POSTAGEM 9: Narciso e o gênero épico-narrrativo

 Olá internauta. Faltam 92 dias para o ENEM e esta é a nossa 9ª postagem. Hoje vamos começar a rever de forma bem objetiva o que são os chamados Gêneros Literários, com enfoque para o Gênero Épico-Narrativo. Fique atento, pois muitas definições importantes serão dadas ao longo desta postagem.


Gêneros Literários
  • A LITERATURA é a arte que se manifesta pela palavra, seja ela falada ou escrita. 
  • Quanto à forma, o texto pode apresentar-se em prosa ou verso. 
  • Quanto ao conteúdo, estrutura, e segundo os clássicos, conforme a "maneira de imitação", podemos enquadrar as obras literárias em três gêneros:
GÊNERO LÍRICO;
GÊNERO ÉPICO-NARRATIVO;
GÊNERO DRAMÁTICO.


GÊNERO ÉPICO-NARRATIVO
“Fará parte da Épica toda obra — poema ou não — de extensão maior, em que um narrador apresentar personagens envolvidos em situações e eventos”.
ANATOL ROSENFELD

  • Todos os povos têm suas narrativas.  Ao longo do tempo, a forma de narrar sofreu inúmeras mudanças, mas da mesma forma, mantiveram-se alguns aspectos primordiais;
  • As narrativas mais antigas apresentam uma característica em comum: todas contam os feitos extraordinários de um HERÓI.
  •  A mais antiga narrativa de que se tem notícia é a que conta, em versos, a história de Gilgamesh, rei de Uruk, na Babilônia, que viveu por volta do ano de 2.700 a.C. É também a primeira epopeia a narrar os feitos de um herói pátrio. 
  • Mas as epopeias mais importantes do ocidente são, certamente, a Ilíada e a Odisseia, que surgiram bem depois, por volta do século VIII a.C., e cuja autoria é atribuída a Homero. 
  • As duas epopeias de Homero apresentam uma estrutura em comum, pois são divididas em QUATRO partes:
PROPOSIÇÃO: definição do tema e do herói;
INVOCAÇÃO: pedido para que a Musa o inspire;
NARRAÇÃO: narra as aventuras do herói;
CONCLUSÃO OU EPÍLOGO: final da narrativa, recapitula os feitos gloriosos do herói.
  • Por volta do ano 30 a.C., o imperador romano César Augusto encomendou a Virgílio, um ilustre poeta, que escrevesse um poema épico para louvar o império latino e que, se possível, fosse capaz de superar as epopeias homéricas.  
  • Virgílio escreveu a Eneida, onde conta a saga de Eneias, um troiano que é salvo dos gregos em Troia, viaja errante pelo Mediterrâneo até chegar à região que atualmente é a Itália. Seu destino era ser o ancestral de todos os romanos.
  • Com o passar do tempo, os poetas de outros países também foram também homenageando a sua pátria e os seus heróis. É o caso de Luís de Camões, que escreve o poema Os Lusíadas, para exaltar o marinheiro Vasco da Gama e o povo português. Esses poetas, mesmo muito talentosos, IMITAVAM Homero, tanto na estrutura dos poemas quanto no conteúdo dos mesmos.
  • Na epopeia clássica, os deuses são apresentados como seres reais que ajudam ou prejudicam o herói. Além disso, os PERIGOS enfrentados por ele são EXTRAORDINÁRIOS.
  • Os heróis épicos representam o povo a que pertencem. Seus defeitos até existem, mas são infinitamente menores que as virtudes.
  • Ao longo dos séculos, o conceito de poema épico sofreu inúmeras modificações.
  • A maior delas ocorreu no século XVIII: os longos poemas transformaram-se em textos em prosa, chamados de ROMANCES.
  • Nos romances, o HERÓI não mais representa uma coletividade e aparece mais HUMANO, com mais defeitos que os heróis épicos.

  • EPOPEIA: narrativa em versos que representa os feitos grandiosos de um herói. Ex.:  Os Lusíadas, de Luís de Camões.
  • ROMANCE: vários eixos narrativos, complexidade. Pode ser romance policial, psicológico, histórico, regionalista. Ex.: Dom Casmurro, de M. de A.
  • NOVELA: menos complexa que o romance, tem apenas um eixo narrativo. Ex.: O burrinho pedrês, de Guimarães Rosa. (Atualmente, está em desuso).
  • CONTO: mais curto e mais simples que a nove-la. Também tem apenas um eixo narrativo. Ex.: Amor, de Clarice Lispector;
  • CRÔNICA: flagrante do cotidiano, narrativa muito breve. Ex.: Lixo, de Luis Fernando Verissimo.
  • FÁBULA: de caráter educativo, apresenta animais como personagens. Ex.: A morte da tartaruga, de Millôr Fernandes.
  • APÓLOGO: narrativa cujos personagens são objetos, seres inanimados, que são personificados pelo autor. Ex.: Um apólogo, de Machado de Assis.
  • CORDEL: narrativa comum no Nordeste brasileiro, apresenta histórias populares em forma de verso. Ex: O Rei dos Cangaceiros, de Leandro Gomes de Barros.

