POSTAGEM 34: Tu, que um peito abrasas escondido

Olá internauta. Faltam 66 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 34. Hoje vamos trazer dois exercícios do ENEM que cobram os conteúdos da semana: Barroco e Arcadismo. Observe como esses assuntos já foram cobrados no exame:

QUESTÃO 01

Analise os textos abaixo relacionados a arte barroca para em seguida marcar o item incorreto sobre esse movimento cultural:

Texto I
A ideologia barroca foi fornecida pela Contrarreforma e pelo Concílio de Trento, a que se deve o colorido peculiar da época, em arte, pensamento, religião, concepções sociais e políticas. Se encararmos a Renascença como um movimento de rebelião na arte, filosofia, ciências, literatura, — contra os ideais da civilização medieval, ao lado de uma revalorização da Antiguidade Clássica, não somente quanto as suas formas de arte, mas também no que concerne à sua filosofia racionalista e à sua concepção paga e humanista do mundo, que instalou o antropocentrismo moderno — podemos compreender o Barroco como uma contra-reação a essas tendências sob a direção da Contrarreforma católica, numa tentativa reencontrar o fio perdido da tradição cristã, procurando exprimi-la sob novos moldes intelectuais e artísticos.
(Coutinho, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1976. p.98.)

Texto II O painel do teto de uma igreja, é uma das obras primas de Mestre Athayde.


Texto III
QUIS O POETA EMBARCAR-SE PARA A CIDADE E ANTECIPANDO A NOTÍCIA A SUA SENHORA, LHE VIU UMAS DERRETIDAS MOSTRAS DE SENTIMENTO EM VERDADEIRAS LÁGRIMAS DE AMOR.

Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que um peito abrasas escondido,
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai! que andou Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu, parecesse a chama fria.
(Matos , Gregório. Antologia Poética. São Paulo: Ediouro S. A., 1991. p.64.)

a) A pintura referida acima, de Mestre Athayde, no teto da nave central da Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto (MG), se enquadra ao ideal estético Barroco com seu intenso cromatismo, com a valorização dos detalhes, profunda religiosidade expressada pelos diversos elementos religiosos, e, por fim, pelo excesso de ornamentação.
b) O fragmento de Afrânio Coutinho consegue muito bem ilustrar o que seria a arte Barroca, guiada por pólos diversos (a cultura pagã versus a católica), numa tentativa de se rebelar a fim de se expressar sob novos moldes intelectuais e artísticos pautados no equilíbrio, aspecto atingido pela maioria de suas produções.
c) Na forma do poema (texto III) percebe-se a herança do Renascimento, uso de um soneto (a “medida nova” a serviço do sentimento, aspecto que permite vinculá-lo à faceta lírico-amorosa da poesia do autor) com rima em ABBA ABBA CDC DCD, no melhor estilo petrarquiano.
d) O evidente trabalho com a seleção das palavras do texto III, que resultam no rebuscamento artístico dos textos barrocos e expresso por várias figuras de linguagem, como por exemplo, a hipérbole (“Pranto por belos olhos derramado!”), paradoxo (“Incêndio em mares de água disfarçado! / Rio de neve em fogo convertido!”) e antítese (“Se és fogo como passas brandamente?”). Toda essa ornamentação do texto poético de Gregório de Matos aproxima-o da pintura de Mestre Athayde.
e) O processo físico da sublimação (passagem do estado sólido para o gasoso) pode ser visto no poema de Gregório de Matos Guerra (“Rio de neve em fogo convertido!”), embora a sua utilização nessa parte vincule-se ao caos do universo interior do sujeito lírico.


GABARITO: C
COMETÁRIO DO LÉS: exercício extenso, aparentemente difícil, mas que poderia ser resolvido facilmente com a ideia de que as obras barrocas não tendiam ao equilíbrio e sim as de inspiração clássica como as do Classicismo português e as do Arcadismo, por exemplo. Interessante notar que o examinador utilizou um texto crítico, uma imagem e um poema da lírica gregoriana. Essa mistura de artes (pintura e literatura) é bem típica do ENEM. O exercício cobrou aspectos da teoria literária como as figuras de linguagem e o esquema rímico, além de citar a influência de Francesco Petrarca aos grandes sonetistas, mesmo os que não descendem diretamente da estirpe greco-romana, como Gregório de Matos.

QUESTÃO 02

Torno a ver-vos, ó montes; o destino
Aqui me torna a por nestes outeiros,
Onde um tempo os gabões deixei grosseiros
Pelo traje da Corte, rico e fino.

Aqui estou entre Almendro, entre Corino,
Os meus fieis, meus doces companheiros,
Vendo correr os míseros vaqueiros
Atrás de seu cansado desatino.

Se o bem desta choupana pode tanto,
Que chega a ter mais preço, e mais valia
Que, da Cidade, o lisonjeiro encanto,

Aqui descanse a louca fantasia,
E o que ate agora se tornava em pranto
Se converta em afetos de alegria.

(Claudio Manoel da Costa. In: Domicio Proença Filho. A poesia dos inconfidentes. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002, p. 78-9.)

Considerando o soneto de Claudio Manoel da Costa e os elementos constitutivos do Arcadismo brasileiro, assinale a opção correta acerca da relação entre o poema e o momento histórico de sua produção.
a) Os “montes” e “outeiros”, mencionados na primeira estrofe, são imagens relacionadas a Metrópole, ou seja, ao lugar onde o poeta se vestiu com traje “rico e fino”.
b) A oposição entre a Colônia e a Metrópole, como núcleo do poema, revela uma contradição vivenciada pelo poeta, dividido entre a civilidade do mundo urbano da Metrópole e a rusticidade da terra da Colônia.
c) O bucolismo presente nas imagens do poema é elemento estético do Arcadismo que evidencia a preocupação do poeta árcade em realizar uma representação literária realista da vida nacional.
d) A relação de vantagem da “choupana” sobre a “Cidade”, na terceira estrofe, é formulação literária que reproduz a condição histórica paradoxalmente vantajosa da Colônia sobre a Metrópole.
e) A realidade de atraso social, político e econômico do Brasil Colônia está representada esteticamente no poema pela referência, na última estrofe, à transformação do pranto em alegria.


GABARITO: B
COMETÁRIO DO LÉS: interessante exercício, que avalia alguns aspectos interessantes da teoria do Arcadismo. A alternativa A está errada, pois “montes” e “outeiros” se referem à Colônia (Brasil) e não à Metrópole. A palavra “realista” acaba invalidando a alternativa C, pois o Arcadismo antecipa um pouco a chamada idealização romântica. A assertiva D está errada em virtude da oscilação entre o apego à Colônia e o amor à Metrópole, ou seja, na poesia de Cláudio Manoel da Costa, o eu-lírico não consegue fazer opção por uma delas. Por fim, a alternativa E está falsa, pois a “transformação do pranto em alegria” nada tem a ver com “a realidade de atraso social, político e econômico do Brasil Colônia”.




 
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