POSTAGEM 40: Romantismo no Brasil

Olá internauta. Faltam 60 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 40. Ontem vimos como o Romantismo se projetou no cenário mundial. Hoje vamos ver como ele aconteceu em terras brasileiras.

A Vontade de ser Brasileiro. O Romantismo

A partir da primeira metade do século XVIII, na Inglaterra e na Alemanha alguns autores passaram a expressar em suas obras as emoções, falando em sentimentos de amor e saudade num tom pessoal ou de amor à pátria, inspirados nas tradições nacionais. Era o nascimento do Romantismo, movimentos culturais que atingiram a França, onde, em contato com os ideais da Revolução Francesa, ganharam novo impulso espalhando-se por outras nações da Europa e pela América.

Foi graças ao Romantismo que, durante o século XIX, artistas e intelectuais brasileiros começaram a se preocupar em mostrar em suas obras as características de uma nação recém - fundada, distinta de todas as outras nações. Tratava-se de destacar os sentimentos e valores nacionais que nos tornavam diferentes, possibilitando a construção da nossa identidade. Para isso, artistas e intelectuais deveriam buscar nas tradições, religião, costumes, história e natureza, o material que permitisse expressar a nossa nacionalidade. Assim, no Brasil, o Romantismo adquiriu características especiais, defendendo os motivos e temas brasileiros, principalmente indígenas, expressos numa linguagem também nova, mais próxima da fala popular brasileira e mais distante da portuguesa.

Após a Independência começou-se a discutir a questão do "ser brasileiro". Para as elites do Centro-Sul era necessário não só fortalecer o seu poder como também definir a face da nação. Buscava-se a nossa identidade em meio a tantas diferenças e misturas étnicas. 

O patriotismo, o desejo de construção de uma pátria brasileira, deveria ser o estímulo e dever do escritor, a sua contribuição para a grandeza da nação, "um ato de brasilidade", como afirma o crítico literário Antônio Cândido. 

Entre os anos de 1833 e 1836, um grupo de jovens brasileiros que morava em Paris travou contato com as novas idéias dos intelectuais franceses que faziam parte do Institut Historique. Em 1836, ainda em Paris, esse mesmo grupo, conhecido como o Grupo de Paris, lançou o manifesto romântico na revista "Niterói", Revista Brasiliense de Ciências, Letras e Artes, que pode ser considerado um marco do Romantismo brasileiro, uma espécie de porta-voz dos novos ideais românticos. Sob o lema "Tudo pelo Brasil, e para o Brasil", os organizadores da revista buscavam dizer o que significava "ser brasileiro", exaltando a busca de temáticas nacionais, anunciando assim o projeto nativista, no qual o índio seria o elemento básico da brasilidade.

Em 1837, o poeta e dramaturgo Domingos José Gonçalves de Magalhães, um dos fundadores da "Niterói", e outros componentes do Grupo de Paris já estavam no Rio de Janeiro. Ao lado de Joaquim Manuel de Macedo, Gonçalves Dias e Francisco Adolfo Varnhagen, considerado o fundador da historiografia brasileira, passaram a freqüentar o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em cuja revista divulgavam suas idéias. A proteção de D. Pedro II ao Instituto fortaleceu o grupo de Gonçalves de Magalhães, que ficou conhecido por seu vínculo com o Imperador.


O Indianismo como Projeto de Nacionalidade

A partir do apoio de D. Pedro II aos intelectuais e artistas, o Romantismo brasileiro se transformou em projeto oficial, expressando sua ligação com a política. Para valorizar as origens da nacionalidade escolheu-se o índio, visto como parte integrante e como fundador da nação brasileira. Em 1856, quando Gonçalves de Magalhães publicou o poema épico A Confederação dos Tamoios, obra financiada pelo Imperador, o índio passou a ser considerado o símbolo nacional. Idealizado, corajoso, puro e honrado, transformou-se na própria encarnação da jovem e independente nação brasileira, conduzida agora por D. Pedro II.

