Um texto de Rubem Alves


Urubus e sabiás


"Tudo aconteceu numa terra distante, no tempo em que os bichos falavam... Os urubus, aves por natureza becadas, mas sem grandes dotes para o canto, decidiram que, mesmo contra a natureza eles haveriam de se tornar grandes cantores. E para isto fundaram escolas e importaram professores, gargarejaram dó-ré-mi-fá, mandaram imprimir diplomas, e fizeram competições entre si, para ver quais deles seriam os mais importantes e teriam a permissão para mandar nos outros. Foi assim que eles organizaram concursos e se deram nomes pomposos, e o sonho de cada urubuzinho, instrutor em início de carreira, era se tornar um respeitável urubu titular, a quem todos chamam de Vossa Excelência. Tudo ia muito bem até que a doce tranqüilidade da hierarquia dos urubus foi estremecida. A floresta foi invadida por bandos de pintassilgos tagarelas, que brincavam com os canários e faziam serenatas para os sabiás... Os velhos urubus entortaram o bico, o rancor encrespou a testa , e eles convocaram pintassilgos, sabiás e canários para um inquérito.

— Onde estão os documentos dos seus concursos? E as pobres aves se olharam perplexas, porque nunca haviam imaginado que tais coisas houvessem. Não haviam passado por escolas de canto, porque o canto nascera com elas. E nunca apresentaram um diploma para provar que sabiam cantar, mas cantavam simplesmente...

— Não, assim não pode ser. Cantar sem a titulação devida é um desrespeito à ordem.

E os urubus, em uníssono, expulsaram da floresta os passarinhos que cantavam sem alvarás...

MORAL: Em terra de urubus diplomados não se houve canto de sabiá."




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Pagu, sob a ótica de Hildegard Angel

Sempre quando publico textos de outros sites e blogs no les! escolho uma ou duas fotos da postagem original para colocar por aqui. Desta vez, não resisti. Copiei a postagem inteira... Hildegard Angel mandou muito bem, no texto e nas imagens. Não colocar tudo seria uma mutilação. E eu queria a Pagu inteira... Sou apaixonado por essa mulher. Senhoras e senhores, com vocês, pela ótica de Hildegard Angel, Patrícia Galvão, a Pagu...

Muitos de vocês já devem ter ouvido falar em Pagu, a eterna musa do Modernismo brasileiro. Por muitos anos, tocar no nome de Patricia Galvão, a Pagu, foi sinônimo de preconceito ou motivo de menosprezo. Muitos a consideravam louca, devassa e subversiva para sua época. Na verdade, Pagu estava muito à frente de seu tempo. Era mulher livre, intensa, inteligente, contestadora, criativa, sem papas na língua e cheia de estilo...



A bela e instigante Pagu, no auge de sua juventude, final da década de 20. O poeta Raul Bopp escreveu o seguinte poema para a jovem: Pagú tem uns olhos moles/ uns olhos de fazer doer/ Bate-coco quando passa/ Coração pega a bater/ Eh Pagú eh!/ Dói porque é bom de fazer doer (...)

Ano passado, se estivesse viva, Pagu teria completado 100 anos. Neste 2011, não poderia haver uma homenagem mais justa do que fazer dela tema central da Ordem do Mérito Cultural, a mais importante condecoração conferida pelo governo brasileiro a pessoas e entidades que, de forma significativa, contribuíram para a Cultura Brasileira. A premiação aconteceu nesta quarta-feira, no Teatro Santa Isabel, no Recife. Na ocasião, Zuzu Angel, minha querida mãe, também foi homenageada. Mas a noite era mesmo de Pagu...

Pagu foi pensada e apresentada em detalhes. Toda a sinalização do evento, as imagens projetadas no palco durante a premiação, o livreto de apresentação dos premiados e até um kit Pagu foi distribuído a todos os convidados na cerimônia de entrega da Ordem do Mérito Cultural, constando de foulard Pagu, t-shirt Pagu, bolsa Pagu, diário de Pagu...




Pagu nasceu em 1910, na cidade de São João da Boa Vista, interior de São Paulo. Sempre foi muito precoce. Aos 12 de idade, conheceu Olympio Guilherme, diretor do primeiro filme neorrealista brasileiro, Fome (1931), com quem iniciou sua vida sexual. Aos 15, Pagu já colaborava, sob o pseudônimo de Patsy, para um pequeno jornal em circulação na cidade de São Paulo. Na mesma época, frequentou o Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, onde tinha aulas com ninguém menos que Mário de Andrade...
imagem009 Pagu, admirável, incontrolável, intensa!
Pagu, ainda menina
imagem013 Pagu, admirável, incontrolável, intensa!
Pagu, aos 17
Por volta dos 18 anos, conheceu o poeta Raul Bopp, que lhe deu o apelido de Pagu, pois achava que seu nome era Patrícia Goulart, ao invés de Patrícia Galvão. O apelido, vocês sabem, a acompanhou pela vida toda. Foi o mesmo Raul Bopp quem a enturmou com os artistas e poetas modernistas. A jovem passou a frequentar reuniões na casa de Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade. O casal ficou encantado por ela. Tarsila adorava vestir Pagu como se fosse a sua bonequinha e a levava para todos os lugares. A admiração era mútua. Pagu foi bastante influenciada por Tarsila, e também a influenciou nos traços de seus desenhos. Era impossível não se encantar pelo ar misterioso da bela Pagu... Oswald de Andrade que o diga! O encantamento foi tal, que ele acabou largando Tarsila para ficar com a menina, para grande sofrimento da artista...
Croqui Pagu 2 Pagu, admirável, incontrolável, intensa!
Croqui de Pagu, de 1929. Traços simples, quase primitivos
Album de Pagu4 Pagu, admirável, incontrolável, intensa!Desenho provocativo para a época, do Album de Pagu
Album de Pagu1 Pagu, admirável, incontrolável, intensa!
A gatinha Pagu
Aos 19, Pagu passou a colaborar com a revista modernista da Antropofagia, onde publicou alguns de seus desenhos. No ano seguinte, 1930, casou-se com Oswald de Andrade, com quem teve um filho chamado Rudá. A escolha do local para a cerimônia do "Sim" foi um tanto ou quanto peculiar: um cemitério! Nessa mesma época, Pagu viajou para Buenos Aires, onde conheceu Luis Carlos Prestes. Voltou ao Brasil, encantada com seus ideais e filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro. Junto com Oswald, publicou o polêmico jornal O Homem do Povo, impedido de circular pela polícia. Pouco tempo depois, Pagu foi presa por se envolver em uma manifestação. Tornou-se a primeira mulher a ser presa no Brasil por motivos políticos...
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Pagu com o filho Rudá de Andrade
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Pagu sendo libertada de uma de suas inúmeras prisões por motivos políticos
A história seguiu, Pagu foi libertada, mas ainda seria presa mais 22 vezes em sua vida! Todas por motivos políticos. Algum tempo depois, publicou o primeiro romance proletário brasileiro, Parque industrial, e passou a viajar o mundo, como correspondente de jornais do Brasil...
Em sua volta ao Brasil, se separou de Oswald de Andrade. Devido a suas ideias libertárias, passou a ser considerada uma "inimiga" do governo Vargas. Anos mais tarde, casou-se com o jornalista Geraldo Ferraz, com quem teve um filho, Geraldo Galvão Ferraz. Continuou escrevendo poesias, crônicas e romances. Além de colaborar com jornais e traduzir livros, arriscou-se, também, como dramaturga. Pagu foi uma mulher muito ativa, mesmo com as idas e vindas da prisão, ela continuava a produzir. Em 1962, doente, morre de câncer, aos 52 anos...
Pagu era cheia de personalidade. Além de vanguardista no modo de pensar, agir, escrever e desenhar, ela ainda ficou bastante marcada por seu estilo de se vestir. Pagu era ultra-fashion. Andava sempre maquiada, lábios preenchidos por batom vermelho bem escuro, quase roxo de tão intenso. Os cabelos no ombro, desgrenhados, um pouco desarrumados, mas super charmosos. Blusas transparentes ou roupas curtas demais para a época não eram problema para ela...
A Ordem do Mérito Cultural 2011, além de contemplar, merecidamente, tantos nomes e valores da cultura nacional, também foi uma boa oportunidade para muitos conhecerem a admirável, incontrolável e intensa Pagu!...
Estilo Pagu Pagu, admirável, incontrolável, intensa!Fotos: reprodução



