HISTÓRIAS DO BELELÉU: A chegada do Sacatrapo

A partir de hoje o blog Literatura éshow! lançará, periodicamente, historinhas que seu autor, Prof. José Ricardo Lima, escrevia na sua adolescência. Trata-se da série "Histórias do Beleléu". Com essas pequenas crônicas você ficará conhecendo o cotidiano de uma inusitada cidade, perdida por esse mundão que é Minas Gerais. Boa leitura!



A CHEGADA DO SACATRAPO

Tudo começou quando Marcelino Sacatrapo deu as caras aqui no Beleléu. Foi numa noite fria, armava chuva de toró e o ronco da motoca soou como um trovão pela cidade. Divininha Papa-Hóstia, como sempre, achou que era coisa do capeta, do tinhoso, do fute, do não-sei-quem-diga. Divininha sabia todos os nomes do diabo e às vezes parecia que inventava mais um a cada dia. Cidoca do Toco pediu perdão a Deus por tudo o que tinha falado da vida dos outros e até pelo que não tinha. Correu para a janela e não viu nada, a não ser o vento. Acordou Zé Perereca morrendo de medo, pois aqui no Beleléu ninguém tinha uma lambreta com um ronco desses.
— Vamo... Acorda, Zé! Escuta esse baruio aqui. Só pode ser a primera trombeta do apocalipse.
— Que mané trombeta, Cidoca. Vem dem deitar.

A lambreta, com um ronco envenenado, parou em frente à Pensão Canarinho, que na época nem nome tinha, e Marcelino, molhado de chuva da estrada, foi logo dando oh-de-casa. Dona Maria Matreira, a moradora de frente, desconfiada como sempre, abriu um pedacinho da janela e ficou olhando a Aninha Duberrô, empregada da pensão, acolher o tal rapaz.
— Noite! Tem vaga pra um?
— Uai... Então não havera de ter se isso aqui é uma pensão? Entra pra dentro aqui que já já eu chamo dona Zuleica, a dona.

No outro dia, todos queriam saber do forasteiro. A mais empolgada era Silvinha, filha do João Sovina da venda, que estava sonhando com um príncipe num cavalo branco na exata horinha em que o lambreteiro passou por sua janela. Quando Marcelino saiu na porta da pensão pela manhã, logo depois do café, já tinha rodinha de gente na praça olhando pros lados de lá.
— Que será que ele veio fazer no Beleléu? — perguntava dona Joaninha do Pedro Fanho.
— Diz que foi enviado a mando do deputado... — divagava Amélia Potó.
— A lambreta dele é tão linda! Parece até aquelas de filme. E ele então... Ah!!! — suspirava Silvinha.
— Comporte-se, Maria Sílvia! — repreendia dona Coló, a mãe.
— Eu bem que sei, mas não posso é contar... — blefava Aninha Duberrô que o tinha recepcionado na pensão.
— Deve de ser é terrorista. Terrorista ou matador.
— Cruz em credo, dona Maria Matreira. Um rapaz tão bem apanhado... — novamente Silvinha.
— Aposto que é coisa do capiroto. Não me engano nunca...
— Sempre é, né dona Divininha...

Marcelino nem estranhou a mulherada espiando com rabo de olho. Na verdade, já esperava por isso. E se soubessem o que realmente ele queria ali em Beleléu, talvez nem o deixassem ficar. Mas com o tempo, se enturmaria, iria ficando amigo de todos e ganhando a confiança do povo. Foi até o telefone público da praça, que na época ainda era de ficha, discou o número e esperou. Antes que a pessoa do outro lado se identificasse, foi logo dizendo, sem pestanejar:
— Já tô aqui em Beleléu... Tá dando certo... Amanhã mando mais notícias.


Gostou? Comente! Não gostou? Comente também. Como diria a sábia moça do telemarketing,"a sua opinião é muito importante para nós". Abraço e até a próxima.


 
l