Enquanto que, na Europa, os escritores românticos valorizavam os temas heróicos da Idade Média, no Brasil o nacionalismo exaltava o indígena, o "bom selvagem", transformado em herói nas páginas dos romances e nas poesias de nossos escritores. As paisagens da nossa terra, os índios, a vida no campo e na cidade passaram a ser os temas da nossa literatura, teatro, pintura e música. 

Gonçalves Dias, considerado o principal poeta romântico brasileiro, exaltava a natureza e o sentimento de honra e valentia do índio. Graças a seus poemas I-Juca- Pirama, Os Timbiras, Canção do Tamoio, entre muitos outros, o indígena transformou-se em símbolo do nacionalismo romântico brasileiro. 

José de Alencar
Na prosa, José de Alencar aparece como um dos mais importantes escritores desse período. Em sua obra, nota-se a preocupação em expressar uma realidade tipicamente brasileira através de um modo de escrever que procura refletir o espírito do nosso povo, seu vocabulário e sua maneira de falar. Seus romances Iracema e O Guarani mostram a figura do índio idealizado ao extremo. Em O Sertanejo e em O Gaúcho relata a vida e hábitos das populações que viviam longe das cidades. Já em seus romances sociais ou urbanos (Senhora, Lucíola, Diva), José de Alencar traçou uma crítica das relações humanas na sociedade do Rio de Janeiro na época, além de destacar, nos "perfis femininos", a força da mulher.

No Rio de Janeiro e em outras cidades o romance folhetinesco conquistou o público. Na Europa, foi o folhetim que levou o romance a um número cada vez maior de leitores. Publicado nos jornais diários, prendia a atenção sobretudo das leitoras que esperavam a continuação da trama no dia seguinte. Brasileiros e brasileiras passaram a ler traduções de folhetins europeus, principalmente franceses, torcendo e sofrendo por seus heróis e heroínas. Ante o grande interesse que o folhetim despertava, muitos escritores brasileiros começaram também a publicar na imprensa seus romances em folhetins, que só mais tarde eram lançados na forma de livros.

No Brasil, o folhetim e os romances obtiveram grande sucesso entre as mulheres. Os romances urbanos de José de Alencar, destacando as personagens femininas e os de Joaquim Manuel de Macedo revelando os costumes e a vida social do Rio de Janeiro, logo se tornaram os favoritos das brasileiras. 

O Filho do Pescador, de Teixeira e Sousa e A Moreninha, de Joaquim Manuel de Macedo, marcaram o início do romance romântico no Brasil.


Outras Expressões do Romantismo no Brasil

O sentimento nacionalista expressou-se também no teatro. João Caetano apresentou, com sua companhia, a primeira peça de um autor brasileiro, Antônio José, de Gonçalves de Magalhães. No entanto é Martins Pena, com suas comédias satirizando os costumes do momento, como O Juiz de Paz na Roça, Quem casa, quer casa e As desgraças de uma criança, que pode ser considerado o criador do teatro nacional, explorando as contradições do sistema social em peças que até hoje fazem sucesso.

Na pintura buscava-se igualmente uma temática nacional. Pintores procuraram recriar em seus quadros os grandes acontecimentos da nossa história, a natureza, o indígena e a vida dos brasileiros. A Academia Imperial de Belas-Artes, criada em 1826, cresceu muito a partir do apoio financeiro e oficial que passou a receber. O próprio Imperador fazia questão de proteger os artistas, distribuindo prêmios e bolsas para o exterior, e participando frequentemente das exposições realizadas na Academia. O volume da produção artística dessa época foi muito significativa. A paisagem, a pintura histórica e o indígena idealizado foram transportados para telas, como: A primeira missa no Brasil, de Vítor Meireles, O grito do Ipiranga, de Pedro Américo, Iracema, de José Maria de Medeiros, e O último Tamoio, de Rodolfo Amoedo. 

Nesse período, a música ouvida pela boa sociedade, como as óperas e as valsas, era feita na Europa. A preocupação em buscar uma identidade cultural nacional fez com que alguns compositores brasileiros procurassem criar uma música ligada a temas nacionais.

