POSTAGEM FIXA: (Re) leituras 2013


Quero deixar aqui um breve comentário sobre os livros que (re) li em 2013... Aqui estão as minhas metas para este ano:

1) Ler, no mínimo, 50 livros...
2) Ler de TUDO e não somente o que cai nos vestibulares...
(Simples assim!)


1. SUICIDAS, Rafael Montes, concluído em 02/01 «««««
Comecei o ano MUITO bem... Suicidas é um livro simplesmente fantástico. Fala sobre nove jovens da elite carioca que participam de uma roleta-russa, no porão de uma casa de campo. Forte. Muito forte! FORTÍSSIMO!!! Ia recomendar para os meus alunos, como leitura extraclasse, mais mudei de ideia. Os pais me linchariam. 

2. O CANTO DA SEREIA, Nelson Motta, concluído em 11/01 ««««
Gosto demais do Nelson Motta. Já tinha lido Bandidos e mocinhas, há alguns anos atrás. Como a Globo produziu a minissérie, usei isso como pretexto para ler a obra. Foi sucesso na TV, mas fico com o livro, que é um zilhão de vezes (óbvio) melhor que a adaptação. 

3. ASSASSINATO NO EXPRESSO ORIENTE, Agatha Christie, concluído em 18/01 «««««
Fazia muito tempo que eu não lia Agatha Christie... Diverti-me bastante com Hercule Poirot e suas DUAS soluções para o caso. É óbvio que o meu suspeito não era o criminoso. Agatha me surpreendeu, novamente. Vou anotar as minhas ideias e escrever um romance policial.

4. TOCAIA GRANDE, Jorge Amado, concluído em 09/02 ««««
Fui atrás de O país do carnaval, incentivado por um grupo que comecei a participar no Facebook, o Papo literário. Comprei também Tieta do Agreste e Tocaia grande. Li apenas o último. Na verdade, eu já tinha lido algumas partes na adolescência, e também assistido à adaptação para a TV produzida pela extinta Rede Manchete. Capitão Natário da Fonseca me divertiu demais... E não só ele, mas todas as inúmeras personagens que Jorge vai inventando...

5. TEM AQUELA DO..., Chico Anysio, concluído em 16/03 «««
Com o começo das aulas, as leituras diminuíram. Comecei a ler Vale tudo: o som e a fúria de Tim Maia, também no Nelson Motta. Na verdade, vou lendo aos pouquinhos, em casa. E como leitura “de rua”, fui me deliciando com as crônicas-anedotas do mestre Chico Anysio. A casa espera de ônibus, a cada trajeto, a cada fila, eu me alegrava com os textos. 

6. HUMOR NOS TEMPOS DO COLLOR, Jô Soares et alli., concluído em 23/03 ««««
Também foi leitura “de rua”. Um livro divertidíssimo com textos de Jô Soares, Millôr Fernandes e Luis Fernando Verissimo. Todos sobre o tenebroso período do governo de Fernando Collor de Melo (1990-1992). Vários textos foram publicados em revistas e jornais da época... Foi muito bom lembrar de alguns episódios que marcaram a minha adolescência. Sim, eu fui um jovem da “geração cara-pintada”. Eu saí nas ruas, protestando contra o Presidente... E nós vencemos!

7. CARTAS A UM JOVEM POETA, Rainer Maria Rilke, concluído em 30/03 ««««
Um livro fantástico, emocionante. São 10 cartas que o tcheco Rainer Maria Rilke (1875-1929) envia um jovem poeta (Franz Kappus, indeciso entre a carreira literária e a militar). As cartas transmitem ensinamentos que versam sobre o fazer poético, além de outras verdadeiras “lições de vida”...

8. NO TEU DESERTO, Miguel Soares Tavares, concluído em 07/04 «««««
Como pude viver tanto tempo sem ler este livro? Muito bom! Fininho, leve, mas de uma profundidade ímpar. Nele, um jornalista relembra a travessia do deserto do Saara feita ao lado de uma garota quinze anos mais jovem, “a Cláudia”. O final é triste e poético. E em todo o livro, parecia tocar uma música suavíssima, inebriante. Comecei as minhas "Leituras de domingo".

9. UM COPO DE CÓLERA, Raduan Nassar, concluído em 07/04 ««««
Mal saí do Saara e já me embrenhei nessa narrativa breve, áspera e cortante. Raduan Nassar apresenta um dia na vida de um casal que só se entende no sexo. É isso. Mas não é SÓ isso... Dá para ler "numa sentada"...

10. EU RECEBERIA AS PIORES NOTÍCIAS DOS SEUS LINDOS LÁBIOS, Marçal Aquino, 14/04. «««««
Comprei esse livro depois de assistir a um vídeo no canal literário (YouTube) da Isa Vichi, o Livrolendo. Durante a semana inteira estive ao lado de Cauby e Lavínea... Creio que todos nós deveríamos viver uma paixão como esta. E já que um sentimento avassalador não é para todos, se não podemos viver a nosso, DEVEMOS, pelo menos, conhecer o deles.

11. O REI DE RAMOS, Dias Gomes, concluído em 14/04 ««««
Ainda restavam algumas horas para terminar o domingo. E dando uma "fuçada" na minha estante, eu encontrei esse livrinho super divertido. Dias Gomes sempre foi um MESTRE em tudo o que fez. E em O rei de Ramos ele nos apresenta a rivalidade entre os bicheiros Mirandão e Brilhantina. Além dos tipos incríveis da malandragem carioca, a gente ainda leva "de lambugem" um romancinho-romeu-e-julieta entre o casal filho dos dois bicheiros... Minha tarde de domingo ficou mais divertida. 

