POSTAGEM 22: As projeções das cantigas trovadorescas na MPB

Olá internauta. Faltam 78 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 22. Hoje vamos falar um pouquinho sobre Trovadorismo e Música Popular Brasileira.

Em primeiro lugar, vale lembrar que na época em questão não existia uma clara separação entre Literatura e Música, ou seja, os poemas não eram declamados ou lidos isoladamente, mas cantados para grandes públicos nas cortes medievais. Por este motivo, chamamos os textos trovadorescos de “cantigas” e as classificamos inicialmente em dois grupos: as cantigas líricas e as satíricas. As líricas se subdividem em “de amor” e “de amigo”. As satíricas podem ser “de escárnio”, “de maldizer”, “de tenção de briga” e “de seguir”. Esses dois últimos tipos não são tão relevantes como os outros quatro, mas não podemos deixar de citar, pelo menos, a sua existência. Neste texto, vamos separar as cantigas apontando suas características distintivas, ou seja, as mais importantes. As outras características se encontram nos slides da postagem 18. Caso você tenha dúvida, dê uma olhadinha clicando aqui.

O ENEM geralmente não cobra apenas as cantigas trovadorescas em si, mas também a projeção do Trovadorismo no cancioneiro da MPB. E como vamos ver nesta postagem, estas projeções não são poucas.


CANTIGA DE AMOR
Nas cantigas de amor, um eu-lírico masculino se refere à sua amada (geralmente uma mulher da corte) de maneira idealizada, ou seja, ela parece estar inacessível, absolutamente distante de seu amor. Ele se mantém numa posição inferior em relação a ela, uma posição de vassalo (inspirado nas classes sociais do Feudalismo, sistema político, econômico e social vigente na época). Este tipo de cantiga se originou na Provença, uma região do sudeste da França. O eu-lírico refere-se à sua amada como “mia senhor”, já que na época não existia a palavra “senhora” (pois senhor é aquele que tem domínio sobre alguém ou alguma coisa e a mulher não tinha domínio nem sobre si mesma. Portanto, não havia necessidade da palavra no gênero feminino). Outra característica importante era o sofrimento amoroso, que era conhecido como “coita”. Todas (ou quase todas) as características acima mencionadas acima podem ser encontradas em canções da nossa MPB. Vejamos o texto que se segue, Luísa, de Tom Jobim:

Rua,
Espada nua
Bóia no céu imensa e amarela
Tão redonda a lua
Como flutua
Vem navegando o azul do firmamento
E no silêncio lento
Um trovador, cheio de estrelas
Escuta agora a canção que eu fiz
Pra te esquecer Luísa
Eu sou apenas um pobre amador
Apaixonado
Um aprendiz do teu amor
Acorda amor
Que eu sei que embaixo desta neve mora um coração.

Vem cá, Luísa
Me dá tua mão
O teu desejo é sempre o meu desejo
Vem, me exorciza
Dá-me tua boca
E a rosa louca
Vem me dar um beijo
E um raio de sol
Nos teus cabelos
Como um brilhante que partindo a luz
Explode em sete cores
Revelando então os sete mil amores
Que eu guardei somente pra te dar Luísa

A letra de Tom Jobim se casa perfeitamente com as cantigas de amor, já que possui todas as suas características distintivas: sujeito masculino (que neste caso, inclusive, se identifica como um trovador), o objeto feminino (Luísa), o amor idealizado (“o teu desejo é sempre o meu desejo”), a vassalagem amorosa (“eu sou apenas um pobre amador”), e a coita (“Escuta agora a canção que eu fiz / Pra te esquecer Luísa”).

Outras letras da MPB que se aproximam das cantigas de amor: “Queixa” (Caetano Veloso), “Rosa” (Pixinguinha, Otavio de Sousa), “Dona” (Sá & Guarabira), entre outras.


CANTIGA DE AMIGO
As cantigas de amigo se distinguem essencialmente por um eu-lírico feminino, mesmo sendo escritas por um homem (já que as mulheres não escreviam na época ou se escreviam, não deixaram registro). O objeto do amor é masculino e é chamado de “amigo”, que correspondia a amante ou namorado. Isso pode ser observado na canção “Sob medida”, de Chico Buarque:

Chico Buarque
Se você crê em Deus
Erga as mão para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto
Sou igual a você
Eu nasci pra você
Eu não presto
Eu não presto

Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da sua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus.

