SENTIMENTO DO MUNDO (III): Forma, alteridade e alienação

Dando continuidade à série Sentimento do mundo, hoje vamos falar dos aspectos formais e estabelecer dois conceitos importantes para a análise: alteridade e alienação.

ASPCETOS FORMAIS

Do ponto de vista formal, os 28 poemas de Sentimento do mundo apresentam o predomínio das características constitutivas do gênero lírico, amalgamadas ainda com algumas que definem o épico-narrativo — principalmente em Os operários do mar (p. 29), um poema em prosa —, consoante uma das principais particularidades da literatura moderna: a concomitância dos gêneros literários. Apesar de não apresentarem rigidez na forma, já que seus versos são brancos e livres, na sua maioria, cinco poemas se destacam a esse respeito por conterem em seus títulos expressões que nos remetem a estruturas ou temáticas fixas: a Canção (Canção da moça-fantasma de Belo Horizonte, p. 23) a Ode (Ode ao cinqüentenário do poeta brasileiro, p. 53), o Madrigal (Madrigal lúgubre, p. 69), a Elegia (Elegia 1938, p. 73) e finalmente o Noturno (Noturno à janela do apartamento, p. 79).
O termo Canção[1] designa toda composição poética destinada ao canto ou que encerra aliança com a música. Pode significar ainda uma construção de grande qualidade literária que a partir do Romantismo se revestiu de uma ampla liberdade formal e conceitual. Já a Ode remonta à Grécia Antiga e tinha, inicialmente, o mesmo significado que a Canção. Hoje, significa um agrupamento de estrofes, com versos de igual medida, sempre de tom alegre e entusiástico. Por sua vez, a palavra Madrigal era utilizada inicialmente com o sentido de um poema de forma fixa: dois ou três tercetos seguidos de um ou dois dísticos, em versos decassílabos e rimados. Nos tempos modernos, perdeu-se a preocupação formal e manteve-se o conteúdo: temas graciosos, uma discreta confissão de amor, com a presença de elementos da natureza. A Elegia também sofreu inúmeras modificações em seu significado (até porque existiam nela subdivisões) e hoje o que a caracteriza é o assunto: são os sentimentos, especialmente os dolorosos, que podem dizer-se naturais e comuns a todos os mortais, quais, por exemplo, os despertados pela ausência, por um amor não correspondido, pela perda da pátria, ou de quaisquer outros enlaces do coração. Finalmente, o Noturno também se define mais pela temática que pela forma. Empregado mais comumente na música, em literatura o poema caracteriza-se pela intensidade lírica, o ritmo métrico de peculiar tom elegíaco, e a densidade melancólica que utiliza, freqüentemente, como elemento estético, a sombra sugestiva da noite, à maneira de manto de tristeza.


PRAÇA DOS CONVITES: ALTERIDADE E ALIENAÇÃO

Para que agora façamos uma leitura pormenorizada de alguns dos mais representativos poemas da obra, faz-se necessária uma última definição a respeito de um termo muito conhecido por todos nós, mas que aqui terá um significado mais restrito: a alienação. Gledson afirma que ela é a chave para que entendamos a maioria dos textos que fazem parte de Sentimento do mundo. Não a alienação no conceito marxista ou limitando o seu alcance aos campos da sociedade e da política. Por ela significamos a sensação insistente que tem o poeta de estar separado das coisas às quais está na verdade, ou deveria, estar ligado. Sem dúvida, a alienação sempre existiu em algum sentido em Drummond. Agora, porém, aparece numa forma mais consistente[2]. É a partir desse conceito, que vamos vasculhar os poemas e procurar os momentos em que aquela personagem gauche de que nos diz Affonso Romano de Sant’Anna mostrou-se separada de algo ou de alguém a que(m) estava ou deveria estar intimamente preso. A alienação, ainda segundo Gledson, pode se dar através da indiferença política, da divisão de classes, de uma separação temporal do passado que entretanto nos formou.



[1] MOISÉS, Massaud. Dicionário de termos literários. São Paulo: Cultrix, 12. Ed. rev. e ampl., 2004. / As definições dos 4 primeiros termos que compõem esse parágrafo foram todas retiradas desta obra. Já a última foi retirada de TÁVARES, Hênio. Teoria literária. Vila Rica: Rio de Janeiro/Belo Horizonte, 1991.
[2] GLEDSON, J. Op. Cit., p.118, grifo nosso.

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