Fernando Sabino no portal Terra



Escritores debatem sobre influências na literatura de Sabino

26 de novembro de 2011 20h41

José Guilherme Camargo
Direto de Sete Lagoas

As correspondências trocadas por Fernando Sabino no começo da carreira a Mário de Andrade, Clarice Lispector e os amigos Otto Lara Resende, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos, serviram de referência para o autor escrever seu principal romance, o livro Encontro Marcado (1956), segundo os convidados do quarto dia de debates no festival literário Literata, em Sete Lagoas. Neste sábado, os escritores e jornalistas debateram o tema "Sabino, o correspondente" e ressaltaram a importância deste gênero na literatura brasileira.

A primeira mesa redonda do dia contou com a presença do jornalista e escritor Humberto Werneck e dos escritores Luiz Henrique Pellanda e Sérgio Rodrigues. O debate começou com pouco mais de 30 minutos de atraso, por causa da chuva que caiu sobre a cidade, e que acabou afastando o público.

Entretanto, o debate teve como ponto de partida três publicações de Fernando Sabino, que trazem a troca de ideias literárias com escritores e amigos através de correspondências, que na metade do século passado eram bastante utilizadas como meio de comunicação. Cartas perto do coração, correspondência com Clarice Lispector, Cartas na mesa, correspondência com Paulo Mendes Campos, Otto Lara Resende e Hélio Pellegrino e Cartas a um jovem escritor e suas respostas, a Mário de Andrade foram livros que mostraram ideias e relações entre escritores, que posteriormente foram aplicadas e referenciadas pelo autor em Encontro Marcado.

Para o escritor e jornalista Humberto Werneck, a troca de correspondências com Mário de Andrade no começo da carreira foi fundamental para a consolidação de Sabino como escritor. Segundo ele, o então jovem escritor mineiro não teria tido o crescimento literário se não fosse o contato com o renomado autor de Macunaíma.

"O debate foi vital para a formação de Sabino. O Mário de Andrade recebeu o livro Os grilos não cantam mais e o manteve com ele. Deve ter pensado, se o autor tem mais de 30 anos, a obra não prestava, mas se fosse jovem tinha um grande potencial", disse. Werneck também destacou a influencia de trocas de ideias com contemporânea escritora Clarice Lispector, que na época também começava a despontar no cenário literário brasileiro.

A relação entre os amigos "cavaleiros de um intimo apocalipse", Otto Lara Resende, Hélio Pelegrino e Paulo Mendes Campos, de Belo Horizonte também foi lembrada pelos convidados. Segundo o escritor Sérgio Resende, alguns elementos das cartas aos amigos estavam presentes e representados nos personagens do livro Encontro Marcado. "Me chamou a atenção como tem elementos das cartas no livro. Existem ecos das correspondências em Encontro Marcado", disse.

O debate seguinte terá como tema "Sabino, o romancista" e contará com a participação de Sérgio Rodrigues, João Paulo Cuenca e Paulo Roberto Pires. Ao final da noite Luiz Fernando Veríssimo participa do Sempre um Papo.

Especial para Terra





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Uma canção de Luiz Tatit



No vídeo abaixo, a canção é interpretada por Luiz Tatit e José Miguel Wisnik




GRAMÁTICA


O substantivo
É o substituto
do conteúdo

O adjetivo
É a nossa impressão
sobre quase tudo

O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo

O imperativo
É o que aperta os outros
e deixa mudo

Um homem de letras
Dizendo idéias
Sempre se imflama

Um homem de idéias
Nem usa letras
Faz ideograma

Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama

Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama

Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto

E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto

No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto

Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto

Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu

O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu

Já o idiotismo
É tudo que a língua
Não traduziu

Mas tem idiotismo
Também na fala
De um imbecil


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Ferreira Gullar no Roda Viva

Hoje quero relembrar um momento inesquecível do programa Roda Viva neste ano: a entrevista do poeta Ferreira Gullar.

1ª PARTE



 2ª PARTE




 3ª PARTE





 4ª PARTE

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Um texto de Miguel Torga



CEGA-REGA


É difícil. Isto de começar num monturo, e só parar na crista dum castanheiro, tem que se lhe diga. É preciso percorrer um longo caminho. Embrião, larva, crisálida... Todas as estações do íngreme calvário da organização. Animada pelo sopro da vida, a matéria necessita do calor dum ventre. Antes dessa íntima comunhão, desse limbo purificador, não poderá ter forma definitiva. Custa. Mas a lei natural é inexorável. Exige consciência de cosmos antes da consciência de ser. O calor dá no ovo. Aquece-o e amadurece-o. A casca quebra. Depois... Ah, depois é essa descida ao húmus, essa existência amorfa, nem germe, nem bicho, nem coisa configurada. Largos dias assim. Até que finalmente em cada esperança de perna nasce uma perna, e cada ânsia de claridade é premiada com dois olhos iluminados. Cresce também uma boca onde a fome a reclama, e surgem as asas que o sonho deseja...

