SENTIMENTO DO MUNDO (IV): Morro da Babilônia

Dando continuidade à série Sentimento do mundo, hoje vamos analisar o poema Morro da Babilônia.
LEITURA DO POEMA "MORRO DA BABILÔNIA"


À noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinquenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua 

geral).

Quando houve revolução, os soldados se
espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.

Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.
 

          Morro da Babilônia (p. 33), já nos chama a atenção logo de início por evocar o Rio de Janeiro, aqui aparecendo de forma explícita, pois se analisarmos as palavras que compõem o título de forma conjunta, seremos arremetidos a um topônimo daquela cidade, já que realmente existe ali um morro assim denominado. Mas se analisarmos as palavras de maneira separada, poderemos ver um grande contraste entre morro (que se refere a um espaço geográfico reservado às classes mais baixas que compõem o caldo que exala de Sentimento do mundo) e Babilônia (uma menção ao antigo e luxuoso Império Babilônico, conhecido por seu desenvolvimento na arquitetura, agricultura, astronomia e direito). Aliás, mais do que um contraste, a expressão “morro da Babilônia” chega a ser quase uma ironia. A palavra Babilônia, desde os tempos remotos, sempre foi associada a uma outra que tem um significado bíblico importantíssimo: Babel, que originalmente significava “confusão” e por isso serviu para denominar a torre que, na alegoria bíblica, foi a responsável pela multiplicidade de línguas faladas em todo o mundo.[1] O título tem sua importância, afinal, com tantos morros na Cidade Maravilhosa, Drummond elegeu esse. A aproximação com a confusão de vozes da Bíblia aparece já nos primeiros versos:

À noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinqüenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda, ou se perdeu na língua geral).

Morro da Babilônia é daqueles poemas de ambientação noturna, que são maioria em Sentimento do mundo. É justamente neste período que as vozes descem do morro, criando o terror. Mas não um terror comum, mas que tem cinqüenta por cento de cinema. Para um leitor menos atento, esse terror poderia ser interpretado como oriundo do processo ditatorial a que era submetido o Brasil: o Estado Novo (1937-1940), já que os poemas foram escritos entre 1935 e 1940. É comum associarmos medo e ditadura, já que décadas depois vivemos um período terrível, quando da tomada de poder por parte dos militares (1964-1985). Mas o terror que se espalhava entre a população mais pobre não era ocasionado pelo Governo. Pelo contrário: o golpe de Estado foi uma reação do Brasil à possível eminente instauração do Comunismo, esse sim, uma verdadeira praga egípcia que poderia se abater sobre o país. Nos morros do Brasil, entre os mais pobres, o medo era cinqüenta por cento de cinema, metade ficção, e agora essa metáfora pode ser mais bem entendida, pois na época era provável que Drummond já tivesse um posicionamento esquerdista e via na propaganda “anti-vermelhos” algo semelhante aos westerns americanos onde bandidos perigosíssimos eram caçados por xerifes durões. A outra metade desse terror era trazida pela boca do povo, povo de Luanda, numa referência explícita ao processo escravagista brasileiro, momento máximo da dominação dos poderosos sobre seu povo. Por sua vez, a expressão “língua geral” refere-se ao dialeto falado pelo povo nos primeiros anos de nossa História, que misturava expressões trazidas pelos negros e índios ao idioma de Camões, o que, segundo historiadores e filólogos, ocasionou a diferença drástica entre a prosódia lusitana e a brasileira. Se a “geral” é a língua do povo, podemos inferir que a outra parte do medo remete aos “fatos” que correm à boca pequena, nas vozes populares, e sempre são “aumentados” por quem os conta. Mas há quem conteste essa interpretação, já que o terror poderia assumir um contexto mais amplo, mundial, e aí sim, teríamos o horror dos regimes totalitários e de uma guerra que estava por iniciar, entre outros. Mas se analisarmos o restante do poema, veremos que ele se casa mais com a primeira possibilidade:

Quando houve revolução, os soldados se espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.

O morro ficou mais encantado.
Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.

            A revolução pode se referir tanto ao ano de 1930 quanto o de 1937, marcos do início do governo Vargas e do Estado Novo, respectivamente. Os soldados se espalharam pelo morro, misturaram-se ao povo. O quartel pegou fogo, numa intertextualidade com as cantigas de roda. Aqui, temos a primeira aparição de elementos que se referem à infância, misturados a um contexto bélico. A segunda vem logo a seguir, com a retomada do termo “soldados”: Alguns, chumbados, morreram. Temos nesse verso o chumbo ambíguo das armas que matam e dos soldados de chumbo que encantam. E é isso que acontece: O morro ficou mais encantado[2]. As vozes não são lúgubres, e um cavaquinho, que mantém o lirismo e amenizam o terror. Gledson lembra-nos que os anos entre 1930 e 1940 foram de certa maneira a idade do ouro da música popular e, assim, de uma ligação artística e real entre ricos e pobres, pretos e brancos, o popular e o intelectual (GLEDSON: 120). O som do cavaquinho domina os ruídos da pedra e da folhagem, numa imagem surreal, já que pedra e folhagem são silêncio e desce até nós, modesto e recreativo, / como uma gentileza do morro. O poema que antes começara em clima de suspense, termina suave e lírico como um noturno de Chopin e o “terror” que sobe o morro é transformado em música.


[1] A alegoria da Torre de Babel (Gn 11, 1-9) é um dos mais conhecidos episódios bíblicos do Antigo Testamento. Segundo o Gênesis, a terra inteira falava uma única língua e os homens, sempre muito ambiciosos e sedentos por fama, planejaram a construção de uma torre tão alta que chegasse aos céus. Assim, seus nomes seriam perpetuados por todas as gerações. O fato teria desencadeado a ira de Ihaweh, que desceu à terra, colocou nas bocas de cada um daqueles homens uma língua diferente e os dispersou pelo mundo.
[2] No corpo do texto, dissemos que Drummond se refere de maneira indireta a outros dois morros do Rio. Um é justamente neste momento, onde ele parece se dirigir ao Morro do Encantado. O outro poderia ser o Morro da Assombração, se acreditarmos que não exista ironia na palavra “terror” que perpassa todo o poema.

Não deixe de comentar e avaliar esta postagem. Precisamos SEMPRE do seu retorno. Desde já agradecemos.


 
l