POSTAGEM 29: Como pode causar nos corações humanos amizade, se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Olá internauta. Faltam 71 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 29. Seguindo nosso cronograma, hoje vamos falar de música.

Muitos dos meus jovens alunos acabam se chateando quando comparamos os ídolos da “geração anos 80 e 90” com aqueles que fazem a cabeça da moçada de hoje, em especial os meteoros sertanejos, os que têm cabelo esquisito e os de calças coloridas. Parece que nós, balzaquianos e quarentões, não aceitamos as novidades que apareceram nos últimos anos e paramos no tempo, idolatrando o período de nossa infância e adolescência. Não é isso. O que acontece é que os nossos caras eram bons mesmo, continuam e continuarão para eternamente sendo bons. Tanto que muitos dos jovens também se rendem a esses ídolos de ontem e sempre.

O que pretendo aqui não é causar polêmica quanto ao gosto musical das gerações, mas enaltecer um texto que já serviu de inspiração para muitos jovens, de todas as idades: a obra-prima Monte Castelo, do incrível Renato Russo. A canção apareceu no álbum “As quatro estações”, de 1989, mas como todos sabem, suas origens são bem mais antigas que isso. Ela foi criada através da colagem de outros dois textos, também conhecidíssimos do grande público: o capítulo 13 da Primeira Carta de Paulo aos Coríntios e um dos mais conhecidos sonetos de Luís de Camões.

Vamos a eles:

I Cor 13
1  Ainda que eu falasse as línguas dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o sino que tine.
2  E ainda que tivesse o dom de profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse amor, nada seria.
3  E ainda que distribuísse toda a minha fortuna para sustento dos pobres, e ainda que entregasse o meu corpo para ser queimado, e não tivesse amor, nada disso me aproveitaria.
4  O amor é sofredor, é benigno; o amor não é invejoso; o amor não trata com leviandade, não se ensoberbece.
5  Não se porta com indecência, não busca os seus interesses, não se irrita, não suspeita mal;
6  Não folga com a injustiça, mas folga com a verdade;
7  Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
8  O amor nunca falha; mas havendo profecias, serão aniquiladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá;
9  Porque, em parte, conhecemos, e em parte profetizamos;
10  Mas, quando vier o que é perfeito, então o que o é em parte será aniquilado.
11  Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, discorria como menino, mas, logo que cheguei a ser homem, acabei com as coisas de menino.
12  Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.
13  Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER,

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?

E agora, através do vídeo abaixo, relembre o resultado conseguido por Renato Russo:



Muitos comentários já foram feitos a respeito dessa intertextualidade, a começar pelo título. O nome “Monte Castelo” remete-nos à Batalha de Monte Castello, na Itália, evento protagonizado pelos nossos “pracinhas” da F.E.B. (Força Expedicionária Brasileira). Podemos inferir que o título da canção foi dado de modo irônico, já que é um hino ao amor, ao contrário da guerra, que é um hino ao ódio.

O texto do apóstolo Paulo é um dos mais conhecidos da Bíblia. Importantíssimo nas missas, cultos, reuniões, e qualquer outra manifestação cristã. Ele é uma ótima tradução do pensamento hebraico-cristão, que esteve em voga no período medieval. A palavra “amor” adquire um significado mais profundo e pode ser traduzida também como “caridade”. Trata-se do chamado amor "αγάπη" (ágape), ou seja, o sentimento em sua forma mais sublime, incondicional, sem pedir nada em troca. Isso fica claro quando relemos o capítulo aos Coríntios.

Renato Russo
O texto de Camões, por sua vez, é um dos mais conhecidos da humanidade, pretenso representante lírico da Língua Portuguesa em qualquer seleta da Literatura Universal. Ele é a tradução do pensamento greco-romano, que esteve em voga no período renascentista. A palavra “amor” aparece nele com seu significado "ἔρως" (Eros), ou seja, é o amor carnal, relacionado ao desejo, ao sexo, ou seja, “erótico”. Pelo uso contínuo de antíteses, o soneto já foi chamado de maneirista, numa referência ao movimento artístico que ficou conhecido como Maneirismo, mas que não floresceu dentro da Literatura em nossa Língua.

Ora, a cultura ocidental da qual fazemos parte é justamente a junção dos ideais hebraico-cristãos com os ideais greco-romanos. A canção de Renato Russo fica, portanto como um elo unindo essa duas metades do nosso saber. E é por isso que comecei essa postagem colocando o compositor e líder da Legião Urbana no rol dos grandes poetas do Brasil, pois ele soube, com maestria, unir pensamentos tão contrários e tão complementares como o próprio amor, tema de seu texto.

Fique atento a essas canções que remetem a outros textos da nossa cultura. Elas são bastante cobradas no ENEM. Até mais. Ah! Reveja o vídeo quantas vezes quiser e se maravilhe com a obras desses três grandes caras: Paulo, Luís e Renato.


 
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