SENTIMENTO DO MUNDO (II): Contexto

Dando continuidade à série Sentimento do mundo, hoje vamos entender melhor o contexto histórico em que Drummond escreveu sua obra.

      2.      O CONTEXTO HISTÓRICO-LITERÁRIO


A década de 30, do século passado, começou um ano antes, em 1929, com a quebra da Bolsa de Nova York. Não era apenas o fim dos anos loucos e de toda sua efervescência cultural. Com sua economia tão frágil, abalada pela Primeira Guerra, tanto derrotados quanto vencedores precisavam refazer-se como nação. A Alemanha e Itália responderam a essa questão implantando regimes totalitários de direita (Nazismo e Fascismo, respectivamente) que, ao invés de procurarem a paz e a conciliação, cada vez mais cultuaram a guerra. No outro extremo, o Marxismo ganhava corpo num país jovem, mas poderoso, que cobria quase um sexto das terras emersas do planeta: a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
No Brasil, a República do café-com-leite chegava ao fim com a Revolução de 1930, que levou ao poder o candidato derrotado nas eleições: Getúlio Vargas. O primeiro governo do “pai dos pobres” foi até 1945, passando por um período de ditadura, e é justamente este intervalo de 15 anos que corresponde à Segunda Fase Modernista na história da literatura.
No campo da cultura brasileira, as conseqüências de um verdadeiro ciclone tropical chamado Semana de Arte Moderna ainda podiam ser notadas. Com o baixar da poeira, pode-se passar as inovações estéticas propostas pelo espírito demolidor dos revolucionários de 22 pela peneira do tempo e aproveitar o que elas tinham de bom.
Em 1930, livros importantes foram lançados. Além da obra inicial de Drummond, Alguma poesia, tivemos também Remate de males (Mário de Andrade), Libertinagem (Manuel Bandeira), Poemas (Murilo Mendes), Pássaro cego (Augusto Frederico Schmidt). Cecília Meireles já havia lançado três de suas obras e Vinícius de Moraes já se preparava para a literatura.
Charlie Chaplin no filme O grande ditador (1940)
    Segundo o professor Francisco Achcar[1], nessa segunda etapa do movimento modernista [...] desenvolvem-se na poesia algumas das características mais marcantes de seu primeiro tempo (inovações rítmicas, humor, paródia, temas cotidianos, linguagem coloquial, elipses e associações surpreendentes), ao mesmo tempo em que se amplia a temática e se diversificam os recursos e as tendências estilísticas. Esboça-se então o perfil contemporâneo da literatura brasileira, que, como a literatura internacional, testemunha a emergência de três sistemas explicativos do homem e da sociedade: o existencialismo, a psicanálise e o marxismo. Independentemente de adesão por parte dos escritores, esses sistemas fornecem diversas das grandes imagens que integram o horizonte mítico da época. Contra tal fundo imaginário, novo em muitos de seus aspectos, desenha-se a figura de uma consciência fenomenológica, ou autoconsciência artística que, no caso da poesia, fará da linguagem e do trabalho do poeta temas privilegiados da obra poética.


[1] ACHCAR, Francisco. Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Publifolha, Coleção Folha explica, 2000.



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