É difícil, mas vai. Desde que haja coragem dentro de nós, tudo se consegue. Até fazer parte do coro universal.

- Já hoje ouvi a cigarra...

- É tempo dela.

Nenhuma palavra de apreço pela dureza do caminho andado. Paciência. O teatro do mundo tem palco e bastidores. As palmas da plateia festejam somente os dramas encenados. Que remédio, pois, senão a gente resignar-se e aceitar as sínteses levianas. Nascia do tempo. Muito bem. Ninguém mais ficaria a conhecer a fundura dos abismos em que se debatera. Protoplasma, lagarta, ninfa... Quase que sentia ainda no corpo as fases da transfiguração. Mas pronto, chegara! Agora era receber o calor do presente, e cantar. Cantar o milagre da anódina e conseguida ascensão. E cantava.

A primavera estava no fim e o estio ia começar. As cerejas pontuavam a veiga de sorrisos vermelhos. As searas, gradas de generosidade, aloiravam. Contentes, os ramos relaxavam de vez os músculos crispados, já esquecidos das ventanias do inverno. Havia penugens de esperança em cada ninho. Mas não era a doçura das seivas, a paz vegetal ou animal que saudava. Vencera todos os obstáculos dum árido caminho, sem a ajuda de ninguém. No fim do esforço, nem sequer essa vitória via reconhecida. Por isso, nada devia aos outros, e nada lhes daria, a não ser a beleza daquele hino gratuito.

Ainda no rés-do-chão das metamorfoses, apetecera-lhe contemplar dum alto miradoiro o berço nativo. E começou a subir, a subir, a subir sempre. Depois, serenamente, olhou. Nesse momento, porém, um raio quente de sol caiu-lhe amorosamente sobre o dorso. Contraiu-se de volúpia. E, da plenitude que a empolgou, ergueu-se a voz de triunfo. Não era a vontade que a fazia vibrar. Era o corpo, possesso de contentamento, que, num espasmo total, estridentemente glorificava a própria perfeição atingida.

- Até azamboa a gente!

O senhor camponês, a reclamar. Suado e soturno, a mourejar de manhã à noite, queria silêncio à volta. Tapasse os ouvidos! Nenhuma força humana ou desumana a faria calar. Com que razão? Porquê?

Porque a fome era triste, os dias passavam velozes, e urgia ajudar a natureza a ser pródiga? Imaginem!

Pois que aproveitasse as horas, os minutos e os segundos, num anseio insaciável de fartura. Ela continuaria ali, preguiçosa, imprevidente, num desafio sonoro à sensatez.

- Muita alegria tem tal bicho!

- A alegria passa-lhe... É deixar vir o inverno...

A pressurosa formiga! A coitada! Como se trabalhar fosse um destino!

- E temo-lo aí, não tarda muito.

Evidentemente. Mas que lhe importava? A escolha estava feita. Que as folhas do calendário, como as das árvores, fossem caindo, e que os ceifeiros lançassem as gadanhas ao trigo maduro, numa condenação de galerianos. Que nas tulhas se acumulassem toneladas de grão. Ao lado dos celeiros atestados, ficaria um celeiro vazio. Um símbolo de inquebrantável confiança.

- Mas em quê? - perguntava um pardal suspicaz.

Outro que não compreendia. Outro que só concebia a existência a saltar de migalha em migalha.

- Chega-lhe, Cega-Rega!

O Poeta! Louvado seja Deus! Até que enfim lhe aparecia um irmão!... Um irmão que sabia também que cantar era acreditar na vida e vencer a morte.

A morte que a espreitava já, com os olhos frios do Outubro...





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Um texto de Clarice Lispector


O PRIMEIRO BEIJO


Os dois mais murmuravam que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme.

- Está bem, acredito que sou a sua primeira namorada, fico feliz com isso.

Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar?

Ele foi simples:

- Sim, já beijei antes uma mulher.

- Quem era ela? perguntou com dor.

Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer.

O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir - era tão bom. A concentração no sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.

E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca.

E nem sombra de água. O jeito era juntar saliva, e foi o que fez. Depois de reunida na boca ardente engulia-a lentamente, outra vez e mais outra. Era morna, porém, a saliva, e não tirava a sede. Uma sede enorme maior do que ele próprio, que lhe tomava agora o corpo todo.

A brisa fina, antes tão boa, agora ao sol do meio dia tornara-se quente e árida e ao penetrar pelo nariz secava ainda mais a pouca saliva que pacientemente juntava.

E se fechasse as narinas e respirasse um pouco menos daquele vento de deserto? Tentou por instantes mas logo sufocava. O jeito era mesmo esperar, esperar. Talvez minutos apenas, enquanto sua sede era de anos.

Não sabia como e por que mas agora se sentia mais perto da água, pressentia-a mais próxima, e seus olhos saltavam para fora da janela procurando a estrada, penetrando entre os arbustos, espreitando, farejando.

O instinto animal dentro dele não errara: na curva inesperada da estrada, entre arbustos estava... o chafariz de onde brotava num filete a água sonhada.

O ônibus parou, todos estavam com sede mas ele conseguiu ser o primeiro a chegar ao chafariz de pedra, antes de todos.

De olhos fechados entreabriu os lábios e colou-os ferozmente ao orifício de onde jorrava a água. O primeiro gole fresco desceu, escorrendo pelo peito até a barriga.
Era a vida voltando, e com esta encharcou todo o seu interior arenoso até se saciar. Agora podia abrir os olhos.

Abriu-os e viu bem junto de sua cara dois olhos de estátua fitando-o e viu que era a estátua de uma mulher e que era da boca da mulher que saía a água. Lembrou-se de que realmente ao primeiro gole sentira nos lábios um contato gélido, mais frio do que a água.

E soube então que havia colado sua boca na boca da estátua da mulher de pedra. A vida havia jorrado dessa boca, de uma boca para outra.

Intuitivamente, confuso na sua inocência, sentia intrigado: mas não é de uma mulher que sai o líquido vivificador, o líquido germinador da vida... Olhou a estátua nua.

Ele a havia beijado.

Sofreu um tremor que não se via por fora e que se iniciou bem dentro dele e tomou-lhe o corpo todo estourando pelo rosto em brasa viva.

Deu um passo para trás ou para frente, nem sabia mais o que fazia. Perturbado, atônito, percebeu que uma parte de seu corpo, sempre antes relaxada, estava agora com uma tensão agressiva, e isso nunca lhe tinha acontecido.

