SENTIMENTO DO MUNDO (VII): Revelação do subúrbio

Dando continuidade à série Sentimento do mundo, hoje vamos analisar o poema Revelação do subúrbio.

REVELAÇÃO DO SUBÚRBIO

Revelação do subúrbio (p. 65) traz mais uma vez a memória como temática central. Aqui, o personagem gauche (que tanto se confunde com o próprio poeta) se recorda das vezes em que volta a Minas. O que mais lhe agrada não é simplesmente o fato de estar retornando às origens, mas sim a viagem e, em especial, a paisagem que lhe é revelada pela janela do carro (trem), o subúrbio: 

Quando vou para Minas, gosto de ficar de pé, contra a vidraça do carro,
Vendo o subúrbio passar.

            Nos dois primeiros versos, encontramos o gauche numa posição de sentinela, de pé, conta a vidraça do carro como se quisesse se embriagar daquele subúrbio que lhe fazia tão bem. Se em Os mortos de sobrecasaca tínhamos a imagem congelada diante de nossas retinas, agora um movimento quase cinematográfico se faz presente. Assim,

O subúrbio todo se condensa para ser visto depressa,
com medo de não repararmos suficientemente
em suas luzes que mal têm tempo de brilhar.

            Condensado sim, mas inteiriço, o subúrbio é a parte pelo todo, o Brasil, e metonimicamente com medo de não ser visto e ser amado, torna-se gente e se resume. As duas figuras juntas, metonímia e personificação, conferem à paisagem o significado exato do “ser brasileiro” e por isso o gauche tanto a ama: o subúrbio é o mundo. O subúrbio é o coração. O subúrbio está dentro do gauche e o envolve. As luzes ao longe cintilam, são estrelas tremeluzentes e como um céu estrelado que encanta o bom poeta, o subúrbio enleva o homem que o vê. Também cheia de vida,
           
A noite come o subúrbio e logo o devolve,
ele reage, luta, se esforça,
           
            Assim, a noite também é gente e o mundo é engolido pela sua escuridão. Mas como num relampejo de súbita luz, ela devolve o subúrbio ao eu-lírico. Subúrbio esse que reage, luta, se esforça para não mais desaparecer.

até que vem o campo onde pela manhã repontam laranjais
e à noite só existe a tristeza do Brasil.

            Mas a noite vai embora e a manhã já anuncia o campo onde repontam laranjais. Já não há mais a paisagem humana e sim a natural. Já não há mais noite e sim aurora. Já não há mais a alegria do subúrbio pobre e sim a riqueza triste dos laranjais. Impossível não se lembrar da letra da canção Gente humilde de Chico, Vinícius e Garoto, que parece ter sido retirada das páginas de Drummond:

Igual a como
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente                      
Sem nem ter com quem contar


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