12. MORTE SÚBITA, J. K. Rowling, concluído em 21/04 «««««
Como eu disse no início, uma das metas para 2013 é ler DE TUDO. E isso inclui as "modinhas" da atualidade. E para vencer todo e qualquer preconceito linguístico, esse livro da J. K. Rowlling é recomendadíssimo... Eu não li nenhum Harry Potter e possivelmente nunca vou ler. Nada contra. Apenas não gosto do gênero "fantasia". Mas ao conhecer Morte súbita, eu entendi o que essa moçada v(l)ê na J. K. Ela tem uma narrativa INCRÍVEL e VICIANTE. Viver três semanas ao lado dos moradores de Pagford, me envolver em seus problemas, descobri-los, aos poucos e por inteiro, foi uma experiência gratificante e inesquecível. Terminei o livro na manhã de domingo e fiquei ensimesmado o restante do dia... Quero ler de novo... Sinto muita falta de todos.

13. O VELHO E O MAR, Ernest Hemingway, concluído em 21/04 ««««
Ainda sob o efeito de Morte súbita, li essa obra-prima de Hemingway. Há muito eu queria ler, mas creio que o fiz na ocasião certa. Foi bom ir pescar com o Velho Santiago e usar essa solidão para esquecer um pouco os incontáveis  habitantes de Pagford e Fields. Quem não leu ainda, LEIA!!!

14. TRAVESSURAS DA MENINA MÁ, Mario Vargas Llosa, concluído em 26/04 «««««
A menina má entrou definitivamente para dentro de mim. Senti-me um Ricardo Somocurcio. Eu fui Ricardo. Amei e odiei a menina má em cada volta e escapada. Chorei com eles, senti-me dentro do livro como há muito não me sentia. Posso dizer, com certeza absoluta, que este se tornou um dos livros da minha vida. 

15. UMA NOITE EM CINCO ATOS, Alberto Martins, concluído em 27/04 «««
Há muito queria ler. O livro esteve num vestibular próximo, mas não coube a mim trabalhá-lo. A ideia é interessante: juntar, num mesmo palco, três poetas que em épocas diferentes cantaram o seu amor por São Paulo: Álvares de Azevedo, Mário de Andrade e José Paulo Paes  e colocar, em suas bocas, reflexões sobre a poesia e a cidade. Porém, eu achei que uma esta ideia poderia ter sido melhor executada. Com três personalidades tão ricas, a peça poderia ter sido mais densa. As reflexões ficaram, a meu ver, superficiais. Ganha três estrelas. Uma para cada poeta.

16. VALE TUDO: O SOM E A FÚRIA DE TIM MAIA, Nelson Motta, concluído em 04/05 «««««
Sempre gostei muito do Tim Maia. Considero-o o grande anti-herói da música brasileira. "Gordo, preto e cafajeste", como ele mesmo se definia, Tim venceu todos os altos e baixos da sua vida montanha-russa. E nesse relato de "Nelsomotta", podemos constatar que maior que o mito, maior que o cantor, maior que o compositor e maior que o multi-instrumentista, estava o homem, a figura humana de Sebastião Rodrigues Maia. É um relato apaixonado e apaixonante da vida deste grande brasileiro. A leitura foi iniciada nas férias de janeiro, mas inexplicavelmente suspensa. Voltei no final de abril e fui percorrendo as sendas, as trilhas sonoras deste baluarte da nossa música. Uma dica para quem quer se  deliciar com esta obra é baixar a discografia de Tim e ir ouvindo os discos, cujas canções são comentadas por Nelsinho, algumas nos seus mínimos detalhes. Enfim, um livro para quem gosta e (como eu digo sempre) principalmente para quem NÃO GOSTA do eterno síndico do Brasil: Tim Maia ("... meu amigo! Tim Maia, meu amigo!...").

17. CRIANCINHAS, Tom Perrota, concluído em 04/05 ««
Essa foi a minha leitura "de rua" da semana. Não me empolgou muito, esperava mais, BEM MAIS do livro!!! O enredo é quase todo previsível, com personagens rasos. A exceção fica pelo maníaco sexual  Ronnie J. McGorvey e sua mãe, May, que possuem uma trama melhor engendrada. Tirando isso, só vi trivialidades. É provável que posso ter ido com muita sede ao pote, até por resenhas que falavam muito bem de Tom Perrota, mas no final, o que ficou foi o seguinte: nunca li Júlia, Sabrina ou Bianca, mas creio que não sejam tão diferentes de Little children.

18. O ESTRANGEIRO, Albert Camus, concluído em 12/05 «««««
Sobre esse sairá uma resenhazinha...

19. NINGUÉM ESCREVE AO CORONEL, Gabriel García Márquez, concluído em 15/05 ««««
Novelinha simples do Gabo. Gostosa... Como a leitura de Cem anos de solidão absorve bastante energia, inventei esse hiato de uma semana para assimilar o que já li e poder passar adiante. Mas enquanto eu "descansava" das peripécias do Coronel Aureliano Buendía e as sete gerações de sua família, diverti-me e me emocionei com este outro Coronel, com sua mulher asmática, o galo deixado de herança pelo filho morto, a sua fome e a sua miséria. Ah, e é claro, o sonho da sua aposentadoria que nunca chega, preso nos entraves da burocracia. Leitura para poucas horas, que eu dividi em um pouquinho durante três dias para durar mais. Ninguém escreve ao Coronel faz parte do chamado "ciclo de Macondo", parte da obra de Gabo que traz personagens e paisagens desse lugar fabuloso, consagrado por Cem anos de solidão...


