POSTAGEM 35: "Vaidade das vaidades! Tudo é vaidade."

Olá internauta. Faltam 65 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 35. Hoje quero compartilhar com vocês a leitura de um quadro que sempre me chamou a atenção nas minhas aulas sobre Barroco: As vaidades da vida humana, de Harmen Steenwyck.



Um dos ideais do Classicismo era a busca da imortalidade, conforme atesta Camões em Os Lusíadas, ao se propor a elogiar “aqueles que por obras valorosas / se vão da lei da Morte libertando”. No quadro acima, As vaidades da vida humana, pintado pelo barroco Harmen Steenwyck por volta de 1645, vários objetos simbólicos são tachados de “vaidades”, ou seja, coisas insignificantes, fúteis, vazias, que se afirmam sobre uma aparência ilusória, como a flauta e a charamela, instrumentos musicais relacionados ao amor; por sua forma alongada, fálica, são elementos relacionados ao universo masculino. Temos ainda o livro, representando o conhecimento, a sabedoria. A concha vazia, símbolo da riqueza e da perfeição; como está vazia, também sugere a morte. Ainda o jarro de vinho, relacionado aos prazeres materiais, como a bebida; por baixo da alça, porém, pode se notar o perfil de um imperador romano, sugerindo o desejo humano de glória, de poder.

O caráter efêmero da vida é ainda representado no quadro de várias formas: na parte central do quadro, podemos notar uma lâmpada que acabou de se apagar, já que um fio de fumaça ainda pode ser observado. Além dele, o crânio humano, lugar-comum na pintura barroca também passa essa ideia, ao lado da concha vazia, pois já não tem mais a vida que a habitava, e o cronômetro, que indica que o nosso na terra é limitado.

Interessante é observar também o contraste entre claro e escuro, outra característica da pintura barroca. Podemos até afirmar que a presença de uma tonalidade serve para ressaltar a presença da outra. E mais: a luz que contrasta com a escuridão vem do alto, ou seja, pode ser relacionada com o poder divino, e é essa a grande lição que o autor quis passar: a de que devemos buscar as coisas do alto e abandonarmos as coisas da vida. Neste ponto, o quadro faz uma intertextualidade com um dos mais belos trechos do Antigo Testamento, início do livro de Eclesiastes e com um conhecido soneto de Gregório de Matos Guerra (ambos abaixo).

TRECHO DO ECLESIASTES
Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos.  Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: Veja: isto é novo, ela já existia nos tempos passados. Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles. Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém. Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo que se passa debaixo dos céus: Deus impôs aos homens esta ocupação ingrata. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa. O que está curvado não se pode endireitar, e o que falta não se pode calcular. Eu disse comigo mesmo: Eis que amontoei e acumulei mais sabedoria que todos os que me precederam em Jerusalém. Porque meu espírito estudou muito a sabedoria e a ciência, e apliquei o meu espírito ao discernimento da sabedoria, da loucura e da tolice. Mas cheguei à conclusão de que isso é também vento que passa. Porque no acúmulo de sabedoria, acumula-se tristeza, e que aumenta a ciência, aumenta a dor. (Ecle 1)

DESENGANOS DA VAIDADE HUMANA, METAFORICAMENTE
É a vaidade, Fábio, nesta vida
Rosa, que de manhã lisonjeada,
Púrpuras mil, com ambição dourada,
Airosa rompe, arrasta presumida.

É planta, que de abril favorecida,
Por mares de soberba desatada,
Florida galeota empavesada,
Sulca ufana, navega destemida.

É nau enfim, que em breve ligeireza,
Com presunção de Fênix generosa,
Galhardias apresta, alentos preza:

Mas ser planta, ser rosa, ser nau vistosa
De que importa, se aguarda sem defesa
Penha a nau, ferro a planta, tarde a rosa?

Vocabulário:
Lisonjeado: agradado, satisfeito.
Airoso: gracioso, elegante.
Presumido: arrogante, vaidoso.
Soberba: orgulho desmedido.
Galeota empavesada: embarcação enfeitada.
Sulcar: cortar.
Ufano: que se sente orgulhoso, honrado.
Fênix: na mitologia, ave imortal que renasce das cinzas.
Galhardia: elogio, elegância.
Aprestar: preparar.
Alento: ânimo, coragem.
Penha: rocha, pedra.
Desatada: desprendida, solta.
Púrpura: cor vermelha.
Apresta: verbo aprestar, preparar rápido.
Alentos preza: gostar de receber elogios.
Nau: navio.

ANÁLISE ADAPTADA DE:
Caderno 2, 1º ano. Sistema Objetivo de Ensino
CEREJA, W.R. & MAGALHÃES, T. C.Literatura Brasileira, Volume único. Atual Editora.


 
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