canastraminha (01)

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Era no início de outubro e eu queria, embora não conseguisse, chegar até o dezembro do descanso para não descansar. Eu precisava e era urgente escrever um livro, pois tinha menos de três meses, de acordo com o prazo estipulado por meu editor. Já havia três iniciados, mas em nenhum deles eu via as marcas que consegui imprimir nas últimas produções que saíram de mim, das vezes últimas. Era triste, e era estranho, ter que fazer uma coisa a que eu já estava habituado e agora não conseguia mais realizar. Toda a disciplina que eu havia conquistado ia-se embora pelo esgoto, ia-se toda como que no vento, e eu me tornara de novo um ser humano relapso, um Diógenes Ventura de quem ninguém tinha saudades, a não ser Isabella, bela, Bella.  


Mas não existia mais a minha doce Bella e talvez por isso eu não conseguisse escrever como antes. Eu não conseguisse ajuntar palavras como um guardador de rebanhos que eu já havia me tornado. Eu não o era mais. Não conseguia arrebanhar minhas ovelhas e fazer de meu aprisco um alento ou um soco na cara de quem me lê. Como eu queria poder voltar naquela época, ou quem sabe me adiantar até o suave dezembro que eu tanto esperava. Era difícil para mim, porque não seria aquele mês de festas que nós comemorávamos, sempre. Na fazenda. Era noite, e noite sem lua, e não existe nada pior que vida sem Bella, e noite sem lua.


Triste, triste sim, e amuado em cima de uma cama. O Alfredo dizia que eu estava mesmo era deprimido e deveria procurar um médico, antes que procurasse uma faca ou um revólver ou quem sabe doses excessivas de arsênico, e desse cabo de minha vida. Mas com certeza eu não teria forças para tanto, pois além de triste e amuado eu estava me tornando um grandessíssimo covarde. Um covarde filho de uma boa puta. Era isso que eu estava me tornando. Um homenzinho de merda que não queria viver, mas que não tinha coragem nem ao menos de se matar. Tudo era tenebroso e vazio. Tudo parecia querer sugar minha luz, aspirar sofreguidamente todas as minhas forças.


Ainda agora, também na escola, a coisa estava desagradável. Eu não via como cobrar a leitura de um livro pornográfico para os alunos imaturos de um colégio de freiras. Pornográfico sim, porque até mesmo a Luciana, que é tão moderna, achou. Eu aqui, sozinho, ouvindo o barulho das lésbicas do apartamento ao lado, tentando inventar um jeito de enfiar Literatura na cabeça daqueles moleques... E minha doce Bella distante como uma Lenore.


Eu nunca tive preconceitos, e isso sempre foi evidente. Mas agora não estou suportando aquilo que me é alheio e quase todas as coisas da vida estão incluídas nessa categoria. Não estou suportando nem mesmo a mim, nem mesmo a essa triste figura que estou me tornando a cada quando.


Mas eu tenho que continuar. Eu tentava colocar os meus dedos corretamente nas teclas do computador, assim como eu não havia aprendido naquelas malditas e árduas aulas de datilografia. Mas era inútil, pois eu desenvolvera realmente minha técnica de teclar com cinco dedos: dois da mão esquerda e três da direita.


Era triste ter que arrumar um jeito meu para tudo. Um jeito meu para digitar aquilo que sai do meu jeito, de minha canastra, canastraminha, nesta tentativa incompreensível de me expor aos outros, de contar sobre Ella, sobre Bella.


Izabella Cândida de Castro. Era assim que se chamava. Era assim que a chamavam antes que ela tristemente morresse e me deixasse aqui, sozinho em casa, com essas paredes curtas, sem vida, sem amor. Aquele amor tão bonito que sentíamos e que agora queriam tornar em cinzas, em brasas apagadas


Meu livro de mitologia estava aberto na página de Vesta e eu me lembrava da Aulularia de Plauto sem que eu pudesse lembrar-me do nome do protagonista. Nem consegui me lembrar do final de Carmem de Bizet, e parecia que eu estava mesmo perdendo a memória, esquecendo de tudo aquilo que eu mais gostava, e eu temia que o quadro de Bella se perdesse, e aquele retrato na sala sumisse, dissolvendo-se no ar de minhas memórias. Era estranho e era triste me ver assim tão diferente, tão loucamente estranho, alheio a tudo e odiando o que me era alheio, a não ser Bella, que não me podia ser alheia, apartada de mim, já que jurara que nunca me esqueceria. Assim, diferente, eu me postava diante do espelho.Tinha trazido aquele que ficava em nosso quarto e que Bella nele se mirava. Trouxe-o para cá, no canto onde escrevo, e o pus diante do computador de modo que posso olhar-me de vez em quando para não me esquecer também do meu próprio rosto.


Era o que me faltava, esquecer o rosto, o nome, a identidade. Era difícil acompanhar o pensamento, porque ele ia bem mais rápido que minhas lentas mãos, meus lentos dedos a surrar violentamente este teclado velho, desse computador pré-histórico, de antes de Cristo, de muito antes da queda do Império Babilônico.


Triste era a música que sempre e sempre eu ouvia dentro de mim, esse ser incógnito a quem eu puramente desconhecia.


Eu tinha que parar constantemente para corrigir o que eu digitava errado, porque eu digitava depressa, e foi quando eu descobri, quando eu resolvi que iria descobrir quem matara meu amor. Quem fora aquele que covardemente tirou a vida de minha amada, que tinha seu retrato pendendo sobre a lareira da casa de Petrópolis. E era ali, naquelas reminiscências, que eu queria estar, revivendo os nossos últimos ontens. Não havia voltado novamente, desde que aquele telefonema alertou-me para uma possível tragédia.


Seria difícil ir até lá, não só pelo fato de estar novamente naquele local, mas por que eu queria terminar o livro que na editora me pediam, e lá não tinha computador, e a máquina velha de escrever não funcionava, e eu não tinha mais um notebook, e não queria pedir emprestado a ninguém.O jeito foi destecer todos aqueles fios com pontas coloridas e colocar as peças de minha primitiva máquina nomeu primitivo carro.


Ia eu, de encontroao passado, de encontro aos últimos momentos com Bella. Era penoso, mas eu queria, e era preciso, e como um pianista aleijado numa execução de uma peça dificílima, eu já me encontrava quatro horas depois, a surrar novamente este velho teclado, tudo já em pleno funcionamento, e os empregados assustados pela minha chegada em altas horas da noite, e a minha afoitez em ligar tudo, e pôr tudo para funcionar, e ligar alto o som naquela melodia de Bach que eu ouvia quando descia a serra no dia acontecido, no dia da ceifa. Ceifando minha pobre ceifeira.


Minha vida perdera tontamente o sentido e eles não estavam nem aí pra mim. Apenas se queixavam do som alto, em voz baixa. E era a mesma melodia.


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