SENTIMENTO DO MUNDO (VI): Os inocentes do Leblon

Dando continuidade à série Sentimento do mundo, hoje vamos analisar o poema Inocentes do Leblon.


INOCENTES DO LEBLON

            Em Inocentes do Leblon (p. 43), Drummond novamente nos traz a temática social, mas agora utilizando como espaço uma das regiões mais nobres da Zona Sul carioca, conhecida nacionalmente por ter o metro quadrado mais caro do Brasil. Seus habitantes, pertencentes ao jet set carioca e a quem o eu-lírico chama de “inocentes”, parecem distantes da realidade que os rodeia, como que fechados em um mundo impenetrável e mínimo:

"Os inocentes do Leblon
não viram o navio entrar.
Trouxe bailarinas?
trouxe emigrantes?
trouxe um grama de rádio?
Os inocentes, definitivamente inocentes, tudo ignoram,
mas a areia é quente, e há um óleo suave
que eles passam nas costas, e esquecem."

            O termo inocentes, no poema, adquire o significado de “aqueles que ignoram”, e desperta nossos sentidos para a inércia daqueles seres humanos, na verdade os grandes culpados da diferença abissal entre pobres e ricos que já na época era grande. Os inocentes são como cegos por opção, pois simplesmente fechavam os seus olhos para tudo aquilo que era trazido pelo navio.
A primeira “carga” trazida pelas embarcações eram as bailarinas. Se nos atentarmos para essa palavra, veremos que aqui ela assume um significado um tanto quanto distinto das definições trazidas pelos dicionários. Bailarina é, obviamente, uma dançarina profissional. Mas vem de longa data a associação da expressão “dançarina estrangeira” à “prostituta”. Desde os tempos do Balé Cancan francês, passando pelo Teatro de Revista e suas vedetes, a dança sempre fora associada com a luxúria e esta com a prostituição. O navio também traz emigrantes que depositam no país suas esperanças, plantam seus sonhos, querem construir aqui suas vidas. Eles trazem consigo situações completamente antagônicas e podem significar tanto a mistura, a riqueza e a diversidade cultural quanto o aumento da miséria, pois muitos foram os que chegavam ao Brasil fugidos de situações adversas em suas pátrias e apenas serviram para aumentar ainda mais a diferença entre as nossas classes sociais. A terceira e última carga é um grama de rádio, numa alusão ao medo da radioatividade que dizimaria inúmeras vidas anos depois, no ataque americano às cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki. O rádio é um milhão de vezes mais radiativo do que a mesma massa de urânio e daí vinha o medo e a referência de Drummond.
            Mas a única preocupação dos inocentes é o calor da areia e o óleo suave que eles passam nas costas. O importante é o bem-estar e, portanto, a alienação neste poema também passa pela diferença de classes.
Para terminar e, ao mesmo tempo, unir a literatura à nossa práxis cotidiana, citaremos uma frase escrita há alguns anos, pelo sempre polêmico jornalista, escritor e político brasileiro, o Deputado Federal Fernando Gabeira (PV-RJ) no Jornal Folha de S. Paulo: Se Drummond estivesse vivo, talvez reescrevesse seu poema "Os Inocentes do Leblon". Ou talvez o banisse da antologia porque não há inocentes no Leblon, nem em Ipanema ou Copacabana. Já sabemos demais. Cidades, como as pessoas, podem se suicidar lentamente. Pelo menos como cidades de lendas, como era o Rio da minha infância, sonho das noites de exílio, paixão de toda a vida[1].


[1] Folha de S. Paulo, Ilustrada, p. G-8, 10 de maio de 1999.

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