POSTAGEM 78: A canção do exílio drummondiana

EXERCÍCIOS RESOLVIDOS


Observe o poema abaixo. Nele, Carlos Drummond de Andrade reescreve a famosa “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias, na qual o poeta romântico idealiza a terra natal distante:

NOVA CANÇÃO DO EXÍLIO
A Josué Montello

Um sabiá
na palmeira, longe.
Estas aves cantam
um outro canto.

O céu cintila
sobre flores úmidas.
Vozes na mata,
e o maior amor.

Só, na noite,
seria feliz:
um sabiá,
na palmeira, longe.

Onde é tudo belo
e fantástico,
só, na noite,
seria feliz.
(Um sabiá,
na palmeira, longe.)

Ainda um grito de vida e
voltar
para onde é tudo belo
e fantástico:
a palmeira, o sabiá,
o longe.



1. (UNICAMP-SP) – Além de expatriação, a palavra exílio significa também “lugar longínquo” e “isolamento do convívio social”. Quais palavras expressam estes dois últimos significados no poema de Drummond?
RESPOSTA POSSÍVEL:A ideia de exílio como “lugar longínquo” está presente no termo longe, que aparece no poema seja como advérbio (estrofes 1, 3 e 4), seja como substantivo (estrofe 5). Já o sentido de “isolamento do convívio social” se encontra no adjetivo só (estrofes 3 e 4).

2. (UNICAMP-SP) – Como o eu lírico imagina o lugar para onde quer voltar?

RESPOSTA POSSÍVEL:
Ao caracterizar o local para onde quer voltar como um lugar “onde é tudo belo / e fantástico”, o eu lírico imagina-o como fora do comum, ideal, pródigo no que se refere aos aspectos positivos ligados à Natureza (“O céu cintila”) e à emotividade (“maior amor”). Eleva-o, pois, a um nível mítico ou arquetípico, cujo caráter ideal e inalcançável é resumido na expressão “o longe”, que fecha o poema.


POSTAGEM 77: ENEM: comparações entre literatura e artes plásticas


EXERCÍCIO RESOLVIDO



Operários, Tarsila do Amaral

Desiguais na fisionomia, na cor e na raça, o que lhes assegura identidade peculiar, são iguais enquanto frente de trabalho. Num dos cantos, as chaminés das indústrias se alçam verticalmente. No mais, em todo o quadro, rostos colados um ao lado do outro, em pirâmide que tende a se prolongar infinitamente, como mercadoria que se acumula, pelo quadro afora.

Nádia Gotlib. Tarsila do Amaral, a modernista.


O texto aponta no quadro de Tarsila do Amaral um tema que também se encontra nos versos transcritos em:
a) “Pensem nas meninas / Cegas inexatas / Pensem nas mulheres / Rotas alteradas.” (Vinícius de Moraes)
b) “Somos muitos severinos / iguais em tudo e na sina: / a de abrandar estas pedras / suando-se muito em cima.” (João Cabral de Melo Neto)
c) “O funcionário público / não cabe no poema / com seu salário de fome / sua vida fechada em arquivos.” (Ferreira Gullar)
d) “Não sou nada. / Nunca serei nada. / Não posso querer ser nada. / À parte isso, tenho em mim todos os / sonhos do mundo.” (Fernando Pessoa)
e) “Os inocentes do Leblon / Não viram o navio entrar (...) / Os inocentes, definitivamente inocentes tudo ignoravam, / mas a areia é quente, e há um óleo suave / que eles passam pelas costas, e aquecem.” (Carlos Drummond de Andrade)

GABARITO: B
COMENTÁRIO: Assim como a pintora Tarsila do (que NÃO participou da Semana de Arte Moderna, fique atento a isso!), João Cabral de Melo Neto trabalha, em Morte e vida severina, com a temática dos excluídos. Daqueles que oferecem o suor do seu trabalho para o desenvolvimento da nação e, mesmo assim, são postos à margem da sociedade.


POSTAGEM 76: A pá virada de Pagu

Quem foi Pagu?

Pagu, cujo nome verdadeiro era Patrícia Galvão, foi jornalista, escritora, animadora cultural e militante política. Viveu de 1910 a 1962. Como jornalista, trabalhou em vários veículos como "A Noite", "Diário de São Paulo", "O Jornal", "A Tribuna", de Santos, "Fanfulla", "Correio da Manhã" e na agência noticiosa France-Presse. Como escritora, publicou os romances "Parque Industrial" (1933), o primeiro romance proletário do Brasil e "A Famosa Revista" (1945), em colaboração com Geraldo Ferraz. Seus contos policiais, originalmente publicados na revista "Detective" foram recolhidos em "Safra Macabra" (1998).
Teve uma grande atividade como animadora cultural, revelando e traduzindo autores contemporâneos até então inéditos no Brasil, como James Joyce, Arrabal, Eugène Ionesco e Octavio Paz. Foi marcante seu trabalho como promotora do teatro amador brasileiro e é notável seu trabalho como divulgadora e crítica da literatura brasileira e mundial na sua época. Finalmente, seu ativismo político tornou-a uma figura importante no combate à ditadura de Getúlio Vargas, o que lhe valeu nada menos que 23 prisões.

Como surgiu o nome Pagu?O nome Pagu foi dado pelo poeta modernista Raul Bopp ("Cobra Norato"), que achou que seu nome fosse Patrícia Goulart, em 1928. Ela usou vários outros pseudônimos como Mara Lobo, Pt. Patsy, Pat, Ariel, Solange Sohl, Léonie.

Onde e quando Pagu nasceu e morreu?
Patrícia Rehder Galvão — seu nome completo —nasceu em São João da Boa Vista a 9 de junho de 1910 e morreu em Santos a 12 de dezembro de 1962.

Pagu se casou?
Sim. Primeiro, casou-se pró-forma com o pintor Waldemar Belisário, a 28 de setembro de 1929. Depois da cerimônia civil, o escritor Oswald de Andrade encontrou-se com ela no alto da serra de Santos. Conforme o combinado, Belisário voltou para São Paulo e Oswald e Pagu foram para a praia. O casamento foi anulado em 1930. Oswald e Pagu casam-se no mesmo ano e têm um filho, Rudá de Andrade. Separada de Oswald em 1934, Patrícia casa-se com o jornalista Geraldo Ferraz em 1940. Têm um filho, Geraldo Galvão Ferraz.

Pagu foi a musa da Semana de Arte Moderna?
Não. Quando aconteceu a Semana, ela tinha apenas 12 anos. Pagu participou do Movimento Antropofágico modernista, mais especificamente da Revista de Antropofagia, em 1929.

Qual o papel de Pagu na introdução da soja no Brasil?
Pagu tornou-se amiga do imperador Pu-Yi (retratado no filme "O Último Imperador") da Mandchúria. Dele, recebeu as sementes de soja que, após passar para o cônsul brasileiro em Cobe, no Japão, iniciaram a cultura em nosso país.

FAQ sobre Pagu, retirado do site da escritora (link abaixo).

Um poema sobre Pagu:

Coco de Pagu (Raul Bopp - 27/10/1928)


Pagu tem os olhos moles
uns olhos de fazer doer.
Bate-côco quando passa.
Coração pega a bater.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Passa e me puxa com os olhos
provocantissimamente.
Mexe-mexe bamboleia
pra mexer com toda a gente.

Eli Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Toda a gente fica olhando
o seu corpinho de vai-e-vem
umbilical e molengo
de não-sei-o-que-é-que-tem.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.

Quero porque te quero
Nas formas do bem-querer.
Querzinho de ficar junto
que é bom de fazer doer.

Eh Pagu eh!
Dói porque é bom de fazer doer.


Um poema de Pagu:

UM PEIXE


Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.




Excelente vídeo para a música “Pagu” (Rita Lee), interpretada por Maria Rita:




Slides sobre Pagu, retirados de seu site oficial:



Para conhecer mais sobre a vida e obra de Pagu, visite os seguintes endereços:
Site oficial
Pagu - livre no espaço e no tempo


POSTAGEM 75: Manuel Bandeira: um vídeo e um poema...



Documentário de Joaquim Pedro de Andrade.
Elenco: Manuel Bandeira.

Versos de Manuel Bandeira, lidos pelo poeta, acompanham e transfiguram os gestos banais de sua rotina em seu pequeno apartamento no centro do Rio; a modéstia do seu lar, a solidão, o encontro provocado por um telefonema, o passeio matinal pelas ruas de seu bairro.



Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho ou Manuel Bandeira, poeta e ensaísta brasileiro que nasceu em Recife, Pernambuco.

