POSTAGEM 17: “Piá branca nenhuma corria mais do que ela”

Olá internauta. Faltam 83 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 17. Hoje vamos trazer o último exercício desta primeira fase do nosso curso. Escolhi uma questão que trabalha a teoria dos gêneros, como  ontem.


Leia o poema de Manuel Bandeira e assinale a alternativa correta.

CUNHANTÃ
Vinha do Pará
Chamava Siquê
Quatro anos. Escurinha. O riso gutural da raça;
Piá branca nenhuma corria mais do que ela.
Tinha uma cicatriz no meio da testa:
Que foi isso, Siquê?
Com voz de detrás da garganta, a boquinha tuira:
Minha mãe (a madrasta) estava costurando
Disse vai ver se tem fogo
Eu soprei eu soprei eu soprei não vi fogo
Ai ela se levantou e esfregou com minha cabeça na brasa
Riu, riu, riu...
Uêrêquitáua.
O ventilador era coisa que roda.
Quando se machucava, dizia: Ai Zizuis!


PIÁ: criança


a) A presença de diálogo e de narração acusa interferência do gênero épico e do gênero dramático e, consequentemente, ausência de lirismo.
b) A incorporação de linguagem coloquial e oral (“Ai Zizuis!”) acentua o caráter modernista do texto, mas contribui para comprometer a sua poeticidade.
c) A presença do diminutivo (escurinha, boquinha) contribui para simplificar a expressão e também para marcar o universo infantil de Siquê.
d) O uso de verso livre e a ausência de rimas compromete a musicalidade do texto — característica lírica praticamente ausente, devido ao prosaísmo de expressão.
e) Em termos de gênero literário o texto acima se classifica perfeitamente aos moldes dramáticos clássicos.


GABARITO: C
COMENTÁRIO DO LÉS!: Escolhi esse exercício porque ele tem uma característica que vem aparecendo bastante nas questões do ENEM. Observe os trechos em destaque: na letra a) “...e, consequentemente, ausência de lirismo”;  b) “...mas contribui para comprometer a sua poeticidade”; d) “compromete a musicalidade do texto”; e) “se classifica perfeitamente aos moldes”. Quando aparecerem as expressões assinaladas, quase sempre a alternativa estará errada. No caso deste exercício, as palavras não podem ser vistas justamente na alternativa correta. Fique atento!


ATENÇÃO
A partir de amanhã vamos falar das escolas literárias. Fique atento!!!


POSTAGEM 16: “Tinha uma cortina no meio do caminho”

Olá internauta. Faltam 84 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 16. Hoje vamos trabalhar com Carlos Drummond de Andrade (mais uma vez! Ele cai bastante!) e Garfield. Observe com atenção:


Texto 1
No meio do caminho
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Tinha uma pedra
No meio do caminho tinha uma pedra
ANDRADE. C.D. Antologia poética. Rio do Janeiro/São Paulo: Record, 2000 (fragmento).

Texto 2




DAVIS, J. Garfield, um charme de gato. 7 Trad, da Agência internacional Press, Porto Alegre. L&PM, 2000.

A comparação entre os recursos expressivos que constituem os dois textos revela que:
a) o texto 1 perde suas características de gênero poético ao ser vulgarizado por histórias em quadrinho.
b) o texto 2 pertence ao gênero literário, porque as escolhas linguísticas o tornam uma réplica do texto 1.
c) a escolha do tema, desenvolvido por frases semelhantes, caracteriza-os como pertencentes ao mesmo gênero.
d) os textos são de gêneros diferentes porque, apesar da intertextualidade, foram elaborados com finalidades distintas.
e) as linguagens que constroem significados nos dois textos permitem classificá-los como pertencentes ao mesmo gênero.