NARRADOR OU LOCUTOR: é aquele que tece a narrativa. 
  • Heterodiegético ou em 3ª pessoa: o narrador não é personagem da história.
  • Homodiegético ou narrador-observador: é personagem, mas não protagonista.
  • Autodiegético ou narrador-protagonista: Aplica-se esta designação ao narrador da história que a relata como sendo seu protagonista, quase sempre em narrativas de caráter autobiográfico.

  • Onisciente: sabe tudo, inclusive o que as personagens sentem e pensam;
  • Onipresente: presente em todos os lugares da narrativa;
  • Intruso: fala com o leitor e emite opiniões sobre as atitudes das personagens;
  • Parcial: identifica-se com determinada personagem e a defende durante a narrativa.

ENREDO: é sucessão dos fatos numa narrativa. 

PARTES DO ENREDO:
  • EXPOSIÇÃO: o início da história. Apresentação faz personagens;
  • COMPLICAÇÃO: parte da narrativa em que se desenvolve o(s) conflito(s);
  • CLÍMAX: ponto culminante da história, de maior tensão. As outras partes existem em função dele.
  • DESFECHO: é a solução dos conflitos, o final da narrativa.

PERSONAGEM: é quem participa da narrativa. 

CLASSIFICAÇÃO QUANTO À IMPORTÂNCIA NO ENREDO

  • PROTAGONISTA: é o personagem principal.
HERÓI: qualidades > defeitos
ANTI-HERÓI: qualidades < defeitos
  • ANTAGONISTA: opõe-se ao protagonista.
  • SECUNDÁRIOS: desempenham um papel menos importante na narrativa: TIPOS e CARICATURAS.

CLASSIFICAÇÃO QTO AO GRAU DE CARACTERIZAÇÃO
  • PLANOS: menos complexos. Caracterizados quase somente nos seus aspectos FÍSICOS, no máximo, nos psicológicos. São previsíveis e permanecem os mesmos no decorrer da trama.
  • REDONDOS OU ESFÉRICOS: mais complexos. Caracterizados em seus aspectos FÍSICOS, PSICOLÓGICOS, SOCIAIS, MORAIS e RELIGIOSOS. Absolutamente imprevisíveis. Sofrem modificações no decorrer da trama.

TEMPO: são as referências temporais dentro de uma narrativa. 
  • Tempo cronológico: o enredo se organiza na ordem natural dos fatos, do começo para o final.
  • Tempo psicológico: enredo não-linear, submetido à ordem empregada pelo narrador.
  • Época: quando ocorreram os fatos.
  • Duração: quanto tempo dura a narrativa.
ATENÇÃO: O tempo também pode ser analisado de acordo com a época em que o locutor NARRA os fatos e a época em que realmente eles OCORRERAM. Veja:
  • Tempo da enunciação: a época em que os fatos são narrados.
  • Tempo do enunciado: a época em que os fatos realmente ocorreram.
ESPAÇO: é o lugar onde ocorre a narrativa. 

AMBIENTE: é a soma de época, localização geográfi-ca, clima psicológico, situa-ção sociopolítica, moral, religião.

ASSUNTO, TEMA E MENSAGEM:
  • ASSUNTO: é uma espécie de resumo (muito resumido) do enredo. Ex.: um homem rico que sai para matar pessoas na rua, com o seu carro, apenas para relaxar.
  • TEMA: é a abstração do assunto. Ex.: a violência.
  • MENSAGEM: frase que sintetiza o texto. Ex.: a violência está onde não se espera que ela esteja.
Para ternimar, uma narrativa rápida e bem interessante:



NARCISO, de João Ventura:


Narciso cansou-se de se mirar em charcos e ribeiros. Tornou-se urbano e arranjou um emprego. Polidor de espelhos!


O patrão estava feliz. Nunca lhe tinha aparecido um empregado apaixonado pelo trabalho. Até fazia horas extraordinárias de graça!



Um dia Narciso fez uma experiência. Esperou com ansiedade pela saída dos restantes empregados e do patrão. Pegou nos últimos dois espelhos que tinha polido, cada um com dois metros de altura por um de largura (encomendados por uma loja de pronto-a-vestir) e posicionou-os em frente um do outro, as superfícies tão paralelas quanto possível. Descalçou os sapatos e as meias, despiu a roupa e, completamente nu, colocou-se no meio dos espelhos.



Quando olhou a sua imagem multiplicada até ao infinito, uma onda de prazer com uma intensidade que não supunha possível fez vibrar cada nervo do seu corpo, fez ressoar cada neurônio do seu cérebro...



Morreu de overdose.




 
l