Fez seus estudos secundários no Rio de Janeiro, no Colégio Pedro II, do qual seria posteriormente professor de literatura. Começou em São Paulo a carreira de engenheiro, que não terminou porque ficou doente de tuberculose, e foi recuperar-se na Suíça. Foi inspetor federal de ensino, professor de literatura latino-americana na Universidade do Brasil. Colaborou com a imprensa, preparou antologias e escreveu sobre crítica literária e história. Na Suíça conheceu o simbolismo e o pós-simbolismo francês, que influíram em seus primeiros livros, Cinzas das horas (1917) e Carnaval (1919).

Desde 1912 começou a usar em sua poesia o verso livre. Participou do modernismo de 1922. Dentro da nova estética, sua primeira obra foi Ritmo dissoluto e Libertinagem (1930), onde começou a inserir motivos e termos prosaicos na literatura.

Sua prosa conserva a variedade criadora do parnasianismo e está marcada pela paixão de viver, expressada em forma lírica e intimista. A presença do biógrafo se manifesta na interiorização de figuras familiares (Profundamente e Irene do céu).

As imagens brasileiras aparecem, por exemplo, em Evocação do Recife. Nos livros de sua matur
idade reaparece a métrica clássica e popular. Mafuá do malungo (1948) contem jogos onomásticos, dedicatórias rimadas e sátiras políticas. Merecem menção, também, os poemarios Estrela da manhã (1936), Estrela da tarde (1966), Estrela da vida inteira (1966). Sua obra em prosa abrange as Crônicas da Província do Brasil (1936), Guia de Ouro Preto (1938), Noções da História da Literatura (1940), Literatura Hispano-americana (1949), Gonçalves Dias (1952), Itinerário de Passárgada (1954) e mais 50 crônicas (1966). Morreu no Rio de Janeiro.


Fonte: Enciclopédia Encarta 2000 - Microsoft


Arte de amar (Manuel Bandeira)


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.


Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


POSTAGEM 74: Mário de Andrade e Iara Rennó: Literatura e música... Macunaíma!


Abaixo, você encontra um vídeo e a letra da adaptação feita por Iara Rennó com trechos do primeiro capítulo do livro Macunaíma, de Mário de Andrade. Muito interessante!







No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma
Era preto retinto e filho do medo da noite

Houve um momento em que o silêncio foi tão grande
Escutando o murmurejo do Uraricoera,
Que a índia tapanhumas pariu uma criança feia
Macunaíma já na meninice fez coisas de sarapantar
De primeiro passou mais de seis anos não falando e si o incitavam a falar exclamava:
- Ai! Que preguiça!...
E não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha,
Maanapê, Já velhinho
E Jiguê, Na força de homem
O divertimento dele era decepar cabeça de saúva.
Pouca saúde, muita saúva, os males do Brasil são
Vivia deitado mas si punha os olhos em dinheiro,
Macunaíma dandava pra ganhar vintém, Acuti pita canhém
No mucambo si alguma cunhatã se aproximava dele pra fazer festinha,
Macunaíma punha a mão nas graças dela, cunhatã se afastava
Nos machos cuspia na cara

Porém respeitava os velhos e freqüentava com aplicação a murua a poracê o toré o bacorocô a cucuicogue, todas essas danças religiosas da tribo

http://www.vagalume.com.br/iara-renno/macunaima.html#ixzz1LgyVF7s1

POSTAGEM 73: Leia, na íntegra, o primeiro exemplar da Revista Klaxon, de 1922

A KLAXON - Mensário de Arte Moderna - foi a primeira revista Modernista do Brasil e começou a circular logo após a realização da Semana de Arte Moderna. O primeiro, dos seus nove números, foi publicado em 15 de maio de 1922 e o último, (edição dupla, de números 8 e 9) em janeiro de 1923.

A palavra Klaxon, segundo o Dicionário Aurélio, é de origem inglesa e seu significado é "Buzina de Automóvel". Por isso e por estar sempre aberta à experimentação, pode-se dizer que a Klaxon anunciava, de forma barulhenta, as novidades do mundo moderno.

"É uma buzina literária, fonfonando, nas avenidas ruidosas da Arte Nova, o advento da falange galharda dos vanguardistas".

Menotti del Picchia


A revista Klaxon inovou em vários sentidos:

* Sua organização era muito diferente da dos jornais e revistas da época, pois não tinha diretor, redator-chefe, secretário etc. Ela era uma espécie de órgão coletivo, onde todos participam das diversas fases da sua produção

* O seu projeto gráfico era inovador;

* Conteúdo bem diversificado. Nela eram publicados artigos e poemas de autores nacionais como Manuel Bandeira e Sérgio Milliet e também de autores franceses, italianos e espanhóis, todos em suas línguas originais.

* Além disso, também eram publicados ensaios, crônicas, críticas de arte, piadas, gravuras e anúncios sérios como os da "Lacta", que contrastavam com anúncios satíricos como os da "Panthosopho, e Pateromnium & Cia", uma empresa que fabricava sonetos.

É óbvio que fabricar sonetos só pode ser uma sátira direta aos poetas Parnasianos. Afinal eram eles que cultivavam uma poesia de notável perfeição formal. Essa obsessão pela forma era tanta, e para os Modernistas, uma coisa tão absurda, que eles comparavam os poemas Parnasianos a objetos produzidos por uma fábrica, ou seja, todos iguais.

Os principais colaboradores da Klaxon foram:


Guilherme de Almeida, Mário de Andrade e Oswald de Andrade, Rubens Borba de Moraes, Luís Aranha, Sérgio Milliet. A revista também tinha correspondentes no Rio de Janeiro (Sérgio Buarque de Holanda), Suíça, França e Bélgica.

O edital do primeiro número da revista Klaxon, assinado por vários colaboradores, afirmava os caminhos que os modernistas pretendiam seguir.

A revista Klaxon sobrevivia sem receber qualquer espécie de auxílio concedido pelos poderes públicos e sem a venda de assinaturas. O principal motivo da sua desativação foi o fato de a revista não mais fascinar nem divertir seus componentes.

Fonte: http://www.mundocultural.com.br/

Abaixo, você pode ler o primeiro número da Klaxon na íntegra. Para ler os demais, entre no site Brasiliana USP (usado também como fonte para esta postagem) clicando aqui.
Para ler os outros 7 exemplares publicados, clique aqui.

POSTAGEM 71: A flor bela que nasceu numa charneca

Florbela Espanca, nascida Flor Bela Lobo, (Vila Viçosa, 8 de dezembro de 1894 — Matosinhos, 8 de dezembro de 1930) foi uma poetisa portuguesa, precursora do movimento feminista em seu país, teve uma vida tumultuada, inquieta, transformando seus sofrimentos íntimos em poesia da mais alta qualidade, carregada de erotização e feminilidade.
Filha de Antónia da Conceição Lobo, empregada de João Maria Espanca, que não a reconheceu como filha. Porém com a morte de Antónia em 1908, João e sua mulher Maria Espanca criam a menina. O pai só reconheceria a paternidade muitos anos após a morte de Florbela.
Em 1903 Florbela Espanca escreveu a primeira poesia de que temos conhecimento, A Vida e a Morte. Casou-se no dia de seu aniversário em 1913, com Alberto Moutinho. Concluiu um curso de Letras em 1917, inscrevendo-se a seguir para cursar Direito, sendo a primeira mulher a frequentar este curso na Universidade de Lisboa.
Sofreu um aborto involuntário em 1919, ano em que publicaria o Livro de Mágoas. É nessa época que Florbela começa a apresentar sintomas mais sérios de desequilíbrio mental. Em 1921 separou-se de Alberto Moutinho, passando a encarar o preconceito social decorrente disso. No ano seguinte casou-se pela segunda vez, com António Guimarães.
O Livro de Sóror Saudade é publicado em 1923. Florbela sofreu novo aborto, e seu marido pediu o divórcio. Em 1925 casou-se pela terceira vez, com Mário Lage. A morte do irmão, Apeles (num acidente de avião), abala-a gravemente e inspira-a para a escrita de As Máscaras do Destino.
Tentou o suicídio por duas vezes em Outubro e Novembro de 1930, às vésperas da publicação de sua obra-prima, Charneca em Flor. Após o diagnóstico de um edema pulmonar, suicida-se no dia do seu aniversário, 8 de Dezembro de 1930. Charneca em Flor viria a ser publicado em janeiro de 1931.

Fonte: http://www.ruadapoesia.com/content/category/1/17/36/

LivroClip sobre o livro “Charneca em flor”, de Florbela Espanca

Amar — Se tu viesses ver-me — O Nosso Mundo — Interrogação (Narração de Miguel Falabella):


Inconstância — Os versos que te fiz — De joelhos — Saudades (Narração de Miguel Falabella):
Para baixar os poemas de Florbela Espanca (em MP3), declamados por Miguel Falabella, clique aqui.


