POSTAGEM 2: Literatura e Arte (2)

A LITERATURA E A ARTE

Olá internauta. Faltam 98 dias para o ENEM  e esta é a nossa postagem de número 2. Hoje, na nossa segunda postagem, quero aproveitar um material que organizei para meus alunos no ano de 2007. Ele fala um pouco sobre a relação Arte-Literatura.

PARA QUE LITERATURA?
          A educação em arte só pode propor um caminho: o da convivência com as obras de arte. Aquelas que estão assim rotuladas em museus e galerias, as que estão em praças públicas, as que estão em bancos, em repartições do governo, nas casas de amigos e conhecidos. Também aquelas, anônimas, que encontramos às vezes numa vitrina, numa feira, nas mãos de um artesão. As que estão em alguns cinemas, teatros, na televisão e no rádio. As que estão nas ruas: certos edifícios, casas, jardins, túmulos. Passamos por muitas delas, todos os dias, sem vê-las. Por isso, é preciso uma determinada intenção de procurá-las, de percebê-las.
           Quanto mais ampla for essa convivência quanto aos tipos de arte, aos estilos, às épocas e aos artistas, melhor. É só através desse contato aberto e eclético que podemos afinar a nossa sensibilidade para as nuances e sutilezas de cada obra, sem querer impor-lhe o nosso gosto e os nossos padrões subjetivos que são marcados historicamente pela época e pelo lugar em que vivemos. Bem como pela classe social a que pertencemos. “Lembraremos, ainda, que é na freqüentação da obra que a intersubjetividade pode se dar. É através dela que podemos ‘encontrar’ com o autor, sua época e também com nossos semelhantes. É pelas veredas não racionais da arte que a freqüentação permite descobrir e percorrer, que nos ‘sintonizamos’ com o outro, numa realização particular que a vida cotidiana desconhece. Terreno da intersubjetividade, a arte nos une servindo de lugar de encontro, de comunhão intuitiva; ela não nos coloca de acordo: ela nos irmana”. (COLI, O que é arte)
           Em seguida, precisamos aprender a sentir. Em nossa sociedade, dada a importância atribuída à racionalidade e à palavra, não é raro tentarmos, sempre, enquadrar a arte dentro desse tipo de perspectiva. Assumimos, então, tal distância da obra que não é possível recebê-la através do sentimento., como já dissemos, não é emoção descabelada. Chorar ao assistir a um drama ou a ouvir uma música não é sinal que estamos acolhendo a obra através do sentimento. Podemos estar fazendo uma catarse das nossas emoções. No sentimento, ao contrário, a emoção é despida de seu conteúdo material e elevada a um outro estado: retirado o peso da paixão, permanecem o movimento e as oscilações do sentir em comunhão com o objeto.
ARANHA, Maria Lúcia A. e MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando, introdução à filosofia. São Paulo, Moderna, 1987.

É comum as pessoas dizerem que não gostam de determinado livro, ou de um quadro, ou de um filme: “Acho Machado de Assis um chato”. “Detesto ver pobreza: de pobre (ou triste, ou feio) basta a vida.” “Como posso gostar de algo que eu não entendo” “Não sei o que a crítica viu nesse filme, achei péssimo!”

Por que o público comum não tem, geralmente, o mesmo gosto dos críticos ou dos intelectuais? Esses têm mais bom gosto que o leitor ou espectador médio?

Há vários livros que os alunos só passam a gostar depois que o professor explica. Outros, ainda, nem assim chegam a ser digeridos. E como é que fica? Gosto se discute, se aprende? A resposta é sim: gosto se discute, pode mudar, pode-se aprender a gostar de determinado livro, música, assunto. É uma questão de treino, de ambiente.

O ARRANJO TRANSFORMA AS PALAVRAS

O nascimento da Vênus,  de William-Adolphe Bouguereau. Na mitologia romana, Vênus corresponde a Afrodite, a deusa do amor e da beleza.



O belo artístico, ao contrário do que pensa o leitor ingênuo, não é só o que retrata a beleza, a perfeição do mundo. Qualquer assunto pode inspirar uma obra de arte, ou seja, a emoção estética. As palavras estão aí, à disposição de qualquer pessoa. Se houvesse palavras literárias em si mesmas, para escrever um poema bastaria que se comprasse na livraria da esquina, um dicionário de palavras poéticas e... pronto! Mais um novo autor na praça!


Não é, porém, assim. Não há uma hierarquia de palavras: as comuns, para os míseros mortais; as difíceis para os professores, políticos e intelectuais; e as poéticas. Isso não ocorre, pois todas as palavras são passíveis de se tornarem literárias; o que as transforma é o arranjo, a relação de cada uma delas.

O escritor é como uma antena
Machado de Assis
O escritor, com sua sensibilidade, capta o mundo, como se tivesse antenas. Pode ter ou não vivenciado determinada experiência — amor, ódio, fome, guerra, morte —, mas dela se apodera como se fosse sua. É uma experiência pessoal, subjetiva, que ele quer transmitir, comunicar, e que vai ajudar o leitor a se conhecer e a conhecer o outro melhor, a crescer enquanto pessoa. Utiliza-se, então, das palavras, de qualquer tipo de palavras, sejam “feias” ou “bonitas”, arranja-as de maneira original, transforma-as em arte. A matéria-prima dessa arte é a própria vida, transmitida pela manifestação concreta dos signos: em literatura, por meio de palavras; em pintura, por meio das cores e dos traços.

Basta estar vivo pra ser artista?
Mas não adianta só viver para poder criar arte. Se assim fosse, o idealista que luta pela liberdade de seu país, os adolescentes que resolvem ficar juntos contra tudo e contra todos, o apaixonado que mata por amor, seriam todos escritores, já que esses assuntos são bastante comuns nas histórias de ficção. A arte não precisa apresentar o mundo da forma como é na verdade. O artista fantasia, imagina e elabora outra realidade, isto é, ele imita a realidade (é o que os gregos chamavam de mímesis ou mimese, daí o adjetivo “mimético”, que imita).


A arte literária cria uma supra-realidade
Para o filósofo grego Aristóteles (que viveu entre 384 e 322 a.C.), imitar, representar, criar imagens é natural ao ser humano, é uma forma de experimentar o universo. A literatura é um jeito de imitar a vida por meio de palavras arrumadas de um modo tal que formem uma supra-realidade, isto é, uma realidade paralela ao ambiente que foi imitado.


Uma elaboração especial de palavras
A literatura sempre se vale da palavra escrita, mas nem tudo que é escrito é literatura. Há uma preocupação importante com a linguagem literária: a elaboração especial das palavras num texto. Por isso, existe uma diferença enorme entre um texto escrito para constar como instrução de montagem de uma máquina e um texto literário; entre uma notícia de jornal e uma página de romance; entre uma receita de bolo e um poema.

FONTE: 
CAMPEDELLI, Samira Youssef. Literatura: história e texto. São Paulo: Editora Saraiva, 2001.

AMANHÃ
Amanhã vamos falar sobre as Funções da Literatura. Não perca.


 
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