Carlos Gomes compôs várias óperas exaltando a brasilidade e o romantismo indianista. Apesar da influência claramente italiana, suas óperas foram cantadas em português, com temas bem nacionais. Em 1870, sua ópera O Guarani, inspirada no romance do mesmo nome de José de Alencar, estreou no famoso teatro Scala de Milão, contando com a presença de D. Pedro II, seu protetor e financiador. 

A busca do "ser brasileiro" não ficou restrita às artes. Os historiadores procuravam também criar uma história do Brasil, destacando a nossa identidade cultural, as nossas características - como nos constituímos em brasileiros - enfim, a nossa memória. Nas ciências naturais, pesquisadores percorreram o interior identificando e classificando espécies animais, vegetais e minerais, o que acabou por aumentar as informações sobre a fauna, a flora e o solo brasileiros.

O início do romance romântico no Brasil

Teixeira e Sousa (Cabo Frio-RJ, 1812 — Rio, 1861)

Cronologicamente, o nosso primeiro romancista foi o carpinteiro mulato Antônio Alves Teixeira e Sousa, cuja produção é extremamente volumosa e de péssima qualidade. Seu primeiro romance é de 1843, e se chama O filho do pescador. Trata-se da malfadada história do trágico amor de Augusto e Laura. Neste pequeno livro, encontramos todos os ingredientes do romance folhetinesco da época: amor extremado, traição, envenenamento, ressurgimento de uma personagem supostamente morta e farta intenção moralizante.

Segue a abertura de O filho do pescador. Notar: descrição convencional e a retórica pomposa, com profusão de adjetivos, exclamações e metáforas pictóricas.
           No meio dos imensos encantos de uma risonha prima-vera, ataviada de todas as galas de que é suscetível a mais brilhante de todas as estações, uma aurora verdadeiramente mágica começa de espreguiçar-se sobre um céu puro e se-reno, entre as aurirroxas sanefas de um horizonte adornado de todas as pompas matinais! Vistosos festões de uma alegre púrpura entrelaçavam interessantes rosas de ouro, que recamando um céu a que toldava a mais ligeira nuvem de procela, ofereciam nesse imensurável espaço da sidérea campina o mais agradável contraste da púrpura de Tiro como ouro de Ofir, sobre o belo azul de um céu brasileiro em uma manhã de primavera!
           Uma feiticeira e voluptuosa aragem, respirando mei-gamente da parte do Oeste, fazia correr sobre a líquida face da formosa baía de Niterói uma ligeira ondulação, que sua-vemente empurrava sussurrantes e brincadoras ondas, que molemente se escoavam a saudar a branca praia com um amortecido beijo, cujo murmúrio ia-se enamoradamente que-brar nos bosques e nos mais vizinhos rochedos!

Joaquim Manoel de Macedo (S. João do Itaboraí-RJ, 1820 — Rio de Janeiro-RJ, 1882)

O primeiro romance brasileiro propriamente dito, depois de algumas tentativas malsucedidas no gênero, foi A Moreninha (1844) de J. M. de Macedo. Embora formado em Medicina, Macedo dedicou-se ao jornalismo e à política. A Moreninha conferiu-lhe bastante popularidade, mantida com a publicação de outros romances.

Nesta obra Macedo utilizou os ingredientes necessários para satisfazer o gosto do leitor da época e repetiu-os à exaustão em seus dezessete romances posteriores. De modo geral esses ingredientes são: a comicidade, o namoro difícil ou impossível, a dúvida dentre o dever e o desejo, a revelação surpreendente de uma identidade, as brincadeiras de estudantes e a linguagem inclinada para o tom coloquial.


A linguagem da romântica prosa

O romance romântico foi produzido por cerca de quarenta anos: da década de 40 à década de 80 do século XIX. Nessa trajetória, modificou-se, amadureceu, foi enriquecendo com novas técnicas, que servem de base para o surgimento dos grandes mestres do gênero, como Machado de Assis. Certas características, porém, são comuns a quase todos os romances românticos.


