POSTAGEM 28: O cérebro humano no teto da Capela Sistina?

Olá internauta. Faltam 72 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 28. Hoje quero compartilhar com vocês um texto que há algum tempo eu encontrei pela internet e que fala do assunto que eu escolhi para a postagem de hoje: a semelhança entre do mais conhecido afresco de Michelangelo (representante da arte renascentista) e um corte sagital de um cérebro humano.

Conheci a polêmica comparação nas aulas de História da Arte do meu amigo e camarada Prof. Aluísio Brandão e acabei, já despertada a curiosidade, por encontrar o texto que agora partilho com vocês. Infelizmente, não tenho o nome do(a) autor(a), que apenas se identifica com o nickname de “deusa_eris”. Logo em seguida, um exercício do ENADE (Exame Nacional de desempenho de estudantes) de 2007, que avalia os estudantes universitários. Vamos lá:


DEUS E O CÉREBRO


A semelhança entre o corte do crânio e a cena da Criação do Mundo já tinha sido estudada, mas não a linguagem do olhar dos anjos, ou melhor, na de Michelangelo.

A célebre Capela Sistina, onde são realizados os conclaves para escolha dos novos papas, é hoje visitada por milhões de turistas que passam pelo Vaticano todos os anos. Além dos impressionantes museus do Vaticano, a Capela deixa sua marca nos visitantes que, observam maravilhados o afresco riquíssimo e complexo que Michelangelo pintou, cobrindo todo o teto, entre 1508 e 1512. A iconografia das cenas, com mais de 300 figuras humanas, coloca em destaque a anatomia dos nus; um reflexo da filosofia humanista da renascença e de sua busca pelos ideais clássicos de beleza.

Em 2001 começaram a descobrir que o teto da Sistina estampa uma lição camuflada de anatomia humana que vai muito além da anatomia de superfície que até então se conhecia. Esta descoberta foi motivada em parte por um artigo científico publicado em 1990 pelo médico americano Frank Lynn Meshberger no “Journal of the American Medical Association” onde ele apresentou uma interpretação para a cena da Criação de Adão de Michelangelo, baseada em neuroanatomia. Meshberger argumenta de forma convincente que esta cena (a mais famosa da capela), possui uma característica que ainda não havia sido reconhecida. Ele compara a cena onde o criador se encontra dentro de um manto cercado de querubins, com várias figuras anatômicas que mostram esquemas do corte sagital do crânio humano, contendo o cérebro, para mostrar uma impressionante semelhança entre a figura pictórica e as figuras anatômicas. Meshberger identifica várias estruturas incluindo a artéria vertebral, o cordão espinal, a hipófise, o nervo óptico e o quiasma óptico e conclui que a intenção de Michelangelo pode ter sido a de representar Deus fornecendo a Adão o intelecto. Porém, acredita-se que essa forma de louvor à arte era indício de que Michelangelo era um homem de seu tempo: contrariamente à aceitação ingênua dos dogmas e das leis da Igreja, à qual ele próprio servia com sua arte e que agora começava a sentir os efeitos de anos de abuso de poder sob os primeiros sinais da reforma protestante, o artista questionava as bases desses mistérios por meio da pintura: na pintura que louvava o corpo do homem como a mais perfeita das criações divinas e que propunha, no corpo do homem e no corpo de Deus, outros mistérios.

Michelangelo certamente não era um católico fervoroso; sua devoção existia mais para o corpo criado do que para a mente do divino criador. Demonstra-o sua curiosidade de homem do renascimento, que o levara à dissecação de corpos humanos para que melhor entendesse as formas que compunha em sua escultura e em sua pintura.

Em "A criação de Adão", parece haver ali, nessa cena, um incômodo segredo que o século XVI ainda não estava preparado para aceitar. As descobertas dos anos 90 em diante, a respeito da pintura, mostraram que o grupo composto por Deus e seus anjos são possivelmente uma representação velada da dissecação de um cérebro humano. Mesmo que esse tipo de jogo com a imagem fosse comum na arte renascentista, a "A criação de Adão", pode ser considerada como uma denúncia aguerrida tanto quanto era uma demonstração de um conhecimento oculto.