GABARITO: D
COMENTÁRIO DO LÉS!: A intertextualidade compreende as diversas maneiras pelas quais a produção e a recepção de determinado texto depende do conhecimento de outros textos por parte dos leitores, isto é, diz respeito aos fatores que tornam a utilização de um texto (os quadrinhos de Garfield) dependente de outro previamente existente (o poema de Drummond). A finalidade do texto 1 é levar à reflexão, enquanto a do texto 2 é criar um efeito de humor. O exercício pode parecer simples de início, mas tem uma característica que pode confundir o candidato menos atento: nas alternativas aparecem tanto referências aos gêneros textuais quanto aos literários. Dos literários (Gênero lírico, épico-narrativo e dramático) já falamos aqui no blog. Os gêneros textuais se enquadram no conteúdo da Redação, por isso não trataremos deste assunto com mais profundidade. Mas para que você não se perca, é bom lembrar que gêneros textuais são tipos específicos de textos de qualquer natureza, literários ou não. Modalidades discursivas constituem as estruturas e as funções sociais (narrativas, dissertativas, argumentativas, procedimentais e exortativas), utilizadas como formas de organizar a linguagem. Dessa forma, podem ser considerados exemplos de gêneros textuais: anúncios, convites, atas, avisos, programas de auditórios, bulas, cartas, comédias, contos de fadas, convênios, crônicas, editoriais, ementas, ensaios, entrevistas, circulares, contratos, decretos, discursos políticos, histórias, instruções de uso, letras de música, leis, mensagens, notícias.


POSTAGEM 15: “Uma canção em que minha mãe se reconheça”

Olá internauta. Faltam 85 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 15. Hoje vamos estudar mais um exercício que cobra as Funções da Linguagem. É bom que você, candidato, fique atento a este assunto. Ele aparece em inúmeras questões do ENEM. Leia o texto, prazerosamente:


Canção amiga
Eu preparo uma canção,
em que minha mãe se reconheça
todas as mães se reconheçam
e que fale como dois olhos.
[...]
Aprendi novas palavras
E tornei outras mais belas.
Eu preparo uma canção
que faca acordar os homens
e adormecer as crianças.
ANDRADE, C.D. Novos Poemas. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 1948.(fragmesto)

A linguagem do fragmento acima foi empregada pelo autor com o objetivo principal de
a) transmitir informações, fazer referencia a acontecimentos observados no mundo exterior.
b) envolver, persuadir o interlocutor — nesse caso — o leitor, em um forte apelo a sua sensibilidade.
c) realçar os sentimentos do eu lírico, suas sensações, reflexões e opiniões frente ao mundo real.
d) destacar o processo de construção de seu poema, ao falar sobre o papel da própria linguagem e do poeta.
e) manter eficiente o contato comunicativo entre o emissor da mensagem, de um lado, e o receptor — de outro.

GABARITO: D
COMENTÁRIO DO LÉS!: O exercício pedia ao candidato que usasse o conteúdo das Funções da Linguagem na resolução. A letra A está falsa, pois se refere à Função Referencial da Linguagem, que em nenhum momento aparece no texto. Da mesma forma, a alternativa B também não deveria ser marcada, pois versa sobre a Função Conativa ou Apelativa, que também não pode ser contemplada. A assertiva C poderia confundir o candidato, pois retoma o conceito da Função Emotiva que até aparece no texto, mas em menor intensidade. É importantíssimo que o candidato atente para o trecho do enunciado que pede o “objetivo principal” da linguagem empregada pelo autor. E este “objetivo principal” aparece na alternativa D, a única que fala da Função Metalinguística, que é a predominante no texto, já que Drummond discorre acerca do fazer poético. A assertiva E também está incorreta, pois se refere à função fática, que tem o objetivo de testar o canal (também chamado de contato).



POSTAGEM 14: E se todo mundo ficasse cego?

Olá internauta. Faltam 86 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 14. A partir de hoje e até o dia 31, traremos alguns exercícios cobrados em avaliações anteriores, com seu respectivo gabarito e com um comentário exclusivo. Eles funcionam como uma revisão do conteúdo que já vimos das postagens anteriores. Vamos ao primeiro deles. Note que o texto fala sobre um dos principais livros do autor português José Saramago, Ensaio sobre a cegueira.