POSTAGEM 70: Fernando Pessoa em oito porradas




Poema em linha reta
Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


POSTAGEM 69: Surrealismo e Cinema: Um cão andaluz

Trecho da resenha do filme Um Cão Andaluz (Un Chien Andalou), por Celso Branco

Com apenas 17 minutos de duração, Um Cão Andaluz é considerado um dos filmes mais chocantes, surpreendentes e revolucionários da história do cinema. O filme de estréia do cineasta espanhol Luis Buñuel, em parceria com Salvador Dali, foi realizado na França, em 1928 e fez parte da eclosão do movimento surrealista, cujos princípios fundamentais eram a contestação dos valores burgueses, a abolição da lógica cartesiana na produção artística e a denúncia do absurdo das instituições (Estado, Igreja, etc.) que exprimiam preocupações com a moral e as convenções e, ao mesmo tempo, consentiam com o envio de milhares de homens para a morte nos campos de batalha. Esse filme é constituído de uma série de seqüências de cenas absurdas e sem ligação aparente, como em um sonho a se fundir com a realidade. "Un Chien Andalou" é realmente um filme chocante, em que espaço, tempo e acontecimentos confundem-se formando idéias anti-conservadoras e que falam sobretudo de desejo e culpa. Questões ligadas ao machismo, ao feminismo (guerra entre sexos), à ultrapassagem da fase infantil em direção à sexualidade, bem como à repressão sexual, são sempre abordadas entre imagens produzidas pelo subconsciente e a realidade nas complicadas relações entre um casal. Buñuel e o catalão Salvador Dalí, seu amigo de adolescência, combinaram que colocariam em imagens seus delírios criativos, desde que entrassem no roteiro apenas as sugestões que alcançassem um consenso.
Para continuar lendo essa resenha, clique aqui.




POSTAGEM 68: Surrealismo: imagens de Salvador Dalí

Salvador Dali é, sem dúvida, o mais conhecido dos artistas surrealistas. Estudou em Barcelona e depois em Madri, na Academia de San Fernando. Nessa época teve oportunidade de conhecer Lorca e Buñuel. Suas primeiras obras são influenciadas pelo cubismo de Gris e pela pintura metafísica de Giorgio De Chirico. Finalmente aderiu ao surrealismo, junto com seu amigo Luis Buñuel, cineasta.
Em 1924 o pintor foi expulso da Academia e começou a se interessar pela psicanálise de Freud, de grande importância ao longo de toda a sua obra. Sua primeira viagem a Paris em 1927 foi fundamental para sua carreira. Fez amizade com Picasso e Breton e se entusiasmou com a obra de Tanguy e o maneirista Arcimboldo.
O filme O Cão Andaluz, que fez com Buñuel, data de 1929. Ele criou o conceito de “paranóia critica“ para referir-se à atitude de quem recusa a lógica que rege a vida comum das pessoas. Segundo ele, é preciso “contribuir para o total descrédito da realidade”.
No final dos anos 30, foi várias vezes para a Itália a fim de estudar os grandes mestres. Instalou seu ateliê em Roma, embora continuasse viajando. Depois de conhecer em Londres Sigmund Freud, fez uma viagem para a América, onde publicou sua biografia A Vida Secreta de Salvador Dali (1942).
Ao voltar, se estabeleceu definitivamente em Port Lligat com Gala, sua mulher, ex-mulher do poeta e amigo Paul Éluard. Desde 1970 até sua morte dedicou-se ao desenho e à construção de seu museu. Além da pintura ele desenvolveu esculturas e desenho de jóias e móveis.

Adaptado de:
http://www.historiadaarte.com.br/surrealismo.html


Abaixo, um vídeo com imagens de Salvador Dalí.

Salvador Dalí from literaturaeshow on Vimeo.

POSTAGEM 67: Slides sobre as Vanguardas europeias

Olá galera!!! Abaixo, os slides sobre "Vanguardas europeias", ou seja, os movimentos artísticos do início do século XX que deram corpo ao Modernismo mundial. São eles: Futurismo, Cubismo, Expressionismo, Dadaísmo e Surrealismo. O assunto é interessantíssimo. Aproveite!





POSTAGEM 66: Augusto dos Anjos encontra um cineasta franco-argentino

Olá internauta. Faltam 34 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 66.

POETA SINGULAR

Poeta brasileiro. Famoso pela originalidade temática e vocabular, na fase que antecedeu o modernismo. Eu (1912).

Augusto dos Anjos recorreu a uma infinidade de termos científicos, biológicos e médicos ao escrever seus versos de excelente fatura, nos quais expressa por princípio um pessimismo atroz.

Considerado o mais original dos poetas brasileiros entre Cruz e Sousa e os modernistas, Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco PB em 20 de abril de 1884. Aprendeu com o pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. Formado em direito em Recife (1906), casou-se logo depois. Contudo, não advogou; vivia de ensinar português, primeiro em seu estado e a seguir no Rio de Janeiro RJ, para onde se mudou em 1910. Lecionou também geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor.

Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, Eu, foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.

Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte").

A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").

A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do Eu -- desde 1919 constantemente reeditado como Eu e outras poesias -- um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma.

Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.

Fonte: http://www.perci.com.br/augusto/
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Abaixo, você tem um interessante vídeo com um dos textos de Augusto dos Anjos que, inclusive, já foi musicado por Arnaldo Antunes. As imagens são do filme Irreversível do cineasta franco-argentino Gaspar Noé. Assista ao vídeo e leia o poema!


Tome, Dr., esta tesoura, e... corte
Minha singularíssima pessoa.
Que importa a mim que a bicharia roa
Todo o meu coração, depois da morte?!

Ah! Um urubu pousou na minha sorte!
Também, das diatomáceas da lagoa
A criptógama cápsula se esbroa
Ao contato de bronca destra forte!

Dissolva-se, portanto, minha vida
Igualmente a uma célula caída
Na aberração de um óvulo infecundo;

Mas o agregado abstrato das saudades
Fique batendo nas perpétuas grades
Do último verso que eu fizer no mundo!





POSTAGEM 65: Slides sobre Augusto dos Anjos

Olá internauta. Faltam 35 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 65. Abaixo, os slides sobre Augusto dos Anjos:





POSTAGEM 64: Jeca Tatuzinho e o Biotônico Fontoura

Olá internauta. Faltam 36 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 64.


  Lançado em 1924, Jeca Tatuzinho veio ensinar noções de higiene e saneamento às crianças, por meio do personagem-símbolo criado por Monteiro Lobato. Adaptado no ano seguinte e, ao que consta, oferecido a seu amigo Cândido Fontoura para promoção dos produtos do laboratório Fontoura Serpe & Cia, em especial do Biotônico, chegaria a 100 milhões de exemplares no centenário do escritor.

Considerada a peça publicitária de maior sucesso na história da propaganda brasileira, inspiraria, naquele ano de 1982, a criação do Prêmio Jeca Tatu. Instituído pela agência CBBA – Castelo Branco e Associados, representou uma homenagem “à obra-prima da comunicação persuasiva de caráter educativo, plenamente enquadrada na missão social agregada ao marketing e à propaganda”.

O folheto do Biotônico Fontoura, cujo texto aqui reproduzimos, foi ilustrado em suas primeiras edições por Belmonte e, em seguida, por J. U. Campos.
I

Jeca Tatu era um pobre caboclo que morava no mato, numa casinha de sapé. Vivia na maior pobreza, em companhia da mulher, muito magra e feia, e de vários filhinhos pálidos e tristes.
Jeca Tatu passava os dias de cócoras, pitando enormes cigarrões de palha, sem ânimo de fazer coisa nenhuma. Ia ao mato caçar, tirar palmitos, cortar cachos de brejaúva, mas não tinha idéia de plantar um pé de couve atrás da casa. Perto corria um ribeirão, onde ele pescava de vez em quando uns lambaris e um ou outro bagre. E assim ia vivendo.
Dava pena ver a miséria do casebre. Nem móveis, nem roupas, nem nada que significasse comodidade. Um banquinho de três pernas, umas peneiras furadas, a espingardinha de carregar pela boca, muito ordinária, e só.
Todos que passavam por ali, murmuravam:
- Que grandessíssimo preguiçoso!