20. CEM ANOS DE SOLIDÃO (Gabriel García Márquez), concluído em 25/05 «««««
Leia a resenha, clicando aqui.

21. DESERTO (Luis S. Krausz), concluído em 31/05 «««
Livro vencedor do 2º Prêmio Benvirá. Estamos sorteando um exemplar... Em breve, resenha por aqui. Assim que passar a primeira fase do vestibular UFU (22 e 23/06).

22. ANJO NEGRO (Nelson Rodrigues), releitura concluída em 01/06 «««««
O feriado prolongado foi utilizado para a releitura de algumas obras selecionadas para o Processo Seletivo UFU junho 2013. Anjo negro, na minha opinião, é o melhor livro da lista.  Quem não leu, está perdendo. Trata-se de uma peça que coloca todos os dedos infectos, imundos numa das maiores feridas da nossa História: o preconceito contra o negro. 

23. A MORTE DE IVAN ILITCH, Liev Tolstoi, releitura concluída em 03/06 ««««
Também relido para uma aula de véspera. Uma novela de Tolstoi que nos põe diante da mediocridade humana. 

24. O ABRAÇO, Lygia Bojunga Nunes, concluído em 08/06 «««««
Também para o vestibular. Por incrível que pareça, apesar de conhecer alguns livros da Lygia, não tinha lido "O abraço". Com certeza, entrou para os meus preferidos. Uma obra densa pois, em suas poucas páginas, abarca personagens bastante complexas, que figuram entre as melhores da nossa literatura.

25. HÍDRIAS, Dora Ferreira da Silva, concluído em 10/06 «««
Dora trabalha os mitos gregos, reforçando a sua importância para os tempos modernos. O problema é que a autora se mostrou hermética. Mesmo conhecendo razoavelmente o assunto, fica difícil aos jovens  leitores, terem uma visão panorâmica da obra. 

26. RELATO DE UM NÁUFRAGO (Gabriel García Márquez), concluído em 29/06 ««««
Depois de duas semanas dedicadas ao vestibular, voltei às leituras não-obrigatórias. E já fui direto no Gabo. Acho que gosto de qualquer coisa escrita por esse sujeito. Relato de um náufrago foi escrito como um folhetim-reportagem que contava a história de Luis Alexandre Velasco, um marinheiro colombiano que em 1955 passou 10 dias em pleno Mar do Caribe, após cair acidentalmente de um destróier da Marinha de seu país. Muito bom!

27. METAMORFOSE (Franz Kafka), concluído em 13/07 «««««
Segunda releitura dessa obra memorável. Queria um livro que me tomasse por completo, mas não estava encontrando. O jeito foi apelar para alguns clássicos.

28. TEORIA DO CONTO (Nádia Battella Gotlib), concluído em 27/07 «««««
No finalzinho do recesso escolar recorri a um capítulo deste livro para preparar uma análise de alguns contos de Clarice (vestibulices pra variar). Mas me empolguei eacabei relendo o livrinho inteiro, recordando-me dos velhos tempos das aulas de Teoria Literária I e III.


QUADRINHOS

01. ORQUÍDEA NEGRA, Neil Gaiman e Dave McKean, concluído em 14/04 «««««
Foi essa a leitura "de rua" da semana. Quadrinhos, da melhor qualidade. Também foi sugestão de uma vlogueira, a Tatiana FeltrinA trama tem um desenvolvimento totalmente diferente das histórias de super-heróis convencionais, distanciando-se da ação e da violência gratuita e focando na busca da personagem por sua identidade. Além de tudo, ainda tem uma "pegada" ecológica, mas sem ser chato. 

02. SWEET TOOTH, VOLUME UM - DEPOIS DO APOCALIPSE, Jeff Lemire, concluído em 04/05 «««««
Sweeth Tooth — ou melhor, Gus — é um menino híbrido, metade gente, metade alce. Esse tipo de criança surgiu depois que, há dez anos, o Flagelo incendiou a floresta e matou quase todas as pessoas. Gus que já não tinha mãe, perde também o pai, mas no meio da história passa a contar com a proteção (?) do Sr. Jepperd, que promete levá-lo à Reserva, um lugar onde existem outras crianças híbridas e o pequeno Gus estará a salvo. É uma história triste e comovente, que fala sobre inocência, confiança, lealdade, respeito à família, entre outras coisas.

LEITURAS EM ANDAMENTO (iniciadas)
  • GRANDES ESPERANÇAS, Charles Dickiens
  • 501 GRANDES ESCRITORES (Julian Patrick) Apesar de ser uma obra de consulta, estou lendo sobre os escritores de forma cronológica. Coisinha pra se fazer em casa, nos momentos vagos... Vai sair devagarinho.

PRÓXIMAS LEITURAS (programadas, mas não iniciadas. Nem sempre serão as próximas)


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Literatura éshow! entre os 10 melhores


Foi com muita alegria que recebi na tarde do dia 9 de março a notícia de que o Literatura éshow! foi avaliado pela equipe do Portal InfoEnem como um dos dez melhores blogs de Literatura do Brasil. 