EXERCÍCIO RESOLVIDO

E se todo mundo ficasse cego?
Para José Saramago seria o caos. Em seu livro Ensaio sobre a Cegueira, o mundo praticamente acaba enquanto a humanidade vai perdendo a visão. Mas para a ciência as coisas poderiam tomar um caminho diferente. “Há várias tecnologias que ajudariam: bengalas ultrassônicas que podem indicar se há objetos pela frente ou até robôs que atuariam como cães-guia”, diz o especialista em robótica Darwin Caldwell (...). Além disso, precisaríamos de coisas como carros que andam sozinhos e máquinas capazes de substituir médicos em cirurgias. Mas como esses carros — robôs e outros aparelhos seriam construídos sem ninguém para ver que peça apertar? Fábricas totalmente automatizadas também não estão longe de ser realidade. “Robôs seriam capazes de se autoconstruir”, diz Ken Young, presidente da Associação Britânica de Automação e Robótica. Ou seja: se a cegueira generalizada se espalhasse devagar, daria para a gente remodelar o mundo – mudando tudo para que nada mude. Com algumas adaptações, claro.

CINQUEPALMI, João Vito. E se todo mundo ficasse cego? Superinteressante. Sao Paulo, n. 264, p. 48, abr. 2009.

Apesar de poderem coexistir várias funções da linguagem em um mesmo texto, normalmente uma delas é predominante. Sabendo disso, assinale a alternativa correta.
a) Apesar de citar um texto literário, em que a função poética normalmente aparece, o texto apresentado tem a predominância da função referencial, já que o autor faz referência a soluções científicas para problemas.
b) O texto é metalinguístico, pois faz uma grande reflexão sobre como a linguagem se estrutura.
c) Como o autor está muito envolvido com a questão hipotética de uma cegueira generalizada, podemos afirmar que no texto predomina a função emotiva, em que seus sentimentos são destacados.
d) Como o título do texto e uma pergunta, há nele o predomínio da função apelativa, já que o leitor é convencido a tomar certas atitudes.
e) Percebemos no texto a preocupação em destacar o canal de comunicação entre o autor e o leitor, portanto a função que predomina nesse texto e a fática.

RESPOSTA: A
COMENTÁRIO DO LES!: Este exercício cobra de uma maneira bem eficaz, o conteúdo pedido na Habilidade 19 do ENEM: “Analisar a função da linguagem predominante nos textos em situações específicas de interlocução”. É interessante que o enunciado deixa claro que podem aparecer várias funções da linguagem num mesmo texto e que sempre uma acaba predominando. Neste caso, há o predomínio da Função Referencial, já que o autor enfatiza o assunto, também chamado de referente.


POSTAGEM 13: Últimos conceitos

Olá internauta. Faltam 87 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 13. Hoje vamos falar sobre os últimos conceitos importantes da teoria literária: “concomitância de gêneros”, “manifestações e sistemas literários” e “estilo individual e estilo de época”.


A CONCOMITÂNCIA DOS GÊNEROS LITERÁRIOS
Atualmente, fala-se em concomitância de gêneros e essa classificação, perfeita e lógica na sua essência, pode tornar-se discutível e até errônea na prática, quando aplicada rigidamente a determinadas obras. É que na criação artística confluem as águas dessas três fontes, interpenetrando-se as funções da linguagem. E em certas obras predominará um gênero sobre o outro, mas nunca haverá a expressão pura de um só gênero.


ESTILO INDIVIDUAL E ESTILO DE ÉPOCA
A arte é um meio que o ser humano utiliza para mostrar o mundo; a sociedade; o cotidiano; valores políticos, sociais e religiosos. Quando o assunto é arte deve lembrar uma relação clara entre homem e linguagem. Logo, a arte do escritor cria a sua arte com base em sua visão, seus pensamentos, sua realidade e assim um estilo. Este estilo pode ser em forma de prosa, poesia ou verso.

“O estilo individual  é a maneira muito particular de cada escritor ver o mundo e de organizar sua linguagem para poder traduzir sua visão”

Avaliar o estilo de um escritor abrange uma vasta área dentro da linguagem explorando a parte semântica, o valor sintático e a relatividade fonética. O objetivo de todo o aparato é expressar, compreender e desenvolver a mensagem prevista. O escritor não escreve aleatoriamente, busca inspiração no mundo social, cultural, histórico e real. Não se pode esquecer que a época também é uma grande influência. Nada mais é do o estilo de época.