II

Jeca Tatu era tão fraco que, quando ia lenhar, vinha com um feixinho que parecia brincadeira. E vinha arcado, como se estivesse carregando um enorme peso.
- Por que não traz de uma vez um feixe grande? perguntaram-lhe um dia.
Jeca Tatu cortou a barbicha rala e respondeu:
- Não paga a pena.
Tudo para ele não pagava a pena. Não pagava a pena consertar a casa, nem fazer uma horta, nem plantar árvores de fruta, nem remendar a roupa.
Só pagava a pena beber pinga.
- Por que você bebe, Jeca? diziam-lhe.
- Bebo para esquecer.
- Esquecer do quê?
- Esquecer as desgraças da vida.
E os passantes murmuravam:
- Além de vadio, bêbado …

III

Jeca possuía muitos alqueires de terra, mas não sabia aproveitá-la. Plantava todos os anos uma rocinha de milho, outra de feijão, uns pés de abóbora e mais nada. Criava em redor da casa um ou outro porquinho e meia dúzia de galinhas. Mas o porco e as aves que cavassem a vida, porque Jeca não lhes dava o que comer. Por esse motivo o porquinho nunca engordava, e as galinhas punham poucos ovos.
Jeca possuía ainda um cachorro, o Brinquinho, magro e sarnento, mas bom companheiro e leal amigo.
Brinquinho vivia cheio de bernes no lombo e muito sofria com isso. Pois apesar dos ganidos do cachorro, Jeca não se lembrava de lhe tirar os bernes. Por que? Desânimo, preguiça…
As pessoas que viam aquilo, franziam o nariz.
- Que criatura imprestável! Não serve nem para tirar berne de cachorro…

IV

Jeca só queria beber pinga e espichar-se ao sol, no terreiro. Ali ficava horas, com o cachorrinho rente, cochilando. A vida que rodasse, o mato que crescesse na roça, a casa que caísse. Jeca não queria saber de nada. Trabalhar não era com ele.
Perto morava um italiano já bastante arranjado, mas que ainda assim trabalhava o dia inteiro. Por que Jeca não fazia o mesmo?
Quando lhe perguntavam isso, ele dizia:
- Não paga a pena plantar. A formiga come tudo.
- Mas como é que seu vizinho italiano não tem formiga no sítio?
- É que ele mata.
E por que você não faz o mesmo?
Jeca coçava a cabeça, cuspia por entre os dentes e vinha sempre com a mesma história:
- Quá! Não paga a pena …
- Além de preguiçoso, bêbado; e além de bêbado, idiota, era o que todos diziam.

V

Um dia um doutor portou lá por causa da chuva e espantou-se de tanta miséria. Vendo o caboclo tão amarelo e magro, resolveu examiná-lo.
- Amigo Jeca, o que você tem é doença.
- Pode ser. Sinto uma canseira sem fim, e dor de cabeça, e uma pontada aqui no peito, que responde na cacunda.
- Isso mesmo. Você sofre de ancilostomíase.
- Anci… o que?
- Sofre de amarelão, entende? Uma doença que muitos confundem com a maleita.
- Essa tal maleita não é sezão?
- Isso mesmo. Maleita, sezão, febre palustre ou febre intermitente: tudo a mesma coisa.
A sezão também produz anemia, moleza e esse desânimo do amarelão; mas é diferente. Conhece-se a maleita pelo arrepio ou calafrio que dá, pois é uma febre que vem sempre em horas certas e com muito suor. Quem sofre de sezão sara com o MALEITOSAN FONTOURA. Quem sofre de amarelão sara com a ANKILOSTOMINA FONTOURA. Eu vou curar você.

VI

O doutor receitou um vidro de ANKILOSTOMINA FONTOURA, para tomar assim: seis comprimidos hoje pela manhã e outros seis amanhã de manhã.
- Faça isto duas vezes, com o espaço de uma semana. E de cada vez tome também um purgante de sal amargo, se duas horas depois de ter ingerido a ANKILOSTOMINA não tiver evacuado. E trate de comprar um par de botinas e alguns vidros de BIOTÔNICO e nunca mais me ande descalço e nem beba pinga, ouviu?
-Ouvi, sim, senhor!
- Pois é isso, rematou o doutor, tomando o chapéu. A chuva já passou e vou-me embora. Faça o que mandei, que ficará forte, rijo e rico como o italiano. Na semana que vem estarei aqui de volta.
- Até por lá, sêo doutor!
Jeca ficou cismando. Não acreditava muito nas palavras da Ciência, mas por fim resolveu comprar os remédios, e também um par de botinas ringideiras.
Nos primeiros dias foi um horror. Ele andava pisando em ovos. Mas acostumou-se, afinal…

VII

Quando o doutor voltou, Jeca estava bem melhor, graças à ANKILOSTOMINA e ao BIOTÔNICO. O doutor mostrou-lhe com uma lente o que tinha saído das suas tripas:
- Veja, sêo Jeca, que bicharia tremenda estava você a criar na barriga! São os tais ancilóstomos, uns bichinhos dos lugares úmidos, que entram pelos pés, vão varando pela carne adentro até alcançarem os intestinos. Chegando lá, grudam-se nas tripas e escangalham com o freguês.
Tomando a ANKILOSTOMINA, você bota fora todos os ancilóstomos que tem no corpo. E andando sempre calçado, não deixa que entrem os que estão na terra. Fazendo isso e fortalecendo-se com alguns vidros de BIOTÔNICO, ovos e leite, você fica livre da doença para sempre.
Jeca abriu a boca, maravilhado.
- Os anjos digam amém, sêo doutor!


VIII

Mas Jeca não podia acreditar numa coisa: que os bichinhos entrassem pelo pé. Ele era “positivo” e dos tais que “só vendo”. O doutor resolveu abrir-lhe os olhos: Levou-o a um lugar úmido, atrás de casa, e disse:
- Tire a botina e ande um pouco por aí.
Jeca obedeceu.
- Agora venha cá. Sente-se. Bote o pé em cima do joelho. Assim. Agora examine a pele com essa lente.
Jeca tomou a lente, olhou e percebeu vários vermes pequeninos que já estavam penetrando na sua pele, através dos poros. O pobre homem arregalou os olhos, assombrado.
- E não é que é mesmo? Quem “haverá” de dizer!…
- Pois é isso, sêo Jeca, e daqui por diante não duvide mais do que disser a Ciência.
- Nunca mais! Daqui por diante dona Ciência está dizendo, Jeca está jurando em cima! T’esconjuro! E pinga, então, nem para remédio…

IX

Tudo o que o doutor disse aconteceu direitinho! Três meses depois ninguém mais conhecia o Jeca. A ANKILOSTOMINA curou-o do Amarelão. O BIOTÔNICO deixou-o bonito, corado, forte como um touro.
A preguiça desapareceu. Quando ele agarrava no machado, as árvores tremiam de pavor.
Era pã, pã, pã… horas seguidas, e os maiores paus não tinham remédio senão cair.
E Jeca, cheio de coragem, botou abaixo o capoeirão, para fazer uma roça de três alqueires. E plantou eucaliptos nas terras que não se prestavam para cultura. E consertou todos os buracos da casa. E fez um chiqueiro para os porcos. E um galinheiro para as aves. O homem não parava, vivia a trabalhar com fúria que espantou até o seu vizinho italiano.
- Descanse um pouco, homem! Assim você arrebenta… diziam os passantes.
- Quero ganhar o tempo perdido, respondia ele, sem largar do machado. Quero tirar a prosa do “italiano”.

X

Jeca, que era um medroso, virou valente. Não tinha mais medo de nada, nem de onça! Uma vez, ao entrar no mato, ouviu um miado estranho.
- Onça! Exclamou ele. É onça e eu aqui sem uma faca!…
Mas não perdeu a coragem. Esperou a onça, de pé firme. Quando a fera o atacou, ele ferrou-lhe tamanho murro na cara que a bicha rolou no chão, tonta. Jeca avançou de novo, agarrou-a pelo pescoço e estrangulou-a.
- Conheceu, papuda? Você pensa que está lidando com algum pinguço opilado? Fique sabendo que tomei ANKILOSTOMINA e BIOTÔNICO e uso botina ringideira!…
A companheira da onça, ao ouvir essas palavras, não quis saber de histórias – azulou! Dizem que até hoje está correndo…

XI

Ele, que antigamente, quando lenhava, só trazia três pausinhos, carregava agora cada feixe que metia medo. E carregava-os sorrindo, como se o enorme peso não passasse de brincadeira.
- Amigo Jeca, você arrebenta! diziam-lhe. Onde se viu carregar tanto pau de uma vez?
- Já não sou aquele de dantes! Isto para mim agora é canja… respondia o caboclo, sorrindo.
Quando teve de aumentar a casa, foi a mesma coisa. Derrubou no mato grossas perobas, atorou-as, lavrou-as e trouxe no muque para o terreiro as toras todas. Sozinho!
- Quero mostrar a essa paulama quanto vale um homem que tomou ANKILOSTOMINA e BIOTÔNICO, que usa botina cantadeira e que não bebe nem um só martelinho de cachaça!
O italiano via aquilo e coçava a cabeça.
- Se eu não tropicar direito, este diabo me passa na frente. Per Bacco!