Há seis anos, quando comecei essa empreitada, queria apenas me comunicar com os poucos alunos que tinha. Hoje já são mais de 112.000 visitas, das mais variadas partes do planeta azulzinho. Isso me enche de orgulho e responsabilidade.

Quero agradecer a cada um de vocês que por aqui passam, vez ou outra, e de maneira especial aos meus SEMPRE alunos. Os verdadeiros culpados por tudo isso.

Abaixo, a relação dos indicados...

BlogConteúdoAparênciaAtualização
www.literaturaeshow.com.br10810
daliteratura.blogspot.com999
literaturalima.arteblog.com.br888
literaturaearte.blogspot.com978
www.palavrorios.blogspot.com999
www.napontadoslapis.com.br999
www.literaturaemfoco.com898
gelbcunb.blogspot.com979
blogdoims.uol.com.br/tag/literatura-brasileira997
www.letrasecia.com.br/blog9109


E o link para a matéria (é só clicar na imagem)...



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FVM (18/03): "De pombos e de gatos"


De pombos e de gatos


Um dos meus grandes encantos em Florença, onde, em 1952, passei cerca de um mês, era ver da janela do meu quinto andar, no Hotel Nazionale, a madrugada toscana romper sobre a piazza Santa Maria Novella. Habituei-me de tal modo a isso que, nos meus hábitos de noctâmbulo, esticava a noite até o amanhecer, só pelo prazer de ver a luz rósea do sol florentino descobrir e incendiar os mármores da fachada da igreja de Santa Maria Novella, bem como o claustro verde que fica à sua esquerda e as elegantes arcadas do fundo, onde existem as terracotas de Andrea e Giovanni della Robbia. Mas o prazer desse minuto de luz acabaria por resultar monótono, não se lhe seguisse um dos mais extraordinários divertissements a que já me foi dado assistir, misto de balé, cinema e circo romano, sem falar que cheio de ensinamentos sobre a vida e arte de viver perigosamente. 

O caso é que, aos primeiros vestígios de luz, começava-se a ouvir por ali em torno um brando ruflar de asas que, com o despontar do Sol, crescia num espesso burburinho ao qual vinham se unir doces arrulhos. E o ambiente, em suas cores rosa, verde, laranja e terracota, adquiria uma maciez de plumas; e logo asas brancas e trigueiras começavam a tatalar em largos vôos e algumas desciam em vôos rasantes; e toda uma população de pombos, habitantes daqueles mil escaninhos, como só pode proporcionar a arquitetura antiga, vinha pousar na praça. 

A coisa ficava assim por uns poucos minutos; e em breve apareciam, infalivelmente, no belo logradouro, três padres e cinco gatos. Cabe dizer, em nome da verdade, que os padres chegavam bem menos sorrateiramente que os gatos e, estou certo, com intenções muito menos maléficas; pois se vinham os padres para se aquecer um pouco ao sol e ler seus breviários, os gatos surgiam, esgueirando-se das ruas laterais, para cumprir uma fatalidade do seu destino, que é de comer pombos. E com a malícia que lhes é peculiar, colocavam-se pacientemente em posições estratégicas, sob automóveis encostados ao meio-fio, à espera do momento azado para o bote. 

Deus sabe que, entre gatos e pombos, eu sou francamente pela primeira espécie. Acho os pombos um povo horrivelmente burguês, com o seu ar bem-disposto e contente da vida, sem falar na baixeza de certas características de sua condição, qual seja a de, eventualmente, se entredevorarem quando engaiolados. Mas no caso especial da piazza de Santa Maria Novella, devo confessar que era torcida incondicional dos pombos; e só passei a torcer pelos gatos no final, quando, defrontado com a realidade de sua terrível humilhação, e provável neurose subseqüente, achei que não faria nenhuma falta à comunidade a desaparição de uma meia dúzia de columbinos, em beneficio do sistema nervoso dos pobres gatos. Pois era quase doloroso ver o fracasso constante de suas desesperadas tentativas de caçar um pombinho que fosse. E garanto que eles empregavam todas as técnicas tradicionais dos gatos, desde a paciente emboscada, até a carreira às cegas, com saltos desordenados para todos os lados. 

Tudo em vão. Porque, a cada arremetida, os pombos limitavam-se a dar pequenos vôos que criavam verdadeiros túneis para os gatos, que os percorriam em furiosas e inúteis investidas. E o pior é que cada pombo, passado o rojão, pousava como se nada tivesse havido, e continuava na sua estúpida ciscação do chão da praça, na mais total indiferença diante de seu velho inimigo. Coisa que, positivamente, devia deixar os gatos loucos. Haja visto um que um dia eu vi, depois de numerosos ataques frustrados, a morder como um possesso o pneu de um Chevrolet, e por cuja sanidade mental não poria da maneira alguma a mão na Bíblia


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FVM (18/03): "Balada das lavadeiras"


Balada das lavadeiras

Lava, lava, lavadeira
A roupa do teu patrão
Sua camisa de linho
Sua meia-confecção
Enxágua seu lenço sujo
Todo sujo de batom
Põe anil no dito-cujo
Pro trabalho ficar bom.
[ ... ]


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FVM (17/03): Documentário "Vinícius" (Parte 4)




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FVM (17/03): "Com o pé na cova"


Com o pé na cova

Segunda-feira última, ao entrar no Golden Room do Copacabana para a estréia do novo espetáculo de Carlos Machado, tive a mão vivamente apertada por um dos mâitres da casa, velho chapa meu. Notei que me olhava com um ar ansioso. 

