na figura ao lado).

Podemos citar outros momentos em que a Literatura foi amante do erotismo. Literalmente! Lembro-me dos textos do Marquês de Sade (1740 - 1814), e de obras como O Amante de Lady Chatterly, de D. H. Lawrence (1928), Memórias de uma Mulher de Prazer - Fanny Hill, de J. Cleland (1748- 49), Lolita, de Vladimir Nabokov (1955), entre outros. Quem ficar curioso e ávido por mais títulos, pode clicar no link ao final desta postagem e conhecer os 25 romances mais “picantes” da Literatura, de acordo com os critérios da revista Playboy americana. Mas até mesmo obras queirosianas como O primo Basílio (1875), O crime do padre Amaro (1878) e Os Maias (1888) já foram consideradas libidinosas. Ou seja: o que hoje é interdito, proibido, pode não ser amanhã.

A maioria dos pais conhece (ou pelo menos deveria conhecer) seus filhos. Assim como a maioria dos professores conhece seus alunos. E a maior parte desses filhos e alunos conhece a maior parte das coisas “imundas” que estão colocadas nesses livros. Por isso, por que esperar a “maioridade” para que nossos jovens tenham acesso a esta vertente literária? Creio que seríamos hipócritas se tentássemos “esconder” a Literatura erótica (e até mesmo a pornográfica) deles. Cada um deve cuidar de si. Cada um deve saber o que é realmente bom e recomendável. E nas famílias, deve estar bem claro se esse “cada um” a que me refiro diz respeito aos pais ou aos filhos.

Mas não quero me delongar sobre o tema. Não quero esgotar as discussões. Não quero concluir este texto. Este assunto é muito bom, mas fica bem melhor se houver debate. Por isso, comente! Inclua novos dados! Concorde, discorde, lembre-se de coisas que eu não me lembrei ou simplesmente achei conveniente não me lembrar, porque o tema é feio, podre, nojento, abjeto, asqueroso. Ou será que feias, podres, nojentas, abjetas e asquerosas são a fome, a corrupção, a desigualdade social e a falta do que fazer?

Para ilustrar nossa postagem, um poema erótico de Drummond:

O que se passa na cama

(O que se passa na cama
é segredo de quem ama.)

É segredo de quem ama
não conhecer pela rama
gozo que seja profundo,
elaborado na terra
e tão fora deste mundo
que o corpo, encontrando o corpo
e por ele navegando,
atinge a paz de outro horto,
noutro mundo: paz de morto,
nirvana, sono do pênis.

Ai, cama canção de cuna,
dorme, menina, nanana,
dorme onça suçuarana,
dorme cândida vagina,
dorme a última sirena
ou a penúltima… O pênis
dorme, puma, americana
fera exausta. Dorme, fulva
grinalda de tua vulva.

E silenciem os que amam,
entre lençol e cortina
ainda úmidos de sêmen,
estes segredos de cama.

Para acessar uma lista com comentários e trechos de 10 textos eróticos, clique aqui.

Para acessar a lista dos 25 romances mais picantes da Literatura, no critério da Revista Playboy americana, clique aqui.

Gostou deste espaço? Deixe seu comentário, crítica, sugestão... E volte sempre!

15 comments

31 de maio de 2010 14:31

Amei o texto, Zé ! :) Acho que a Literatura Erótica não pode ser vista como mais um "tabu" dessa sociedaade torpe que vê imoralidade na ARTE e, simultaneamente, ignora a misériaa que, não fosse a imoralidade (agora sim!) dos nossos digníssimos políticos, inexistiria... Excelente ideia colocar um assunto como esse em pauta..! ^^

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31 de maio de 2010 17:42

O Rhay vc é menor de 18! vc não podia der lido o texto!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk ....

zuera... mais a literatura é boa mesmo!

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31 de maio de 2010 17:49

ahhh, o Zé mesmoo disse .. Se tiveer menos de 18, DESOBEDEÇAA ! ahushahsuhauhsauhsa' .. :)

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31 de maio de 2010 19:25

Muito interessante a sua análise, Zé! Ficou muito bem elaborada, como tudo o que você escreve. Saudades das suas aulas!

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31 de maio de 2010 19:30

Zé adorei esse texto.Você em poucas palavras consegue diferenciar o que é pornografia do que é erotismo e abrir as mentes para algo polêmico tão discutido na atualidade em diversas escolas. Nós, alunas do 1º ano, estamos loucas para ler um livro erótico e trabalhar com ele. Estamos aguardando tá ;)

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31 de maio de 2010 19:53

fico bem zé ,

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31 de maio de 2010 19:56

Bem... Pediram-me para ler e dar minha interpretação sobre este assunto.
Eu acho um ótimo tema para ser retratado em sala de aula, pois os tempos mudaram, e sexualidade já é casualmente discutida nas melhores famílias... Então, por que não introdulizo na sala de aula?

