VITROLA CIBERNÉTICA: Aquarela do Brasil

Ary Barroso
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A chuva sempre foi amiga dos poetas. Assim como noite, a lua, o vento e as estrelas. Mas com certeza aquela noite (ou seria tarde?) de chuva, no longínquo ano de 1939, não estava nos planos do boêmio Ary Evangelista Barroso. Conta-se que ele, impedido de sair de casa, começou a compor aquela que seria considerada a sua obra-prima: a canção Aquarela do Brasil.

A primeira crítica foi negativa e veio de um cunhado que questionava a redundância do verso “Ô esse coqueiro que dá coco”. O compositor poderia mudar a letra, rasgar a partitura, matar o cunhado, esquecer de tudo, jogar tudo fora. Mas deu de ombros. Embevecido que estava, ufano de si, e acometido de um amor incondicional à Pátria, Ary talvez já tivesse consciência que seria ela, aquela, a canção que o consagraria. E estava certo, porque usando a chamada licença poética, tudo é permitido. Se o sabiá de Gonçalves Dias podia cantar em uma palmeira, era natural — e como era! — que o coqueiro de Ary desse “apenas” coco.

Naquele momento, Ary compunha o mais conhecido exemplar do gênero samba-exaltação que como o próprio nome elucida, exalta através do ritmo mais popular do Brasil as grandezas verde-amarelas: o povo, as tradições, a natureza, enfim, a cultura brasileira. Na época, o tema mais comum dos sambas era a libertinagem malandra dos subúrbios cariocas. Ary rompeu com isso.

“Senti iluminar-me uma idéia: a de libertar o samba das tragédias da vida, (...) do cenário sensual já tão explorado. Fui sentindo toda a grandeza, o valor e a opulência de nossa terra. (...) Revivi, com orgulho, a tradição dos painéis nacionais e lancei os primeiros acordes, vibrantes, aliás. Foi um clangor de emoções. O ritmo original (...) cantava na minha imaginação, destacando-se do ruído da chuva, em batidas sincopadas de tamborins fantásticos. O resto veio naturalmente, música e letra de uma só vez. Grafei logo (...) o samba que produzi, batizando de 'Aquarela do Brasil'. Senti-me outro. De dentro de minh'alma extravasara um samba que eu há muito desejara. (...) Este samba divinizava, numa apoteose sonora, esse Brasil glorioso." (Blog Cifrantiga,link abaixo).

A música foi trilhando o seu curso e ainda no ano de sua composição ela foi cantada por Aracy Cortes (foto abaixo) na peça de teatro de revista Entra na faixa. A primeira gravação foi a do barítono Cândido Botelho, para o espetáculo Joujoux e Balangandã, promovido pela então primeira-dama, Darcy Vargas.

Aracy Cortes, numa foto ousadíssima.

Francisco Alves
Com a gravação de Francisco Alves, Aquarela do Brasil encontrou-se com a fama e mais que isso: com a consagração, a ponto de ser incluída por Walt Disney como trilha sonora do “filme ‘Alô Amigos’ (‘Saludo Amigos’), com o título de ‘Brazil’ e versos em inglês de S. K. Russell” (Blog Cifrantiga). O filme marca a estreia do brasileiríssimo Zé Carioca nas animações mais conhecidas do planeta.




Sucesso absoluto, por aqui e pelo mundo afora, hoje Aquarela do Brasil é uma espécie de segundo hino para nosso país. É uma das canções que nos identifica, nos mais variados cantos. Depois de tantos anos, são inúmeras as interpretações marcantes. Foi gravada por Silvio Caldas, Tom Jobim, Elis Regina, Gal Costa, João Gilberto, Caetano Veloso, Frank Sinatra, Dionne Warwick, Bing Crosby, Ray Conniff, Xavier Cugat e incontáveis músicos e cantores, incluindo a afamada interpretação dos tenores Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti.

TRILHA DE UM PAÍS IDEAL


O sucesso internacional dos sambas-exaltação resultou da forte política de divulgação do país no exterior feita pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da era Vargas (1930-1945). Fazia parte da política de boa vizinhança dos americanos, que buscavam apoio dos países do Sul para a empreitada dos Aliados na Segunda Guerra. A propaganda também chegou à Europa. O DIP transmitiu diversos programas musicais brasileiros direto dos morros e favelas cariocas em horários especiais para países como a Alemanha.


Aquarela se tornou trilha da produção da Disney Saludos, Amigos (Alô, Amigos), de 1943, recebeu uma letra em inglês, feita pelo compositor S. K. Russell, e foi renomeada, passando a se chamar apenas Brazil. O filme levava Pato Donald a contracenar com Zé Carioca — caricatura do brasileiro —, e Aquarela foi transposta para a boca do papagaio pelo cantor Aloysio de Oliveira.

Ary Barroso passou a ser requisitado como compositor fora do país. Nos Estados Unidos, em 1944, compôs a canção Rio de Janeiro para o filme Brazil, da Republic Pictures, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor música. Contribuiu para outro filme da Disney, Você já foi à Bahia?, e musicou ainda Três Garotas de Azul, filme que ficou inacabado. Seu último trabalho fora do país foi a trilha de 18 canções que elaborou para o espetáculo O Trono das Amazonas, em Nova York, que nunca foi lançado por causa da falência dos produtores. (Revista Bravo!)



Abaixo, duas interpretações de Aquarela do Brasil, juntamente com a letra da canção.


A gravação de Francisco Alves, em vitrola à corda dos anos de 1940



Uma regravação do tenor Plácido Domingo
'Aquarela do Brasil', Plácido Domingo by José Ricardo Lima


LETRA
Aquarela do Brasil (Brazil ou Aquarela brasileira)
Ary Barroso - 1939


Brasil
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

Ah, abre a cortina do passado

Tira a Mãe Preta,do cerrado
Bota o Rei Congo, no congado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Deixa, cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver a Sa Dona, caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Brasil
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Oh, esse coqueiro que dá coco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Ah, ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, este Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil, brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

[ Samba cena brasileira - Primeira audição de Aracy Cortes - Intérprete Francisco Alves com Radamés Gnattali e sua Orquestra - Odeon 11.768A e Odeon 11.768B - Revista "Joujoux e Balangandans" - Filme "Alo, amigos" - 1941 ]

[ Letra inglês: Ray Gilbert, título conhecido como Brazil ]



FONTES DE PESQUISA
Revista Bravo! Especial — 100 canções essenciais da Música Popular Brasileira, 2008.
Blog Cifrantiga (http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/aquarela-do-brasil.html).
Site Ary Barroso (http://www.arybarroso.com.br).

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