POSTAGEM 6: As delícias da língua e o textículo erótico de Drummond

Olá internauta. Faltam 94 dias para o ENEM e essa é a nossa 6ª postagem. Hoje vamos falar de mais alguns conceitos primordiais da Literatura. Escolhi para isso um trecho do livro Textos: leituras e escrituras, do professor Ulisses Infante, que vai nos ajudar a compreender essas definições. Logo depois, um "textículo" erótico de Drummond, pra nos embevecermos


O USO LITERÁRIO DA LÍNGUA

A palavra literatura provém do latim litteratura, vocábulo formado de littera, que significa "letra". Inicialmente, designava o ensino e o aprendizado das primeiras letras, mas seu sentido acabou se especializando, e ela passou a indicar uma forma de manifestação artística: o trabalho dos elementos linguísticos com finalidades estéticas e o seu resultado.

A literatura é, portanto, uma arte. Nesse sentido, participa, com as outras formas de manifestação artística, de um esforço humano para melhor entender a realidade que nos cerca. A arte, em geral, traduz a necessidade do homem de ampliar a compreensão do mundo. Com esse intuito, o artista toma a realidade como ponto de partida, captando-lhe os dados essenciais, e a recria como objeto artístico, num processo do qual participam sua sensibilidade e seu poder imaginativo. Nesse trabalho de ampliação e redefinição de limites, vale-se dos meios e técnicas característicos de sua linguagem artística.

No caso da literatura, o artista apossa-se da imensa variedade de signos e de possibilidades combinatórias que é a língua, utilizando-a na confecção de textos que, se mantêm algum vínculo com o uso exclusivamente comunicativo do dia-a-dia, extrapolam esses limites ao transformar a mensagem em algo que vale mais por si mesmo do que pelo que possa trazer de informação sobre um possível referente.

O uso literário da língua combina os elementos que a formam de tal maneira que a apreensão do sentido de um deles depende do seu relacionamento com os demais na totalidade que é o texto literário. A investigação de um texto literário é, conseqüentemente, um trabalho cuidadoso de busca de relações entre os diversos elementos formadores do texto. Nesse sentido, o estudo da literatura é, na verdade, um lento processo de formação do leitor de literatura - um leitor que, a cada experiência ultrapassada, mais e mais se conscientiza de que o confronto com o texto literário é sempre uma vivência permeada pelo prazer da descoberta. É nosso objeti­vo fazer do estudo da literatura uma ampla experiência de leitura(s) - diante dos textos, vamos procurar descobrir os passos que nos permitem apreendê-los e a algumas das várias interpretações que suscitam.

Denotação e Conotação

A experiência literária combina e recombina as palavras, ampliando-Ihes os significados e colocando em evidência os sons que as formam. Na base desse trabalho, estão os processos de denotação e conotação.

Denotação, palavra provinda do latim denotatione, "indicação", designa o sentido literal das palavras, aquele que habitualmente se encontra registrado nos dicionários. O uso denotativo das palavras se relaciona com o que, no seu significado, é comum a todos os que utilizam uma mesma língua. Dessa forma, a denotação caracteriza os textos que visam à objetividade, como é o caso da linguagem científica e da jornalística. Cada palavra é empregada para designar claramente um conceito, sendo considerados ineficientes os casos em que se cria ambigüidade. O significado, assim, provém sempre da convenção estabelecida entre os usuários da língua.

Conotação, do latim cum + notatione, "notação", "marca", "ação de marcar conjuntamente", indica os vários sentidos que uma palavra pode adquirir ao entrar em contato com as outras que compõem um texto. Assim, pela relação estabelecida com as demais, uma palavra vem a ter seu sentido alterado e ampliado, passando a sugerir mais de uma interpretação. O que se consegue não é mais a objetividade, mas justamente a possibilidade de várias leituras, capazes de conduzir a diferentes maneiras de compreender e avaliar o texto. O uso conotativo das palavras faz com que o leitor tenha necessidade de analisar o contexto em que são empregadas para elucidar-Ihes o sentido. O leitor, portanto, passa a estar incluído no processo de criação do fenômeno literário. Cada leitor, considerando a situação em que o vocábulo é utilizado, tem de fazer um esforço interpretativo para compreendê-Ia. Desse esforço participa a história individual de quem lê: sua experiência de vida e de leitura, seu contato com a obra do autor, com a literatura já produzida. A conotação é, assim, uma porta sempre aberta para a expressão.

Poesia e Prosa

A literatura tem duas formas de manifestação: a poesia e a prosa. Os limites entre uma e outra são imprecisos e cada vez menos nítidos, pois com muita freqüência se podem encontrar na prosa contemporânea características que por muito tempo se atribuíram com exclusividade à poesia. Ainda assim, é possível tentar particularizar cada uma delas.

A palavra poesia provém do grego poíesis, "ação de fazer, criar alguma coisa". Na construção de um texto poético, colaboram principalmente o uso conotativo das palavras e seu valor sonoro, com os quais lida a criatividade do artista. Assim, no fazer poético, o trabalho de ampliar a significação das palavras, abrindo-as a uma maior gama de interpretações, alia-se à exploração do que palavras e frases têm de musical e melodioso. É importante lembrar que a poesia, nas suas origens, era cantada ou declamada com acompanhamento musical, o que ajuda a compreender sua configuração melódica. No conjunto formado pelo jogo de conteúdos e de sons, o poema não só significa algo para o leitor; mas também o sensibiliza por meio de sugestões sensoriais.

Já a palavra prosa provém da expressão latina oratione prosa, que significa "discurso livre, em linha reta". É uma forma de composição em que o uso conotativo das palavras é limitado, persistindo ainda em elevado grau a denotação. Além disso, enquanto a poesia apresenta ritmos marcados pela musical idade, a prosa se caracteriza por uma entoação própria, proveniente da organização lógica do discurso. A poesia normalmente se apresenta na forma de versos, seqüências de sílabas poéticas; a prosa, na forma de parágrafos.

A diferença essencial entre a poesia e a prosa não se encontra na disposição gráfica das palavras e frases sobre o papel. Nem tudo o que está escrito sob a forma de versos é poesia, assim como há poesia em muitos textos organizados em parágrafos. Além disso, na literatura contemporânea tem sido cada vez mais comum a interpenetração dessas duas formas de composição, criando efeitos estéticos difíceis de classificar, mas riquíssimos em experiências de leitura.


INFANTE, Ulisses. Textos: leituras e escrituras. São Paulo: Editora Scipione, 2000.
Para ilustrar, um texto de Drummond que fica na fronteira entre prosa e poesia:
A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.

O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.

Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.

A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.

Extraído do livro "O amor natural", Editora Record – RJ, 1992, pág. 29.

AMANHÃ
Nas postagens seguintes vamos falar das Relações intertextuais, outro assunto muito cobrado na prova do ENEM. Até lá.


 
l