Estava de pé, docemente agressivo, sozinho no meio dos outros, de coração batendo fundo, espaçado, sentindo o mundo se transformar. A vida era inteiramente nova, era outra, descoberta com sobressalto. Perplexo, num equilíbrio frágil.

Até que, vinda da profundeza de seu ser, jorrou de uma fonte oculta nele a verdade. Que logo o encheu de susto e logo também de um orgulho antes jamais sentido: ele...

Ele se tornara homem.


in “Felicidade Clandestina”
Ed. Rocco - Rio de Janeiro, 1998


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VITROLA CIBERNÉTICA: Aquarela do Brasil

Ary Barroso
Para entender esta série, clique aqui.

A chuva sempre foi amiga dos poetas. Assim como noite, a lua, o vento e as estrelas. Mas com certeza aquela noite (ou seria tarde?) de chuva, no longínquo ano de 1939, não estava nos planos do boêmio Ary Evangelista Barroso. Conta-se que ele, impedido de sair de casa, começou a compor aquela que seria considerada a sua obra-prima: a canção Aquarela do Brasil.

A primeira crítica foi negativa e veio de um cunhado que questionava a redundância do verso “Ô esse coqueiro que dá coco”. O compositor poderia mudar a letra, rasgar a partitura, matar o cunhado, esquecer de tudo, jogar tudo fora. Mas deu de ombros. Embevecido que estava, ufano de si, e acometido de um amor incondicional à Pátria, Ary talvez já tivesse consciência que seria ela, aquela, a canção que o consagraria. E estava certo, porque usando a chamada licença poética, tudo é permitido. Se o sabiá de Gonçalves Dias podia cantar em uma palmeira, era natural — e como era! — que o coqueiro de Ary desse “apenas” coco.

Naquele momento, Ary compunha o mais conhecido exemplar do gênero samba-exaltação que como o próprio nome elucida, exalta através do ritmo mais popular do Brasil as grandezas verde-amarelas: o povo, as tradições, a natureza, enfim, a cultura brasileira. Na época, o tema mais comum dos sambas era a libertinagem malandra dos subúrbios cariocas. Ary rompeu com isso.

“Senti iluminar-me uma idéia: a de libertar o samba das tragédias da vida, (...) do cenário sensual já tão explorado. Fui sentindo toda a grandeza, o valor e a opulência de nossa terra. (...) Revivi, com orgulho, a tradição dos painéis nacionais e lancei os primeiros acordes, vibrantes, aliás. Foi um clangor de emoções. O ritmo original (...) cantava na minha imaginação, destacando-se do ruído da chuva, em batidas sincopadas de tamborins fantásticos. O resto veio naturalmente, música e letra de uma só vez. Grafei logo (...) o samba que produzi, batizando de 'Aquarela do Brasil'. Senti-me outro. De dentro de minh'alma extravasara um samba que eu há muito desejara. (...) Este samba divinizava, numa apoteose sonora, esse Brasil glorioso." (Blog Cifrantiga,link abaixo).

A música foi trilhando o seu curso e ainda no ano de sua composição ela foi cantada por Aracy Cortes (foto abaixo) na peça de teatro de revista Entra na faixa. A primeira gravação foi a do barítono Cândido Botelho, para o espetáculo Joujoux e Balangandã, promovido pela então primeira-dama, Darcy Vargas.

Aracy Cortes, numa foto ousadíssima.

Francisco Alves
Com a gravação de Francisco Alves, Aquarela do Brasil encontrou-se com a fama e mais que isso: com a consagração, a ponto de ser incluída por Walt Disney como trilha sonora do “filme ‘Alô Amigos’ (‘Saludo Amigos’), com o título de ‘Brazil’ e versos em inglês de S. K. Russell” (Blog Cifrantiga). O filme marca a estreia do brasileiríssimo Zé Carioca nas animações mais conhecidas do planeta.




Sucesso absoluto, por aqui e pelo mundo afora, hoje Aquarela do Brasil é uma espécie de segundo hino para nosso país. É uma das canções que nos identifica, nos mais variados cantos. Depois de tantos anos, são inúmeras as interpretações marcantes. Foi gravada por Silvio Caldas, Tom Jobim, Elis Regina, Gal Costa, João Gilberto, Caetano Veloso, Frank Sinatra, Dionne Warwick, Bing Crosby, Ray Conniff, Xavier Cugat e incontáveis músicos e cantores, incluindo a afamada interpretação dos tenores Plácido Domingo, José Carreras e Luciano Pavarotti.

TRILHA DE UM PAÍS IDEAL


O sucesso internacional dos sambas-exaltação resultou da forte política de divulgação do país no exterior feita pelo Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP) da era Vargas (1930-1945). Fazia parte da política de boa vizinhança dos americanos, que buscavam apoio dos países do Sul para a empreitada dos Aliados na Segunda Guerra. A propaganda também chegou à Europa. O DIP transmitiu diversos programas musicais brasileiros direto dos morros e favelas cariocas em horários especiais para países como a Alemanha.


Aquarela se tornou trilha da produção da Disney Saludos, Amigos (Alô, Amigos), de 1943, recebeu uma letra em inglês, feita pelo compositor S. K. Russell, e foi renomeada, passando a se chamar apenas Brazil. O filme levava Pato Donald a contracenar com Zé Carioca — caricatura do brasileiro —, e Aquarela foi transposta para a boca do papagaio pelo cantor Aloysio de Oliveira.

Ary Barroso passou a ser requisitado como compositor fora do país. Nos Estados Unidos, em 1944, compôs a canção Rio de Janeiro para o filme Brazil, da Republic Pictures, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor música. Contribuiu para outro filme da Disney, Você já foi à Bahia?, e musicou ainda Três Garotas de Azul, filme que ficou inacabado. Seu último trabalho fora do país foi a trilha de 18 canções que elaborou para o espetáculo O Trono das Amazonas, em Nova York, que nunca foi lançado por causa da falência dos produtores. (Revista Bravo!)



Abaixo, duas interpretações de Aquarela do Brasil, juntamente com a letra da canção.