XII

Dava gosto ver suas roças. Comprou arados e bois, e não plantava nada sem primeiro afofar a terra. O resultado foi que os milhos vinham lindos e o feijão era uma beleza.
O italiano abria a boca, admirado, e confessava nunca ter visto roças assim.
E Jeca já não plantava rocinhas, como antigamente. Só queria saber de roças grandes, cada vez maiores, que fizessem inveja no bairro.
E se alguém lhe perguntava:
- Mas para que tanta roça, homem? ele respondia:
- É que agora quero ficar rico. Não me contento com trabalhar para viver. Quero cultivar todas as minhas terras, e depois formar aqui duas enormes fazendas – a Fazenda Ankilostomina e Fazenda Biotônico. E hei de ser até coronel…
E ninguém duvidava mais. O italiano dizia:
- E forma mesmo! E vira mesmo coronel! Per la Madonna!…

XIII

Por esse tempo, o doutor passou por lá e ficou admiradíssimo com a transformação de seu doente.
Esperara que ele sarasse, mas não contara com tal mudança.
Jeca o recebeu de braços abertos e apresentou-o à mulher e aos filhos.
Os meninos cresciam viçosos, e viviam brincando, contentes como os passarinhos.
E toda gente ali andava calçada. O caboclo ficara com tanta fé no calçado, que metera botinas até nos animais caseiros!
Galinhas, patos, porcos, tudo de sapatinho nos pés! O galo, esse andava de bota e espora!
- Isso também é demais, sêo Jeca, disse o doutor. Isso é contra a natureza!
- Bem sei. Mas quero dar um exemplo a esta caipirada bronca. Eles vêm aqui, vêem isso e não se esquecem mais da história.

XIV

Em pouco tempo os resultados foram maravilhosos. A porcada aumentou de tal modo, que vinha gente de longe admirar aquilo. Jeca adquiriu um caminhão, e em vez de conduzir os porcos ao mercado pelo sistema antigo, levava-os de auto, num instantinho, buzinando pela estrada afora, fon-fon! Fon-fon! …
As estradas eram péssimas; mas ele consertou-as à sua custa. Jeca parecia um doido. Só pensava em melhoramentos, progressos, coisas americanas. Aprendeu logo a ler, encheu a casa de livros e por fim tomou um professor de inglês.
- Quero falar a língua dos bifes para ir aos Estados Unidos ver como é lá a coisa.
O seu professor dizia:
- O Jeca só fala inglês agora. Não diz porco; é pig. Não diz galinha; é hen… Mas de álcool, nada. Antes quer ver o demônio, que um copinho da “branca”…

XV

Jeca só fumava charutos fabricados especialmente para ele, e só corria as roças montado em cavalos árabes de puro sangue.
- Quem o viu e quem o vê! Nem parece o mesmo. Está um “estranja” legítimo, até na fala.
Na “Fazenda Biotônico” havia de tudo. Campos de alfafa. Pomares belíssimos com quanta fruta há no mundo. Até criação do bicho-da-seda; Jeca formou um amoreiral que não tinha fim.
- Quero que tudo aqui ande na seda, mas seda fabricada em casa. Até os sacos aqui da fazenda tem que ser de seda, para moer os invejosos…
E ninguém duvidava de nada.
- O homem é mágico, diziam os vizinhos. Quando assenta de fazer uma coisa, faz mesmo, nem que seja um despropósito…

XVI

A “Fazenda Biotônico” tornou-se famosa no país inteiro. Tudo ali era por meio do rádio e da eletricidade. Jeca, de dentro do seu escritório, tocava num botão e o cocho do chiqueiro se enchia automaticamente de rações muito bem dosadas. Tocava outro botão e um repuxo de milho atraía todo o galinhame!…
Suas roças eram ligadas por telefones. Da cadeira de balanço na varanda, ele dava ordens aos feitores, lá longe.
Chegou a mandar buscar nos Estados Unidos um aparelho de televisão.
- Quero aqui desta varanda ver tudo o que se passa em minha fazenda.
E tanto fez, que viu. Jeca instalou os aparelhos, e assim pôde, da sua varanda, com o charutão na boca, não só falar por meio do rádio para qualquer ponto da fazenda, como ainda ver, por meio da televisão, o que os camaradas estavam fazendo.

XVII
Ficou rico e estimado, como era natural; mas não parou aí. Resolveu ensinar o caminho da saúde aos caipiras das redondezas. Para isso montou na fazenda e vilas próximas vários POSTOS DE MALEITOSAN, onde tratava os enfermos de sezões; e também POSTOS DE ANKILOSTOMINA, onde curava os doentes de amarelão e outras verminoses.
E quando algum empregado sentia alguma dor de cabeça, se estava resfriado, Jeca arrumava-lhe uns dois ou três comprimidos de Fontol, e imediatamente o homem estava bom, e pronto para o serviço.
O seu entusiasmo era enorme. “Hei de empregar tôda minha fortuna nesta obra de saúde geral, dizia. Meu patriotismo é este. Minha divisa: Curar gente. Abaixo a bicharia! Viva o Biotônico! Viva ANKILOSTOMINA! Viva o Maleitosan! Viva o Fontol!”
A estes vivas o coronel Jeca aumentou mais um. Foi quando apareceu o grande “liquida-insetos” chamado DETEFON e ele o experimentou na miuçalha da fazenda: pulgas, percevejos, piolhos, baratas, pernilongos e moscas. Deixou aquilo lá sem um só bichinho para remédio.
Não contente com isso, Jeca tomou o hábito de nunca sair a cavalo ou de automóvel sem levar a tiracolo a bomba de pulverizar o DETEFON. Entrava nos casebres de beira de caminho e antes do “Bom dia!” punha-se fon, fon, fon, detefon, a pulverizar tudo, coisas e gentes. Quando acaba, dizia:
- Ninguém faz a conta dos males que estes bichinhos causam à humanidade, como transmissores de moléstias… e dava mais umas bombadas de lambuja.
E a curar gente da roça passou Jeca toda a sua vida. Quando morreu, aos 89 anos, não teve estátua ou grandes elogios nos jornais. Mas ninguém ainda morreu de consciência mais tranqüila. Havia cumprido o seu dever até o fim.
XVIII

Meninos: nunca se esqueçam desta história; e, quando crescerem, tratem de imitar o Jeca. Se forem fazendeiros, procurem curar os camaradas. Além de ser para eles um grande benefício, é para você um alto negócio. Você verá o trabalho dessa gente produzir três vezes mais. Uma país não vale pelo tamanho, nem pela quantidade de habitantes. Vale pelo trabalho que realiza e pela qualidade da sua gente. Ora, ter mais saúde é a grande qualidade de um povo. Tudo mais vem daí. E o grande remédio que combate o amarelão, esse mal terrível que tantos braços preciosos rouba ao trabalho, é a ANKILOSTOMINA. Assim como o grande conservador da saúde, que produz energia, força e vigor, chama-se BIOTÔNICO FONTOURA.

Fonte: brasilcultura


POSTAGEM 63: VÍDEO DA MINI-SÉRIE “DESEJO” (MORTE DE EUCLIDES DA CUNHA)


Olá internauta. Faltam 37 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 63. Abaixo você encontra um vídeo da mini-série Desejo, escrita por Glória Perez e produzida pela Rede Globo de Televisão em 1990. Nos papeis principais, Tarcísio Meira (como Euclides da Cunha), Vera Fischer (como Anna de Assis) e Guilherme Fontes (como Dilermando de Assis).



POSTAGEM 62: Slides sobre "Monteiro Lobato"...


Olá internauta. Faltam 38 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 62.


POSTAGEM 61: Duas músicas para entendermos o Pré-Modernismo

Olá internauta. Faltam 39 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 61.
    Vamos cantar um pouco? Abaixo, você encontra duas músicas relacionadas ao Pré-Modernismo. "Solta o som" e aproveite!!!


  • SOBRADINHO (Sá & Guarabyra): nela, você tem a reflexão sobre outro pedaço de sertão que virou “mar” (além da região onde se encontrava o antigo Arraial de Canudos) , quando da construção da barragem de Sobradinho:

    “O sertão vai virar mar, dá no coração... Um medo que algum dia o mar também vire sertão...”


  • NOTÍCIAS DO BRASIL: OS PÁSSAROS TRAZEM (Milton Nascimento): nela, os autores falam da existência de dois “Brasis”: um do litoral, outro do interior.




Milton Nascimento

POSTAGEM 59: Slides sobre o Parnasianismo

 Olá internauta. Faltam 41 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 59. Abaixo, alguns slides sobre o Parnasianismo.Parnasianismo 2011


POSTAGEM 58: Hagar, Radical Chic e a Literatura

Olá internauta. Faltam 42 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 58. Hoje vamos resolver mais um exercício.

EXERCÍCIO RESOLVIDO (UFF-RJ)

Texto I



Texto II

Algumas temáticas e estéticas de escolas literárias (a presença da natureza, o “eu lírico”, a idealização, o humor, a desconstrução lingüística, o cultivo da forma) podem ser retomadas sob um novo modo de dizer – de forma crítica, irônica, caricatural...
Justifique, exemplificando com material dos textos, um possível entendimento de uma releitura do Romantismo e/ou do Parnasianismo em Hagar, o Horrível (texto I) e de uma releitura do Modernismo em Radical chic (texto II).
RESPOSTA:
O texto Hagar, o Horrível permite uma leitura irônica do Romantismo e do Parnasianismo pela presença da natureza, pela expressão enfática de emoções (o emprego das exclamações) e pela preocupação formal (“é só colocar rima nisso aí”) como característica da expressão poética.
O texto Radical Chic, em uma combinação de linguagem verbal e não-verbal, trabalha ironicamente com uma sequência de idéias que se desconstroem no último quadro, buscando a expressão do humor – uma das características presentes no Modernismo.


