FOLHETEEN: Mais um dia que morre (I)

Olá internauta. Hoje teremos duas estreias no Literatura éshow!: a seção Folheteen, onde acompanharemos Mais um dia que morre, a instigante história dos jovens Gustavo e Izabella, que aparecerá por aqui todas as quintas-feiras e a coluna anna f!, assinada por nossa colaboradora freelancer Anna Flávia Monteiro, que tem a liberdade de escrever sobre o que quiser e quando lhe der na telha. E em todas as postagens, ao final, você nunca deve deixar de escrever seu comentário, para que cada vez mais o les! tenha a cara de quem o lê. Deixo vocês com o primeiro capítulo de nosso Folheteen:

MAIS UM DIA QUE MORRE
por Renes Ramsés

L’amour est un oiseau rebelle. Que niu ne peaut apprivoiser. (O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar), Bizet.


• Os capítulos postados com tinta azul mostram o di-a-dia de Gustavo e sua família.
• Os capítulos postados com tinta vermelha mostram o dia-a-dia de Izabella e sua família, assim como as anotações que ela faz em seu diário.


Capítulo 01

     ... e nasce o dia!
     — Filho, acorda! Você não tinha que estudar praquela prova?
     — Já vou, mãe. Tô indo.
     Os olhos fundos, ainda com sono, boca amarga, corpo doendo, cansado. Assim acordou Gustavo naquela manhã de dezembro. Ergueu o corpo, sentando-se na cama. Fechou os olhos. Apertou com força as mãos e num triste sorriso, sussurrou, para que o vento ouvisse:
     — Bom dia, Bella!
     Saiu do quarto, passando pela sala, depois pela cozinha. O banheiro ficava fora da casa. Entrou. Abriu a torneira. Juntou as mãos em concha e apanhou a água fria. E era como se aquele líquido gelado lavasse seus pensamentos. Lavasse as lembranças da última noite. Escovou os dentes e saiu do banheiro.
     Na cozinha, a mãe despejava o café na garrafa térmica. Em cima da pequena mesa, uma velha cesta. Dentro, cinco pães.
     — Sua tia Lia mandou pra vocês.
     — Pra gente.
     — A mãe não quer não, filho. Guarde alguns pra você e a Marcela comerem de tarde.
     — Um pão dá pra mim, mãe. Como o meu agora. Depois eu almoço e não preciso de mais nada. A senhora come dois e dá dois pra Marcela.
     — Não, Gustavo. Eu não estou com fome. Tomei café na casa da Lia.
     — A senhora jura?
     — E é preciso jurar, Gustavo? Você não acredita em mim?
     — Acredito, mãe.
     — Você dormiu bem?
     — Pessimamente péssimo. Aliás, eu não dormi. Perdi o sono. Preguei o olho naquela horinha que a senhora me acordou.
     — Desculpa, filho. Se eu soubesse!
     — Não precisa pedir desculpa, mãe. Eu tinha mesmo que estudar pra aquela prova...
     — Mas no domingo, Guto?
     — O que importa, mãe. Melhor do que perder o ano. A senhora se lembra na 7ª série? Tanto sacrifício por nada?
     — E o pior foi que seu pai comprou todos aqueles livros no começo do ano, filho. Comprou sem poder.
     — Me lembro. E olha que eu nem bombei, pra dizer a verdade. Saí da escola antes que o ano terminasse. Não dava mais. Pior mesmo foi chegar pra ele e dizer...
     — Ele quase te bateu.
     — E com razão, né, mãe?
     — Vou falar com a Lia pra ver se ela consegue marcar uma consulta no posto de saúde, filho. Sem que ninguém precise dormir na fila.
     — Pra quê, mãe? Quem tá doente?
     — Uê, você tá, meu filho! Essa sua insônia... Deve ter um motivo...
     — Esquenta, não, mãe! Isso passa. E o pai?
     — Na feira.
     — Fazendo?
     — E desde quando seu pai me dá satisfação, Gustavo?!
     — Pois devia dar! A senhora é a esposa dele!
     — Existe um abismo em ser esposa e ser mulher, meu filho. Eu sou a mulher, ou menos que isso. Eu sou aquela que lava e passa. Que limpa o chão...
     — Até quando, mãe? Até que a morte os separe?
     — Quem sabe? Vai ver que eu tenho que passar por isso. É minha sina. Meu destino.
     — A senhora ainda ama ele?
     Silêncio. Lídia não diz nada.
     — Ama ou não ama?
     — Amo... quer dizer... é claro que eu amo, Guto! Que pergunta!
     — Mas a senhora pensou um pouco antes de responder... Vai, deixa pra lá.
     — Seu pão... Do jeito que você gosta. — e entregou o pão ao filho.
Gustavo saiu pela porta da cozinha com o pão numa mão e o copo de café na outra. Foi até os fundos da casa onde uma mangueira majestosa balançava os seus galhos.
Enquanto a bebida empurrava os pedaços de pão, ele se lembrava da única coisa que fazia ainda tentar sorrir aquele jovem de dezessete anos: Izabella.
Lembrava dos cabelos longos e ondulados caindo pelos ombros. Os olhos negros, tão suaves, tão brilhantes. Lembrava da boca rosada e úmida, que tantas vezes em sonho beijara.