A gravação de Francisco Alves, em vitrola à corda dos anos de 1940



Uma regravação do tenor Plácido Domingo
'Aquarela do Brasil', Plácido Domingo by José Ricardo Lima


LETRA
Aquarela do Brasil (Brazil ou Aquarela brasileira)
Ary Barroso - 1939


Brasil
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

Ah, abre a cortina do passado

Tira a Mãe Preta,do cerrado
Bota o Rei Congo, no congado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Deixa, cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver a Sa Dona, caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Brasil
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Oh, esse coqueiro que dá coco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Ah, ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, este Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil, brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

[ Samba cena brasileira - Primeira audição de Aracy Cortes - Intérprete Francisco Alves com Radamés Gnattali e sua Orquestra - Odeon 11.768A e Odeon 11.768B - Revista "Joujoux e Balangandans" - Filme "Alo, amigos" - 1941 ]

[ Letra inglês: Ray Gilbert, título conhecido como Brazil ]



FONTES DE PESQUISA
Revista Bravo! Especial — 100 canções essenciais da Música Popular Brasileira, 2008.
Blog Cifrantiga (http://cifrantiga3.blogspot.com/2006/04/aquarela-do-brasil.html).
Site Ary Barroso (http://www.arybarroso.com.br).

Que tal escolher a próxima canção? Clique na imagem acima e, no final da postagem "Entendendo a série VITROLA CIBERNÉTICA", escolha uma das outras 99 da lista. Aí é só deixar um comentário em qualquer página do blog com o título de sua canção preferida. Você escolhe e eu a coloco pra tocar aqui, na nossa Vitrola Cibernética.


Entenda a série “Vitrola cibernética”

Há alguns anos, nas minhas andanças por livrarias, sebos e bancas de revistas, deparei-me com um exemplar especial da Revista Bravo! que tinha um título, no mínimo, instigante: 100 canções essenciais da Música Popular Brasileira. Comprei imediatamente, junto com outros volumes da série, mas na correria do dia-a-dia, acabei apenas dando uma folheada rápida e pensei: ainda vou procurar todas essas músicas na internet. O tempo foi passando, e nada!

No começo de 2011, encontrei com a revista naquelas arrumações de início de ano e decidi: aproveitaria o tempo do ocioso janeiro para baixar, uma a uma, as canções que eu não tivesse em meu computador.

Mas ao procurar as gravações originais (como era minha proposta até então), acabei encontrando regravações bastante diferentes e por isso resolvi, ao invés de montar um CD com 100 músicas, gravar dois, com 200, ou seja, a primeira gravação (ou pelo menos uma que estivesse entre primeiras) e uma releitura (mais conhecida, mais moderna ou mais inusitada que a original). Das 100 canções, apenas de duas eu não encontrei uma nova versão (“Senhor cidadão”, de Tom Zé e “Clara Crocodilo”, de Arrigo Barnabé).

Apesar de não concordar integralmente com a classificação dos críticos da Bravo! (pra variar!), organizei os CDs da melhor forma possível, tentando variar ao máximo os intérpretes das regravações, para fazer desses dois discos uma verdadeira coletânea do que de melhor existe na nossa riquíssima música. Gravei os CDs e aproveitei para presentear alguns bons amigos.

Como modestamente o trabalho ficou muito bom, compartilho agora com os leitores do Literatura éshow! algumas informações (a maioria delas retiradas da própria revista Bravo!) e as duas gravações (ou quantas forem preciso, já que aqui não há limite de espaço) colocadas por mim no CD.

Não posso prometer que por aqui aparecerão os 100 títulos. Vai depender do interesse dos leitores, do meu tempo (sempre tão escasso) e de uma série de outros fatores... Também não vou estabelecer a ordem da revista, até porque, como eu já disse, não concordo com ela. Vou escrevendo e tocando daqui, e você lendo e ouvindo daí.

A lista com todos os títulos está aí embaixo, e vou colocar um link para esse post em todos os outros da série. Caso alguém queira brincar de pedir uma música, escolha um título e o deixe num comentário em qualquer página do blog. Assim, eu a colocarei a  canção para tocar aqui na nossa Vitrola cibernética. Caso os tímidos leitores/ouvintes não se manifestem, a ordem vai ser a que me der na telha.

Abraço a todos...

CANÇÕES JÁ POSTADAS


05. Aquarela do Brasil (Ary Barroso)
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Um texto de Fernando Sabino

 A ÚLTIMA CRÔNICA

Fernando Sabino

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever.

A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.

Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho -- um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.

A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.

São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: "parabéns pra você, parabéns pra você..." Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.

Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

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canastraminha (01)

01

Era no início de outubro e eu queria, embora não conseguisse, chegar até o dezembro do descanso para não descansar. Eu precisava e era urgente escrever um livro, pois tinha menos de três meses, de acordo com o prazo estipulado por meu editor. Já havia três iniciados, mas em nenhum deles eu via as marcas que consegui imprimir nas últimas produções que saíram de mim, das vezes últimas. Era triste, e era estranho, ter que fazer uma coisa a que eu já estava habituado e agora não conseguia mais realizar. Toda a disciplina que eu havia conquistado ia-se embora pelo esgoto, ia-se toda como que no vento, e eu me tornara de novo um ser humano relapso, um Diógenes Ventura de quem ninguém tinha saudades, a não ser Isabella, bela, Bella.  


Mas não existia mais a minha doce Bella e talvez por isso eu não conseguisse escrever como antes. Eu não conseguisse ajuntar palavras como um guardador de rebanhos que eu já havia me tornado. Eu não o era mais. Não conseguia arrebanhar minhas ovelhas e fazer de meu aprisco um alento ou um soco na cara de quem me lê. Como eu queria poder voltar naquela época, ou quem sabe me adiantar até o suave dezembro que eu tanto esperava. Era difícil para mim, porque não seria aquele mês de festas que nós comemorávamos, sempre. Na fazenda. Era noite, e noite sem lua, e não existe nada pior que vida sem Bella, e noite sem lua.


Triste, triste sim, e amuado em cima de uma cama. O Alfredo dizia que eu estava mesmo era deprimido e deveria procurar um médico, antes que procurasse uma faca ou um revólver ou quem sabe doses excessivas de arsênico, e desse cabo de minha vida. Mas com certeza eu não teria forças para tanto, pois além de triste e amuado eu estava me tornando um grandessíssimo covarde. Um covarde filho de uma boa puta. Era isso que eu estava me tornando. Um homenzinho de merda que não queria viver, mas que não tinha coragem nem ao menos de se matar. Tudo era tenebroso e vazio. Tudo parecia querer sugar minha luz, aspirar sofreguidamente todas as minhas forças.


Ainda agora, também na escola, a coisa estava desagradável. Eu não via como cobrar a leitura de um livro pornográfico para os alunos imaturos de um colégio de freiras. Pornográfico sim, porque até mesmo a Luciana, que é tão moderna, achou. Eu aqui, sozinho, ouvindo o barulho das lésbicas do apartamento ao lado, tentando inventar um jeito de enfiar Literatura na cabeça daqueles moleques... E minha doce Bella distante como uma Lenore.