POSTAGEM 57: Ouvir estrelas (Kid Abelha)


Kid Abelha - OUVIR ESTRELAS

Olá internauta. Faltam 43 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 57. Essa canção foi composta por George Israel e Paula Toller, inspirados no poema XIII de Via Láctea (Olavo Bilac). Compare a letra da canção ao soneto do poeta parnasiano ...

"Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda noite, enquanto
A Via Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir o sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizes, quando não estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

POSTAGEM 56: Slides sobre o "Naturalismo no Brasil"

 Olá internauta. Faltam 44 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 56. Naturalismo no brasil


POSTAGEM 55: Slides sobre o Realismo e Naturalismo

Olá internauta. Faltam 45 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 55.  Realismo E Naturalismo


POSTAGEM 54: Machado de Assis em quadrinhos: A Cartomante

Olá internauta. Faltam 46 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 54. A Cartomante
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POSTAGEM 53: Sexo com a irmãzinha é pecado? Vai falar isso para um tal de Carlos...

Olá internauta. Faltam 47 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 53. Hoje quero trazer de volta uma postagem antiga. Vamos lá:

Bom… Se em 1500 Pedro Álvares Cabral “descobriu” o Brasil, em 2010 alguns portugueses estão descobrindo o nosso blog. Por isso, quero escrever mais sobre a riquíssima literatura portuguesa, juntar materiais legais aí pelas esquinas da Internet. Trazer nomes como Camões, Fernando Pessoa, Agustina Bessa-Luís, Mário de Sá-Carneiro, Eça de Queirós.

Falando em Eça, dia desses, numa postagem sobre Literatura erótica e pornográfica, citei três obras queirosianas que escandalizaram, no final do século XIX, a cidade de Lisboa, e não somente ela, mas como todo o mundo. São elas: O crime do Padre Amaro (1875), O primo Basílio (1878) e Os Maias (1888). Eça uniu-as, formando uma trilogia que chamou de “Cenas da vida portuguesa”, na qual examinava a fundo a sociedade lisboeta do último quartel daquele século. Segundo ele, o que enlaçava as três narrativas era evidentemente a crítica, mas também os maiores pecados dessa cidade: o não cumprimento do celibato clerical, o adultério e o incesto, respectivamente.

Para fins didáticos, dividimos a obra queirosiana em três fases. Na primeira, temos Prosas Bárbaras, onde podemos constatar algumas características românticas, como predomínio de um sentimentalismo piegas. A segunda corresponde à trilogia mencionada, e a dissecação da sociedade dá o tom. Finalmente, num terceiro momento, o autor vai aliar-se à literatura que preconiza um estudo mais detalhado do homem, mais próximo do real. Os livros mais importantes dessa fase são A Ilustre Casa de Ramires e A Cidade e as Serras.

Mas hoje quero falar especificamente de Os Maias, a “obra-prima do romance naturalista universal”, nas palavras de Antonio Candido. Nele, Eça de Queirós, influenciado que estava pelas teorias positivistas e deterministas e ainda por Zola e Flaubert, propunha uma correção dos vícios da sociedade fazendo um retrato dela e demonstrando a ociosidade da aristocracia e a história da tragédia familiar dos Maias, que mesmo possuindo caracteres excepcionais, têm seus destinos determinados pelo meio social. Surge assim o romance de tese, em que uma idéia, o determinismo, seria comprovada pelo agir e interagir dos personagens.

O tema é realmente polêmico. Carlos Eduardo e Maria Eduarda são amantes. São amantes e são irmãos, embora a princípio não o soubessem. E a história nem é tão complicada assim. O jovem Pedro da Maia fora criado pelos pais dentro dos sagrados princípios católicos da moral e dos bons costumes. Melancólico, inseguro, ensimesmado, Pedro descobre o fogo das paixões ao conhecer a tempestuosa Maria Monforte, filha de um ex-traficante de escravos. Mas o velho Afonso, patriarca dos Maias, não abençoa o amor do filho pela negreira (apelido atribuído a Maria em virtude do antigo ofício do pai), pois ela não pertencia à mesma classe social que eles. Os apaixonados fogem, rompendo relações com Afonso, e têm um casal de filhos. Anos depois, Maria se apaixona por Tancredo, um príncipe italiano que o marido havia ferido numa caçada, e vai embora com ele, levando a menina. Humilhado, traído, abandonado, Pedro retorna com o menino à casa paterna e, como na parábola bíblica, é recebido por um Afonso de braços abertos. Mas a dor e a vergonha foram maiores: Pedro decide não mais viver e dá cabo da própria vida. Na família, a menina é dada como morta. Maria Eduarda é criada pela mãe. Carlos Eduardo é criado pelo avô, seguindo os moldes ingleses. O tempo passa e o destino lhes é implacável: põe os dois irmãos na mesma cama. Mal sabiam eles o que estava por acontecer.

Mas deixemos, provisoriamente, o incesto de lado. O livro não é somente isso. Como a moda na época era a valorização do ambiente, já que para os deterministas o homem era produto do meio, a casa dos Maias ganha destaque e é apresentada já no parágrafo inicial do livro, com o nome de Ramalhete, pois era hábito naqueles tempos batizar as edificações familiares. O narrador já avisa, na primeira página: sempre foram fatais aos Maias as paredes do Ramalhete.

As personagens secundárias são um caso à parte. João da Ega, melhor amigo de Carlos, é tido pelos críticos como um alter ego de Eça de Queirós. João da Ega, João do Ego, João do Eça, Ega de Queirós, Ego de Queirós, Eça de Queirós, paranomasticamente, paradoxalmente, a mesmíssima pessoa. João da Ega representa os intelectuais da época: de muitos ideais e de pouca ação. Eusebiozinho, filho de Eugênia Silveira, beata amiga da família, é um fraco que se opõe a Carlos, seu amiguinho de infância. Com ele, Eça critica a “educaçãozinha” portuguesa, agarrada à barra das saias da “mamã” e da “titi”. Craft representa a subserviência portuguesa ao colonialismo britânico. Todos eles tipos, personagens vazias de alma, sem personalidade definida.

Voltemos ao incesto. Foi o sexo presente no título desta postagem que trouxe você até aqui, leitor. E eu não te condeno, pois também clicaria no link. Quando Carlos conhece Maria Eduarda, ela estava amasiada com um homem e atendia pelo nome de madame Castro Gomes, mesmo não sendo casada de fato. E os dois irmãos se apaixonaram. E assim como a mãe, também Maria e também adúltera (determinismo hereditário? Certamente!), Eduarda abandona o lar e foge para junto de Carlos. Para eles, apenas um obstáculo era empecilho da felicidade completa. E ironicamente, o mesmo obstáculo que por primeiro impedira a felicidade de seus pais: a personalidade austera de Afonso. Mas quanto a isso, era só esperar que o velho morresse.

É aí que entra em cena outro velho, o jornalista Joaquim Guimarães. Ele entrega a João da Ega uma caixa de documentos, que Maria Monforte havia lhe confiado no passado. E assim, o melhor amigo de Carlos descobre a verdade e lhe faz a trágica revelação: os amantes eram irmãos.

Carlos sofre. E poderia viver neste sofrimento se fosse Os maias uma obra romântica. Mas já estávamos no Real/Naturalismo. E o bicho Carlos é mais forte. Seu corpo gritava pelo corpo do bicho Maria. E ele, consciente do que fazia, possui a irmã, talvez com um desejo mais ardente que o de antes. Um desejo animal, que não sabe de nada. Um desejo que apenas deseja:

Tocou no leito; e sentou-se muito à beira, numa fadiga que de repente o enleara, lhe tirava a força para continuar essas invenções d'águas e de feitores, como se elas fossem montanhas de ferro a mover.

O grande e belo corpo de Maria, embrulhado num roupão branco de seda, movia-se, espreguiçava-se languidamente sobre o leito brando.

— Achei-me tão cansada, depois de jantar, veio-me uma preguiça... Mas então partires assim de repente!... Que seca! Dá cá a mão!