- Como é? - perguntei-lhe. - Tudo em ordem? 

- Puxa, dr. Vínicius... O senhor nem sabe como estou satifeito! Imagine que hoje de tarde andou correndo que o senhor tinha morrido... 

Fiz, por via das dúvidas, a minha figa, com o pai-de-todos e o furabolos, pensando na mãe do autor da gracinha. Mas a real satisfação do mâitre meu amigo compensou-me de um certo mal-estar deixado pela notícia. Fiquei considerando que ela realmente vai acontecer um dia e … - mas deixa pra lá. Entrei na boate lembrando-me de que, se há um homem que pode dizer já ter estado "com o pé na cova", literalmente, esse homem sou eu. 

Foi em Los Angeles, aí por 1947. Com o cônsul em férias, achava-me eu encarregado do nosso Consulado e um belo dia eis que me aparece por lá um marinheiro brasileiro: um bom paraibano, com um sotaque pastoso, que havia fugido de um navio, no porto de São Francisco, e depois de viajar de carona até Los Angeles, esfaimado, resolvera se apresentar. Tomei os necessários dados, dei-lhe um dinheirinho para que comesse num drugstore embaixo e arrumasse um hotel, e pedi-lhe que se mantivesse em contato comigo, enquanto tratava de sua repatriação. 

Dia seguinte, surge-me um cidadão da polícia de San Diego, porto vizinho a Los Angeles, para dizer-me que um brasileiro havia sido esmagado por um trem, por se encontrar deitado na linha férrea. Reconheci, na carteira profissional que me foi apresentada, o retrato do meu bom paraibano. Tinha-se "mandado". Fiz um telegrama ao Itamarati, pedindo autorização para fazer embalsamar o corpo e proceder o enterro, e três dias depois, dirigidos por dois agentes da companhia funerária que havíamos tratado, eu e o então auxiliar contratado Maurício Fernandes - que posteriormente entrou firme no negócio de hotéis, e continua sempre um bom amigo - dirigimo-nos para o cemitério de Forest Law: cenário do famoso romance The Loved One, de Evelyn Waugh; cemitério onde se ouve música piegas sair de todos os lados e que, no meu tempo, mantinha cartazes de publicidade nas ruas de Los Angeles com os seguintes dizeres: "Sleep under the stars..." ("Durma sob as estrelas"). 

Uma vez chegados, um dos agentes acionou um mecanismo que fez o caixão sair automaticamente do coche, já em posição de ser retirado. E assim o levamos nós, com Maurício Fernandes e eu nas alças de trás, até a cova que havíamos adquirido para o nosso bom paraibano. Mas de uma coisa não sabia eu: que com essa mania de disfarçar a morte que têm os americanos (maquilar os defuntos, etc.), existe também o curioso costume de tapar o buraco da cova, até a hora da descida do caixão, com um tapetinho de um material verde parecendo chenile - o que a integra na relva circundante. 

E foi exatamente onde eu pisei e desapareci, deixando o caixão sobre mim, por um momento, em posição bastante precária, devido ao desequilíbrio causado pela minha queda. Aí veio todo mundo me ajudar a sair da cova, mas eu, apesar de um pouco arranhado nas pernas, ao dar com a cara entre aflita e irônica de Maurício Fernandes, a me estender a mão, desabei numa tal gargalhada que foi uma luta para me tirarem dali. Dobrava-me de tanto rir. Meu riso contagiou-o, e nós não podíamos mais olhar um para o outro. Ríamos, ríamos, e foi rindo assim, em frouxos alternados, que demos sepultura ao nosso pobre patrício. E não sem muitos olhares de censura dos dois agentes funerários, absolutamente imperturbáveis no exercício do seu piedoso dever.