Eu nunca tive preconceitos, e isso sempre foi evidente. Mas agora não estou suportando aquilo que me é alheio e quase todas as coisas da vida estão incluídas nessa categoria. Não estou suportando nem mesmo a mim, nem mesmo a essa triste figura que estou me tornando a cada quando.


Mas eu tenho que continuar. Eu tentava colocar os meus dedos corretamente nas teclas do computador, assim como eu não havia aprendido naquelas malditas e árduas aulas de datilografia. Mas era inútil, pois eu desenvolvera realmente minha técnica de teclar com cinco dedos: dois da mão esquerda e três da direita.


Era triste ter que arrumar um jeito meu para tudo. Um jeito meu para digitar aquilo que sai do meu jeito, de minha canastra, canastraminha, nesta tentativa incompreensível de me expor aos outros, de contar sobre Ella, sobre Bella.


Izabella Cândida de Castro. Era assim que se chamava. Era assim que a chamavam antes que ela tristemente morresse e me deixasse aqui, sozinho em casa, com essas paredes curtas, sem vida, sem amor. Aquele amor tão bonito que sentíamos e que agora queriam tornar em cinzas, em brasas apagadas


Meu livro de mitologia estava aberto na página de Vesta e eu me lembrava da Aulularia de Plauto sem que eu pudesse lembrar-me do nome do protagonista. Nem consegui me lembrar do final de Carmem de Bizet, e parecia que eu estava mesmo perdendo a memória, esquecendo de tudo aquilo que eu mais gostava, e eu temia que o quadro de Bella se perdesse, e aquele retrato na sala sumisse, dissolvendo-se no ar de minhas memórias. Era estranho e era triste me ver assim tão diferente, tão loucamente estranho, alheio a tudo e odiando o que me era alheio, a não ser Bella, que não me podia ser alheia, apartada de mim, já que jurara que nunca me esqueceria. Assim, diferente, eu me postava diante do espelho.Tinha trazido aquele que ficava em nosso quarto e que Bella nele se mirava. Trouxe-o para cá, no canto onde escrevo, e o pus diante do computador de modo que posso olhar-me de vez em quando para não me esquecer também do meu próprio rosto.


Era o que me faltava, esquecer o rosto, o nome, a identidade. Era difícil acompanhar o pensamento, porque ele ia bem mais rápido que minhas lentas mãos, meus lentos dedos a surrar violentamente este teclado velho, desse computador pré-histórico, de antes de Cristo, de muito antes da queda do Império Babilônico.


Triste era a música que sempre e sempre eu ouvia dentro de mim, esse ser incógnito a quem eu puramente desconhecia.


Eu tinha que parar constantemente para corrigir o que eu digitava errado, porque eu digitava depressa, e foi quando eu descobri, quando eu resolvi que iria descobrir quem matara meu amor. Quem fora aquele que covardemente tirou a vida de minha amada, que tinha seu retrato pendendo sobre a lareira da casa de Petrópolis. E era ali, naquelas reminiscências, que eu queria estar, revivendo os nossos últimos ontens. Não havia voltado novamente, desde que aquele telefonema alertou-me para uma possível tragédia.


Seria difícil ir até lá, não só pelo fato de estar novamente naquele local, mas por que eu queria terminar o livro que na editora me pediam, e lá não tinha computador, e a máquina velha de escrever não funcionava, e eu não tinha mais um notebook, e não queria pedir emprestado a ninguém.O jeito foi destecer todos aqueles fios com pontas coloridas e colocar as peças de minha primitiva máquina nomeu primitivo carro.


Ia eu, de encontroao passado, de encontro aos últimos momentos com Bella. Era penoso, mas eu queria, e era preciso, e como um pianista aleijado numa execução de uma peça dificílima, eu já me encontrava quatro horas depois, a surrar novamente este velho teclado, tudo já em pleno funcionamento, e os empregados assustados pela minha chegada em altas horas da noite, e a minha afoitez em ligar tudo, e pôr tudo para funcionar, e ligar alto o som naquela melodia de Bach que eu ouvia quando descia a serra no dia acontecido, no dia da ceifa. Ceifando minha pobre ceifeira.


Minha vida perdera tontamente o sentido e eles não estavam nem aí pra mim. Apenas se queixavam do som alto, em voz baixa. E era a mesma melodia.


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Um texto de Castro Alves

Castro Alves
Em homenagem ao Dia Nacional da Consciência Negra o Literatura é show! traz hoje um texto de Castro Alves.



Saudação a Palmares


Nos altos cerros erguido
Ninho d'águias atrevido,
Salve! — País do bandido!
Salve! — Pátria do jaguar!
Verde serra onde os palmares
— Como indianos cocares —
No azul dos colúmbios ares
Desfraldam-se em mole arfar! ...


Salve! Região dos valentes
Onde os ecos estridentes
Mandam aos plainos trementes
Os gritos do caçador!
E ao longe os latidos soam...
E as trompas da caça atroam...
E os corvos negros revoam
Sobre o campo abrasador! ...


Palmares! a ti meu grito!
A ti, barca de granito,
Que no soçobro infinito
Abriste a vela ao trovão.
E provocaste a rajada,
Solta a flâmula agitada
Aos uivos da marujada
Nas ondas da escravidão!


De bravos soberbo estádio,
Das liberdades paládio,
Pegaste o punho do gládio,
E olhaste rindo pra o val:
"Descei de cada horizonte...
Senhores! Eis-me de fronte!"
E riste... O riso de um monte!
E a ironia... de um chacal!...


Cantem Eunucos devassos
Dos reis os marmóreos paços;
E beijem os férreos laços,
Que não ousam sacudir ...
Eu canto a beleza tua,
Caçadora seminua!...
Em cuja perna flutua
Ruiva a pele de um tapir.


Crioula! o teu seio escuro
Nunca deste ao beijo impuro!
Luzidio, firme, duro,
Guardaste pra um nobre amor.
Negra Diana selvagem,
Que escutas sob a ramagem
As vozes — que traz a aragem
Do teu rijo caçador! ...


Salve, Amazona guerreira!
Que nas rochas da clareira,
— Aos urros da cachoeira —
Sabes bater e lutar...
Salve! — nos cerros erguido —
Ninho, onde em sono atrevido,
Dorme o condor... e o bandido!...
A liberdade... e o jaguar!


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PELA INTERNET: "O que é palíndromo?"

VOCÊ SABE O QUE É UM PALÍNDROMO?