Estilo de época  é a maneira de ver e de expressar o mundo, refletindo características próprias de uma época histórica.”
Machado de Assis, nosso principal escritor
Se ocorrer que o escritor sofra uma grande influência religiosa, é certo que o meio refletirá em sua obra, logo no seu estilo. Já se está em alta é a ciência seja física, social, biológica refletirá uma visão objetiva, sugere o estilo da precisão.

Toda esta estrutura percebe na literatura, principalmente nos estilos de época da literatura. Portanto, o melhor meio para entender uma obra ou autor é uma leitura minuciosa de sua obra identificando e reconhecendo as características do estilo individual e as típicas do estilo de época.


MANIFESTAÇÕES E SISTEMAS LITERÁRIOS
No estudo da literatura, há que se diferenciar as MANIFESTAÇÕES dos SISTEMAS LITERÁRIOS. As manifestações literárias que aconteceram no Brasil da época do “Descobrimento” ao Arcadismo eram expressões isoladas e/ou esporádicas da literatura, ou seja, aconteciam com pouca freqüência, não eram bem delineadas às necessidades nacionais nem tinham, ainda, assumido estilo, escritores, obras e leitores próprios.

Os sistemas literários, ao contrário delas, são conjuntos que começam a acontecer no país com o Romantismo, em que há uma organização e uma concentração maiores de obras, escritores, estilos bem definidos, um sentimento literário comum e próprio da nação brasileira e de um público leitor. Portanto, um sistema literário existe quando as manifestações deixam de ser isoladas e passam a organizar-se em conjunto.

Os fatores básicos de um sistema literário são:

a) autores;
b) obras: produzidas dentro de um mesmo código lingüístico e perspectivas mais ou menos comuns;
c) público leitor permanente.

Este último constitui o componente essencial do referido sistema. Porque é óbvio que, sem leitores permanentes, nenhuma literatura pode se desenvolver. Através deles se estabelece uma rede de transmissão de idéias, gostos, debates, estímulos, rejeições, experiências e valores estéticos. São eles que criam uma linha de continuidade entre o passado, o presente e o futuro da vida literária de um país.


POSTAGEM 12: “Só sei que foi assim”

Olá internauta. Faltam 88 dias para o ENEM e essa é a nossa postagem de número 12. Hoje vamos falar sobre o Gênero Dramático.

GÊNERO DRAMÁTICO


Versão cinematográfica da peça Auto da Compadecida.
Como indica o próprio termo dramático, que provém do verbo grego drao — fazer, agir—, a principal característica do gênero dramático é a ação, que se desenvolve diante do espectador. Assim, o mundo representado mostra-se sem a intermediação de um narrador ou de um sujeito lírico: personagens agem e falam na presença do próprio público. É importante destacar que o texto dramático só se complementa com a atuação dos atores no espetáculo teatral — o que transforma o gênero dramático numa manifestação complexa, que ultrapassa o literário para incorporar aspectos técnicos da dramaturgia. Para a literatura, o interesse centraliza-se no texto dramático, que pode ser produzido em verso ou em prosa.

As principais formas de manifestação dramática são:

          Auto: Composição dramática originária da Idade Média, com personagens geralmente alegóricas, como os pecados, as virtudes, etc., e entidades como santos, demônios, etc., e que se caracteriza pela simplicidade da construção, ingenuidade da linguagem, caracterizações exacerbadas e intenção moralizante, podendo, contudo, comportar também elementos cômicos e jocosos
          Farsa: Peça teatral de comicidade exagerada, ação vivaz, irreverente e burlesca, e com elementos de comédia de costumes.
          Comédia: Obra ou representação teatral em que predominam a sátira e a graça.
          Tragédia: 1. Na Grécia antiga, obra teatral em verso que se originou do ditirambo (1), de caráter grandioso, dramático e funesto, em que intervêm personagens ilustres ou heróicas, e que é capaz de infundir terror e piedade.  2. Peça de ordinário em verso, e que termina, em regra, por acontecimentos fatais.
          Drama: Designação genérica de composição dialogada ou teatral; texto ou peça teatral; comédia.
          Tragicomédia: Peça que participa da tragédia pelo assunto e personagens, e da comédia pelos incidentes e desenlace.