Amava Izabella à distância, sabendo que era amado assim também. Amor platônico que explodia em verdade quando os olhares se encontravam.  Conheciam-se fazia um ano, mas era como se este tempo simplesmente não existisse.
Conheceram-se numa manhã fria de sábado, na biblioteca da escola que, por causa do tempo, estava vazia. De início, um nem notara a presença do outro, mas o barulho de alguns livros caindo no chão foi o suficiente para que Izabella desviasse a atenção de seus estudos e para que a luz dos olhos dela encontrasse a luz dos olhos de Gustavo. E ali nasceu. Nasceu aquele amor de anjos que mesmo existindo no peito de pessoas tão jovens, poderia ser chamado de amor. Daí em diante, eles passaram a se preocupar com o outro e a admirar as qualidades que o outro tinha. Começaram a sentir aquele friozinho esquisito, aquelas borboletas voando no estômago e querendo sair pela boca.
Mas o destino quis brincar com aqueles jovens, pois existia entre eles algo que não deveria fazer com que se separassem, ou melhor, que nem ao menos  se unissem. Algo que era pequeno diante daquele todo sentimento, mas que, de certa forma, impediu que eles começassem a fazer-se um. Esse algo era a tristeza que cada um sentia dentro de si e que mesmo menor, foi o suficiente para suplantar o amor. É claro que a alegria venceria toda a tristeza e um namoro poderia alegrá-los. Mas não pensaram assim Gustavo e Izabella. Eles não pensaram em se alegrar com o outro. Preocuparam-se tão somente em não fazer o outro mais triste. Se agiram bem ou mal, é à vida que cabe uma resposta. Ela dirá se estão certos ou errados esses nossos heróis.
Para Gustavo, a tristeza vinha, também, de uma espécie de trauma que sofrera há quatro anos e que deixara marcas doídas naquele coração. Foi na 7ª série.
Ele estudava em outra escola. Conheceu Yara. Encantado por ela, começou a sondá-la, dando sinais de seu interesse. Um dia, ele criou coragem e chegou numa roda de colegas onde ela estava e disse: “Yara, eu te amo. Namorara comigo?” e turma toda caiu na gargalhada. Guto nem sabia porque, mas eles riam convulsivamente. A garota não gostava dele coisa nenhuma e o humilhou diante da turma, o chamou de feio, insosso e idiota. Disse que havia apostado com os amigos que em três dias ele estaria caidinho por ela. Ganhara a aposta. Disse que ele teria que nascer de novo para ter alguma coisa com ela e por aí vai.
Gustavo virou motivo de chacotas em todo o colégio e isso fez com que ele, no ano seguinte, se mudasse de escola. Mas agora até agradecia Yara, pois se não fosse por ela, ele nunca teria conhecido Iza.
Gustavo se desinteressou pelos estudos, faltava demais às aulas, perdia trabalhos e provas. Ficou triste, como que deprimido, até que um  dia chamou seus pais para um papo e, com muito custo, os convenceu que era melhor abandonar a 7ª série e se matricular em outra escola no ano seguinte. 
Disse que não daria mais, que seria impossível passar de ano, que tudo já estava perdido. Gustavo mentiu naquela tarde. Mas conseguiu o que queria. Nunca mais voltou àquela escola. Nem passou perto. Nunca mais viu Yara. E agora aquele fantasma o rondava, deixando-o atordoado. E se com Izabella acontecesse da mesma forma? E se ela fizesse como a outra? Eram essas, entre outras tantas, as incertezas de Gustavo naquele fim de ano.
Como ele estava enganado! Como Izabella era diferente! Ela era realmente apaixonante. Gustavo não contou sobre seus sentimentos a ninguém. Guardou para si. Acreditava que, já que não tinha dito nada a ela, não deveria contar pra mais ninguém. E Gustavo se fez silêncio. Izabella contou para as amigas Laiz e Érica. Segredo de quatro pessoas. Amor a quatro paredes, paredes do coração. Amor trancado, fechado lá dentro, doidinho pra sair.
O último pedaço de pão e o último gole de café. Gustavo retomava a realidade. No mesmo instante, rompia novamente o tênue véu da fantasia. Voltava ao devaneio ali mesmo, debaixo daquela mangueira, "O meu pé de manga-comum", como ele dizia, plagiando O meu pé de laranja-lima, um livro que lera na escola. Viajava no mundo de Izabella. Lídia o trouxe de volta.
— Você não tinha que estudar, Guto?
— Já vou, mãe.
— Pensando na namorada?
— Que isso, mãe... eu não tenho tempo pra essas coisas.
— Sei! Não tem tempo, né?
— Não, mãe. Eu estou muito ocupado com os meus estudos. E além do mais, ano que vem eu tenho que procurar um emprego.
— Difícil arranjar emprego na época do quartel, meu filho... Mas vá, a mãe já arrumou a mesa pra você estudar.
— Já vou, mãe. Tô indo.   







 
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