Ele tenteava, procurando na brancura da roupa: encontrou um joelho a que percebia a forma e o calor suave, através da seda leve: e ali esqueceu a mão, aberta e frouxa, como morta, num entorpecimento onde toda a vontade e toda a consciência se lhe fundiam, deixando-lhe apenas a sensação daquela pele quente e macia onde a sua palma pousava. Um suspiro, um pequenino suspiro de criança, fugiu dos lábios de Maria, morreu na sombra. Carlos sentiu a quentura de desejo que vinha dela, que o entontecia, terrível como o bafo ardente de um abismo, escancarado na terra a seus pés. Ainda balbuciou: “não, não...” Mas ela estendeu os braços, envolveu-lhe o pescoço, puxando-o para si, num murmúrio que era como a continuação do suspiro, e em que o nome de querido sussurrava e tremia. Sem resistência, como um corpo morto que um sopro impele, ele caiu-lhe sobre o seio. Os seus lábios secos acharam-se colados num beijo aberto que os umedecia. E de repente, Carlos enlaçou-a furiosamente, esmagando-a e sugando-a, numa paixão e num desespero que fez tremer todo o leito.

E quanto ao fim? Eu sei, mas não te conto, mesmo acreditando que na Literatura o importante não é o que se diz, mas COMO  se diz. Até a próxima postagem...
 


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POSTAGEM 52: O mar dos olhos de Capitu

Olá internauta. Faltam 48 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 52.

EXERCÍCIO RESOLVIDO
(UNIFESP)

Tinha-me lembrado a definição que José Dias dera deles, “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Eu não sabia o que era oblíqua, mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim. Capitu deixou-se fitar e examinar. Só me perguntava o que era, se nunca os vira; eu nada achei extraordinário; a cor e a doçura eram minhas conhecidas. A demora da contemplação creio que lhe deu outra idéia do meu intento; imaginou que era um pretexto para mirá-los mais de perto, com os meus olhos longos, constantes, enfiados neles, e a isto atribuo que entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
Retórica dos namorados, dá-me uma comparação exata e poética para dizer o que foram aqueles olhos de Capitu. Não me acode imagem capaz de dizer, sem quebra da dignidade do estilo, o que eles foram e me fizeram. Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova. Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro, como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca.
(Machado de Assis, Dom Casmurro)

Para o narrador, os olhos de Capitu eram olhos de ressaca, como a vaga [onda] que se retira da praia, nos dias de ressaca.
Entende-se, então, que ele:

(A) começava a nutrir sentimento de repulsa em relação a ela, como está sugerido em [seus olhos] entrassem a ficar crescidos, crescidos e sombrios, com tal expressão que...
(B) se sentia fortemente atraído por ela, como comprova o trecho: Traziam não sei que fluido misterioso e enérgico, uma força que arrastava para dentro...
(C) passou a desconfiar da sinceridade dela, como está exposto em: mas dissimulada sabia, e queria ver se se podiam chamar assim.
(D) começava a vê-la como uma mulher comum, sem atrativos especiais, como demonstra o trecho: eu nada achei extraordinário...
(E) deixava de vê-la como uma mulher enigmática, como está sugerido em: Olhos de ressaca? Vá, de ressaca. É o que me dá idéia daquela feição nova.
Resposta: (B)
Comentário: O mar em ressaca tem o poder de arrastar praticamente tudo que está na praia, como podemos comprovar na reportagem do RJTV (TV Globo Rio). E Escobar, amigo de Bentinho e suposto amante de Capitu, morreu justamente no mar bravio, enquanto nadava. Interessante é que Machado de Assis dá a dois capítulos diferentes de Dom Casmurro o mesmo título: "Olhos de ressaca" (Capítulo XXXII e CXXIII), com o intuito de corroborar com a tese do narrador sobre a traição de sua esposa: "se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca". Ou seja, a Capitu menina, presente no início da narrativa (XXXII) já estava teria "dentro" dentro de si a Capitu mulher do capítulo CXXIII.


POSTAGEM 51: Aluno do séc. XIX assiste Pink Floyd na MTV e põe fogo no Ateneu

 Olá internauta. Faltam 49 dias para o ENEM e esta é a nossa postagem de número 51.





A clássica canção “Another brick in the Wall”, põe em discussão um dos alicerces da nossa sociedade: a educação. O clipe define a educação como uma alienação, representada nele pelas máscaras com botões nos rostos das crianças, fazendo com que as pessoas, ainda crianças, percam sua identidade própria e pensem como a sociedade (representada pelo professor) quer que elas pensem. O sarcasmo e a violência que o professor trata os alunos em sala de aula são atribuídos aos problemas que eles (professores) enfrentam em casa com suas esposas “gordas e psicopatas”. No clipe, o menino sonha em ver todos os alunos destruindo a sala, queimando a escola. Destruir a escola é uma atitude própria de quem não foi alienado pela educação e por isso é contra ela. A canção acabou se tornando um símbolo para as pessoas que não se acomodam com que vêem de errado e precisam se manifestar. Enquanto isso, somos nada mais que outro tijolo do muro, no muro das vendas dos olhos , da falta de coragem, da ausência de liberdade. Na falta de amor. No muro da inexistência de sinceridade com nós mesmos e da falta de querer. Essa canção foi composta para criticar a educação inglesa da época, mas nós podemos ver uma intertextualidade em O Ateneu, de Raul Pompeia. O menino Sérgio também sofreu todo tipo de opressões e no final destruiu o colégio do famigerado diretor Aristarco, como forma de vingança de seu opressor. Ambos retratam épocas diferentes, mas podemos notar uma temática semelhante.

Fonte: http://profmi.wordpress.com/2008/09/03/%E2%80%9C-another-brick-in-the-wall%E2%80%9D-pink-floyd/


O Ateneu, de Raul Pompeia

Análise da obra
O romance O Ateneu, de Raul Pompeia, publicado em 1888, é uma das obras mais importantes do Realismo brasileiro. É a recriação artística do colégio interno. Apoiado na memória, Sérgio vai recompondo os fantasmas da adolescência, vivida entre as paredes do internato, através de quadros que deformam intencional e artisticamente o passado. Não é simples autobiografia e também não é pura ficção (= imaginação, invenção). É a soma das duas coisas, trabalhada pelas mãos do artista.

Foco narrativoÉ uma narrativa de confissão, narrada em 1ª pessoa por Sérgio (personagem-narrador). A obra é memorialista, seu narrador, Sérgio, apresenta suas memórias de infância e adolescência num colégio interno chamado Ateneu. Assim, o foco narrativo em primeira pessoa impede a tão valorizada objetividade e imparcialidade do Realismo-Naturalismo.

Sérgio é o alter-ego, ou seja, um outro “eu” de Raul Pompeia. Em outras palavras, o narrador recebe a personalidade e também as memórias do autor, já que este também estudou num internato, o Colégio Abílio, do Rio de Janeiro. Mais uma vez, carrega-se nas tintas do pessoalismo.

Classificação problemáticaHá uma superposição de diversos estilos, que torna problemático vincularmos O Ateneu a uma determinada corrente estética. Assim, podemos identificar no livro elementos expressionistas, impressionistas, naturalistas, simbolistas e parnasianos.


Os elementos expressionistas estão na descrição, através de símiles exagerados, dos ambientes e pessoas, compondo “quadros” de muita riqueza plástica, especialmente visual, e desnudando de forma cruel os lugares, colegas, professores etc. A frase transmite grande carga emocional. O estilo é nervoso, ágil. A redução das personagens a caricaturas grotescas parece proveniente da intenção de deformar, de exagerar, como se Raul Pompeia estivesse “vingando-se” de tudo e de todos.

As mangueiras, como intermináveis serpentes, insinuavam-se pelo chão. (...)

As crianças, seguindo em grupos atropelados, como carneiros para a matança. (...)

Os companheiros de classe eram cerca de vinte; uma variedade de tipos que me divertia, O Gualtério, miúdo, redondo de costas, cabelos revoltos, motilidade brusca e caretas de símio - palhaço dos outros, como dizia o professor; o Nascimento, o bicança, alongado por um modelo geral de pelicano, nariz esbelto, curvo e largo como uma foice; (...) o Negrão, de ventas acesas, lábios inquietos, fisionomia agreste de cabra, canhoto e anguloso...


Os elementos impressionistas evidenciam-se no trabalho da memória como fio condutor. O passado é recriado por meio de “manchas” de recordação, - daí a existência de um certo esfumaçamento da realidade, pois o internato é reconstituído por meio das impressões, mais subjetivas que objetivas, eivadas de um espírito de vingança, sofrimento e autopunição. Há quem, por isso, rotule O Ateneu de romance impressionista.

Os elementos naturalistas decorrem da concepção instintiva e animalesca das personagens, cujo comportamento é determinado pela sexualidade, condição social etc. Há um certo gosto “naturalista” pelas “perversões”. É o que ocorre nas descrições de Ângela e na tensão de homossexualismo que existe nas relações de Sérgio com Sanches, Bento Alves e Egbert. Mas é um naturalismo dissidente, que nada tem a ver com o apriorismo, ou com o esquematismo, característicos dessa corrente. O doutor Cláudio, conferencista que algumas vezes pontifica no internato, e que exterioriza algumas ideias artísticas do próprio Raul Pompeia, define a arte como o processo subjetivo da “evolução secular do instinto da espécie".

