POSTAGEM 3: Funções da Literatura


Olá internauta. Faltam 97 dias para o ENEM. Esta é a nossa 3ª postagem. Ontem e anteontem falamos sobre as Artes. E definimos que a Literatura faz é uma delas. Hoje, vamos falar um pouquinho sobre as funções da Literatura. Discorrer sobre elas é nos questionar: qual é a utilidade dessa arte? Pra quê ela serve? Vejamos algumas (in)utilidades de nossa disciplina.


Função evasiva (fuga da realidade): com a Literatura podemos fugir, sublimar a nossa realidade. Podemos ir para um tempo mágico, um espaço absolutamente diferente do que conhecemos. Observe este miniconto do escritot argetino Jorge Lís Borges:

OS DOIS REIS E OS DOIS LABIRINTOS — Jorge Luís Borges

Contam os homens dignos de fé (porém Alá sabe mais) que nos primeiros dias houve um rei das ilhas da Babilônia que reuniu os seus arquitetos e magos e lhes mandou construir um labirinto tão complexo e sutil que os varões mais prudentes não se aventuravam a entrar nele, e os que nele entravam se perdiam. Essa obra era um escândalo, pois a confusão e a maravilha são atitudes próprias de Deus e não dos homens. Com o correr do tempo, chegou à corte um rei dos Árabes, e o rei da Babilônia (para zombar da simplicidade do seu hóspede) fez com que ele penetrasse no labirinto, onde vagueou humilhado e confuso até ao fim da tarde. Implorou então o socorro divino e encontrou a saída. Os seus lábios não pronunciaram queixa alguma, mas disse ao rei da Babilônia que tinha na Arábia um labirinto melhor e que, se Deus quisesse, lho daria a conhecer algum dia. Depois regressou à Arábia, juntou os seus capitães e alcaides e arrasou os reinos da Babilônia com tão venturosa fortuna que derrubou os seus castelos, dizimou os seus homens e fez cativo o próprio rei. Amarrou-o sobre um camelo veloz e levou-o para o deserto. Cavalgaram três dias, e disse-lhe: "Oh, rei do tempo e substância e símbolo do século, na Babilônia quiseste-me perder num labirinto de bronze com muitas escadas, portas e muros; agora o Poderoso achou por bem que eu te mostre o meu, onde não há escadas a subir, nem portas a forçar, nem cansativas galerias a percorrer, nem muros que te impeçam os passos".

Depois, desatou-lhe as cordas e abandonou-o no meio do deserto, onde morreu de fome e de sede. A glória esteja com Aquele que não morre.

Função lúdica — às vezes, a Literatura pode ser apenas jogo de experiências sonoras e de relações surpreendentes. Neste caso, o "entendimento" do texto é secundário. A Literatura torna-se, portanto, uma brincadeira que diverte tanto quem lê quanto quem escreve. Um bom exemplo dessa função literária seria o poema "Os materiais da vida", do mineiro Carlos Drummond de Andrade.




OS MATERIAIS DA VIDA - Carlos Drummond de Andrade
(A vida passada a limpo)

Drls? Faço o meu amor em vidrotil
nossos coitos são de modernfold
até que a lança de interflex
vipax nos separe
em clavilux
camabel camabel o vale ecoa
sobre o vazio de ondalit
à noite asfáltica
plks





Função de “Arte pela arte” – neste caso, a Literatura está descompromissada das lutas sociais e até mesmo dos temas individuais. Ela volta-se pra si mesma, ou pra outras artes. Nada existe mais importante que isso. Apareceu na história da Literatura principalmente durante o Parnasianismo, escola literária do final do século XIX. Um grande exemplo da "arte pela arte" é o poema "Vaso chinês", de Alberto de Oliveira.


VASO CHINÊS — Alberto de Oliveira

Estranho mimo aquele vaso! Vi-o,
Casualmente, uma vez, de um perfumado
Contador sobre o mármor luzidio,
Entre um leque e o começo de um bordado.