Um palíndromo é uma palavra ou um número que se lê da mesma maneira nos dois sentidos, normalmente, da esquerda para a direita e ao  contrário.

Exemplos:
OVO, OSSO, RADAR.


O  mesmo se aplica às frases, embora a coincidência seja tanto mais difícil de conseguir quanto maior a frase;
é o caso do  conhecido:


SOCORRAM-ME, SUBI NO ONIBUS EM MARROCOS.

Diante do interesse pelo assunto (confesse, já leu a frase ao contrário), tomei a liberdade de seleccionar alguns dos melhores palíndromos da  língua de Camões... Se souber de algum, acrescente e passe adiante.


ANOTARAM A DATA DA MARATONA

ASSIM A AIA IA A MISSA

A DIVA EM ARGEL ALEGRA-ME A VIDA

A DROGA DA GORDA

A MALA NADA NA LAMA

A TORRE DA DERROTA

O CÉU SUECO

O GALO AMA O LAGO

O LOBO AMA O BOLO

O ROMANO ACATA AMORES A DAMAS AMADAS E ROMA ATACA O NAMORO

RIR, O BREVE VERBO RIR

A CARA RAJADA DA JARARACA

SAIRAM O TIO E OITO MARIAS

ZÉ DE LIMA RUA LAURA MIL E DEZ


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Um texto de Luis Fernando Verissimo

Um texto de Luis Fernando Verissimo, para começarmos bem a sexta-feira...


Incidente na Casa do Ferreiro
Luis Fernando Veríssimo

Pela janela vê-se uma floresta com macacos. Cada um no seu galho. Dois ou três olham o rabo do vizinho, mas a maioria cuida do seu. Há também um estranho moinho, movido por águas passadas. Pelo mato, aparentemente perdido - não tem cachorro - passa Maomé a caminho da montanha, para evitar um terremoto. Dentro da casa, o filho do enforcado e o ferreiro tomam chá.

Ferreiro - Nem só de pão vive o homem.

Filho do enforcado - Comigo é pão, pão, queijo, queijo.

Ferreiro - Um sanduíche! Você está com a faca e o queijo na mão. Cuidado.

Filho do enforcado - Por quê?

Ferreiro - É uma faca de dois gumes.

(Entra o cego).

Cego - Eu não quero ver! Eu não quero ver!

Ferreiro - Tirem esse cego daqui!

(Entra o guarda com o mentiroso).

Guarda (ofegante) - Peguei o mentiroso, mas o coxo fugiu.

Cego - Eu não quero ver!

(Entra o vendedor de pombas com uma pomba na mão e duas voando).

Filho do enforcado (interessado) - Quanto cada pomba?

Vendedor de pombas - Esta na mão é 50. As duas voando eu faço por 60 o par.

Cego (caminhando na direção do vendedor de pombas) - Não me mostra que eu não quero ver.

(O cego se choca com o vendedor de pombas, que larga a pomba que tinha na mão. Agora são três pombas voando sob o telhado de vidro da casa).

Ferreiro - Esse cego está cada vez pior!

Guarda - Eu vou atrás do coxo. Cuidem do mentiroso por mim. Amarrem com uma corda.

Filho do enforcado (com raiva) - Na minha casa você não diria isso!

(O guarda fica confuso, mas resolve não responder. Sai pela porta e volta em seguida).

Guarda (para o ferreiro) - Tem um pobre aí fora que quer falar com você. Algo sobre uma esmola muito grande. Parece desconfiado.

Ferreiro - É a história. Quem dá aos pobres empresta a Deus, mas acho que exagerei.

(Entra o pobre).

Pobre (para o ferreiro) - Olha aqui, doutor. Essa esmola que o senhor me deu. O que é que o senhor está querendo? Não sei não. Dá para desconfiar...

Ferreiro - Está bem. Deixa a esmola e pega uma pomba.

Cego - Essa eu nem quero ver...

(Entra o mercador).

Ferreiro (para o mercador) - Foi bom você chegar. Me ajuda a amarrar o mentiroso com uma... (Olha para o filho do enforcado). A amarrar o mentiroso.

Mercador (com a mão atrás da orelha) - Hein?

Cego - Eu não quero ver!

Mercador - O quê?

Pobre - Consegui! Peguei uma pomba!

Cego - Não me mostra.

Mercador - Como?

Pobre - Agora é só arranjar um espeto de ferro que eu faço um galeto.

Mercador - Hein?

Ferreiro (perdendo a paciência) - Me dêem uma corda. (O filho do enforcado vai embora, furioso).

Pobre (para o ferreiro) - Me arranja um espeto de ferro?

Ferreiro - Nesta casa só tem espeto de pau.

(Uma pedra fura o telhado de vidro, obviamente atirada pelo filho do enforcado, e pega na perna do mentiroso. O mentiroso sai mancando pela porta enquanto as duas pombas voam pelo buraco no telhado).

Mentiroso (antes de sair) - Agora quero ver aquele guarda me pegar!

(Entra o último, de tapa-olho, pela porta de trás).

Ferreiro - Como é que você entrou aqui?

Último - Arrombei a porta.

Ferreiro - Vou ter que arranjar uma tranca. De pau, claro.

Último - Vim avisar que já é verão. Vi não uma mas duas andorinhas voando aí fora.

Mercador - Hein?

Ferreiro - Não era andorinha, era pomba. E das baratas.

Pobre (para o último) - Ei, você aí de um olho só...

Cego (prostrando-se ao chão por engano na frente do mercador) - Meu rei.

Mercador - O quê?

Ferreiro - Chega! Chega! Todos para fora! A porta da rua é serventia da casa!

(Todos se precipitam para a porta, menos o cego, que vai de encontro à parede. Mas o último protesta).

Último - Parem! Eu serei o primeiro.

(Todos saem com o último na frente. O cego vai atrás).

Cego - Meu rei! Meu rei!

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Quem foi o poeta Oswald de Andrade?

Programa "De lá pra cá"

28/11/2010, sobre o poeta modernista Oswald de Andrade:


PARTE 1:


PARTE 2:


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"O último poema" (Manuel Bandeira)

O ÚLTIMO POEMA (Manuel Bandeira)

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


(clique, abaixo, para ouvir o poema na voz de Manuel Bandeira)

Último poema (Manuel Bandeira) by literaturaeshow


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CANTAR DE AMIGOS: "Falhas na parede" (Tiago Júlio)

FALHAS NA PAREDE
Tiago Júlio (do blog vago

    Tinha aquela lasca branca na parede verde que eu admirava antes de dormir. Um pedacinho de parede sem tinta, uma besteirinha. Ela ficava bem no lugar iluminado pela lua quando passava pelas frestas da janela. Era em frente à minha cama, e eu me colocava de bruços com a cabeça em sua direção. Acho que meu ciclo de sono combinava com o da lua. Toda vez que a insônia vinha forte, a lasquinha parecia mais iluminada e branca. 

