Uma entrevista com Luís de Camões

Olá alunos e leitores do Literatura éshow! Encontrei este texto na Internet e gostaria de compartilhá-lo com vocês. Trata-se de um trabalho escolar realizado em Portugal numa série correspondente ao nosso Ensino Médio. Os alunos tinham que apresentar a lírica camoniana através de uma entrevista fictícia com o próprio Luís de Camões. E como o trabalho foi publicado antes do novo acordo ortográfico da Língua Portuguesa, mantivemos a ortografia dos nossos colonizadores. Aproveitem bastante a leitura:

Jornalista (J) – Luis de Camões, desde já, gostaríamos de agradecer a sua simpatia e disponibilidade e por ter aceite o nosso convite para responder a algumas perguntas que julgamos essenciais para uma melhor compreensão da sua Poesia. Interessa-nos particularmente, a Lírica Camoniana. Assim, começaríamos por lhe perguntar quais as razões que o levaram a apresentar o ideal da Mulher em verso.
Luís de Camões (LC) – Eu é que vos agradeço! Não imaginam o prazer que é falar convosco! Ultimamente, melhor, nos últimos séculos, não me tem sido possível falar muito, como compreendem! Bem, agora vamos às vossas perguntas, ou melhor às respostas que esperais de mim. Escolhi o verso, como forma de expressão, porque não há nada tão simples como os versos. Além disso, queria que as minhas ideias sobre este tema tivessem um estilo grandioso e nada melhor do que poesia para conseguir aquilo a que me havia proposto.

J – Em que é que se baseou e quem o influenciou na descrição e idealização da Mulher perfeita?
LC – Ah, a Mulher, esse eterno alvo das minhas paixões e das minhas tristezas! Na verdade, poderei dizer que a minha poesia faz aquilo a que chamais a síntese do antigo e do novo, já que sofri algumas influências da lírica tradicional portuguesa,do grande Sá de Miranda, e da lírica clássica. Posso afirmar que Petrarca, um grande poeta italiano da época do Renascimento, me influenciou bastante! Este poeta teve a capacidade, a Visão de criar um modelo de mulher perfeita com várias características, cujas raízes têm origem nos trovadores provençais. Foi nesse mesmo modelo que me baseei para criar os meus poemas.

J – Que características são essas de que fala?
LC – A idealização da Mulher concretiza-se, sobretudo, em retratos em que a mulher é ausente e surge divinizada e inacessível, dona de uma beleza estereotipada, de onde sobressaem os cabelos de ouro; o olhar indefinido, mas doce; o gesto suave; o sorriso honesto, doce e vago. É uma mulher que se pauta pela perfeição e pureza, cuja beleza se reflecte na natureza. Esta visão da mulher traduz, também, a concepção Platónica de um amor ideal e inacessível. Algumas das composições poéticas que patenteiam as temáticas acabo de enunciar são “Ondados fios de ouro reluzente” e “Um mover d’ olhos, brando e piedoso”.

J – A sua lírica, a chamada Lírica Camoniana, oferece uma riqueza considerável de temas para além da idealização da Mulher. Quer falar-nos desses temas?
LC – Fá-lo-ei com enorme gosto! É sempre muito gratificante poder falar com jovens como vós, tão interessados na minha poesia. Vejamos então!
Os temas presentes na minha lírica são o galanteio ou o encarecimento amoroso, mais ou menos circunstancial; os temas psicológicos, geralmente em torno da paixão amorosa e os temas filosóficos, tais como o desajustamento entre o Merecimento e a Fortuna, entre o direito à felicidade e o gozo dela, entre a justiça aparente e a justiça transcendente ( o desconcerto ).
Estes temas não são originais, porque fazem parte das inquietações de outros. Eu apenas acrescento o meu toque pessoal, resultado das minhas vivências, num tom intenso, emocionado e vivido! Como sabem, a minha vida foi toda ela um imenso “mar de experiências”! É sabido que tive uma uma vida intensa de experiências, muitas paixões que, inclusivé, me permitiram exprimir a beleza carnal e, mais sugestivamente, a emoção erótica! Sim, é verdade, há erotismo nos meus poemas. Na verdade, todas estas experiências fizeram com que a minha poesia, ao contrário da de Petrarca, não pareça isolada do mundo.Pelo contrário, os meus poemas são agitados por impulsos, impaciências, desesperos, causados não pelas contradições íntimas do sentimento amoroso mas pela interferência de factores externos a mim como por exemplo o ciúme, o remorso, a desigualdade social, a ausência e a inexorável marcha do tempo que impossibilita o regresso aos momentos felizes.