CARACTERÍSTICAS DA PROSA ROMÂNTICA:

1) Flash-back narrativo: é a volta no tempo para que sejam explicadas, por meio do passado, certas atitudes das personagens no presente. Às vezes, o flash-back traz revelações surpreendentes, confundindo-se com a peripécia. Em A Moreninha, por exemplo, ele explica o comportamento indiferente de Augusto em relação às mulheres — ele se devia ao casamento com a menina na infância —, ao mesmo tempo, se prepara para a peripécia. Carolina era a menina;


2) O amor como redenção: o conflito narrativo dos romances românticos normalmente consiste na oposição entre os valores da sociedade e do desejo da realização amorosa dos amantes: ou a família não quer a união do casal, ou um dos dois está impossibilitado (social ou religiosamente) ou não merece (moralmente) o amor do outro. De qualquer forma, o amor é sempre visto como o único meio de o herói ou o vilão romântico se redimirem e se purificarem de seus erros;


3) Herói idealizado, mas decaído: o herói romântico é em geral um ser dotado de idealismos, de honra e coragem e às vezes põe a própria vida em risco para atender os apelos do coração ou da justiça. Em algumas obras de influência medieval, o herói romântico assume feições de cavaleiro medieval como é o caso de Peri da obra O Guarani, de José de Alencar. Por outro lado, o herói romântico não apresenta aspectos de superioridade do ser, como podemos verificar em uma epopéia, por exemplo. O herói clássico, em muitas características, lembrava um deus. Tinha força, distinguia-se do homem comum. O herói (ou heroína) romântico, por sua vez, aproxima-se de um ser humano comum e mostra-se pouco integrado à sociedade a que pertence. Talvez essa sua semelhança maior com as pessoas seja uma das razões para o sucesso junto ao público;


4) Idealização da mulher: normalmente, as heroínas românticas são desprovidas de opinião própria, dominadas pela emoção, obedientes às determinações dos pais e educadas para o casamento. Frágeis, freqüentemente sofrem mal-estar ou desmaios, têm como ocupação principal sonhar com “príncipe encantado” e tramar intrigas sentimentais;


5) Linguagem metafórica: a prosa romântica tende à fantasia e à imaginação; por isso são freqüentes as descrições com adjetivação abundante, as comparações e as metáforas, usadas com a finalidade de idealizar um ambiente ou uma personagem;


6) Personagens planas: embora o Romantismo enquanto estética da emoção valorize o mundo interior das personagens, só raramente essa exploração interior alcança profundidade. Em geral, as personagens são trabalhadas emocionalmente, mas não como um todo, ou seja, não são mostradas suas reflexões existenciais, seus conflitos interiores; além disso, quase sempre são lineares, isto é, não sofrem mudanças e mantêm esse perfil do começo ao fim da obra — por isso são chamadas personagens planas. As poucas personagens esféricas do Romantismo são encontradas em obras de transição para o Realismo;


7) Visão maniqueísta: o mundo romântico das narrativas pode ser dividido entre bons e maus, tanto que podemos falar em mocinho e vilão — e este último sempre tentará impedir as realizações do mocinho;


8) Temática amorosa: nos romances românticos há (quase) sempre um par amoroso que busca a união, mesmo que isso só aconteça após a morte de um ou de ambos;


9) Estrutura narrativa tradicional: há apresentação das personagens, estabelecimento e desenvolvimento da trama, clímax, desfecho.

EM SÍNTESE:

Em síntese, assim podem ser esquematizadas as principais características da prosa romântica:

• Sentimentalismo;
• Impasse amoroso, com final feliz ou trágico;
• Oposição aos valores sociais;
• Peripécia;
• Flash-backs narrativos;
• O amor como redenção;
• Herói idealizado, mas decaído;
• A idealização da mulher;
• Visão maniqueísta;
• Estrutura narrativa tradicional;
• Personagens planas e
• Linguagem metafórica.


 
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