Aceitando como corretas as suposições a respeito das imagens anatômicas contidas nas pinturas da Capela Sistina, parece errôneo acreditar que a escolha da relação entre a imagem explícita e a da oculta fosse aleatória. É possível acreditar que houvesse uma criteriosa escolha, que essas relações entre imagens contivessem também um caráter metafórico por demais revelador da rebeldia de Michelangelo. Se essa suposição não é válida para todas as imagens, para pelo menos uma parece ser: justamente a mais importante para o antropocêntrico homem da renascença; aquela de sua criação, colocada justamente na parte mais central do teto da capela.

Sabendo-se que neste período a sede dos pensamentos já não era mais considerada como sendo o coração, como se pensou por muito tempo, mas sim o cérebro. Então, a dedução mais óbvia que se pode fazer sobre a presença de Deus no âmago do cérebro é que ele próprio seria um pensamento. O que significaria, então, esse braço que se estende em direção a Adão, na metáfora anatômica? A leitura da cena bíblica consagrada como correta é a que lê nessa representação o ato de criação; as mãos que sequer se tocam traduzem o exato instante em que, como um toque de mágica, o homem surgiu. Mas a Bíblia conta outra história: segundo as escrituras, Adão foi moldado do pó da terra para logo depois receber vida por meio do sopro divino em suas narinas. Não há, no Gênesis ou em qualquer outra parte da Bíblia o gesto representado por Michelangelo. O que Michelangelo conhecia melhor na cena era a criação de corpos – tão intensamente admiráveis a ponto de parecerem vivos. Adão era sua criação. Se esse Adão era criação de um homem, de um artista, qual o papel de Deus nessa cena? Há duas respostas possíveis para a questão. A primeira, convenientemente adequada, é que ambas as figuras são atores de uma encenação: a encenação proposta pela Igreja para seus fiéis. A segunda resposta é aquela que aproxima, hermenêuticamente, os tempos de Michelangelo. A interpretação possível é que Adão, criado por Michelangelo, estende seu braço em direção ao céu para extrair, do cérebro, a idéia de Deus. Mas esse Deus criado devolve o favor e, em um ato de reação à ação criadora, recria, na imagem do demiurgo à sua frente, criador de seu próprio mundo, o homem que justificará a origem da cultura judaico-cristã. 


EXERCÍCIO DO ENADE 2007

Entre 1508 e 1512, Michelangelo pintou o teto da Capela Sistina, no Vaticano, um marco da civilização ocidental. Revolucionária, a obra chocou os mais conservadores, pela quantidade de corpos nus, possivelmente, resultado de secretos estudos de anatomia, uma vez que, naquele tempo, era necessária a autorização da Igreja para a dissecação de cadáveres.

Recentemente, perceberam-se algumas peças anatômicas camufladas entre as cenas que compõem o teto. Alguns pesquisadores conseguiram identificar uma grande quantidade de estruturas internas da anatomia humana, que teria sido a forma velada de como o artista "imortalizou a comunhão da arte com o conhecimento". 

Uma das cenas mais conhecidas é "A criação de Adão". Para esses pesquisadores, ela representaria o cérebro num corte sagital, como se pode observar nas figuras a seguir.


BARRETO, Gilson e OLIVEIRA, Marcelo G. de. A arte secreta de Michelangelo — Uma lição de anatomia na Capela Sistina. ARX.

Considerando essa hipótese, uma ampliação interpretativa dessa obra-prima de Michelangelo expressaria
A) o Criador dando a consciência ao ser humano, manifestada pela função do cérebro.
B) a separação entre o bem e o mal, apresentada em cada seção do cérebro.
C) a evolução do cérebro humano, apoiada na teoria darwinista.
D) a esperança no futuro da humanidade, revelada pelo conhecimento da mente.
E) a diversidade humana, representada pelo cérebro e pela medula. 

GABARITO DO ENADE: A



 
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