HISTÓRIAS DO BELELÉU: O toco de Cidoca do Toco


O TOCO DE CIDOCA DO TOCO

     Antes de desvendarmos o mistério de Sacatrapo, vamos conhecer melhor os habitantes de Beleléu. E se conhecermos Cidoca do Toco, a fofoqueira-mor da cidade, conheceremos os outros de lambujem.
Não tinha santo dia que Cidoca não se assentasse no toco que existia debaixo de sua janela para dali vigiar a vida alheia. Nem bem o cunhado seu Neca abria a venda, lá já estava ela.
Antes, Cidoca cuidava da casa, das sobrinhas e de Neca, mas agora que Maria Luisa e Maria Célia já estavam mocinhas, elas mesmas atentavam para a arrumação de tudo, cada qual do seu jeito. E a titia, do toco, tratava do que não deveria lhe dizer respeito.
Do lado de dentro da casa, bem debaixo da janela — e, portanto, ao alcance das mãos de fada e da língua de trapo da Cidoca — estava o telefone que ela utilizava para passar adiante o que havia visto acontecer.
Na verdade, existia uma verdadeira rede de fofocas no Beleléu — da qual Cidoca era a coordenadora — que era mais nociva à privacidade dos habitantes que as malditas câmeras de TV que o prefeito havia mandado instalar na praça só porque vira nos jornais e achara chique, um sinal de progresso.
O telefone de Cidoca era uma festa. De modelo antigo, ainda era de “discar”, com aquela roleta imensa de enfiar os dedos. Tirando o museu da cidade, a casa de seu Neca era a única que ainda tinha uma peça como aquela. Isso tudo porque Cidoca não deixava o cunhado trocar o aparelho.
Seu Neca ficara viúvo muito jovem. Perdeu a esposa, mas ganhou a sorte de virem morar em sua casa a sogra (que Deus a tenha!) e a cunhada Maria Aparecida Olegário, a nossa Cidoca. Elas criaram as duas meninas e infernizaram a vida de Neca. Com a morte de dona Lalinha, a sogra, sobrara a fofoqueira beatona.
Gorda, imensamente gorda, roliça, obesa mesmo. Assim era nossa protagonista de hoje. Tinha um vestido estampado, desses “capa de colchão”, mas gostava mesmo era do amarelo-ovo. As duas vestimentas eram as únicas que cabiam nela. Era um no varal, outro no corpo de Cidoca. Tinha também uma peça de gala, para as missas natalinas e os casamentos. Basicamente, só essas três mudas de roupa. Numa cidade pequena como o Beleléu, era praxe as roupas usadas irem passando de pessoa a pessoa, de menino-homem pra menino-homem, de menina-mulher pra menina-mulher, de comadre para comadre. Mas ninguém usava o manequim de Cidoca.
Ela havida desenvolvido uma super técnica para segurar o telefone com a cabeça e descascar laranja ao mesmo tempo. Sim, a fofoqueira ficava horas e horas chupando laranja. Quase o dia todo. Duas latas: na da esquerda, o fruto inteiro. Na da direita, as cascas e a parte branca da fruta. Semente e bagaço ela engolia e processava em sua indústria estomacal.
Cidoca já havia fechado o jornalzinho da igreja e do colégio estadual, pois quando as edições saíam, as notícias já estavam velhas. Restava ainda a Gazeta do Beleléu, que ia de mal a pior.
— A dona Cidoca do Toco acaba com a imprensa belelense, padre. Vai falir meu jornal. As notícias já são velhas quando o jornal sai.
— Pois se não pode vencer o inimigo, doutor Toledo, junte-se a ele. Contrate Cidoca como sua repórter especial. Se eu tivesse feito isso, nosso jornalzinho seria maior que o seu.
— Mas será que dá certo, seu padre?
— Pois que tente.
Estava oficializado. Cidoca seria repórter da Gazeta do Beleléu.
Doutor Toledo saiu da igreja e se dirigiu em direção à casa de seu Neca. Mal sabia ele as confusões que aquele convite causaria ao povo de Beleléu. Mas isso é papo pra outra história.


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