Seria possível rastrear em O Ateneu aproximações também com o Parnasianismo, com o Simbolismo e, até, antecipações modernistas.

Uma antecipação de Freud
Freud afirmara que os escritores há muito conheciam e aplicavam em sua arte os mecanismos do inconsciente. Raul Pompeia transpôs as projeções do inconsciente, trabalhando com reminiscências traumáticas de sua adolescência. Faz, a seu modo, um regresso “psicanalítico” às fontes primeiras de suas cicatrizes.

Mas as aproximações com a teoria freudiana não se esgotam aí. Pode-se rastrear na personalidade de Sérgio as marcas profundas do complexo de Édipo mal resolvido (o pai castrante odiado e a projeção da relação pai / filho na recusa à autoridade de Aristarco; a projeção das relações com a mãe, na figura de Dona Ema etc.).

O componente sexual é o traço mais valorizado na personalidade dos adolescentes do internato, divididos em “machos” e “fêmeas”, em dominadores e dominados. Observe o que diz o narrador em relação ao seu colega Bento Alves:

Estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer, porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo. Para me fitar esperava que eu tirasse dele os meus olhos.
Ou ainda, em relação ao assédio do mesmo Bento Alves:

O meu bom amigo, exagerado em mostrar-se melhor sempre receoso de importunar-me com uma manifestação mais viva, inventava cada dia nova surpresa e agrado. (...) Um dia, abrindo pela manhã a estante numerada do salão do estudo, achei a imprudência de um ramalhete. (...) Acariciei as flores, muito agradecido, e escondi-as antes que vissem.

O internato como microcosmo
Raul Pompeia projeta no internato toda a problemática do mundo adulto. O “Ateneu” é uma redução, em escala, da visão que o autor tinha da sociedade como um todo. O móvel das ações de Aristarco era o dinheiro, e os alunos eram tratados pelo diretor, conforme o segmento social a que pertenciam seus pais.

A crítica ao sistema educacional é severa: O Ateneu... afamado por um sistema de nutrida réclame, mantido por um diretor que de tempos em tempos reformava o estabelecimento, pintando-o jeitosamente, como os negociantes que liquidam para recomeçar com artigos da última remessa...

Raul Pompeia não deixa ao arbítrio dos futuros intérpretes o trabalho de decifrar o sistema de ideias que se poderia depreender de O Ateneu: ele mesmo o expõe, na pessoa do Dr. Cláudio, em três conferências:

1. Fala sobre a cultura brasileira, em que os desejos republicanos de Pompeia se mostram, investigando o “pântano das almas” da vida nacional, sob a “tirania mole de um tirano de sebo”.

2. Fala sobre a arte, entendida pré-freudianamente como “educação do instinto sexual” e, antecipando também Nietzsche, como “expressão dionisíaca”.

Cruel, obscena, egoísta, imoral, indômita, eternamente selvagem, a arte é a superioridade humana - acima dos preceitos que se combatem, acima das religiões que passam, acima da ciência que se corrige; embriaguez como a orgia e como o êxtase.
3. Fala sobre as relações entre a escola e a sociedade:

Não é o internato que faz a sociedade, o internato a reflete. A corrupção que ali viceja vem de fora.

A educação não faz as almas. exercita-as. E o exercício moral não vem das belas palavras de virtude, mas do atrito com as circunstâncias. A energia para afrontá-las é a herança de sangue dos capazes de moralidade, felizes na loteria do destino. Os deserdados abatem-se.
Tempo
O tempo cronológico não supera dois anos, que vão desde a entrada de Sérgio no colégio até o incêndio que o destrói totalmente, por volta da última década do séc. XIX . Predomina, assim, o chamado tempo psicológico por ser um romance de memória em que fatos e pessoas vêm a tona da consciência conforme sua importância no momento da narração. Esta é feita basicamente por meio de flash back, tornando visível o que era invisível, porém, de forma bastante tênue, sem intensidade, marcada apenas pela impressão sensorial.

Espaço
O colégio localizava-se na cidade do Rio de Janeiro. "O Ateneu, quarenta janelas, resplendentes do gás interior, dava-se ares de encantamento com a iluminação de fora..." Figurativamente podemos enquadrá-lo entre dois mundos: a família e a sociedade.

Principais personagens
Sérgio: Personagem central, pois é a partir da sua ótica que a história é contada. Menino de onze anos, criado no aconchego do lar, sob os carinhos maternos, penetra no mundo do Ateneu com intensa fragilidade e inocência. Para ele, a escola representava um mundo de ilusões e fantasias: ele a vira em dias de festa. Mas, já como aluno interno, sozinho, toma contato com as leis que regem aquele lugar e aos poucos vai-se familiarizando e se fortalecendo. Assim, conhece a amizade, a força, o autoritarismo, o sexo, vivências que marcam sua vida, influenciando-o posteriormente. Em relação ao Ateneu, são incontáveis suas experiências e quanto a Aristarco, até conseguiu enfrentá-lo.

Aristarco: Aristarco Argolo dos Ramos é o diretor do Ateneu – e a encarnação do autoritarismo, da insensibilidade e da vaidade: "Acima de Aristarco – Deus! Deus tão somente: abaixo de Deus – Aristarco". Mostrava sua visão de negociante ao difundir a imagem do colégio, colocando-o numa vistosa vitrine, sob o olhar admirado da sociedade. Assim, ao exaltar o colégio, exaltava-se: "Soldavam-se nele o educador e o empresário com uma perfeição rigorosa de acordo, dois lados da mesma medalha: opostos, mas justapostos" (cap.II) – "tinha maneira de todos os graus, segundo a condição social da pessoa." Inicialmente, o narrador mostra sua face de educador dedicado aos alunos, um segundo pai; depois, mostra a outra face, a verdadeira, a mesquinha.

D. Ema: Nome tomado de empréstimo da personagem de Gustave Flaubert, escritor francês que imortalizou uma figura feminina com Ema Bovary. Em O Ateneu, D. Ema é a esposa do autoritário diretor e sua figura a ele se opõe: "bela mulher em plena prosperidade dos trinta anos de Balzac, formas alongadas por sua graciosa magreza, erigindo, porem, o tronco sobre os quadris amplos, fortes como a maternidade; olhos negros, pupilas retintas de uma cor só... de um moreno rosa que algumas formosuras possuem, e que seria a cor do jambo...Adiantava-se por movimentos oscilados, cadência de minueto harmonioso e mole que o corpo alternava. Vestia cetim preto justo sobre as formas, reluzente como pano molhado ..." Quando Sérgio fica doente, ela se mostra uma enfermeira maternal, faz-lhe carinhos. "Não! eu não amara nunca assim a minha mãe." Muitos meninos vêem D. Ema com olhos divididos: ora mãe, ora mulher (afinal, ela era a presença feminina junto àqueles adolescentes em processo de descoberta da sexualidade.)
Ângela: É uma empregada do colégio, "Grande, carnuda, sanguínea e fogosa" – é a materialização do sexo e da classe social inferior a serviço, quer no plano do trabalho ou no da sexualidade, de uma sociedade mais elevada. Embora seja bela, torna-se o símbolo do mal.

Os colegas: São apresentados como tipos, personagens nas quais se fixam características especificas que as definem. São personagens planas com comportamentos previsíveis.

Egbert: Um verdadeiro amigo: "Conheci pela primeira vez a amizade", "a ternura de irmão mais velho", disse Sérgio.

Rebelo: É o aluno modelo, exemplar, para o qual todos os demais são inferiores e sem importância.

Franco: É a vítima, o mártir, o alvo sobre o qual se descarrega toda a violência do internato, "a humildade vencida", "não ria nunca, sorria", "vivia isolado...".

Sanches: É o sedutor, que oferece proteção aos meninos novos e indefesos e ainda os ajuda nos estudos. Salva Sérgio de um afogamento na piscina, talvez, provocado pelo próprio Sanches, insinua o narrador, Sérgio se refere ao amigo dizendo "ele me provocava repugnância de gosma". "Sanches foi se aproximando. Encostava-se, depois, muito a mim. Fechava o livro dele e lia no meu, bafejando-me o rosto com uma respiração de cansaço. "Aquele sujeito queria tratar-me definitivamente como um bebê" – "Notei que ele variava de atitude quando um inspetor mostrava a cabeça à entrada da sala..." - "Sanches esteve pio... Tive medo de perdê-lo. Deu-me as lições sem uma só das intragáveis ternuras."- "Sanches passou a ser um desconhecido".

Bento Alves: "estimei-o femininamente, porque era grande, forte, bravo; porque me podia valer; porque me respeitava, quase tímido, como se não tivesse ânimo de ser amigo."

Barreto: É um aluno, fanático religioso.



Fonte: http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_ateneu


 
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