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31 de maio de 2010 23:32

Zé Ricardo, escolheste um tema pra lá de atrevido!
Não é de hoje que erotismo e pornografia andam em cima da mesma linha tênue. Os mais pudicos tem medo, os preconceituosos torcem o nariz e os hipócritas correm para esconder suas Playboys embaixo da cama!
Desde que o mundo é mundo esse tema está presente. Virgílio, em sua "A Arte de Amar" dá um show de erotismo e sensualidade, Safo tem poemas pra lá de assanhados,as histórias do califa Harun al-Rachid - descritas nas famosas Mil e Uma Noites - são pura pimenta. E o mais interesante de tudo isso, é que os professores mandam você ler isso na escola! Ops! Como assim???
Vamos lá, crianças. Abram seus livros de História, de Literatura, e por aí afora, e vejam se estou errada quando digo que esses ilustres senhores e senhoras, entre outros, são citados como expoentes da Literatura de suas épocas.
Quando a TV apresenta uma situação como a da professora de "Malhação", sua condenação e sua posterior redenção, está mostrando mesmo como lidamos com o sexo. Seja na forma de erotismo, - onde ele aparece mais romantizado, pintado com cores mais sutis - ou sob a roupagem nada recatada da pornografia, o sexo é o personagem principal.
Enfim, acho que a questão principal não é ONDE o sexo é apesentado, e nem mesmo COMO mas sim, QUANDO.
Sabem, nessas coisas eu confio muito na natureza e na Biologia. Não é a toa que nós só atingimos a maturidade sexual em determinado estágio de nossas vidas. Então, voltando a situação que o Ze Ricardo citou lá da "Malhação", eu não me chocaria com a professora que escreve e expõe seus textos eróticos. A não ser que ela fizesse isso na sala do jardim da infância. Aí sim, eu teria muito medo!
BJS pra vc, Zé!

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2 de junho de 2010 15:52

Muitíssimo bem elaborado, aliás, como tudo que você faz Zeeh!!
Foi uma leitura excelente!!
BeijOs

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4 de junho de 2010 13:18

Ótimo texto, Zé!! O tema é realmente caliente e mexe com nossos instintos mais primitivos. Por isso muitos insistem em desconsiderar a Literatura Erótica, rebaixá-la, mas tudo isso é hipocrisia! Muitas leituras me fizeram chorar, mudar um ponto de vista, provocaram em mim indignação, frustração... Por que algumas não poderiam me provocar sensações libidinosas, né?? Parabéns pela abordagem do tema! Bjos

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8 de junho de 2010 14:25

Excelente abordagem ao tema! Lerei mais textos seus.
Descobri seu site porque você está me seguindo no Twitter.

Aproveito para divulgar alguns contos que escrevi e que estão postados em www.contosdepisadarasa.blogspot.com Moro em Passo Fundo-RS e Pisada Rasa é uma cidade fictícia inspirada na que eu resido.

Se não for abusar, vou fazer uma consulta: Posso usar o vocábulo "ledor" como sinônimo de leitor ou "ledor" é apenas o sujeito que lê para quem está impossibilitado de ler por conta própria?

Obrigado pela atenção.
Grande amplexo!

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8 de junho de 2010 21:33

Pessoal, estou em dívida com vocês. Gostaria de agradecer imensamente os comentários... Aos meus alunos: Rhay, Henrique, Neguinha (eu sei quem vc é), Bruno e Maicou. Minhas inesquecíveis ex-alunas Jeh e Vitorinha. A Gabi, minha grande amiga e a Drica que tanto contribuiu com os comentários (ela é escritora, gente! Tem entrevista da Drica aqui no les!) e o Mauricio, que acabou nos achando aqui. Muito obrigado mesmo, gente! De coração. VOltem sempre, comentem outros posts.

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14 de janeiro de 2011 12:25

ano passado pedi pra que você desse literatura erótica em sala, mas ai todo mundo me zuou. Bom, fiquei curiosa sobre esta arte, depois de ter visto malhaçao. esse tema seria bom pra quem não gosta de ler, só farra, e farra, seria obm no incentivo a leitura. concorda? rsrsr adorei o texto'

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2 de julho de 2011 09:27

Professor muito bom seu texto vou recomendar a meu filho que leia quem sabe ele não desperte o gosto pela leitura.

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8 de agosto de 2011 20:35

Excelente texto, abordou e diferenciou muito bem o que e erotismo e pornografia, vc esta de parabens! Ate!

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