SENTIMENTO DO MUNDO (I): O autor

O último dia 31 de outubro ficou marcado nacionalmente como o primeiro Dia D., ou seja, uma ocasião festiva em que se rememorará, a partir de 2011, a poesia e a vida de um dos mais importantes poetas brasileiros: o mineiro Carlos Drummond de Andrade.

Vários sites, blogs, canais de TV, enfim, veículos de comunicação, fizeram suas contribuições, inclusive o Literatura éshow!. Mas como Drummond nunca é demais, a partir de hoje ofereceremos aos nossos leitores uma série de postagens sobre o livro Sentimento do mundo, considerado pela crítica especializada como um dos mais representativos trabalhos deste poeta.

Com esta pequena série, o les! pretende, além de continuar os festejos por Drummond, trazer a seus leitores a oportunidade de conhecer mais profundamente a obra deste grande poeta. Teremos, entre outras coisas, a leitura de alguns poemas do livro e ainda informações didáticas, que possibilitarão entendermos o poeta e a sua obra no cenário da Literatura brasileira. Para começar, vamos ver quem foi esse homem, quem foi o poeta da pedra.


A descoberta do outro na praça dos convites ou A voz eloqUente da alteridade: uma leitura de “SENTIMENTO DO MUNDO[1]

1.      O AUTOR

Alguns anos vivi em Itabira
Principalmente nasci em Itabira
            (Confidência do itabirano, C.D.A.)

Na abertura de um afamado ensaio a respeito de Fernando Pessoa[2], o poeta, crítico e diplomata mexicano Octavio Paz (1914-1998) — agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1990 — afirmou que Os poetas não têm biografia. Sua biografia é sua obra. Disse também que nada existia de surpreendente na vida daquele super-Camões, a não ser os seus poemas. O mesmo pode-se asseverar sobre o mineiro Carlos Drummond de Andrade, talvez o maior expoente do que se convencionou chamar de Segundo Tempo do Modernismo no Brasil.
Em sua conhecida “Confidência do itabirano”, Drummond nos apresenta um eu-lírico — que nesse caso se confunde ainda mais com o próprio poeta — pungido pela dor de uma lembrança, a de uma cidade que é apenas uma fotografia na parede. Uma Itabira de onde provém tanto a vontade de amar quanto o hábito de sofrer, que traz suas prendas diversas, com os seus santos e seus santeiros. E foi lá, naquele canto escondido do mundo que em 31 de outubro de 1902 nasceu o menino Carlos e, atendendo as palavras de um anjo torto, foi ser gauche na vida.
Os Drummond de Andrade, típicos representantes da tradicional família mineira, eram fazendeiros e mineradores. Arrancavam o ferro da terra, ainda em estado bruto, pedra no meio do caminho, e contribuíam para que o progresso chegasse àquelas paragens. Mas a região ficou mesmo conhecida por ser berço desse menino, expulso aos 16 anos de um colégio de jesuítas, devido a um incidente com o professor de Português. Mal sabia aquele mestre que estava diante de um futuro vate, em todos os sentidos que essa palavra pode assumir.
Na capital de seu estado, Drummond forma-se em farmácia. Não abraça a carreira, mas sim ao que Platão, em seu diálogo Fedro, chamou de pharmakón[3]: a linguagem. Vai ensinar o vernáculo, a Língua Portuguesa, além da Geografia. Ainda com as montanhas de Minas diante dos olhos, tem contato com o Modernismo de São Paulo e funda A Revista para levar os ideais “futuristas” a seu povo. Em 1930, lança seu primeiro livro, Alguma poesia, e começa a se dedicar aos poucos à carreira literária.
Anos depois, na maturidade jovial dos seus 32 anos, transfere-se para o Rio de Janeiro, onde exerce um cargo público no Ministério da Educação. Em 1945, já jornalista, atende ao chamado do camarada Luis Carlos Prestes, ícone do comunismo de então, e assume um cargo de importância no jornal Tribuna popular. A partir da metade do século, Drummond se dedica exclusivamente à Literatura que o tornou mundialmente conhecido, escrevendo alguns poucos contos, incontáveis crônicas e infinitos poemas, além de algumas traduções.
Drummond viveu no Rio até completar seus dias, em 1987. Ficava horas e horas sentado em um banco no calçadão de Copacabana, com apenas duas mãos e o sentimento do mundo, ora olhando fixamente aquele mar, ora mirando o povo que passava, sempre tirando dali a vida contida em seus textos. Ainda hoje está lá, em forma de estátua, em frente à Rua Rainha Elizabeth, a ver aquele belo horizonte. Dizem que os loucos se assentam ao seu lado e com ele conversam, dias a fio. Os loucos, sim. Os loucos e os poetas.


[1] ANDRADE, Carlos Drummond de. Sentimento do mundo. Rio de Janeiro: Record; 3ª Ed.; 2002. Todas as citações seguem esta edição. Por isso, quando em indicação bibliográfica, apenas os números das páginas serão informados entre parênteses.
[2] PAZ, Octavio. "O desconhecido de si mesmo: Fernando Pessoa". In.: Signos em Rotação. São Paulo: Editora Perspectiva, 1970.

[3] No diálogo Fedro, Platão dizia que a linguagem é um pharmakón. Esta palavra grega, que em português se traduz por poção, possui três sentidos principais: remédio, veneno e cosmético. Ou seja, Platão considerava que a linguagem pode ser um medicamento ou um remédio para o conhecimento, pois, pelo diálogo e pela comunicação, conseguimos descobrir nossa ignorância e aprender com os outros. Pode, porém, ser um veneno quando, pela sedução das palavras, nos faz aceitar, fascinados, o que vimos ou lemos, sem que indaguemos se tais palavras são verdadeiras ou falsas. Enfim, a linguagem pode ser cosmético, maquiagem ou máscara para dissimular ou ocultar a verdade sob as palavras. A linguagem pode ser conhecimento-comunicação, mas também pode ser encantamento-sedução (CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Ática, 2000).



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