Elementos constitutivos do texto dramático

·         Rubrica: Indicação escrita de como deve ser executado um trecho musical, uma mudança de cenário, um movimento cênico, uma fala, um gesto do ator, etc. Em itálico.
·         Cenário: o plano de fundo, numa peça teatral.
·         Diálogo: Colóquio entre os atores, móvel da ação da peça, a partir do qual se desenvolveu o gênero teatral.
·         Monólogo: Cena em que um só ator representa, interpretando um personagem que fala ao público ou consigo mesmo.
·         Personagem: como no gênero narrativo.

AUTO DA COMPADECIDA (trecho)
Ariano Suassuna

JOÃO GRILO
Homem sabe do que mais? Vamos deixar de conversa. Tome lá! Morra, desgraçado!

Dá uma punhalada na bexiga. Com a sugestão, Chicó cai ao solo, apalpa-se, vê a bexiga e só então entende. Ele fecha os olhos e finge que morreu.

JOÃO GRILO
Está vendo o sangue?

SEVERINO
Estou. Vi você dar a facada, disso nunca duvidei. Agora, quero ver é você curar o homem.

JOÃO GRILO
É já.

Começa a tocar na gaita e Chicó começa a se mover no ritmo da música, primeiro uma mão, depois as duas, os braços, até que se levanta como se estivesse com dança de São Guido.


POSTAGEM 11: "Riscando a solidão de uma alameda"

Olá internauta. Faltam 89 dias para o ENEM e esta é a nossa 11ª postagem. Hoje vamos dar continuaidade ao estudo sobre o Gênero Lírico. Vamos lá:


NOÇÕES DE VERSIFICAÇÃO
Em pouquíssimas palavras, versificação é a arte de fazer versos. Verso é a unidade rítmica de um poema. Corresponde a uma linha de uma estrofe. Estrofe é um agrupamento de versos. Poema é o agrupamento de estrofes ou versos. Poesia é tudo aquilo que toca nosso espírito, provocando prazer (ou desprazer!!!) estético.

ESTUDO DO POEMA DE FORMA FIXA
Muitos jovens pensam que é fácil fazer versos. Isso parece ser verdade em se tratando de versos livres (sem a necessidade de seguir as regras rígidas de versificação. Quando, porém, se trata de poema de forma fixa, as dificuldades surgem, pela obrigatoriedade de obedecer à metrificação, ao ritmo, à rima, à estrofação etc.

Metrificação: consiste na contagem das sílabas poéticas (as sílabas do verso). Elas não se contam como as sílabas gramaticais. Vejamos o verso Riscando a solidão de uma alameda.

RIS/CAN/DO/A/SO/LI/DÃO/DE/U/MA/A/LA/ME/DA

RIS/CAN/DOA/SO/LI/DÃO/DEU/MAA/LA/ME/


Verificamos que o mesmo verso possui 14 sílabas gramaticais e 10 sílabas métricas. Por que essa diferença? Pelo seguinte:
1. A contagem de sílabas métricas termina na última sílaba tônica da palavra final do verso (Riscando a solidão de uma alameda).
2. A vogal átona final de uma palavra se une à vogal (ou vogais) da palavra seguinte. A esse fenômeno, damos o nome de elisão.


OS QUATRO PASSOS DA METRIFICAÇÃO (OU ESCANSÃO)
1. Separar as sílabas gramaticais.
2. Procurar as elisões e unir as duas sílabas onde elas aparecem, o que resultará numa única sílaba poética.
3. Marcar a sílaba tônica da última palavra.
4. Numerar as sílabas poéticas até a última tônica.


