FVM (09/03): O poeta e a lua


O poeta e a lua

Em meio a um cristal de ecos 
O poeta vai pela rua 
Seus olhos verdes de éter 
Abrem cavernas na lua. 
A lua volta de flanco 
Eriçada de luxúria 
O poeta, aloucado e branco 
Palpa as nádegas da lua. 
Entre as esferas nitentes 
Tremeluzem pêlos fulvos 
O poeta, de olhar dormente 
Entreabre o pente da lua. 
Em frouxos de luz e água 
Palpita a ferida crua 
O poeta todo se lava 
De palidez e doçura. 
Ardente e desesperada 
A lua vira em decúbito 
A vinda lenta do espasmo 
Aguça as pontas da lua. 
O poeta afaga-lhe os braços 
E o ventre que se menstrua 
A lua se curva em arco 
Num delírio de volúpia. 
O gozo aumenta de súbito 
Em frêmitos que perduram 
A lua vira o outro quarto 
E fica de frente, nua. 
O orgasmo desce do espaço 
Desfeito em estrelas e nuvens 
Nos ventos do mar perspassa 
Um salso cheiro de lua 
E a lua, no êxtase, cresce 
Se dilata e alteia e estua 
O poeta se deixa em prece 
Ante a beleza da lua. 
Depois a lua adormece 
E míngua e se apazigua... 
O poeta desaparece 
Envolto em cantos e plumas 
Enquanto a noite enlouquece 
No seu claustro de ciúmes.


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