Observe que o compositor é masculino (Chico Buarque), mas o eu-lírico é feminino (uma mulher que se diz “sob medida” para seu “amigo” (amante ou namorado). É bom notar que nas cantigas de amigo, o amor parece mais concreto. No Trovadorismo era comum o eu-lírico feminino queixar-se de saudades do seu amado, que a havia abandonado.

Outras letras da MPB que se aproximam das cantigas de amigo: “O meu amor”, “Folhetim”, “Tatuagem”, “Atrás da porta”, “Olhos nos olhos” (todas de Chico Buarque), e ainda: “Esse cara”, “Eu Sou Neguinha?” (Caetano Veloso).

CANTIGAS DE ESCÁRNIO
Diferentemente das cantigas de amor, o tema das cantigas satíricas é a crítica. Nas cantigas de escárnio esta crítica aparece de forma indireta, ou seja, não se revela o nome de quem é criticado. A linguagem dessas cantigas é mais polida, ou seja, não possui termos chulos, depreciativos. Para exemplificar, podemos utilizar a canção “Mulher indigesta” de Noel Rosa. Veja:

Mas que mulher indigesta! (Indigesta!)
Merece um tijolo na testa

Essa mulher não namora
Também não deixa mais ninguém namorar
É um bom center-half pra marcar
Pois não deixa a linha chutar

E quando se manifesta
O que merece é entrar no açoite
Ela é mais indigesta do que prato
De salada de pepino à meia-noite

Essa mulher é ladina
Toma dinheiro, é até chantagista
Arrancou-me três dentes de platina
E foi logo vender no dentista.


Note que em nenhum momento foi citado o nome desta mulher difícil, que na linguagem popular podera ser classificada como uma verdadeira “bruaca”. A linguagem é tranquila, sem adjetivos ofensivos ou palavras de baixo calão. Temos, portanto, uma projeção das cantigas de escárnio na MPB. Outras letras da MPB que se aproximam das cantigas de amigo: “Não enche” (Caetano Veloso), “Vingança” (Lupicínio Rodrigues), “Candidato caô caô” (Walter Meninão e Pedro Butina), “Que país é esse?” (Renato Russo) entre outras.

CANTIGAS DE MALDIZER
Para finalizar, as características distintivas das cantigas de maldizer são contrárias às de escárnio: a sátira direta (em que se especifica o nome de que é criticado) e/ou a linguagem chula. Note que neste caso, pode aparecer uma ou outra característica. Observe a canção Joana, de Ana Carolina:

Eu não gosto de Joana
Joana tem uma cara esquisita
Joana tem uma risada careta e maldita

Eu não gosto das suas unhas e seu jeitinho de ainda vencerei
Joana é meio problemática
Perde tempo estudando física, matemática
Joana lá com seus cadernos

Olha eu detesto Joana
Seu rosto pálido de batom rosa
Joana nem gosta de prosa

É evidente a influência das cantigas de maldizer neste caso, já que o nome da personagem criticada (Joana) aparece já no título. Apesar de ter uma linguagem polida, a nomeação do objeto satírico é mais forte. Da mesma forma, observe outro trecho, desta vez da canção “É tudo filho da puta”, deRoger Moreira.

Morar nesse país
É como ter a mãe na zona
Você sabe que ela não presta
E ainda assim adora essa gatona
Não que eu tenha nada contra
Profissionais da cama
Mas são os filhos dessa dama
Que você sabe como é que chama

Filha da puta
É tudo filho da puta

Apesar de não criticar alguém especificamente, de não se fazer uma sátira direta, a linguagem chula é mais evidente, e aqui também podemos constatar a influência das cantigas de maldizer.

Outras letras da MPB que se aproximam das cantigas de maldizer: as várias canções do compositor Juca Chaves, que tem sempre uma crítica ferina e direta aos Presidentes da República: “Nova república” (crítica a José Sarney), “Super Collor” (crítica a Fernando Collor), “Ah! Se o seu fusca votasse” (crítica a Itamar Franco), “FHC” (crítica a Fernando Henrique Cardoso). Pra terminar, assista, prazerosamente, ao vídeo abaixo:



 
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