1 SÍLABA = Monossílabo      
Rua
torta.
Lua
morta.
Tua
porta. (Cassiano Ricardo)

2 SÍLABAS = Dissílabo           
Na valsa
Cansaste
Ficaste
Prostrada,
Turbada! (Casemiro de Abreu)

3 SÍLABAS = Trissílabo         
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pasto (Manuel Bandeira)

4 SÍLABAS = Tetrassílabo   
Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada (Vinícius de Morais)

5 SÍLABAS = Pentassílabo ou redondilha menor
Dorme o pensamento.
Riram-se? Choraram?
Ninguém mais recorda. (Cecília Meireles)

6 SÍLABAS = Hexassílabo     
Não solta a voz canora
No bosque o vate alado (Gonçalves Dias)

7 SÍLABAS = Heptassílabo ou redondilha maior
Minha terra tem palmeiras
Onde canta o sabiá
As aves que aqui gorjeiam
Não gorjeiam como lá (Gonçalves Dias)

8 SÍLABAS = Octassílabo      
Tu pensas que tu é que és
A melhor mulher do planeta.
Mas eu é que não vou fazer
Tudo o que te der na veneta. (Noel Rosa)

9 SÍLABAS = Eneassílabo     
Ou se tem chuva e não se tem sol
Ou se tem sol e não se tem chuva (Cecília Meireles)

10 SÍLABAS = Decassílabo  
As armas e os barões assinalados
Que da ocidental praia lusitana,
Por mares nunca dantes navegados
Passaram ainda além da Taprobana (Luís de Camões)

11 SÍLABAS = Undecassílabo            
Tange o sino, tange, numa voz de choro
Numa voz de choro... tão desconsolado...
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo... Acorda! (V. de Carvalho)

12 SÍLABAS = Dodecassílabo ou Alexandrino      
Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso. (Cruz e Sousa)

Observações:
1. Como você observou, alguns versos recebem nomes especiais, de acordo com o seu número de sílabas;
Pentassílabo: redondilha menor
Heptassílabo: redondilha maior
Dodecassílabo: alexandrino 

No momento em que você encontrar versos com essas medidas, dê prefe-rência para a nomenclatura especial.

2. Os versos com mais de doze sílabas são classificados como irregulares ou bárbaros.


POSTAGEM 10: "Não há você sem mim e eu não existo sem você"...

Olá internauta. Faltam 90 dias para o ENEM e esta é a nossa 10ª postagem. Hoje vamos falar do Gênero Lírico.



         ... pertencerá à Lírica todo poema de extensão menor, na medida em que se não cristalizem personagens nítidos e em que, ao contrário, uma voz central — quase sempre um “Eu” — nele exprimir seu próprio estado de alma.
ANATOL ROSENFELD

Érato, a musa da poesia lírica, em tela de J. W. Godward
Na Antiga Grécia, as epopeias cumpriram a importante função de divulgar os ideais e valores que organizavam a vida coletiva. Porém, os poemas épicos não respondiam ao anseio humano de expressão individual e coletiva. A poesia LÍRICA surge como uma forma de atender esse anseio.

A poesia lírica se define pela expressão dos sentimentos e emoções pessoais. Outra marca característica de sua estrutura é o fato de dar voz a um sujeito lírico (chamado de eu lírico ou eu poemático) diferentemente da narração impessoal da poesia épica. O sujeito lírico fala de seus sentimentos, de seu estado anímico.  

No início, os poemas líricos eram cantados, geralmente acompanhados pela lira, um instrumento musical de cordas. Essa união entre música e poesia atravessará os anos e permanecerá até a invenção da imprensa, no século XV, quando a cultura escrita passar a prevalecer sobre a cultura oral.

Embora muitos autores tivessem aderido à lírica, ela era visto como gênero menor em relação aos outros e foi somente no Renascimento que ele ganhou importância, através do escritor italiano Francesco Petrarca e seus seguidores (incluindo Luís de Camões, o maior poeta da língua portuguesa). 