      Aquele pedacinho de casa irregular me causava uma sensação estranha. Era como se aquilo fosse o certo, o lascado e feio, mas eu sabia que era errado. Era errado porque aquele negocinho estava oprimido por uma vastidão de tinta verde-bebê, certinha e harmônica. Mas aquele troço realmente me agradava. Talvez só achasse aquilo bonito porque era algo ridículo no meio daquela parede tão bem pintada, ou quem sabe fosse só o tédio e a insônia me desregulando os sentidos. 

      Não sei quando eu percebi, só sei que já não adiantava mais nada. A lasquinha cresceu até tomar conta de toda parte inferior da parede à esquerda. Ela continuou avançando tímida, silenciosa, que nem raiz cavando o solo. Eu não me opus nem nada, se ela quisesse crescer, que crescesse. Pouco tempo depois, o quarto já estava completamente branco e a argamassa da parede soltava um pó que começou a me sufocar.

     Numa manhã de domingo, passei o aspirador de pó nas paredes. Em alguns pontos era possível ver até pedaços de tijolo. Meu quarto estava horrível. Porém, antes de eu realmente começar a me incomodar, os tijolos resolveram cair de maduros. Toda noite caiam dois ou três tijolos. Simplesmente se despregavam das paredes e se espatifavam no chão. Às vezes ficava com medo de um deles cair bem em cima da minha cama. Talvez fosse o cimento, sei lá.

    Minha casa caiu aos pouquinhos. Nem percebi muito bem. Uma vez fui abrir a porta e ela estava no chão. Daí choveu e eu notei que nem telhado tinha mais. Voou, não sei. Quando inventei de olhar pela janela, vi que ela tomava todo espaço que antes era ocupado por uma das laterais da casa. Perdi foi tudo. Não sei bem o porquê, nem como, não sei se eu mereci, nem acredito nessas coisas. Agora eu vivo por aí, torcendo pra o mundo não desmoronar também. Se desmoronar, bom... Nunca entendi muita coisa dessa vida mesmo.

Tiago Júlio é autor do blog Vago. Gostou do texto dele? Deixe um comentário abaixo e, é claro, faça uma visita para o Tiago clicando aqui.

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Um texto de Marina Colasanti

Esse texto descansa. Conheci-o em 1992, através de uma revista (Diálogo médico), catada no lixo!!! Ele me apresentou Marina e até hoje me encanta muitíssimo. Aprecie você também! Começe (ou continue!) bem o seu dia...

UM PALÁCIO, NOITE ADENTRO
(Marina Colasanti)

Sem nunca antes ter desejado uma casa, aquele homem surpreendeu-se desejando um palácio. E o desejo que tinha começado pequeno rapidamente cresceu, ocupando todo o seu querer com cúpulas e torres, fossos e porões, e imensas escadarias cujos degraus se perderiam na sombra, ou no céu.

Mas como construir um palácio quando se é apenas um homem, sem nada de seu?

— Bom seria se eu pudesse construir um palácio de água, fresco e cantante, pensou o homem caminhando à beira do rio.

Ajoelhado, meteu as mãos na correnteza. Mas a água continuou sua viagem, sem que os dedos fossem suficientes para retê-la. E o homem levantou-se e continuou andando.

— Bom seria se eu pudesse construir um palácio de fogo, luminoso e dançante, pensou mais tarde o homem, diante da fogueira que tinha aceso para se aquecer.

Mas ao estender a mão para tocar a labareda, queimou os dedos. E percebeu que mesmo que conseguisse construí-lo, jamais poderia morar dentro dele.

Talvez porque o fogo fosse quente como o sol, pareceu-lhe rever-se menino, à beira-mar. E, com a lembrança, vieram os lindos castelos de areia que construía. Agora, o mar estava longe. Porém, o homem levantou-se e caminhou, caminhou, caminhou. Até chegar ao deserto. Onde mergulhou suas mãos na areia e, com seu suor, começou a empastá-la.

Desta vez, largos muros ergueram-se, dourados como pão. E uma escada que levava ao topo, e um terraço que coroava a escada, e colunas que sustentavam o terraço. Mas ao entardecer o vento acordou, e com sua língua macia começou a lamber a construção. Levou os muros, desmanchou o terraço, esfarelou as colunas que o homem nem tinha acabado de fazer.

— De fato, pensou o homem, paciente. É preciso coisa mais duradoura para se fazer um palácio.
Abandonou o deserto, atravessou a planície, escalou uma montanha. No topo, sentou-se. Em voz alta, começou a descrever o palácio que via na imaginação.

Saídas de sua boca, as palavras empilhavam-se como tijolos. Salões pátios, galerias, surgiam aos poucos, do alto da montanha, rodeados pelos jardins das frases. Mas não havia ninguém para ouvi-lo. E quando o homem, cansado, calou-se, a rica arquitetura pareceu estremecer, desbotar. No silêncio, aos poucos se desfez.

Era dia ainda. Esgotados todos os recursos, ainda assim não se esgotava o desejo. Então o homem deitou-se, cobriu-se com o capote, amarrou sobre os olhos o lenço que trazia ao pescoço. E começou a sonhar.

Sonhou que arquitetos lhe mostravam projetos em rolos de pergaminho. Sonhou-se estudando os projetos. Depois sonhou os pedreiros que trabalhavam pedras nas pedreiras, os lenhadores que abatiam as árvores nas florestas, os oleiros que punham tijolos para secar. Sonhou o cansaço e os cantos de todos aqueles homens. E sonhou as mulheres que assavam pão para eles.

Em seguida sonhou as fundações sendo plantadas na terra. E o palácio saindo do chão como uma árvore, crescendo, enchendo o espaço do sonho com suas cúpulas, seus minaretes, suas centenas e centenas de degraus. Sonhando, ainda viu a sombra do seu palácio desenhar outro palácio sobre as pedras. Só aí acordou.

Olhou a lua no alto, sem saber se ela já tivera tempo de levantar-se e deitar-se mais de uma vez. Olhou ao redor. Continuava sozinho, no topo da montanha ventosa, ao desabrigo. Não habitava o palácio. Mas o palácio, grandioso e imponente como nenhum outro, habitava nele, pra sempre. E talvez navegasse silencioso, noite adentro, rumo ao sonho de outro homem.

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