Fino artista chinês, enamorado,
Nele pusera o coração doentio
Em rubras flores de um sutil lavrado,
Na tinta ardente, de um calor sombrio.

Mas, talvez por contraste à desventura,
Quem o sabe?... de um velho mandarim
Também lá estava a singular figura.

Que arte em pintá-la! A gente acaso vendo-a,
Sentia um não sei quê com aquele chim
De olhos cortados à feição de amêndoa.


Função de literatura “engajada” – talvez o maior papel da Literatura seja justamente este. O de mostrar como uma arte comprometida com a defesa de certas idéias políticas.


O ANALFABETO POLÍTICO — Bertolt Brecht

O pior analfabeto
É o analfabeto político,
Ele não ouve, não fala,
Nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe o custo da vida,
O preço do feijão, do peixe, da farinha,
Do aluguel, do sapato e do remédio
Dependem das decisões políticas.

O analfabeto político
É tão burro que se orgulha
E estufa o peito dizendo
Que odeia a política.

Não sabe o imbecil que,
da sua ignorância política
Nasce a prostituta, o menor abandonado,
E o pior de todos os bandidos,
Que é o político vigarista,
Pilantra, corrupto e lacaio
Das empresas nacionais e multinacionais.



FICÇÃO E NÃO-FICÇÃO

Quem conta um conto aumenta um ponto, diz o ditado popular. Esse anexim origina-se do fato de que, ao relatar um episódio, os narradores vão modificando as ações ou acrescentando outras em virtude de diversos fatores: esquecimento, imaginação fértil, prestígio pessoal, bajulação, entre outros tantos.

No passado, acreditava-se, certamente, que os autores estariam, em verso e prosa, reproduzindo fielmente as aventuras vividas pelo narrador ou pelas personagens. No entanto, o bom senso começou a denunciar certos exageros, pondo em dúvida a veracidade dos fatos.

Começou-se, então, a distinguir a ficção da realidade.

REALIDADE E SUPRA-REALIDADE

Hoje, ao ler um texto extraído de um jornal, de uma revista científica, ou de um relato de um viajante solitário cortando regiões inóspitas ou um navegador audacioso enfrentando o oceano em frágeis embarcações, o leitor espera estar em contato comum relato fiel, verdadeiro — veja-se o caso do brasileiro Amyr Klink. Pode ficar assombrado diante do inusitado de um fato, mas acredita na autenticidade das informações. Já ao ler uma obra de ficção, ele espera encontrar a verossimilhança, e, mergulhando na leitura, cria uma atmosfera de pseudo-realismo, passando quase a crer na existência dos lugares descritos, condoendo-se com as adversidades sofridas por heróis e heroínas, vibrando com as suas vitórias. Os enredos lhe parecem naturais, porque ele os vê repetidos diante dos olhos. Surgem daí os clichês do tipo a vida imita a arte.

Personagens dão nomes a filhos e filhas de leitores; turistas visitam cidades onde supostamente os fatos aconteceram. Há autores que se esmeram para criar essa atmosfera de realidade, e outros que, recorrendo a comentários metaficcionais, alertam o leitor para o fato de aquela história é “inventada”, não-real. É o caso de A hora e a vez de Augusto Matraga, em que o autor afirma: “… sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não um caso acontecido, não senhor”. (Guimarães Rosa).

Na ficção, portanto, o autor baseia-se em hipótese, em situação verossímil, plausível. Cria sua história, que pode confundir-se com outras. O jovem moderno convive com essa realidade ao participar dos jogos de RPG, ao assistir programas de televisão que expõem cidadãos comuns a situações estressantes ou incomuns e ao instalar câmeras em todos os ambientes de uma residência, desnudando a vida íntima dos cidadãos que a tanto se submetem.

AMANHÃ
Amanhã vamos falar dos Elementos da Comunicação Humana e das Funções da Linguagem. Não perca!



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