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FVM (17/03): As procelárias


As procelárias

De minha velha torre eu acompanho cada ano as aves que fogem dos climas atrozes
Lentas aves cuja multidão de asas batendo deixa a tempestade boiar sobre os verdes oceanos dos trópicos
E cujos corpos negros ocultam dias e dias o sol e à noite aprofundam a treva no frêmito profundo da sua passagem.
Da minha velha torre com que eu já me confundi ao Tempo e de quem sou a longínqua luz que os timoneiros vêem palpitando
E cujas escadas suspensas subi muita vez pensando atingir o céu descoberto em cima
Da minha velha torre onde já vi o vácuo dos tufões e das calmarias repousarem na sua sucessão eterna
Eu sigo cada inverno essas estranhas peregrinas fartas em cujas garras pendentes parecem se suspender catástrofes
Eu, a quem foi dada a suprema liberdade da visão incessante dos horizontes nas auroras e nas tardes
A quem foi dada a significação suprema das correntes invisíveis e da inconstância dos ventos e a quem
Foi dada a palavra luminosa só ela capaz de dirigir o movimento dos portos do mundo
Eu durante eras nada compreendi dessas dolorosas fugitivas mas em cuja imutável rotina sentia a fatalidade de alguma missão a cumprir...
"Às vezes sonhava que elas eram escravas de Deus prisioneiras de um misterioso plano cujo movimento fizesse girar a terra
Outras, que eram anjos tombados, para quem não bastasse o inferno e cujo castigo fosse a eterna imagem proibida do céu no espelho das águas
E sobre que elas de quando em quando mergulhassem, não para se alimentarem de peixes, mas para conseguirem as nuvens e as estrelas
E outras, que eram almas vagabundas, irmandade pródiga dos campos santos, sequiosas de um espaço em renovamento, que sei mais...
Mas agora, talvez por tê-las visto tão de perto que cheguei a lhes sentir a rigidez da carne
Talvez porque ouvi um grito partir da sua massa escura e julguei reconhecer cheio de horror a própria voz que trago na vida
Eu sei quem elas são e por isso canto quando lhes sinto o palpitar das asas que me chega mais cedo porque a minha velha torre é alta e tudo sabe.
Da minha velha torre eu direi, nessa linguagem que aprendi no silêncio e na emoção das fontes da vida
Nessa linguagem que se foi dada a muito poucos é porque só deve ser escutada por pouquíssimos
Eu direi, com a tristeza de me saber o mais fraco e o mais desolado e de me sentir gritando fora de mim por esse mundo contra o que nada posso:
Elas são os Destinos dos homens - sempre que um homem clama há um homem que escuta
E é como se em todo o clamor houvesse um apelo de paz e em toda a escuta uma necessidade de amargura
Nessa ordem de almas caminhando das dilacerações para os grandes vazios íntimos
As procelárias são como as imagens dos Destinos trazendo e fugindo as tempestades mas trazendo e fugindo
E deixando em cada ser o que tirou de outros e arribando continuamente nos ciclos...

É por isso que eu acompanho cada ano as procelárias que voltam dos climas atrozes
Na esperança de que ouça um dia o mesmo grito que ouvi e em que julguei reconhecer minha fala
Para que eu possa mostrar ao meu miserável pássaro, satélite da minha passada descrença e impostura


A grande procelária branca que vive agora em mim e cujas asas enormes se estendem por todos os horizontes
E que olhando o céu noturno canta com voz de rouxinol baladas perdidas de comoção e de ternura
Os belos seios embebidos no mar que se alimenta deles e que cresce,
cresce, cresce, pelo meu sexo, pelo meu peito, pelos meus olhos…



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FVM (16/03): Documentário "Vinícius" (Parte 3)




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FVM (16/03): Vinícius, Toquinho, Tom e Miúcha (IV)




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FVM (16/03): A letra A: palavra por palavra (IV)


A letra A: palavra por palavra (IV)