J - Como descreve o Amor na sua poesia?
LC - Ah, quanto vos agradeço darem-me a oportunidade de poder falar do Amor, esse sentimento que entusiasma o homem, tornando-o capaz de atingir o Bem, a Beleza e a Verdade. É também um sentimento de significado contrário à própria natureza. Por um lado, o Amor é manifestação do espírito, por outro é manifestação física. Para mim, definitivamente, o Amor deve ser experimentado, deve ser sentido e não apenas mental, um sentimento de pensamento.

J - Pensa, então, que o Amor é algo complexo.
LC - Sem dúvida! Na minha poesia lírica, tento transmitir a ideia de que o Amor só vale a pena quando é complexo, e contraditório. No fundo, como diz um colega meu, não sei se conhecem, Fernando Pessoa, “tudo vale a pena se a Alma não é pequena”. Tal como no Amor!
No entanto, há uma diferença entre os meus poemas mais antigos, Medida Velha,nos quais me aproximo mais da poesia popular medieval. Na Medida Nova, nota-se uma aproximação aos grandes vultos da literatura clássica.

J - Fale-nos um pouco mais da Medida Velha e da Medida Nova, por favor.
LC - Bem, dir-vos-ei que na lírica camoniana coexistem a poética tradicional, herdada da poesia trovadoresca e do Cancioneiro Geral, e o estilo renascentista, introduzido em Portugal por Sá de Miranda, esse vulto maior da cultura portuguesa.
Relativamente à poesia da medida velha, também conhecida como corrente tradicional, poder-se-á referir que as formas predominantes são as redondilhas e as composições poéticas o vilancete e a cantiga. Ao nível do conteúdo, irão encontrar os temas tradicionais e populares:a menina que vai à fonte; o verde dos campos e dos olhos; o amor simples e natural, a saudade e o sofrimento; a dor e a mágoa; a exaltação da beleza de uma mulher de condição servil, de olhos pretos e tez morena; o amor platónico. Algumas das composições poéticas que sustentam as afirmações enunciadas são “Descalça vai para a fonte”, “Se Helena apartar”, “Aquela cativa”, entre outras.
No que diz respeito à poesia da medida nova ou corrente renascentista, poder-se-á aludir ao facto de a forma predominante ser o verso decassilábico e a composição poética, o soneto. Ao nível do conteúdo, encontram-se variados temas ligados não só ao amor e à mulher, como também à mudança e ao desconcerto do mundo, caminhando para pior,sempre para pior, com os valores morais a inverterem-se e a perderem-se: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”, lembram-se?
Em suma, meus amigos, a minha poesia tenta ser uma poesia humanista, preocupada com os grandes problemas do ser humano que, como vêem, já existiam e me inquietavam há 500 anos.
Agora meus amigos, já estou um pouco cansado. Se não se importam e se me permitem, retiro-me! Faz-se tarde e tenho de voltar aos Jerónimos. Sabem que vivo nos claustros dos Jerónimos? Um pouco frio no Inverno mas muito agradável no Verão! Venham visitar-me, apareçam!

J - Caro Luís de Camões, foi uma honra e um privilégio ter-nos dado a oportunidade de estar à conversa com aquele que consideramos o poeta de todos os protugueses.
LC - Eu é que agradeço! Ah, é verdade, digam aos vossos governantes que ficarei muito triste se um dia deixarem de dizer os meus poemas nas vossas escolas!
J - Não se preocupe, daremos o seu recado e conte connosco para a divulgação da sua Imensa Obra!


 
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