POSTAGEM 24: Vamos fazer teatro na Idade Média?

Olá internauta. Faltam 76 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 24. Hoje, domingo, teremos a seção "Algo Mais", ou seja, um assunto específico e/ou relacionado com as postagens da segunda e da terça anteriores. Vamos falar neste primeiro texto sobre um dos autores mais importantes da Literatura Portuguesa: Gil Vicente. O "pai" do teatro português é tão importante que alguns estudiosos europeus chegam a afirmar que ele supera Luís de Camões, considerado pela grande maioria o expoente máximo de nossa língua. Então vejamos:


O inventor do teatro português usava tipos sociais como personagens


Nascido em 1465, Gil Vicente é considerado o criador do teatro português. Antes de sua estreia, em 1502, com a peça Monólogo do Vaqueiro (também conhecida como Auto da Visitação), já ocorriam manifestações teatrais em Portugal, mas eram apenas encenações de textos que não haviam sido produzidos especialmente para o palco. Gil Vicente foi também poeta lírico e está representado no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, mas é conhecido principalmente pelas 44 peças teatrais de diversos temas.

Os conflitos morais e religiosos característicos do Humanismo estão plenamente registrados no teatro vicentino. Livres das imposições da Igreja, suas personagens frequentemente se dividiam entre viver de acordo com os mandamentos cristãos, garantindo a salvação, e render-se aos bens materiais, correndo o risco de ir para o inferno.

As personagens não representam indivíduos definidos, mas, sim, tipos sociais. Ou seja, não têm características psicológicas particulares. Servem como modelos para exemplificar qual era, segundo o autor, o comportamento de determinados setores da sociedade da época. Por isso, são chamadas de personagens alegóricas. As alegorias representam situações ou um setor social. Em uma das peças mais conhecidas de Gil Vicente, Auto da Barca do Inferno, por exemplo, um fidalgo com um pajem e uma cadeira são uma alegoria para toda a nobreza ociosa de Portugal. Em Auto da Lusitânia, as personagens Todo o Mundo e Ninguém são alegorias que se explicam pelo nome.

A obra vicentina divide-se em autos que, em tom sério, tratam de assuntos ligados à fé; e farsas, que analisam, em tom de sátira, os costumes da sociedade da época.

Nos autos, os conflitos religiosos são vividos por personagens bíblicas, e os enredos são moralizantes. Contando a história de pessoas que são tentadas pelos demônios a seguir o caminho do mal, Gil Vicente buscava reafirmar os valores cristãos fragilizados. Em Auto da Barca do Inferno, vários tipos sociais são submetidos a um interrogatório, após o qual são levados pelo Diabo em sua barca para o Inferno ou pelo Anjo em sua barca para o Paraíso. Uma a uma, as personagens conversam com o Diabo e o Anjo, o que resulta em uma estrutura bastante esquemática da peça, ou na característica do teatro vicentino. São absolvidos apenas um parvo, por pecar sem consciência, e quatro cavaleiros, que morreram combatendo os infiéis.

Nas farsas, o autor ridicularizava personagens que não agem conforme os princípios das instituições às quais pertencem, como o padre que sucumbe à ganância ou o escudeiro que foge da batalha.

Entre suas obras também se destacam o Auto da Fé, O Velho da Horta, A Farsa de Inês Pereira e os demais autos que, com Auto da Barca do Inferno, completam a "Trilogia das barcas": Auto da Barca do Purgatório e Auto da Barca da Glória.

Embora escritas há quase cinco séculos, as peças de Gil Vicente retratam dilemas morais e conflitos sociais que ainda estão presentes no mundo contemporâneo. Também a forma como esses conflitos são tratados encontra eco nos séculos seguintes.

Um exemplo é Auto da Compadecida, escrito em 1955 pelo paraibano Ariano Suassuna (na imagem abaixo, cena da adaptação da peça para o cinema). A peça de Suassuna, ambientada no sertão nordestino, estabelece um paralelo com Auto da Barca do Inferno, de Gil Vicente, ao retratar personagens que, ao morrer, são julgados por seus pecados. Em ambos os autos, os tipos humanos mais humildes e submissos à moral religiosa, que pecam sem maldade, conseguem a salvação.

Adaptado de Curso Preparatório ENEM 2011, Editora Abril.
Fernanda Montenegro e Maurício Gonçalves, na adaptação de Auto da Compadecida para o cinema



 
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