      Abismo: Havia, nos fundos do externato, um barranco perpendicular que caía do morro. Depois do recreio, alguns meninos, eu entre eles, ficavam de baixo a mirá-lo, medindo-lhe as possibilidades. 
      Era um tremendo desafio ao nosso espírito de aventura, pois despencava vertical de uma altura de uns trinta metros, e tudo o que tinha como ponto de apoio eram alguns degraus naturais da escavação e uns poucos arbustos e raízes que o corte deixara a nu. Nós ficávamos debaixo a observá-lo com olhos de alpinista, a medir-lhe a tentação e o perigo: um pequeno grupo de garotos de cáqui que já tinham lido Júlio Verne. E saímos dali a nos fazer apostas - sobe, não sobe: como se da coragem de tentar ou não a escalada dependesse toda a nossa futura dignidade de homens. 
      Uma tarde, depois de um bate-bola, partimos para lá. O barranco parecia me olhar, na luz do entardecer, e eu, a defrontá-lo, parecia ouvir-lhe a voz cavilosa que me desafiava: 
      - Vem se você é homem! 
      E súbito eu parti e pus-me a galgá-lo com raiva, as mãos fincadas na terra como garras, os pés vencendo o barro mole à força de escorregar e tentar novamente. Vários garotos me seguiram, que desistiram logo, à exceção de um que me acompanhava de perto. Quando consegui apoiar-me a um troço de raiz e olhei para baixo, vi que tinha subido uns bons dez metros. Vi também, no fim da perpendicular, o rosto impassível de meu amigo A.V.P., que um segundo antes tentara me dissuadir da aventura em nome do bom senso. Depois, de repente, o garoto que me seguia largou presa e escorregou barranco abaixo - mas sem se machucar, pois até o estágio onde nos encontrávamos o aclive não era arriscado. Respirei fundo ao vê-lo que se sacudia do barro que lhe imundava o uniforme, e logo a seguir partiu correndo. E foi aí que eu cometi a temeridade. Sim, sozinho na escalada, senti-me um vencedor. Pensei que era mais homem que os demais, que a mim estava reservado um destino maior. E olhando para cima, recomecei a subida. 
      Foi terrível, porque, a partir dali, a ribanceira descia a pique, e eu, mal dado o passo inicial, senti pela primeira vez a sensação do abismo embaixo, a sucção que a força de gravidade parecia exercer sobre meu corpo seguro apenas pelos pés e pelas mãos a pedaços precários de raízes e tufos de arbustos nascidos na encosta. Parar e descer pareceu-me impossível. Logo acima, uma raiz maior, como negra cariátide, protuberava um meio metro do barranco. Fazendo um desesperado esforço, consegui içar-me até ela e cavalgá-la, de costas para o abismo: um bem pequeno abismo, é certo, mas não menos assassino, pois a essa altura ele já adquirira para mim uma conotação até então desconhecida, de vertigem e perigo mortal. 
      A noite caía rapidamente, e as grandes árvores do morro começaram a criar um nicho de trevas, ali naquele desvão. Olhei para cima: deviam faltar ainda uns dez metros para alcançar o platô do morro - e só então vi que não podia fazer mais nada. Depois, cautelosamente, olhei para baixo: não havia mais ninguém. Até A.V.P., o amigo, abandonara-me ao perigo em que eu me encontrava. Tive vontade de chorar. Meu coração pôs-se a bater mais forte, sacudido pelo medo que me acometia mais e mais. Eu era, montado naquela raiz, um pequeno cavaleiro do abismo, sem nada em cima a que me soerguer, sem nada embaixo para me sustentar, senão, depois da queda, o chão que eu já mal distinguia, pois uma boca de treva se fora formando a meus pés, treda e como que à espera de que eu caísse para me deglutir. 
      Alguém já experimentou o sentimento físico da solidão? O sentimento de se saber irremediavelmente só, como deve ter sentido o poeta Hart Crane depois de jogar-se ao mar, de noite, e ver seu navio ir embora num feixe de luzes que se foram perdendo pouco a pouco no oceano? Ou como Guillaumet, quando seu pequeno avião caiu nos Andes, no grande deserto eriçado de picos, como catedrais de neve, e todo rasgado em gargantas indevassáveis? 
      Eu experimentei - um menino de apenas 13 anos - esse sentimento quando a noite veio e tudo o que eu tinha para me apoiar era um negro paredão de terra e a sela de uma velha raiz protuberante - e vinte metros de nada embaixo. Uma bem mesquinha solidão perto da desses dois ases da poesia e da aviação: mas para mim, adolescente, era a primeira; e eu não sabia ainda o que eles sabiam, que fez ao poeta escolher a morte no mar, em plena noite, e ao aviador andar três dias, gelado e faminto, na busca desesperada de um cimo bem visível onde lhe pudessem descobrir o corpo, a fim de que sua mulher não perdesse o seu seguro de vida. Neste, o auge do instinto de vida; no outro, o auge do instinto de morte. 
      Foi quando ouvi a voz de A.V.P. e a de um irmão secular do colégio, cujo nome não lembro mais. O amigo me concitava friamente a descer. 
      - Mas eu não vou poder... 
      - Vai sim. Se você subiu, pode descer. 
      Pensei que tudo era melhor que aquele sentimento experimentado: não o medo da morte, mas o terrível cara a cara com a solidão. Era melhor cair, quebrar-me todo, morrer, que senti-lo de novo. Aquelas vozes embaixo eram tudo de que eu precisava para voltar a ser eu mesmo, um menino entre os outros, um menino com pai, mãe, irmãos, e amigos; um menino que jogava no ataque e já revelava um individualismo feroz em seu futebol, driblando muito e querendo chegar sozinho à meta. 
      E desci. Desci lenta, cautelosamente, experimentando bem com o pé cada reentrância onde pisava, e nunca largando o apoio de cima senão ao me sentir seguro de não cair. Desci às cegas mas desci, sabendo que cada segundo ganho ao abismo era uma possibilidade cada vez maior de sobrevivência. E, na última etapa, quando risonho e esfogueado me voltei, a primeira coisa que vi foi a mão de A.V.P. estendida para mim, e seu rosto tenso que se relaxava ao contato de minha mão. A mão do amigo. Do amigo cuja vida ele não tivera dúvida em arriscar, na certeza de que nada no mundo é feito sem esperança.


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FVM (16/03): Como dizia o poeta



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FVM (16/03): OS QUATRO ELEMENTOS: IV - A ÁGUA


OS QUATRO ELEMENTOS
IV - A ÁGUA


A água banha a Amada com tão claros
Ruídos, morna de banhar a Amada
Que eu, todo ouvidos, ponho-me a sonhar
Os sons como se foram luz vibrada.

Mas são tais os cochichos e descaros
Que, por seu doce peso deslocada
Diz-lhe a água, que eu friamente encaro
Os fatos, e disponho-me à emboscada.

E aguardo a Amada. Quando sai, obrigo-a
A contar-me o que houve entre ela e a água:
- Ela que me confesse! Ela que diga!

E assim arrasto-a à câmara contígua
Confusa de pensar, na sua mágoa
Que não sei como a água é minha amiga.


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FVM (16/03): Calendário



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FVM (15/03): Documentário "Vinícius" (Parte 2)




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FVM (15/03): Vinícius, Toquinho, Tom e Miúcha (III)




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FVM (15/03): A letra A: palavra por palavra (III)


A letra A: palavra por palavra (III)