MODALIDADES DO GÊNERO LÍRICO
ACRÓSTICO: Composição poética na qual o conjunto das letras iniciais (e por vezes as mediais ou finais) dos versos compõe verticalmente uma palavra ou frase.
BALADA: 1. Poema de origem francesa, do séc. XIII, formado de três oitavas ou três décimas, que têm as mesmas rimas e terminam pelo mesmo verso, seguidas de uma meia estrofe (quadra ou quintilha), dita oferta ou ofertório, na qual se repetem as rimas e o último verso das oitavas ou das décimas. 2. Poema narrativo de assunto lendário ou fantástico e de caráter simples e melancólico, típico dos povos do Norte da Europa na época do pré-romantismo, e que tem sido livremente adotado em períodos posteriores: as baladas de Schiller; “a Balada das Duas Mocinhas de Botafogo", de Vinícius de Morais. 
BARCAROLA: Canção romântica dos gondoleiros de Veneza. Tipo de cantiga trovadoresca de influência italiana, que se referia a assuntos marítimos. 
CANTIGA: Poesia cantada, em redondilha ou versos menores, dividida em estrofes iguais.
:DÉCIMA: Estrofe de 10 versos de sete sílabas, cujo esquema rimático é, mais comumente, ABBAACCDDC, empregada sobretudo na glosa dos motes, conquanto se use igualmente nas pelejas e, com menos freqüência, no corpo dos romances.
ÉCLOGA: Poesia pastoril, em geral dialogada; bucólica, pastoral.
ELEGIA: Poema lírico, cujo tom é quase sempre terno e triste.
GAZAL OU GAZEL: Poesia amorosa ou báquica (relativa a Baco, deus do vinho e das orgias), espécie de ode, dos persas e dos árabes, que se compõe de vários dísticos, 15 no máximo, rimando os versos do primeiro dístico entre si e com o segundo verso de cada um dos outros: São famosos os gazéis de Hafiz, poeta persa do séc. XIV.  O poeta Manuel Bandeira utilizou esta modalidade lírica em alguNs de seus poemas.
GLOSA: Composição poética, ordinariamente formada de quatro décimas, às quais servem de mote os quatro versos de uma quadra. Comum em Gregório de Matos Guerra.
HAICAI: Poema de origem japonesa constituído de três versos, dos quais dois são pentassílabos e um, o segundo, heptassílabo.
IDÍLIO: Pequena composição poética de caráter campestre ou pastoril que retrata um amor poético e suave.
MOTE: Conceito, ordinariamente expresso num dístico ou numa quadra, para ser glosado.
ODE: Entre os antigos gregos, composição em verso que se destina a ser cantada. Composição poética de caráter lírico, composta de estrofes simétricas.
PARLENDA: Rimas infantis, em versos de cinco ou seis sílabas, para divertir, ajudar a memorizar, ou escolher quem fará tal ou qual brinquedo. Ex.: "Amanhã é domingo / pé de cachimbo"; "Um, dois, / feijão com arroz".
RONDÓ: Composição poética com estribilho (REFRÃO) constante.
RONDÓ DOBRADO:  que é formado de seis quadras sobre apenas duas rimas.
RONDÓ SIMPLES: Rondó também apenas com duas rimas, e formado de três estâncias (a primeira de cinco versos, a segunda de três e a terceira de cinco), repetindo-se a primeira ou as primeiras palavras dela com o último verso, sem rima, da segunda e da terceira estâncias, o que dá ao poema um total de 15 versos. 
SEXTINA: Poema de forma fixa, por via de regra em versos decassílabos, composto de seis sextilhas e, quase invariavelmente, um terceto (denominado tornada, envio ou remate), e no qual cada uma das últimas palavras dos versos da 1ª sextilha (não rimados, bem como os demais) se repete no fim dos versos das estrofes seguintes, mudando, porém, de posição, dentro de um mesmo processo: a 1ª, 2ª, 3ª, 4ª, 5ª e 6ª palavras finais, da 2ª estrofe em diante, devem corresponder à 6ª, 1ª, 5ª, 2ª, 4ª e 3ªda estrofe anterior; no terceto, as seis palavras repetem-se, duas em cada verso, na ordem em que se acham na 1ª sextilha. COMPARE COM SEXTILHA (GRUPO 03).
SONETO: Composição poética de 14 versos, dispostos ou em dois quartetos e dois tercetos (soneto italiano, o mais cultivado) ou em três quartetos e um dístico (soneto inglês).
TROVA: Composição lírica ligeira e mais ou menos popular. Composição literária formada de quatro versos setissílabos rimados, e com sentido completo. Canção, cantiga. Quadra popular. 


Abaixo, um vídeo com a canção "Eu não existo sem você", de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, que pode ser classificada dentro do gênero lírico.



 
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