FOLHETEEN: "Mais um dia que morre" (II)

MAIS UM DIA QUE MORRE
por Renes Ramsés

L’amour est un oiseau rebelle. Que niu ne peaut apprivoiser. (O amor é um pássaro rebelde que ninguém pode aprisionar), Bizet.


• Os capítulos postados com tinta azul mostram o di-a-dia de Gustavo e sua família.
• Os capítulos postados com tinta vermelha mostram o dia-a-dia de Izabella e sua família, assim como as anotações que ela faz em seu diário.


Capítulo 02


A escuridão explode. Finda-se o dia. O vento venta, varrendo tudo pela frente e o céu chora de tristeza numa fria chuva. Gustavo no quarto, luz acesa, olhos fixos no desenho de Iza. Feito por ele mesmo, há muito tempo, retrato perfeito.
Viajava por dentro do retrato, acariciando aqueles cabelos sedosos escondidos na aspereza do papel. Era como se sentisse o cheiro de sua amada Bella, como assim ele a chamava. Bela, bela, Bella, ele devaneava.
A lua passeava no céu há muito tempo e Gustavo ainda não dormira. Queria dormir e sonhar com ela, mas sonhava acordado, assim mesmo.  Com o tempo, adormeceu. Mas como o sono era muito, a noite pareceu um cochilo.
O dia chegou, cumprindo horário. Começava ali a última semana de aula do 2º ano colegial. Provas de Matemática, Filosofia, Física e Inglês. Uma por dia. Na sexta-feira, o resultado. Ele estava pendurado nas Exatas. Era o que ele menos apreciava. Tentava se dedicar mais a elas, mas não conseguia.
Levantou devagarinho, pra não acordar a mãe e a irmã que dormiam. O pai na cozinha, tomando um café requentado. Gustavo fez o mesmo. Trocou com ele alguns murmúrios. Voltou ao quarto, juntou os cadernos e livros, saiu para a escola. No caminho, o coração batia inquieto. Prova de Matemática... Doze em quinze pontos... Impossível.
Embora tivesse se levantado cedo, Gustavo chegou na escola atrasado, junto com o primeiro sinal. Correu ao bebedouro, pois estava com sede, já que o caminho de sua casa até a escola era um pouco longo. A sala ficava ali perto. Bastava subir a escada próxima ao bebedouro e virar a direita. Haveria aulas normais até o recreio. Depois, os alunos seriam encaminhados para salas diferentes. Ninguém sabia onde faria a prova. As turmas eram misturadas, aleatoriamente, como precaução para as famosas colas.
O tempo voou, as horas se passaram. No recreio, todos desciam ao pátio, que ficava na parte baixa do terreno e ali, afixadas, estavam as listas com o local das provas. Torceu para cair na mesma sala que Izabella. Mas o dia realmente não era um dos melhores. Eles fariam prova em salas vizinhas. Nos mapas que estavam pregados abaixo de cada lista, viu que apenas uma parede os separaria. Gustavo se sentaria no terceiro lugar do lado esquerdo da sala 21 e Izabella também no terceiro lugar do lado direito da sala 22. O recreio passou num átimo de segundo.
Já em outra sala, Gustavo procurou seu lugar. E como que sentiu Izabella do outro lado da parede... A própria de Matemática ficou como responsável por fiscalizar a aplicação das provas na sala de Gustavo. Talvez pelo nervosismo natural, acumulado com a decepção em ano ter visto ainda sua doce Iza, — tão próxima e tão distante — junto com as duas péssimas noites de sono, somadas às bebedeiras do pai, à subserviência da mãe, e outras tantas tristezas, Gustavo foi péssimo na prova. Errou quatro, das doze questões, errou quatro e entre elas, justamente as duas que valiam dois pontos. Só essas bastavam para que ele não fosse aprovado, já que precisava de doze créditos, no mínimo. Existia apenas uma única verdade matemática que acompanhava Gustavo ao entregar a prova: a de que era matematicamente impossível não ficar de segunda época.
Entregou a prova, saiu da sala cabisbaixo e triste, ensimesmado... Até que lá embaixo, no pátio, a música tocou no seu coração e uma enorme alegria apareceu em seus lábios num brilho tão brilhante como o daquele sorriso que lhe sorria docemente. Era Izabella que lhe acenava com a mão, tirando um suspiro de dentro dele. Ele retribuiu e caminhou em sentido oposto ao dela e quanto mais se afastavam, mais se uniam.
Gustavo se esquecera até mesmo da Matemática, da segunda época, da escola. Aquele sorriso era para ele um remédio que curava todos os males. Caminhava a esmo pela cidade. Tomava os caminhos mais longos, queria caminhar, adiar o encontro com as agruras da casa, ele queria viver intensamente cada momento daquela sensação diferente.
Chegou finalmente em casa, passou direto pela mãe a quem ele sempre cumprimentava e entrou no quarto. Trancou-se lá, foi até a prateleira onde guardava alguns livros, pegou um de capa vermelha onde estava o retrato que fizera e aquela folha novamente sentiu o seu carinho. Arrancou uma folha de caderno e enquanto olhava para o retrato escrevia:

O BRILHO DO TEU SORRISO



Sorriu-me com os lábios
Sorriu-me com os olhos
Sorriu-me com a mão.
Sorriu-me com a alma
Sorriu-me com o corpo
E com o coração

E nesse sorriso
O brilho dos olhos
Assim como antes,
Tornou-se Amor,
Tornou-se minha flor
Brilho dos amantes,

Sorriu, me sorrindo
Sorriu, me olhando
Sorriu, me acenando.
Sorriu, me buscando
Sorriu me querendo
Sorriu, me amando

Sorriso de vida
Com brando calor
E brilho ofuscante
Sorriso de Amor
Sorriso de flor
Sorriso de amante.



As primeiras palavras brotaram naturalmente. O poema saiu se uma só vez. E ao correr a caneta pela folha, ao juntar as palavras, dispersas pelos ares, ele se encorajava. Esquecia o trauma da relação com Yara.
A noite anterior, passada em claro, fez com que ele caísse sobre o papel em sono profundo. Lídia o encontrou algum tempo depois sobre a cama, dormindo de sapatos, que ela com delicadeza tirou dos pés do filho.
Quando Gustavo abriu os olhos, às quatro da tarde, lembrou-se logo do sonho que tivera, com Iza, é claro. Era algo confuso pra ele, estranho. Não se lembrava com detalhes o enredo do sonho, mas tinha certeza das personagens. E isso o alegrava.
Acordou com fome, já que não tinha almoçado. Apenas uma xícara de café amanhecido e um salgado, que por milagre havia comprado na escola, forravam-lhe o estômago. A mãe havia saído pra trabalhar, talvez por ali mesmo. Na quente tarde de fim de ano, Gustavo saiu do quarto, atravessou a sala e chegou à cozinha. Na velha geladeira estava um papel com os horários e locais dos lugares onde Lídia trabalhava, lavando, passando roupa, arrumando casas. Ele mesmo havia feito tal lista, pois não decorava a agenda da mãe, por mais que tentasse. Abriu a geladeira e tirou uma garrafa de refrigerante na qual sua mãe colocava água. Pegou sobre o armário um copo de alumínio, enxaguou-o na pia para tirar o pó que sempre se acumulava, já que a casa não era forrada. Serviu-se da água que com certeza fora colocada ali há poucas horas, já que não estava gelada o suficiente.
Pratos sujos sobre a pia, panelas ainda sobre o fogão. Numa, arroz; noutra, feijão e numa última, molho de abóbora. Colocou a comida num prato, sentou-se na pequena mesa e engoliu todo o almoço frio, como fazia sempre.
Após engolir o último bago de feijão, foi até os fundos da casa assentar-se à sombra do pé-de-manga-comum e ali ficou pensando na vida, até anoitecer.
Às sete horas o pai chegou. Bêbado como sempre. Naquela noite havia chegado mais cedo, já que seu horário normal era por volta das nove, dez, ou até mais. Foi logo perguntando por Lídia. Ela não havia retornado do trabalho. Naquela tarde ela passaria as roupas de Lia e, em seguida, ajudaria nos preparativos para o aniversário de  Guilherme, neto de sua irmã.
Ele chegou cheirando a álcool. O corpo estava mole, dançando como a mangueira-comum.
— Sua mãe, onde está?
— Na casa da tia. Amanhã é aniversario do Gui...
— Até agora?! Atrevida! Vê se isso é hora de trabalhar feito trouxa pros outros. Vai logo buscar aquela vadia.    


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