      Abajur: Foi, talvez a primeira palavra francesa de que tive conhecimento, e ela me traz recordações tão lindas da Ilha do Governador que, ainda agora, a escrever estas memórias, tenho os olhos rasos d'água. 
      Nossa casa, com duas janelas de frente, ficava à beira-mar, em Cocotá, a meio quilômetro da grande amendoeira onde o bondinho da ilha rangia na curva, em demanda de Freguesia. Eu tinha por aí uns nove anos, e era a coisa mais pulante, grimpante e nadante que já existiu. Nunca menino algum aceitou menos as vias normais de acesso. Sempre em carreira, desviava compulsivamente minha velocidade para as sebes, que varava, os muros, que escalava, e os fossos, que transpunha. Vivia aos saltos, de baixo para cima, de cima para baixo. Bastava ver um acidente qualquer de terreno, uma cerca, uma catraia a seco, um valado, e eu, dando tudo, precipitava-me a mil e - zumpt! - saltava-os feito um doido dançarino. Era como um Nijinski infante a dar entrechats cada vez mais altos e elásticos, numa ânsia de alcançar não sei o quê, quem sabe o infinito, quem sabe Deus... 
      E caía exato 
      Como cai um gato. 
      …para recomeçar uma correria nova, fosse para a casa de Mário e Quincas, meus amiguinhos pobres, fosse para o pontão das barcas da Cantareira, de onde Augusto mergulhava. 
      Augusto era o meu deus. Irmão mais velho de Mário, Quincas e Marina, minha namoradinha secreta, Augusto representava para mim o herói total configurado no mergulhador. Eu admirava, da ponte de Cocotá, a agilidade com que ele, numa escalada de macaco, subia as estacas mais altas, de onde dava os saltos de anjo mais lindos, penetrando o mar como uma faca em ponta, sem qualquer espadana, e com um marulho apenas perceptível. E eu ficava sempre numa aflição, de não vê-lo nunca mais voltar à tona. Augusto demorava dois minutos folgados a vasculhar o fundo, do qual trazia sempre qualquer coisa de belo ou de útil: caranguejo, ferro-velho, estrela-do-mar, ou o que fosse, que me atirava de baixo, em saltos que lhe faziam soerguer meio corpo da superfície, como um golfinho brincalhão. Nós andávamos os quatro sempre de súcia, e a mim me espantava a naturalidade em que seus irmãos o tinham, sem nenhuma mostra de admiração. Foi ele que me ensinou a mergulhar e mover-me no fundo do mar, rente ao lodo; e mais tarde a pescar a dinamite: uma barbaridade que, na época, eu achava o máximo. Augusto colocava-se à proa do barco, nós nos agachávamos na popa como podíamos, ele acendia o pavio, esperava um momento, soprando-o forte, e, de repente, no segundo antes, lançava a banana de dinamite ao mar. A explosão, gorda e cava, levantava, ato contínuo, um cogumelo espumarento, e logo os peixes mortos começavam a subir. Mas os que nos interessavam eram os que ficavam atordoados, atrás dos quais mergulhávamos rápido. Levávamos, para essas ocasiões, pequenos sacos, e, uma vez cheios, metíamos o peixe dentro da camisa da roupa de banho - como se usava na época - e voltávamos semi-asfixiados à tona. Nunca mais pude esquecer o contato frio e viscoso dos peixes contra a minha pele. 

                                                                                 * 

      À tarde, na sala de visitas, como então se dizia, onde tudo o que havia de luxo era o belo jarrão chinês, trazido por meu bisavô de uma de suas andanças, minha mãe sentava-se ao piano e ficava tocando horas perdidas. 
      Nós ficávamos, minha irmã mais velha e eu, sentados no chão, geralmente a armar colagens ou a folhear o Tico-Tico, o Eu sei tudo e o Tesouro da juventude, nossa primeira leitura infantil. Os sons vinham, encantatórios, mergulhar ainda mais nossas vidas naquele clima doméstico, como se nós fôssemos a única família do mundo. E a verdade é que éramos a única família do mundo, unidos pelos mesmos horários e pelos mesmos desígnios de poupança, pois meu pai, por uns maus negócios que fizera, andava mal de vida. 
      Minha mãe, ainda tão moça, aflorava as teclas, o olhar perdido longe. Ela tinha sido aluna de francês de meu pai, na velha chácara da Gávea, e se casara aos 15 anos com esse homem bem mais velho, que se apaixonara perdidamente por ela, e que, bom poeta, vivia a lhe fazer sonetos, odes, rimancetes, baladas, elegias - tudo enfim que constitui e consolida a arte de fazer versos. 
      Eu a achava linda, toda rechonchuda, os longos cabelos soltos e os olhos de um azul tão vivo que, às vezes, parecia perturbar-lhe a visão, como se ela estivesse enxergando mais do que devia. Posso ouvir ainda os primeiros tangos que ela tocava, dos quais "La cumparsita" era o mais vibrante e "Caminito" o mais terno... 
      E de repente foi o fox-trot. Que alucinação! Meu pai chegava com novas partituras, que minha mãe tirava laboriosamente ao piano: 
      Hindustão 
      Paraíso das mulheres divinais 
      Ó Hindustão 
      Quem te ama não te esquece nunca mais... 
      Eram os primeiros doces tentáculos do polvo tateando à toa num mundo despreocupado e sem malícia. Nós não sabíamos de nada ainda. Sabíamos que éramos uma família que morava numa ilha pertencente à capital de um país que não sabíamos tampouco subdesenvolvido. Sabíamos vagamente que houvera uma guerra mundial e um terremoto no Japão. E súbito, aquele ritmo diferente e cheio de langor, a insinuar conivências pecaminosas na penumbra... 
      Abajur 
      Com tua branda luz de cor bleu 
      Tu, só tu 
      Tu me inspiras não sei por quê... 
      Minha irmã e eu dançávamos, dois passos para lá, e dois para cá, como mandava o figurino. E os sons me envolviam dessa tristeza que nunca mais me abandonou, que tem a ver com alguma coisa sempre buscada e nunca totalmente possuída: não sei se o amor, não sei se a vida, não sei se a paz. Saudade, certo, que me fez poeta e compositor, e que, apesar de todas as flores e amores que a vida me deu, só me fez crescer em melancolia e solidão.


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